Elitizar soluções

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Como forma de responder (novamente de forma errada) aos protestos, a Prefeitura de São Paulo ampliará a área de restrição ao automóvel (o famoso rodízio de carros), agregando novos bairros ao famigerado “Centro Expandido”.

A justificativa sempre é a mesma: melhorar a circulação, diminuindo o trânsito da caótica cidade, porém, há várias questões que devem ser analisadas antes de tomar qualquer medida restritiva ao cidadão.

O rodízio de carros em São Paulo, há tempos, deixou de ser a razão para diminuição dos gases poluentes na cidade, esta, por sinal, era a primeira desculpa pela imposição do sistema. Hoje o problema é lento deslocamento, em uma cidade que deixa de faturar, por causa do trânsito catastrófico, mais de 20 bilhões de reais todos os anos.

Ao impor o rodízio, a cidade não compensou o cidadão com transporte público eficiente e/ou barato, o que resultou em novos gastos para boa parte da população para adquirir um segundo automóvel. E a medida gerou impactos sucessivos como, por exemplo, inflacionar o valor dos imóveis com duas ou mais vagas de garagem.

Uma vaga de garagem adicional em imóveis residenciais pode ultrapassar 50 mil reais em diversos bairros da capital, o que ajudou a contribuir, também, na especulação imobiliária promovida por grandes construtoras que oferecem lançamentos, na sua grande maioria, com um mínimo de duas vagas por unidade.

O resultado é trágico para o trânsito: são emplacados diariamente em São Paulo 1.000 novos veículos, que farão parte à uma frota que já ultrapassou a barreira dos 6 milhões.  É um número insustentável para a cidade, e as soluções para restringir o carro são completamente ineficazes e desastrosas.

Como na maioria das decisões políticas, a cidade de São Paulo elitiza a solução para um problema de âmbito geral, que forçará os residentes de bairros de alto padrão (na Zona Sul, por exemplo, Av. Berrini, Brooklin e Campo Belo entrarão na “zona do rodízio”) adquirirem um outro carro, visto que a maioria dos habitantes de tais regiões têm fôlego financeiro para comprar um carro que, no caso, pode já ser até o terceiro carro da família.

O efeito-dominó dessa decisão proibitiva é gigantesco: a disputa por vagas nas ruas secundárias às grandes avenidas prejudicará, e muito, o fluxo. Aliás, é o fluxo, o escoamento, a principal finalidade de uma rua/avenida. Ruas não são locais para se estacionar. No entanto, prefeituras (novamente elas) enxergam oportunidade com Carão Zona Azul, além dos oportunistas flanelinhas, nunca coibidos da exploração ilegal de algo público.

12 Vagas?!?

Morador preocupado com rodízio

E quem sofre? Não será o morador do Campo Belo. Muito menos os engravatados da Berrini.  Quem sofre, como sempre, é o povo. O dependente de transporte público.

Quem não é dependente de transporte público arruma uma solução rapidamente. Negocia novos horários na empresa ou entra numa concessionária qualquer e com 10 reais por dia é capaz de sair de carro zero km. O segundo carro.

O rodízio de carros em São Paulo não foi, e nunca será, a melhor medida para combater o trânsito porque se trata de uma medida superficial e elitista.

Diversas cidades no mundo pactuam com o mesmo problema paulistano, porém, há várias formas de se combater a crescente individualização do deslocamento urbano sem estimular aquisição de um novo veículo.

Hong Kong, por exemplo, exige que o cidadão que desejar comprar um automóvel tenha, comprovadamente, uma garagem para não deixar o carro na rua. Seja com contrato anual com estacionamentos ou no próprio imóvel do cidadão. Pode até ter dinheiro para uma Ferrari, mas se não tiver garagem, não vai comprar. Simples assim.

Inúmeras cidades têm tributação diferenciada para o contribuinte que adquirir um segundo automóvel. Aumento de 20, 30 chegando até 50% no valor do IPVA para o segundo carro.  Assim, a conta é mais justa socialmente: cidadão que tem mais, paga mais.

O IPVA é um tributo estadual, então cabe ao Governo e a Prefeitura se entenderem para praticar tal ação restritiva à elitização do trânsito.

O prejudicado, da forma com que tratam a questão da mobilidade urbana, sempre será quem vive na periferia, longe do “Centro Expandido”. Tal sistema é completamente injusto àquele que mora na Estrada do M’Boi Mirim (ou qualquer outra região periférica) que perde 4 horas do dia no trânsito paulistano.

Deve-se estimular a consciência coletiva de toda população, com programas incentivos fiscais para adoção de novos horários para jornada de trabalho, além de evitar um grave erro que é cometido em São Paulo:  o deslocamento (e especulação imobiliária) de centros econômicos. É muito fácil comprar um enorme galpão industrial e construir diversas torres residenciais e comerciais, mas deve-se estudar o impacto no trânsito local e, principalmente, rever a necessidade de empreendimentos desse porte.

Hoje sou terminantemente contra o rodízio de carros em São Paulo como solução ao trânsito. Mais contra ainda ao aumento do Centro Expandido porque são medidas pouco estimulantes à troca do automóvel pelo transporte público. Hoje, quem tem dinheiro, comprará um segundo carro. E quem não tem, financiará, ainda mais com IPI e outros incoerentes incentivos fiscais.

O trânsito caótico continuará o mesmo. Quer dizer, com 1.000 novos carros todos os dias, só vai piorar.

O Movimento Passe Livre é uma pequena luz para discutir uma forma de restabelecer uma ordem social e economicamente justa. Se incentivar que transporte público, embora hoje completamente trágico, seja gratuito (ou, ao menos, que seja realmente barato), haverá demanda por mais ônibus e mais trem.

E é com demanda que se muda prioridades.

Marcio Vieira

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2 Responses to Elitizar soluções

  1. Olivia R. disse:

    Márcio, ótimo texto porém seu raciocínio peca apenas na conclusão do texto, mais especificamente no último parágrafo:
    se o grande problema do trânsito em São Paulo é a quantidade absurda de carros – transporte individual – e se só o paulistano pertencente às classes sociais privilegiadas podem comprar um, a única medida realmente eficaz para atraí-lo para o transporte público seria oferecer um transporte de qualidade, algo que substitua pelo menos em parte o conforto e a segurança que ele encontra no carro.
    Preço não é, nem de longe, um chamariz para este cidadão culpado pelo engarrafamento. Se ele tem dinheiro para comprar um carro popular que começa nos 20mil, por que ele se importaria com R$3,00 de passagem?

    Sim, é com demanda que se muda prioridades. E como a solução para isso depende em diminuir o número de transporte privado para aumentar a rede de transporte público, deve-se pensar em como atrair este público privilegiado (obviamente, em conjunto com as outras medidas de austeridade, como as comentadas acima).

    • Marcio Vieira disse:

      O grande problema não é a quantidade absurda. O grande problema é que os governos (municipal e estadual) não compensaram a população ao implantar o rodízio de carro.
      A quantidade absurda de carros é apenas reflexo dessa falta de investimento no transporte público.
      Deve-se combater a questão em várias frentes: a primeira delas é “encorajar” os não dependentes de transporte público à utilizá-lo, e para isso, infelizmente, precisa atacar o bolso (porque uma mudança educacional demora muito mais)
      Como fazer isso? são várias ações, que não dá para citar tudo num texto apenas.
      Sou a favor de aumentar a tributação do segundo carro, aumentar a tributação de imóveis com 2 ou mais vagas, e investir esse dinheiro em transporte público, criar um cadastro de proprietários de automóvel com vaga própria (não permitir novos proprietários sem que tenham vaga residencial para guardar o carro), reavaliar projetos imobiliários (não autorizar construção de grandes empreendimentos comerciais sem antes revitalizar o já existente), estudar impactos na mobilidade urbana de tais edifícios, incentivar (tributariamente) empresas a reinvestir no centro velho da cidade, determinar que todos os edifícios comerciais tenham vestiário para cicilistas, incentivar tributariamente horários flexíveis de jornada de trabalho para diminuir o caos no “horário de pico”, incentivar construção centros empresariais em regiões periféricas da cidade (onde há maior concentração da população)
      São dezenas de medidas que devem ser levadas à discussão, e é isso que tentei trazer neste texto.

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