Geração “Pular Anúncio em 5s”

30/10/2014

ponteiros

Não é fácil, mas aceito o desafio: eu tenho poucos segundos para tentar te convencer a ler as “n” palavras deste texto.  Para não assustá-lo com a divulgação de um número alto, melhor dizer que são apenas 13 parágrafos. É rápido, prometo que não vai doer.

Nos próximos 3 minutos de leitura, a missão de fazer você não olhar para o celular para ver se chegou nova mensagem do whatsapp torna tudo ainda mais complicado. 100% de atenção por meros três minutos é uma vitória não só para publicitários, como para qualquer ser humano, especialmente com a própria família. E lá se foi um tempo precioso tentando te sensibilizar para ler até o final.

Geneticamente anciosos. Somos filhos ou netos dos baby-boomers do pós Segunda Guerra, e sei lá qual explicação astrológica possamos dar, as Gerações X, Y e Z têm tudo, menos paciência. Se já estava claro antes, durante as eleições foi ratificado e não precisa de referendo, plebiscito e nem qualquer tipo de consulta da opinião pública para falar da nossa falta de paciência.

A quantidade estarrecedora de compartilhamentos de notícias falsas foi chocante. Seja lá qual a bandeira política hasteada, deveria haver, além de uma pesquisa mínima para verificar a credibilidade do site, uma paciência mínima para ler a matéria por completo e não apenas o título.

Outra contestação foi os inúmeros casos de divulgação de notícias de meses, até anos atrás, sem ao menos ler a data de quando aquilo foi publicado. Tais compartilhamentos, de sites mais conhecidos, são feitas só porque o contexto poderia polemizar com os dias atuais. Novamente só leram o título.

A falta de paciência de alguns causa uma explosão de raiva que extrapola limites, tanto que já é possível prever catástrofes. As 20h010, poucos minutos após a divulgação do resultado parcial (90%) das eleições, escrevi no Facebook para as pessoas refletirem sobre possíveis ataques contra nordestinos. E olha que não precisa ser nenhum Pai de Santo, era óbvio que isso iria acontecer.

Bingo. Uma enxurrada de mensagens discriminatórias contra nordestinos, pobres e pessoas assistidas pelo Governo Federal foi vista na internet. Pessoas que no cotidiano podem até não demonstrar tais reações xenófobas, mas que diante da provocação causada pela derrota incendiaram a internet com aquilo que estava reprimido, esperando o momento para descarregar.

Se foi um descarrego intempestivo, sinal claro de que tal preconceito estava o núcleo desse indivíduo. Isso é grave e precisa ser resolvido com terapia. Após tantos ataques em poucos minutos, dizer “Nordeste, seu lindo” é tentar tratar com um band-aid um ferimento causado por bazuca. A ferida na sociedade brasileira foi exposta, e ela é hemorrágica, cada dia sangra mais e há mais ódio.

A tendência é só piorar porque solidificamos com vigas enormes o que realmente somos: a Geração “Pular Anúncio em 5s”. Ninguém tem mais paciência com nada e com ninguém. Criamos um botão em todos os teclados sociais que batizei de “Acelerador da Vida”. Assistir uma propaganda de 30 segundos é tortura, então o Youtube e afins, com medo de perder seus preciosos espectadores, permitiu pular para evitar sofrimentos alheios.

A situação da nossa sociedade é tão grave que as agências de publicidade atualmente têm a missão de te fisgar em 5 segundos para você não apertar o maldito Acelerador da Vida.  E esse botão está em todos os lugares: se o seu prédio tem dois elevadores, você chama um elevador e não espera nem 2 segundos para chamar o outro. Quando o sinal verde é mostrado e o carro da frente não anda em 5 segundos, a sinfonia de buzina é tocada. E quando o semáforo fecha, todos já correm para pegar o celular para ver se chegou alguma mensagem.

Nem vou me aprofundar muito citando os mecanismos para furar todos os tipos filas, seja desrespeitando quem está à frente ou seja pagando para ser Vip de balada, Vip de Estacionamentos, Vip de Cia. Aérea para entrar primeiro no avião (e todos voarão juntos, catzo!!), Vip de pedágio, etc. O tempo, cada dia, custa mais. E agora estão mensurando (e cobrando!) o valor dos segundos, algo que você nunca pensou… por falta de tempo.

Somos seres apressados, minha dúvida é se tal pressa é sede de viver ou é vontade acelerar tudo para morrer mais rápido com doenças criadas nas últimas décadas em virtude desse estilo de vida. Investe-se fortunas para criar e conviver com necessidades que eram completamente desnecessárias há poucos anos.

Se a história da Terra de 4.5 bilhões de anos fosse resumida à um dia, a humanidade seria contada em seis minutos e nós, da Geração “Pular Anúncio”, os grandes responsáveis por destruir todo o ecossistema, causando danos irreversíveis à Terra, faríamos isso em exatos 5 segundos. Os mesmos 5 segundos que te torturam diariamente.

Marcio Vieira

PS: foram 790 palavras.


João Grilo também vota

14/10/2014

joaogrilo

A paciência, ela já foi embora faz tempo. E a próxima etapa é perder o respeito, e é exatamente isso que está acontecendo nos últimos meses por causa das eleições, principalmente porque o peso do voto é igual, independe da classe social, origem, cor… o que infelizmente causa uma ira em muita gente.

O Fla-Flu eleitoral continua, e ambos os lados estão munidos da mais poderosa arma: a tecnologia. Esta que permite eu, você e todo mundo escrever, ler, ouvir, de praticamente todos os cantos do mundo.

Alguns lugares continuam inatingíveis. É que os programas assistenciais iniciaram há pouco tempo, e famílias que passaram décadas sem eletricidade, só agora conseguiram crédito para financiar a primeira geladeira e a primeira televisão. O computador, para poder conversar conosco e discutirmos sobre o “Bolsa-Esmola” ou o “Bolsa-Vagabundo”, a maioria ainda não têm.

– Mas aonde está a meritocracia?, muitos me questionam, ao mesmo tempo que abrem a geladeira duplex de alumínio escovado para pegar uma Stella Artois trincando de gelada. Após degustar a cerveja belga, abrem algum dispositivo, o Macbook, o Ipad, o Iphone ou qualquer outro objeto de desejo com o logotipo da maça mordida para publicar aberrações, como esta:

nordestinos

Qual a necessidade de tamanho preconceito? Qual a dificuldade em ler sobre o quanto o nordeste se desenvolveu nos últimos dez anos? Deve ser muito sacrificante tentar se informar sobre como era e como está a vida do nordestino, sobre as escolas técnicas que foram criadas na região, que permitiram o nordestino em não precisar vir para “Sumpaulo” tentar a vida.

O incrível é que são pessoas que vão para Europa e Estados Unidos com frequência, e em algum momento dentro dessas viagens podem ter sofrido algum tipo de desrespeito e preconceito por ser o latino, mas mesmo assim descontam sua “superioridade” contra os nordestinos, eternamente prejulgados como um bando de pessoas como Chicó e João Grilo, retirantes motorizados por jegues.

É preciso se informar antes de rechear de fezes a sua coxinha. Seu ódio não me convence! Eu fico muito feliz ao saber que João Grilo também vota e, ao menos nisso, somos iguais.

O acesso as redes sociais permite uma burguesia desinformada ofender milhões de pessoas. O perigoso é que, quanto mais inverdades são ditas exaustivamente por mais e mais pessoas, outros começam a acreditar. Pergunto ao paulista doente:  é ciúme por ser preterido pelas necessidades dos mais pobres, toda essa sua raiva?

Se o seu voto é decidido pelas cretinices publicadas e pelo repúdio aos nordestinos, ou pelo repúdio à programas assistenciais, seja feliz dentro de sua redoma de vidros blindados, e depois me conte como foi o êxtase de comprar uma Prada em Miami. Certamente você gozou horrores.

Enquanto isso, tem gente que só quer dignidade. O Bolsa Família fomentou a microeconomia (algo que você nunca precisou conhecer), permitindo que uma pequena quantia circulasse nas camadas mais pobres da população. O resultado disso foi que o mercadinho do Zé começou a vender mais Dolly, daí o Zé comprou parcelado nas Casas Bahia um freezer maior e contratou um entregador, que no começo ia de bicicleta, mas agora ele conseguiu financiar uma Honda Biz, e não está nem aí se são 70 meses para pagar.

É impossível uma família viver unicamente com Bolsa Família. Já que existe uma preguiça para pesquisar sobre os assistidos dos programas, recomendo muito a ler qualquer artigo ou livro de Muhammad Yunus, vencedor Nobel de Economia, que fala justamente sobre o Microcrédito e os efeitos dele em toda economia, atingindo inclusive você.

Agora, se o seu voto é influenciado pela corrupção e má gestão, o ideal é separar o fanatismo eleitoral que causa cegueira para refletir sobre a falta de credibilidade dos candidatos, já que não há  transparência em nenhum dos dois lados sobreviventes, afinal, Privataria Tucana, Mensalão Mineiro, Metrô Paulista, Helicóptero do Pó não são dignos de confiança.

Ambos não me representam. Essa briga ideológica na internet é deprimente, já que as atuais alianças políticas de ambos os partidos provam que não há, de nenhum lado, coerência. No fundo, a luta não é para nos representar: a disputa sempre será pelo poder.

Sobre os programas assistenciais, iniciado com FHC e muito melhorado com Lula, irão continuar porque é um dinheiro que não prejudica em nada a qualidade do asfalto para sua SUV blindada, nem fará você se misturar com as pessoas que moram da ponte pra lá, ou pessoas do lado de lá do cordão do trio elétrico.

Sua pulserinha Vip “Dazelite”, seja azul ou vermelha, está assegurada, e você continuará com sua cerveja importada. A falta de água não parece preocupação para vocês, afinal, existe desodorante que segura a onda por 48horas! Meu único receio é faltar Dolly.

Marcio Vieira

 


O Gigante e o bastardo

06/10/2014

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Um dia após as eleições, as manifestações de Junho de 2013 me demonstraram apenas uma coisa: formamos uma sociedade alienada e preguiçosa, em que aqueles que têm a possibilidade de ajudar a transformar o país, limitam-se à apenas rechear o mundo cibernético com mais baboseiras.

Ano passado fui em 2 manifestações. A primeira tomei gás de pimenta na cara e, na segunda, aquela que tomou proporções gigantescas, virou uma micareta com um bando de pessoas vagando por horas pela cidade, e pararam na frente do Palácio do Governo para cantar o hino e ir embora superficialmente contente. Perdeu o sentido, a coxinhização do protesto, o que me aborreceu profundamente.

Foi provado que o brasileiro não sabe protestar e, pior ainda, cansa rápido e esquece. Na Copa do Mundo, 99% dos que manifestaram um ano antes cantaram o hino à plenos pulmões, dando razão à corrupção e o superfaturamento de obras, muitas das quais persistem inacabadas.

O atual governo, até hoje, não apresentou os resultados financeiros obtidos no famigerado evento, e este boleto vai chegar para todos nós. O mesmo que aconteceu com países mal preparados para o tamanho do rojão, como Portugal, Grécia, Africa do Sul, que sediaram eventos esportivos populistas e só depois perceberam que o buraco criado gerou enorme crise.

O Gigante que tinha acordado, tão aclamado e reverenciado nas redes sociais, não passa de um bobalhão. Somos bobos, ignorantes e, pior ainda, arrogantes por supervalorizarmos um ínfimo esforço ilusório achando que em 20 dias de manifestações poderia mudar alguma coisa no país.

Não, meu caro. O esforço deve ser constante. Antes de tudo, é necessário mudar o conceito de patriotismo criado aqui. Do jeito que demonstra, o Brasil é e sempre será desigual, desumano e desunido, jogando no lixo a grande oportunidade que teve para discutir política em alto nível.

Enquanto isso, do outro lado do mundo, um filho bastardo prova que é possível enfrentar o governo. Hong Kong luta contra um pai adotivo desde 1998, este que nunca aceitou a liberdade do filho: O autoritário governo chinês quer controlar as eleições em Hong Kong com apenas os candidatos escolhidos pelo Partido Comunista.

Os estudantes de Hong Kong, então, ocuparam a cidade, assim como os brasileiros fizeram ano passado. A grande diferença é a clareza dos objetivos. Enquanto Hong Kong luta pela manutenção da liberdade e democracia, o Brasileiro que se manifestou estava mais preocupado com a selfie no meio da multidão.

Não, nem o Gigante, nem ninguém, acordou. Junho de 2013 foi apenas uma revolta anárquica (longe, bem longe das palavras de Bakunin). Foi a revolta dos “Saco-cheio”, dos indignados, de um povo alienado que não sabe o que realmente quer na vida porque o Estado não educou para pensar.

Então o brasileiro incorporou o discurso ufanista de Galvão Bueno e sua trupe global, e acreditamos que somos fodas, afinal, temos 5 estrelas no futebol e somos os vencedores do desafio de verão no biribol, ou qualquer evento transmitido direto das areias de Copacabana.

A realidade é que estamos bem longe de sermos fodas. Tomamos diariamente 7 a 1 na educação de vizinhos, como Chile, outro 7 a 1 em crescimento industrial do México. Tomamos 7 a 1 em desenvolvimento humano da Colômbia. Isso apenas para ficar no nosso continente, porque se atravessarmos os grandes mares, a humilhação será maior.

Tomamos goleadas diariamente, perdemos competitividade internacional, despencamos no ranking de universidades, e ficamos calados. Calados porque a geração Y brasileira não sofreu com ditadura, não sofreu com inflação ou outros problemas de gerações passadas, então se acomodou quando o assunto é questionar e pressionar os governantes. Vivemos num país em que a educação naufragou nos últimos 20 anos.

Nenhum candidato, nos debates, apresentou projetos realmente convincentes para melhorar a educação, que é o pilar central para qualquer desenvolvimento socioeconômico. É com educação que se gera empregos, é com educação que diminui a criminalidade, etc. É com educação que se gera riquezas, como faz a Coreia do Sul, já citada neste blog.

É vexatória a representatividade política oferecida, porém, é completamente proporcional ao nosso anseio por mudança: que é zero.

Enquanto isso, o filho bastardo da China nos prova que não precisa ser gigante para lutar. Hong Kong, um pequeno território, está peitando um Dragão Chinês, apresentando ideias claras, objetivas que, principalmente, unem todas as crenças políticas dos oprimidos.

Aqui ninguém percebe que esse Fla-Flu político de vermelhos e azuis estagnou o país, e o ego não permite enxergar que ficamos para trás.

Marcio Vieira


O Rolê, parte 2: O Estado e seus Zumbis

15/01/2014

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No texto anterior apresentei minha opinião sobre os reflexos que um consumo doentio pode causar em toda sociedade, principalmente nas classes mais pobres. Tudo está interligado, o que você gosta, consome pode sim interferir na vida de pessoas que você mal conhece.

Agora, queria falar sobre o movimento do Rolezinho, propriamente dito.

A primeira pergunta: o que ele é? É uma manifestação? É uma baderna? É um tumulto? É uma revolução? É um arrastão? É um bando em crime organizado? É uma revolta social?

Cada um tem sua opinião, mas para mim, sinceramente, o Rolezinho é algo totalmente desnecessário.

Sim, juntar 2 mil pessoas para entrar em qualquer estabelecimento no mundo causará confusão na certa.  Qual o motivo de entrar 2 mil pessoas ao mesmo tempo num local que não foi projetado para esse fluxo de pessoas? É necessário? De repente, 2 mil pessoas têm a mesma vontade de comprar um óculos? De repente, 2 mil pessoas têm a mesma vontade de comprar um boné novo?  Que coincidência!

A estrutura de todo shopping center não foi feita para receber 2, 4, 5 mil pessoas em poucos minutos. As portas não comportam, os corredores das lojas não foram projetados para essa quantidade de pessoas ao mesmo tempo. As lojas não suportam tamanho fluxo de pessoas, não há vendedores, não há espaço, não há estoque para tantos consumidores, então, pra que fazer esse tipo de “protesto” sem sentido?

Por acaso, quando estão sozinhos, algum integrante sofreu discriminação em alguma loja quando tentou comprar algum bem? Algum “rolezeiro” sofreu preconceito por não ser atendido? Se sim, fez a denúncia contra o Shopping? Fez a denúncia contra a Loja? Escreveu no Reclame Aqui? Ligou para a Polícia?

Então, qual o motivo de querer entrar todos juntos num local particular onde o escoamento de pessoas não suporta?  Para mim, com todo respeito, é dar margem para problemas. Precisa disso?

Se 2 mil pessoas resolverem entrar no McDonalds para pedir casquinha de chocolate, vai dar problema. Se 2 mil pessoas resolverem entrar na Saraiva querendo algum livro, vai dar problema. Se 2 mil pessoas resolverem fazer qualquer coisa juntos, certamente, no mínimo, causará filas.

Vocês são consumidores, têm livre acesso, têm todo direito de se reunir, mas qual o verdadeiro propósito dessa forma de “passeio”? Causar stress aos funcionários do shopping? Causar stress aos atendentes das lojas?

Um dos melhores exercícios é praticar a empatia, ou seja, se colocar no lugar da outra pessoa.  Imagine você, vendedor da Loja X, de repente, em poucos instantes, você vê 10 pessoas à sua frente querendo ser atendido.  10 pessoas já será dificil atender.  Agora imagine que entrem 200 pessoas na sua loja ao mesmo tempo, o que você vai pensar? Como você vai reagir?

Enfim, o Rolezinho, para mim, é desnecessário, e só mostra o quanto a juventude está com valores sociais distorcidos e não sabe o significado das palavras Direito, Dever e Respeito. Não acho correto causar um stress à toa para depois se vitimizar.

Até mês passado, algum indivíduo que participa do Rolezinho foi, por exemplo, proibido de entrar no Iguatemi? Algum segurança proibiu a entrada? Possivelmente pode ter acontecido, mas o lugar para buscar retratação não é na porta causando o caos. Existe todo um sistema judiciário que tem a obrigação de atender qualquer indivíduo.

Para mim, provocar terceiros para que violem os Direitos Humanos não é a forma correta de discutir o tema da desigualdade social. Não é no shopping com 5 mil pessoas. É nas ruas, em local público.

Os Rolezeiros são vítimas de um sistema de educação pública que está falido, que trata o futuro com desrespeito, com aprovações automáticas, que não estimula o raciocínio, não estimula o questionamento, não estimula a cultura e, por isso, talvez eu esteja errado em questionar o movimento deles porque a origem do problema é muito mais profunda: eles, Rolezeiros, têm dificuldade para pensar porque não foram educados para isso.

E a culpa disso é totalmente do Estado, que acreditou que, mantendo jovens ignorantes seria a forma de controlar a sociedade.  Pelo contrário, manter jovens ignorantes só vão torna-los animais soltos, pequenos zumbis, mortos-vivos excluídos da sociedade que atormentam por atormentar, numa rebeldia desproporcional onde a causa do problema não é remediada, dando atenção apenas às consequências.

A culpa é do Estado, que acredita que a truculência policial é a forma de garantir a segurança. A culpa é do Estado, que remunera mal policiais, que capacita de forma errada quem tem a responsabilidade de trazer a calma e harmonia. A culpa é do Estado, que remunera mal professores, justo os que deveriam receber os maiores salários no mundo.

A culpa é do Estado ou a culpa é de quem dá um voto de confiança para tais representantes? É um círculo vicioso: O Estado investe na ignorância do povo e na obrigatoriedade do voto, o povo não entende, o povo não reclama, e uma massa de ignorância é intimida para as próximas eleições.

E como animais, o instinto desses jovens transborda: o atual deles é a raiva, uma raiva por sofrer preconceito, por não ter oportunidade, por ver um mundo desigual, por não ver esperança, expectativa e futuro, por acreditar que um Audi e um Rolex são objetos de inclusão social.

Não, Rolezeiros, a inclusão social não é com o carro importado ou um bolso cheio de garoupa. A inclusão se dá com educação. Antes de ir ao shopping protestar por querer consumir, proteste primeiro por uma educação mais digna, mais responsável com o futuro.

Aliás, esse é um protesto universal para todas as classes sociais abraçarem a causa. Só assim conseguiremos visualizar um futuro mais promissor.

Marcio Vieira


O Rolê e você

13/01/2014

vidaloka

Os Rolezinhos em São Paulo acontecendo, e pergunto: o que você tem a ver com isso? O que você tem a ver com os jovens da periferia que escutam funk ostentação e vivem no ritmo “vida loka”?

Você está muito dentro disso, meu caro.

Você que sonha com um carro melhor. Um apartamento melhor. Uma televisão melhor. Um celular melhor. Uma roupa melhor. Enfim, repeti propositadamente a palavra “melhor” para outra pergunta:  o que é melhor?

Melhor é o que te diferencia ou melhor é o que te satisfaz?

É isso que a sociedade de hoje, independentemente da classe social, não sabe mais distinguir. Cada indivíduo quer se diferenciar e, para isso, o inferno é o limite: economizar, comprar, parcelar, financiar, endividar, roubar, matar.

Tudo é motivado pelo ter/possuir, ao invés do ser.

Assim, a grande indústria é feliz ao domesticar o indivíduo por necessidades fictícias, lançando produtos que mexem no ego de cada pessoa, fazendo com que a felicidade dependa daquilo e, para pessoas vulneráveis, acarretando na mudança de comportamento do indivíduo mais fraco, que aceita tudo conforme tendências, conforme moda, conforme o que está na TV, conforme os formadores de opinião.

O desafio do Ser Humano e todo seu desenvolvimento é aceitar com naturalidade que sempre existirá um produto mais caro, uma roupa mais cara, um carro, uma casa maior, um celular mais caro, e não fazer disso uma frustração.

Porque se a frustração for nutrida, você vai perder o principal da vida: a consciência.

Mas você, pertencente das classes A e B, qual a sua responsabilidade sobre o Rolezinho da Classe C e D?

Meus caros A e B, você consome mostrando. Meus caros, você consome compartilhando nas redes sociais. Meus caros, você consome querendo se diferenciar, e a rapaziada do Rolezinho só quer ser igual à você porque esse consumo, pelo que se demonstra, parece ser bom. Meus caros, vocês são caros.

O seu carro com rodas de 19 polegadas deve ser bom. O seu celular iphone super plus é dá hora. O boné de 300 reais é bem louco. A bolsa Hermes de 40 mil reais é melhor. O relógio Jaeguer LeCoultre de 50 mil euros deve trazer felicidade. Sua Land Rover de 200 mil reais é sinônimo de sucesso.

Se você, A e B, consome e sorri, é porque é bom, assim eles pensam.

Você, A e B, é muito responsável pelo endividamento das classes menos favorecidas porque sua aparente felicidade cutuca uma ferida: a desigualdade.

E para acabar com a desigualdade, vale tudo: contrair dívidas, roubar, comprar produtos piratas. Está aí a justificativa para financiar em 36 meses uma televisão.  Financiar em 2 anos um celular. Financiar em 80 meses um carro novo.

O jovem da periferia quer esquecer o sofrimento, e é capaz de guardar 3 meses de salário para comprar uma corrente de ouro, que pode não resolver o sofrimento, mas ao menos será uma anestesia contra a falta de esperança por uma vida digna. O Vida Loka acredita que a felicidade é comprada, então ele faz isso em pequenas doses daquilo que o A e B consomem.

Se você, A e B, começar a refletir sobre suas próprias necessidades, certamente perceberá que seu Honda Civic 2009 está bom, você não precisa de um BMW. Seu Corsa 2004 está bom.  Que seu iphone 4 funciona, então está bom. Que você já tem 5 calças jeans, não precisa de mais outra. Você já gastou horrores para comprar o boné Von Dutch, que está mofando porque você sentiu a necessidade de ter um John John.

É por isso que existe Playstation custando 4 mil reais. É por isso que existe iphone custando 2 mil reais. Posicionamento de mercado para consumidores cegos que se endividam por causa de uma suposta felicidade que aquilo pode trazer.

Se você recusar, garanto que o produto vai abaixar de preço, e não existe nenhum produto no mundo que faça você Pertencer à determinado grupo social.  O Pertencimento deve ser com você mesmo, com sua consciência.

Use o velho! Respeite seus bens! Valorize seu dinheiro.  Fazer sobrar o dinheiro na conta corrente não significa que você deixou de ser feliz.

Se você fizer isso, A e B, eu te garanto que o mundo será mais seguro, porque haverão menos necessidades consumistas, haverá menos desejo de estar no topo. O mundo será mais feliz. O mundo será mais leve a ponto de não julgar mais as pessoas pelas aparências.

Se você, da A e B, controlar seus anseios de consumo por querer se diferenciar na sociedade, certamente a classe C não vai se endividar por bens não duráveis.  Quem sabe a C e D comece a investir o dinheiro da correntinha de ouro em cultura, estudo, viagem. Quem sabe, assim, a classe C e D priorize Ser, e não o atual Ter.

A sociedade de hoje concretou um pensamento que precisa ser alterado: o ter para ser. Um não depende do outro, e a recusa do consumo doentio e desnecessário é o caminho para um mundo mais justo, mais igual, menos violento, menos sofrido.

Quem sabe, no futuro, seja mais dificil identificar as pessoas, aliás, mais que isso, quem sabe as pessoas não tenham interesse em querer se diferenciar na sociedade, e vão achar a exclusividade em bens e serviços como algo bobo e irrelevante.

Quem sabe, no futuro, não tenha tanta desigualdade, mas para isso, você deve enxergar o seu poder de influência e reavaliar o que você está fazendo para integração social. Do contrário, mais carros blindados, mais grades, mais isolados vocês ficarão.

Quem sabe, no futuro, o Rolezinho seja misturado, todas as classes juntas e em harmonia, e não apenas um ato de rebelião às diferenças, mas para isso acontecer, você deve repensar nos seus atos, porque o reflexo de cada ato ecoa.

Marcio Vieira


Saia do automático

10/01/2014

cambioautomatico

Todo animal busca, por instinto, a facilidade. A lei do menos esforço, a fruta mais acessível para comer, o animal mais lento para caçar, a menor distância para percorrer, o trabalho mais fácil para realizar, o mais rápido para terminar, o menos desgastaste, enfim, o automático.

Conquistar pelos meios mais fáceis é digno, demonstra utilização da inteligência em otimizar o tempo. Mas será que o propósito da vida é mensurar, contabilizar, ou seja, terminar o dia sobrando tempo? Ao meu ver, o propósito é o “como aproveito o tempo”, visando a qualidade, e não quantidade.

Se eu parto de um princípio que somos seres em evolução constante, qual a vantagem de fazer o mais fácil? Conquistar o mais fácil é economizar tempo… e qualidade. Assim, aonde está a evolução?

Para evoluir é preciso mudar, e para realizar a transformação, entendo que há duas formas: a liberdade e o desconforto.

A liberdade serve para pensar e questionar o que está sendo feito em vida, para quem está vivendo, e qual é o modelo de vida que está seguindo. A liberdade de dizer “não”, ou “sim”, dependendo das circunstâncias, e estar ciente sobre os reflexos na sociedade de seus atos. Liberdade para ser quem gostaria de ser, independentemente do que se passa no mundo.

O desconforto, por sua vez, é a imposição da transformação. E o desconforto está em voltar alguns passos, mas com a cabeça de hoje.

Exercitar o desconforto é poder ter mais, no entanto, consumir menos. Exercitar o desconforto é utilizar outros meios de sobrevivência, outros meios de experiência, outros meios de existência, sabendo que há condições socioeconômicas para não participar daquilo.

Uma das maiores experiências da minha vida era enfrentar fila para almoçar no bandejão junto com mendigos, dependentes químicos, pessoas da mais baixa classe social. Eu fiz por desconforto, porque era um privilégio meu ter aquilo como opção, e não necessidade.

Poderia ter gasto dinheiro em restaurante ou em supermercado, mas eu queria, pelo menos uma vez por semana, enxergar um lado da vida que vidros blindados e escurecidos segregam nas ruas.

Uma vez tentei dormir na rua por opção, mas às 4 da manhã meu orgulho venceu e fui para meu carro chorar. Chorar porque tem gente que vive assim como necessidade, e não por experimentar a curiosidade do desconforto.

Não acho que todos devem fazer isso, estar entre os invisíveis, porque a zona do desconforto é completamente subjetiva e individual. O que é desconforto para mim, pode não ser para você. Não há certos, nem errados, mas penso que cada um deve realizar algum tipo de desconforto para evoluir na vida, enfim, sair do modo automático.

O desconforto está na forma de consumir, o que consumir, a quantidade do que consumir, o “por quê” consumir. Consumir bens, serviços, consumir cultura, informação, experiências, o consumo é infinito e livre, desde que esteja na legalidade, porém, isso deve ser mais discutido entre todos, afinal, pouca gente percebeu que inverteram a correnteza do rio: antes era o consumidor que criava a demanda, hoje são as grandes indústrias que criam necessidades.

Necessidades que não existiam passam a ser condicionadores da felicidade. Se você não comprar o celular X, o carro Y ou a roupa Z, você não gozará da felicidade.

Então, surge a frustração. E para acabar com a frustração, inventaram o financiamento. O financiamento, por sua vez, criou o endividamento. O endividamento, por fim, perpetua a vida em um sistema que engaiola o cidadão num ciclo o qual ele mal sabe que entrou e acaba tornando a vida automática do “nascer, estudar, trabalhar, prociar e morrer”.

Vida no automático leva ao automático, aos modelos sociais já existentes, sem novidade alguma. Se isso o satisfaz, abrace a causa e seja muito feliz! Porém, eu quero uma vida no manual, que leva ao desconhecido, ao desconforto e muitas interrogações.

Isso não significa uma apologia à pobreza, muito pelo contrário. Eu entendo que a sociedade vai definitivamente se evoluir quando for iniciada uma manifestação voluntária por uma vida em classe média, com o mínimo de desigualdade possível.  E para isso acontecer, é de responsabilidade dos mais abastados economicamente não inflacionarem o consumo, muito menos desenvolverem novas necessidades desnecessárias porque é isso que causa, nas classes mais baixas, o endividamento e, infelizmente, o crime.

Marcio Vieira


Mais gerúndio, por favor

28/12/2013

pegadaspraia

Ano acabando, ano começando. Olhar pra frente, olhar para trás. Lembrar, planejar.

Final de ano é a época de fazer um balanço de tudo que aconteceu, o que não aconteceu, o que não era para acontecer, o que deveria ter acontecido e o principal: o que está acontecendo.

Está acontecendo a vida, e ela é divina. E um dos planos que tenho para 2014 é viver no gerúndio. Tem gente que odeia o gerundismo, principalmente àquele vindo de operadores de telemarketing, mas o Gerúndio é sensacional porque ele é uma ação contínua no presente, e ano que vem quero muito gerúndio!

Quero mais vivendo, aprendendo, ensinando, realizando, sonhando, criando, lendo, ouvindo, falando, entendendo, respeitando, viajando, desenvolvendo, melhorando, transformando!

Evoluindo! Ter a consciência que há muito ainda para descobrir, aperfeiçoar e melhorar.

Amando! Porque é o amor um sentimento tão nobre, tão forte, que deve ser espalhado de forma universal, sem olhar. Amar quem gosta é fácil, agora amar quem é diferente, amar quem não gosta, este é o desafio.

E que mais verbos sejam conjugados na terminação +NDO, afinal, são as ações do Presente que lembraremos no Futuro no momento que elas forem o Passado.

O Momento presente é inevitável! O que está acontecendo agora é inevitável, já que foi o passado que nos fez chegar até aqui, e passado, também, não se evita.  Aliás, passado deve ser feito para sorrir, independentemente de quais sentimentos tal passado provocou.

E é exatamente isso que recomendo para todo mundo: dar mais atenção ao que está acontecendo.  Dar mais atenção ao momento de agora pois esse momento é lindo e único.

O presente não vai se repetir. A folha que caiu árvore, não cairá mais. Nascerão outras no seu lugar. O ar que respirou, não será mais respirado, aquele oxigênio virou gás carbônico porque tudo se transforma no agora.

Meu 2014 será no gerúndio, atentando-se ao momento que ocorre, que se sente,  que se quer, que se vive.

É o Presente que me transforma, que te transforma, que nos transforma.  E o momento Presente foi dado, como presente, para nós, e devemos ser gratos. Agora é aproveitar a oportunidade.

Não ficar preso ao passado, nem criar expectativas demais sobre o futuro porque o futuro, sempre!, é o resultado das incríveis experiências do presente.

Costumo dizer que sou a minha própria cobaia, é assim que caminho, e é assim que faço minhas pegadas no chão, porém, o chão também me marca.

Mais cuidado com as ações contínuas, mais carinho aos momentos. Que 2014 tenha mais gerúndio, por favor.

Marcio Vieira