Síndrome de Datena

02/08/2012

Isso vai dar errado! Mas que porcaria de vida! Ô desgraça! Quanto azar, meu Deus!

Se sua mente se prende mais do que devia ao que é ruim, às situações adversas ou seja lá qualquer coisa que for longe de ser agradável, você pode pode ter contraído a Síndrome de Datena.

A doença pertencente a família dos Tragedius Negativus Mondocanis atinge, de forma silenciosa, milhões de pessoas pelo mundo, porém, 99% dos infectados não fazem ideia de como e quando contraíram o mal.

Os primeiros sintomas da Síndrome de Datena surgem com reações comportamentais negativas. Sim, aqueles que adoram contar uma tragédia pessoal, dizer que seus problemas são mais catastróficos que os meus, que suas responsabilidades são maiores, enfim, que tudo aquilo que tal indivíduo faz sofre maior desgraça divina podem já relacionar com a moléstia de Datena.

Não que a notícia ruim seja traumática, mas saber compreender a adversidade faz parte da superação dos problemas pessoais, financeiros, familiares, de saúde, etc. Problemas, afinal, todos têm, o que ocorre, no entanto, é que a mente humana gasta mais energia pensando nas coisas ruins, sendo desproporcional com as coisas boas. Exemplo:

Em uma festa, se vinte pessoas elogiarem sua roupa, e apenas uma, não importa quem seja, dizer que você está mal, o que acontece com você na festa? O mundo acaba pra você! E as outras 20 pessoas estão loucas, mentirosas, o que fica é aquela opinião de fulano dizendo que estou um lixo (tá vendo como já inflou a crítica e  você mesmo agravou, negativou mais, dentro de si?).

A mente humana é assim, descargas negativas atraem mais, por isso é importante treinar o lado positivo para equilibrar as informações que captamos todo o dia, para desbloquear, limpar a mente, deixar os pensamentos fluirem sem tanta tensão.

As pessoas mais negativas, de tão bloqueadas que são, têm o costume de sentir um prazer quase que masoquista de narrar num roteiro digno de novela cheio de dramas existenciais que justificariam a não materialização das próprias expectativas. É o prazer pelo mundo cão! Contar histórias de sofrimento, agonia, e distribuir a notícia para, de certa forma, valorizar a vida, mostrar que existe ao mundo.

Calma! Respire! Tome consciência do que você é antes de sair reclamando da vida. Considere-se, primeiro de tudo, uma pessoa de sorte. Você está vivo, você pensa, você sabe o que dói e o que alegra, você tem pessoas próximas, você tem a sua consciência de que quer fazer o bem. Se os objetivos não forem realizados, novamente, calma!, e reflita sobre a sua intenção, sobre aonde poderia melhorar, onde poderia mudar, e mude!

Passar a vida reclamando do trânsito? Ande de bicicleta! Acorde mais cedo! Passar a vida reclamando da profissão?  Mude! Ah, mas já estou velho para uma nova faculdade? Mais um motivo para não perder o pouco de vida que você acha que lhe resta fazendo algo que não gosta!

Passar a vida reclamando da cidade? Mude! Passar a vida reclamando do chefe? Mude! Do vizinho? Mude! Da mulher? Mude! Do emprego? Mude! Da pizzaria delivery? Mude! Do corpo? Mude! Emagrece, engorde, sei lá, mas mude!  Mude!! Mude, mude, mude tudo que te de insatisfação!

É por isso que admiro tanto quem se propõe à mudança. Mudança significa querer evoluir, melhorar, pois não conheço ninguém no mundo que objetivou uma mudança para regredir, para piorar a própria vida. O resultado da atitude é um detalhe posterior, que depende do primeiro passo: aceitar o que é e querer mudar aquilo que pode, e mais, que tudo, ter paciência.

A primeira mudança é dentro de você. O que você quer para você? Continuar expelindo energias e pensamentos negativos não ajuda em nada, só piora, aliás. Esperar cair do céu a solução, também não! Só reclamar, só se frustrar, só remoer sentimentos ruins todos os dias, isso pra mim é um suicídio em conta-gotas. Enxergar só as notícias ruins, viver rodeado de problemas dignos de Datena, isso sim é desnecessário.

Acreditar naquilo que faz bem, que é especial, e seguir essa intuição faz parte da mudança. Aceitar que nada e ninguém é como gostaríamos, mas que podemos admirar, vivenciar, explorar o lado positivo de cada momento é importante e faz bem, porque a vida acontece no presente. O passado já foi e o futuro sempre será futuro.

Marcio Vieira


O Dia Mad Max

07/03/2012

Busquei a sinopse do filme: “Em um futuro não muito distante (o filme começa com a frase: a few years from now) e pós apocalíptico, o deserto australiano vive dias de caos onde gangues de disputam o poder e aterrorizam a população por um pouco de gasolina”.

Impossível não associar o dia de hoje com o filme feito em 1979, estrelado por Mel Gibson.

O Dia de Mad Max mostra o desespero paulistano por alguns litros de gasolina. O caos se formou, sete milhões de veículos lutam para chegar em seus trabalhos salvos.

A gangue caminhoneira aterroriza a principal capital brasileira. Postos inflacionam o preço, se aproveitam do medo formado pela busca pelo deslocamento.

A gangue caminhoneira aproveita a falta de consciência coletiva do paulistano, que não aceita dividir um ônibus, dividir uma carona, pedalar, caminhar, enfim, buscar alternativas para melhorar o convívio na cidade.

Cidadãos comprometidos com o trabalho que pagam 300 reais por mês de estacionamento, ou que pagam 15 reais a primeira hora (ou ainda mais) para colocar seus carros num lugar “protegido”.

Cidadãos que perdem 20% do valor do automóvel no primeiro ano de uso, que gastam 300 reais para andar mil quilômetros (fora os gastos de manutenção) que gastam entre 3 e 10% do valor do carro por ano em seguro, ou seja, depreciam em uns 25% seu “patrimônio de rodas de liga-leve”.

Contribuintes que pagam regularmente seus impostos, que gastam meia hora para achar uma vaga para estacionar o carro na rua, pois hoje as prefeituras esqueceram que a prioridade da rua é o fluxo contínuo, e não a possibilidade de estacionar, prejudicando o trânsito.

Habitantes que reclamam da ciclofaixa permanente, que tirou a possibilidade de estacionar suas latas de insul-film, ou que não respeitam a placa “Rota de Ciclista”

Caminhoneiros, os malvados, são a corja da sociedade proletária. Afundam São Paulo no caos! Se organizam em sindicatos com barbudos e cruzam os braços. Abusados, vocês!

São Paulo é cidade para andar de carro!  Ônibus é coisa de pobre, preto, ou, pior ainda, pobre preto. Eu ganho meus dez mil reais por mês e vou financiar meu i30. Eu ganho 5 mil reais por mês e pago meu Fox. Eu ganho 3 mil e pago meu Uninho. Eu ganho mil reais por mês e pago as prestações do meu Gol Caixinha!!

E, mais que isso, eu vou andar SOZINHO!  O carro é meu!  Eu faço o que quiser! Eu buzino! Deixe as sardinhas enlatadas no transporte coletivo!  Não vou dar carona para o vizinho, eu não converso com ele, então ele não é bem-vindo no meu possante.

Esses ciclistas idiotas não aprendem que bicicleta é só no Domingo, e apenas para andar aonde tem cone.  Meu carro não divide espaço com uma bicicleta. Eu fecho! Deixo apenas a linha da sarjeta para eles! Meu carro de 50 mil reais com DVD é mais importante que a bicicleta do eco-chato.

Carros de 100 mil reais pra cima, então, são deuses supremos! Não se misturam com a gentalha, diz Dona Florinda a bordo do seu Land Rover.

Vamos, Mad Max, sobreviver pelo líquido sagrado: a Gasolina!

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Brincadeiras à parte, não desejando o sofrimento de ninguém, mas é importante tomar ciência de algumas coisas:

Corredores de ônibus tem fluxo de 30 mil pessoas por hora, enquanto cada faixa para carros tem, em média, fluxo de 2 mil por hora. Se pensar que mais de 80% dos carros em SP estão com APENAS 1 pessoa, calcula-se menos de 2.500 pessoas por hora em cada faixa de rolagem para carros.

Numa avenida com duas faixas para carros e apenas uma para ônibus (exemplos: Avs. Santo Amaro, Nove de Julho, Rebouças, Ibirapuera…), deslocam-se 35 mil pessoas por hora.

Por que não dobrar a faixa de ônibus, deixando apenas uma para carros? Assim seriam 60 mil pessoas por hora, diminuindo o tempo parado no trânsito. Metrô tem fluxo de quase 40 mil pessoas por hora.

Mas ocorre que o morador de Moema não vai entrar no ônibus para ir para a Faria Lima, muito menos gastar 15 minutos e ir de bicicleta.

Prédios comerciais acham mais lucrativo ter TRÊS vagas a mais de carro do que montar, no mesmo espaço, um vestiários e colocar ganchos para pendurar bicicleta.

Homens de negócio não pedalam. Multinacionais têm que fornecer CARRO para seus líderes em sinônimo de status e importância dentro da empresa.

Vamos, sociedade brasileira, estimular que quanto maior e mais caro seu carro, maior é sua influência na sociedade! Se a empresa me deu um Corolla, é porque eu sou fodinha. Se a empresa me der um BMW, eu serei fodão!

Vamos, paulistas, mostrar que carro é sinônimo de poder. Vamos financiar, pagar 30% de juros ao ano para preencher uma das vagas do seu prédio com varanda gourmet.

Vamos, pauliceia, a gasolina é o sangue que bombeia para encher nosso ego. Gasolina Podium é a Absolut das vodkas, deixem a vodka Balalaika para o dono do paliozinho.

Vamos, sociedade motorizada, promover o caos. Com felicidade vamos promover trânsito na saída da garagem dos nossos condomínios-clube. Vamos para a padaria de carro!  Vamos para a academia de carro!

Vamos esperar construir o metrô para enfim deixar o carro na garagem. Vamos esperar o ônibus ficar menos lotado para enfim eu ter meu bilhete único.

Brasileiro é um bicho estranho: fora do país dá uma de “Povo” e anda de bicicleta em Amsterdam, de metrô em Nova York e de ônibus em Londres, mas quando volta, dá uma de “Gente Diferenciada”

O fluxo de investimento está completamente invertido. É preciso criar a demanda, primeiro, para existir o investimento público. Governo nenhum, no mundo, antecipa, faz projeções sócio-administrativas. Vocês acham que Paris sempre foi bonitinha?

É preciso acabar com corrupção. É preciso acabar com burocracia que atravanca o desenvolvimento. É preciso diminuir os gastos públicos com funcionários fantasmas, ou com gabinetes populosos de políticos ineficientes.

É preciso diminuir o número de deputados e vereadores. Mais de 500 neguinhos eleitos em Brasília que não resolvem porra nenhuma. É preciso fazer essa cambada ter cartão de ponto e ganhar por hora trabalhada, desempenho, cortar auxílios bizarros que afrontam a inteligência do eleitorado. É preciso um monte de coisa que só o voto não resolve. É preciso promover um certo caos para revindicar melhorias.

E o caos do Dia de Mad Max é um dia para refletir: o que VOCÊ, contribuinte, cidadão, faz para melhorar o convívio na sua cidade?

O que VOCÊ pode mudar em SEUS hábitos para ter maior qualidade de vida?

Será mesmo, esse desespero todo por combustível, uma necessidade?

Precisamos SURTAR para ter gasolina?

Precisamos de 7 milhões de veículos apenas na cidade de São Paulo?

Precisamos ter mais de um carro dentro da família?

Precisamos ir num carro vazio para o trabalho?

Precisamos inflacionar os preços de estacionamentos?

Precisamos gerar 5 BILHÕES de dólares de lucro em 2011 para as montadoras no Brasil enviarem para suas matrizes espalhadas pelo mundo?

Precisamos dessa vida estressada por causa de individualismo?

Precisamos resolver um problema coletivo resolvendo, com a compra de um carro (ou até segundo carro para rodízio), pensando numa solução individualizada?

Precisamos nos matar no trânsito, xingar, reclamar, buzinar tanto? Seu carro também contribui para o trânsito existir! PENSE!

Precisamos chegar ao ponto de viver como Mad Max?

Marcio Vieira


Verdades mentirosas

11/11/2011

Uma semana foi tempo suficiente para ler diversos textos, ver algumas reportagens, centenas de opiniões sobre os conflitos na USP entre estudantes e Polícia Militar.

Analisei, fiz minha auto-crítica sobre o posicionamento inicial de um fato que, com o tempo, novas informações são passadas e é preciso digeri-las, podendo mudar ou reforçar mais o ponto de vista.

Muita coisa percebi, via Facebook, principalmente: a sociedade está surtada a ponto de explodir. Eu faço parte dela, e a voz da internet é potente (convido para uma leitura do texto anterior) que merece maiores cuidados e, mais ainda, é necessário saber ler além da segunda página.

Ocorre que muita coisa está errada em tal conflito universitário e um posicionamento polarizado é perigoso, capaz de injustiças absurdas. Como exemplo, fiquei horrorizado com uma campanha de tanta gente para a PM bater, dar borrachadas nos estudantes rebeldes. Desse fato, encontro algumas justificativas: estão indignados pelo estopim do conflito ser três estudantes que consumiram drogas (recusando entender que não é só esse o problema) e, enxergo também uma inveja, mesmo que pequena, por eles estarem na USP, coisa que eu (e milhares de revoltados do Facebook) não tiveram competência para passar.

Outro fator é que sempre a minoria negativa infecciona todo o grupo. A batata podre não contamina todo o saco?  Toda brasileira é puta no exterior? Todo nigeriano é traficante? Estudante de universidade pública é vagabundo? Quem estuda sociologia é drogado? É a mesma coisa para tudo, pelo erro de poucos, muitos pagam o preço. Os alunos contrários ao policiamento da PM dentro da USP, ao que me consta, é uma minoria. Tais alunos que se rebelaram de forma mais incisiva é uma minoria dentro dessa primeira minoria, porém todos pagam pelo preço da sociedade não saber distinguir quem é o “playboy-drogado revolucionário” e quem é estudante sério.   Não generalizar é o primeiro passo para ser justo e proporcional.

No entanto, é culpa também dessa maioria de estudantes mornos que não se comprometem dentro da USP.  Quem vai discutir melhorias da própria universidade são poucos pois há um desinteresse gigantesco semelhante ao desinteresse brasileiro em tentar mudar a merda que está. Quem vai para rua protestar é minoria, taxada de revolucionário, mas que deve-se valorizar, pelo menos, a coragem de mostrar a cara indignada clamando por mudanças.

Generalizando de forma errada, brasileiro é apático, seja rico, seja pobre, seja culto ou seja ignorante.  Brasileiro, na maioria, é bunda mole e não tem espelho em casa. E tal flacidez dos glúteos prejudica tudo, afinal, os políticos são o reflexo do povo, porém a sociedade facebookiana foge da responsabilidade, são pessoas que só querem reclamar, se indignar com a indignação dos “loucos”.

Assim vemos tanta gente surtada, sem paciência, que explodem sentimentos aprisionados de forma desproporcional. São as pessoas do contra, aqueles que torcem pela tragédia, aqueles que assistem Datena e Jornal Nacional para depois dizer “tá vendo, não disse que avisei?”, enfim, os facebookianos sempre têm razão e não sabem olhar para os dois lados da mesma moeda.

Não existe verdade absoluta na vida. Não existe, não adianta nem tentar procurar pois opiniões divergentes sempre existirão, e cabe à inteligência humana ser proporcional, razoável na medição da opinião, sem querer colocar mais lenha na fogueira, coisa que o brasileiro bunda mole adora fazer.  Querem ver o caos para falar que tinham razão, mas na hora que tem a possibilidade de mudar, de apresentar ideias, ficam calados, não conseguem levar tal posicionamento além do Facebook ou da mesa do bar.

As pessoas surtadas são influenciadas facilmente. Exemplos são infinitos, seja a influência religiosa, esportiva, sexual, racial, naturalidades, nacionalidades, etc. Afinal, coitado do judeu negro homossexual que nasceu na China, é maloqueiro da Fiel, e que agora estuda na USP!

Influência é direcionar a opinião das pessoas, e isso tem que ser feito por pessoas responsáveis, não por uma imprensa que, muitas vezes, é asquerosamente comercial, catastrófica e sensacionalista. Dentro do tema “USP, PM e Estudantes”, há muita influência negativa, e é preciso frieza antes de soltar os cachorros.

É preciso analisar também o contexto atual do que é a USP em 2011, não mais na Ditadura Militar. O que faziam os professores da USP há 35 anos? Alguns crianças, outros jovens, outros mais adultos receberam uma educação influenciada pela repressão da opinião. Aonde quero chegar:  a base da personalidade e opinião daqueles que viraram professores, a profissão de maior influência (após o jornalismo distorcido), e que devem repassar o ensino não apenas de forma imparcial, incentivando o aluno ter sua própria opinião.

Opiniões devem acompanhar o cotidiano, e mudar de opinião não quer dizer que você não tem opinião. Muito pelo contrário! Eu, por exemplo, mudei de opinião umas quatro vezes em relação à invasão da reitoria na USP. Estar suscetível é peneirar melhor, mastigar melhor, enxergar melhor, e o problema de muita gente (inclusive a minha) é que tomam partido rapidamente sem analisar com calma.

Estudantes de cursos de humanas em universidades públicas recebem uma influência maior que precisa ser digerida melhor pois senão vão causar conflitos por coisas ridículas. A defesa dos 3 consumidores de maconha foi um ato de burrice pois, a partir de agora, o movimento estudantil perdeu credibilidade dentro da sociedade.

Falar que foram maltratados na delegacia e que são presos políticos, que ficaram três horas sem água numa sala abafada, é de doer. Vocês acham que delegacia é pousada na praia? Estamos no Brasil, acordem! Acha que reintegração de posse é algo pacífico que vão te tratar com carinho? Sua invasão por acaso foi pacífica? Olhem para seus atos primeiro!

Caros estudantes, se seus mentores foram presos políticos, eles viveram outro contexto histórico que não serve de influência para seus atos de hoje. Caros indignados do Facebook, vocês estão nervosinhos demais e incitação à violência é algo gravíssimo.

A contradição do estudante com moletom da GAP ridiculariza qualquer protesto político-social, mas protestar é a forma de mostrar a insatisfação. No entanto, prejulgar a sociedade ao dizer que “esquerdistas” só causam tumulto e que a “elite” é ignorante também está errado. Estamos julgando a minoria que infecciona a coletividade.

Eu cometo esse erro milhares de vezes ao generalizar um acontecimento. A maioria dos estudantes da USP é séria, assim como a maioria da PM é séria. É preciso ser forte à influência das notícias de tragédia, pois o ruim é vendável, o ruim dá lucro, o ruim chama atenção mas é nisso que toda a sociedade concentra a opinião em discussões superficiais.

Mas, para não apenas ser um texto de crítica social, precisamos apresentar soluções, senão giraremos sempre dentro do tema “indignação”.  Indignação por quê? Que alternativas serão dadas? O que é necessário mudar, e o que serve de exemplo?

Algo precisa ser mudado na universidade mais cara do país. Sim, o custo da USP é o mais alto. Ela limita, potencializa os que tiveram melhor base, maiores investimentos em colégios particulares e que agora gozam de um ensino público. Essa é a maior injustiça que vejo.

Apresento a seguinte ideia para debate: estudantes de universidades públicas devem pagar uma mensalidade e que tal dinheiro seria destinado ao ProUni e outros créditos estudantis para alunos de baixa renda e melhorias (melhores salários, inclusive) dentro da própria universidade. Tal crédito poderia ser usado também para o Ensino Médio (na minha época, o Colegial).  A mensalidade seria um valor baixo nos dias atuais, entre 100 e 200 reais.

Outra possibilidade de cobrança de mensalidade conforme o poder aquisitivo da família. Basta puxar o CPF dos pais do aluno, a declaração deles no Imposto de Renda, quais bens eles têm, qual é o salário, etc., para que estipule um valor de mensalidade condizente à renda familiar. Assim o estudante com moletom da GAP teria mais argumentos para protestar, seria melhor ouvido, e deixaríamos o estereótipo de lado para escutar o que ele defende.

A sociedade, como um todo, precisa se comprometer, assumir sua responsabilidade e, principalmente, potencializar a educação, a saúde e a economia daqueles que não tem nada.

Protestar pelo Facebook, apenas, não leva à lugar algum, só deixará as pessoas mais surtadas ainda. É preciso apresentar ideias, soluções, como o abaixo-assinado “Não Foi Acidente” que, de alguma forma, já chegou no Congresso para aumentar as penas para alcoolizados ao volante.

Não só reclamar , é preciso agir para a sociedade evoluir.

Marcio Vieira


Ignorância, o segredo para a felicidade

25/08/2011

Antes de tudo, para deixar bem claro, este texto não chama de ignorantes as pessoas felizes, muito pelo contrário. É apenas um texto o qual tento expressar um conceito existencial sobre sentidos e sentimentos.

Imagine uma criança de uns 3 anos. Toda bonitinha, toda elétrica, curiosa, hiperativa, querendo mexer em tudo, subir em cima de tudo, etc. Ela faz isso por quê? Ela está com a consciência vazia, ainda, muito nova, está conhecendo tudo e sentindo desejos quando olha para tantas coisas, afinal, são tantas descobertas que mexem com a curiosidade. Tal criança tem seu hard disc novinho em folha, praticamente em branco, e todas as vontades de preenchimento surgem instintivamente com aquilo que se vê.

Segunda cena: imagine outra criança bonitinha de 3 anos, porém, num ambiente completamente diferente. Ela, desde seu nascimento, cresceu num quarto todo branco, fechado, e tem como diversão uma bolinha de tênis e um pandeiro. Com aqueles dois brinquedos, sem poder sair daquele quarto (mas com responsáveis ensinando a falar, e a se alimentar), passará toda sua infância e juventude com apenas uma bolinha e um pandeiro.

Qual das duas crianças têm mais chance de ser feliz? Obviamente que me responderão a primeira, pois é um crime gravíssimo que fizeram com a segunda, os direitos da criança presa foram violados, é uma tortura, ela crescerá com traumas seríssimos, etc., me darão inúmeras justificativas, e vocês me darão tais razões porque vocês sabem diferenciar as situações.

Rebato como advogado do diabo: qual das duas crianças vai chorar porque não tem tal brinquedo que viu na televisão? Qual das duas crianças vai chorar porque o amiguinho tem o novo playmobil? Qual das duas crianças vai querer um Playstation? Qual criança vai ficar chorando, berrando, no supermercado porque quer o caminhãozinho de brinquedo e os pais, intimidados, para silenciar o guri, comprarão? Enfim, qual criança vai sofrer mais?  Aonde está a tortura?

A segunda criança, trancada no quarto, que nunca viu televisão, não conhece outras crianças, não sabe da existência de outros brinquedos, de outros sons, que desconhece playstation, carrinhos e bonecas, que passará muitos anos atirando a bolinha de tênis na parede do quarto certamente não reclamará, não sofrerá, não vai pedir para os pais brinquedos novos, afinal, seu campo de visão é limitado tornando também limitados seus desejos, sua consciência e seus sonhos.

A criança aprisionada (que recebeu o mesmo carinho, colo, dos pais da criança livre, única diferença é que ela nunca saiu daquele quarto) tem mais chances de atingir a plenitude da felicidade pelo simples fato dos seus desejos serem pequenos, limitados, e crescerá sem influências do mundo externo. Você acha que ela sofre porque você sabe o que existe do lado de fora de tal quarto, você tem o conhecimento das diferenças, das culturas, idiomas, objetos, enfim, você toma consciência da existência de um mundo amplo, algo que tal criança desconhece, mas que, pelo fato de desconhecer, ela não sente falta.

Saindo do exemplo das duas criancinhas, percebo que a ignorância é um dos fatores para a atingir a felicidade plena. É comum passar na tevê reportagens onde tem lá uma família toda humilde, no meio da roça, plantando o que come, conhecendo poucos vizinhos, mas todos, sempre com um sorriso grande no rosto, simpáticos, que não pensam em mudar de vida. Vocês, das grandes cidades, conectados com o mundo, acham aquilo um absurdo!  Como pode aquele cara desdentado, com roupas esfarrapadas, que nunca saiu daquele fim de mundo, ser todo sorridente?

Ele sabe da existência de um mundo, das grandes cidades, etc., mas o medo, a insegurança, e o risco que se corre em querer “melhorar” de vida faz ele ficar na roça, limitando seus desejos que, por consequência, limitarão seus sofrimentos, e assim terão mais condições de atingir a plenitude da tal sonhada felicidade. O que é melhorar de vida, para ele, com certeza é diferente para nós.

Ampliando este pensamento, todo o histórico da humanidade foi feito com a construção de muros, fortalezas e fronteiras sociais para que suas populações não sofram com as influências externas, e assim (em alusão a criança chorando no shopping) reclamarão menos, se indignarão menos, será mais fácil controlar esse rebanho domesticado. Mas a pergunta é, será que eles são mais felizes?

Tenho muita curiosidade em conhecer dois países: Coreia do Norte e Butão. Países que se fecharam para as influências externas com o intuito de administrar seu povo. Coreia do Norte, massacrada pelo mundo, vive uma regime totalitário, sua população vive o comunismo forçado, não possui liberdade de expressão, mas não há diferenças sociais, todos usam o mesmo tipo de roupa, não conseguem sair para outros países, mas, por outro lado, não sofrem com desemprego, todos moram em apartamentos populares e, por o país ter investido muito no setor militar e na censura, domesticam a população para sentir orgulho do seu país e assim não rebelar a população contra o sistema. Será que os norte coreanos são felizes?

Já o Butão é mais festejado, afinal é o país com maior índice de felicidade. Ironicamente é o país com o visto de turista mais caro do mundo, uma ferramenta para dificultar receber influências do mundo exterior. Se não tem uma força militar repressiva, tem em princípios budistas outra forma para controlar os anseios da sua população, a partir da limitação dos desejos, e assim administram, de certa forma pacífica, mas não menos autoritária, a raiz existencial do ser humano, que é a busca pela felicidade.

Aprecio muito o Budismo. Toda sua essência gira em torno da razão pela existência e na busca de sentimentos e sensações livres de influência, assim não haverá sofrimento. Para atingir o nirvana, uma das quatro nobres verdades do Budismo é a Origem do Sofrimento, que se dá quando os desejos e as vontades em sentir prazer direcionam as atitudes do ser humano.

Ora, todos os exemplos citados, as duas criancinhas, a família na roça, os modelos políticos históricos, a Coreia do Norte e Butão têm exatamente no Desejo o ponto que se interligam, e assim foram desenvolvidas ações, sejam determinadas por um Estado ou seja de forma voluntária, com o intuito de limitar o conhecimento, fomentando a ignorância com o propósito de atingir a felicidade.

É errado prender uma criança no quarto? É, óbvio que é.  Mas você tem essa resposta porque você conhece o lado de fora. A criança, assim como os norte coreanos, são ignorantes, desconhecem o ambiente externo, têm suas consciências limitadas e, por serem domesticadas, têm mais chance de atingir a plenitude de uma satisfação, têm mais chances de serem felizes.

A família na roça optou em não arriscar sair da comodidade, e assim passam dificuldades (que julgamos ser dificuldades, talvez eles não vejam com esses olhos) menores, tem desejos menores, só querem se alimentar, cuidar da vaquinha, do bode, da pequena horta e viver assim. E quando chega um monte de extraterrestre com câmeras, cabos, carro, um monte de parafernália para entrevistar tal família, eles acham aquilo tudo engraçado, cômico, pois o diferente não é a família humilde, mas sim os repórteres e o mundo externo. Eles são ignorantes, mas são felizes. O que é mais importante?

Acrescento outro exemplo, agora do nosso cotidiano:  pedir pizza. Sabemos da existência de dezenas de sabores, mas por que 90% da população paulista repete os quatro principais sabores? Porque são gostosos, sim, está é uma resposta. Mas, além disso, porque têm medo do desconfortável, porque tem insegurança do diferente, porque limitam seus desejos para atingir uma satisfação plena, ou seja, porque ser ignorante com o cardápio na mão é menos arriscado, logo, gera menos sofrimento.

É fato que a criança livre, que deseja, sofre mais, principalmente porque desejos, na maioria das vezes, são só desejos. A criança deseja ser o Homem Aranha, escalar paredes, voar como Superman, desejam o Hot Wheels e a Barbie. Bens, dependendo do poder da família, poderão ser adquiridos, mas atirar teias e pular para o prédio vizinho serão somente desejos, e desejos causam sofrimento.

A frustração, característica do sofrimento, surge a partir da comparação com algo e a partir da tomada de consciência que tal coisa existe, mas que naquele momento, não pode ser ou não pode ter. Assim preenchemos nosso hard disc com inúmeras informações, experiências, culturas, conhecimentos, etc., que, se o perfil do indivíduo for de se alimentar por mais conhecimento, por mais informações, por mais diferenças, a tendência é tal pessoa ser infeliz porque nunca atingirá a plenitude da satisfação.

As ideias expostas neste post poderia virar um livro, quem sabe virará, mas para não me alongar neste momento, acredito que a ignorância, ou melhor, a limitação de conhecimento, é uma forma de atingir 100% de alguma coisa. Se focar algo bom, mesmo que limitado, poderá ser 100% de felicidade em passar a vida com uma bolinha de tênis, poderá ser vivendo num regime totalitário, poderá ser vivendo dentro de muros de um mosteiro, um convento, ou qualquer outra coisa que diminua seu campo de visão e conhecimento.

É possível ser plenamente feliz tendo conhecimento do que acontece no mundo externo? Sinceramente, tenho fé que sim, mas, sendo racional, acho que não dá. Porém, neste mesmo texto, trouxe “soluções” para ser feliz: criar limites, e se esforçar, trabalhar dentro deles para que, naquele espaço, seja de qual tamanho for (mas que seja limitado), você possa chegar o mais perto da plenitude, dos 100%, do preenchimento de algo.

Por que, se colocar no Google Images a palavra Felicidade aparecerá sempre a imagem de alguém de braços para o ar, ou pulando, movimentos que transmitem a sensação de liberdade? Por que isso é realizável, oras!  Porque uma parte da felicidade é não desejar, é limitar sonhos, ou seja, simplificar. E é isso que é vendido desde que a humanidade existe! Quando o Google Images colocar a foto de uma mansão com um Porsche na garagem quando eu escrever a palavra felicidade, aí terá algo de errado, pois vai instigar a frustração e sofrimento.

Porém, outro fator que destrói tudo que escrevi agora: será que, tendo a consciência de que estou limitando meus desejos com o objetivo de atingir a plenitude da felicidade, esta não é uma forma de aceitar a infelicidade? É possível ser feliz tendo a consciência que precisa ser ignorante?

Incoerente, tudo isso. Assim como a vida que também é incoerente, e quer saber?  Que bom que ela é assim!

 

Marcio Vieira


Consciência da coexistência

17/08/2011

Caos, por quê?

Trânsito ruim? Filas no supermercado, no banco, na balada? Situação chata, né? Dá raiva, dá vontade de explodir tudo? Calma, você coexiste!

Quando fazia alguns cursos de respiração (que, aliás, recomendo para todo mundo) da Fundação Arte de Viver, num dos dias peguei um trânsito extremamente complicado, tudo parado, era um caos. Nesse dia, provavelmente, já estava dentro do processo de reflexões que o curso estimula e enxerguei algo que antes nunca tinha enxergado ao ouvir tantas buzinas: a coexistência.

Eu poderia fazer parte da orquestra urbana que estressa qualquer pessoa, eu estava atrasado, o trânsito me prejudicava, mas refleti algo que nunca tinha parado para pensar: eu, dentro daquele carro, naquele trânsito, contribuia para o trânsito existir. Quantos de nós, moradores de grandes centros urbanos, já ficou puto da vida com o trânsito? Vocês já perceberam que vocês também são causadores do trânsito?

Naquele dia, olhei para o lado direito e tinha um ônibus, não tão cheio, com pessoas cansadas voltando de seus trabalhos, e daí olhei para o resto do meu carro, vazio, com lugar para mais quatro pessoas. Aumentei o campo de percepção, analisei cada carro ao redor, de cada dez automóveis, apenas 1 ou 2 tinha mais de uma pessoa no carro, sendo que a maioria esmagadora dos carros cabem 5 pessoas.

Desde então, nunca mais buzinei para reclamar do trânsito, eu não me sentia no direito de reclamar de algo que eu contribuia para existir. Reclamo quando vejo caixas fechado, locais com poucos atendentes, causando filas desnecessárias. Mas, nas ruas, nunca mais reclamei. Quem tem direito de reclamar do trânsito são os usuários de transporte público, deficitário, sujo, inoperante, desconfortável, atrasado, etc.

Quem também tem direito de reclamar do trânsito é o ciclista, que não tem pista exclusiva, que não polui, que sofre com a ignorância e desrespeito de grande parte dos motoristas, que no espaço de um  carro pode trafegar, com segurança, seis bicicletas, e foi depois disso, também, que colei um adesivo na minha bicicleta de “um carro a menos”. Muito, não tudo (por preguiça), posso fazer de bicicleta, posso tirar um carro das ruas, e tudo isso foi feito após minha expansão da consciência acerca das causas e efeitos das minhas atitudes.

Então, antes de reclamar do trânsito, antes de buzinar, pense: você contribui para o trânsito? São Paulo é um caos em muitos aspectos, mas são seus habitantes os grandes responsáveis por isso. São seus habitantes que inflacionaram os preços dos imóveis perto de metrô, são seus habitantes que pouco reclamam do transporte público inoperante, são seus habitantes que preferem resolver um problema coletivo com uma atitude individual, adquirindo um carro novo, um segundo carro, etc.

Sim, concordo que 99% das pessoas preferem ficar sentado dentro de seus carros por 1 hora do que em pé, no ônibus, pela mesma hora. Cada um age conforme sua própria consciência, assim, aceite o caos pelo qual você contribui, ou plante uma semente utópica, ideológica e pense olhando para fora da caixa.

Ora, por que não fazer uma atitude coletiva?  Seja uma carona, rodízio entre vizinhos, pedale, seja uma caminhada maior (vá de tênis, leve o sapato numa mochila, e caminhe!), seja um dia da semana, pelo menos, ir de transporte público e não apenas alterar seu horário de trabalho por causa da placa do carro.

Você não tem que adaptar seus horários conforme o rodízio da placa do carro. Você não precisa inventar cursos (muitas vezes são úteis) para “fugir” do rodízio. Esse dia semanal é para você fazer um sacrifício pela sociedade, pelo coletivo porque simplesmente coexistimos.

Enfim, estimular a consciência é importante pra caramba, principalmente para ver a causa de um problema, e não apenas constatar a existência de um problema. Não estamos sozinhos, tenha consciência da coexistência.

Marcio Vieira