E não diga que não avisei

Ah, eles envelheceram antes da hora. Idade não envelhece, o que envelhece é a convicção. Curiosidade não envelhece, rigidez envelhece. Aceitação não envelhece, soberba envelhece. Superioridade envelhece.

O excesso de confiança envelhece e a reação de muitos é contra-atacar. Não se pode mais contar suas próprias histórias que sempre alguém virá com uma tragédia maior. E não se pode mais dividir suas conquistas porque sempre alguém vai falar que fez mais, inferiorizando o que você fez.

Hoje em dia, seja num happy hour com amigos ou numa macarronada dominical com a família, o leão que rugir mais alto com suas tragédias vencerá a batalha. Hoje amigos são rivais nas narrativas, e é questão de força desmerecer a luta daquele que bebe cerveja ao seu lado e dizer que você se ferrou mais na vida que ele, um nobre sortudo.

Afinal, ninguém enfrentou os problemas que você enfrentou! São tragédias imensuráveis, tristezas e guerras homéricas. O seu chefe é o mais carcamano do mundo, seu vizinho é o mais irritante, seu trânsito é pior que de todos, sua agenda é a mais cheia, seus problemas os mais injustos, seu tempo o mais escasso, e suas desculpas as mais justificadas.

Velhos de pensamento convictos que são injustiçados pelos divinos, mártires da vida moderna que precisam da complacência boêmia, divagando sobre a decadente vida cheia de causos negativos.

Todo essa linha de pensamentos é comum em gente idosa, não velha. Mas aí é perfeitamente compreensível: aumenta-se as dores, aumenta-se o número de remédios, aumenta o medo, a insegurança sobre tornar-se dependente dos filhos e enfermeiros, etc.

Idosos têm mais motivos para contar suas tragédias que as pessoas com pensamentos envelhecidos precocemente. Porém, para muitos, o reumatismo do Seu Aristides é coisa pequena se comparada à ressaca da balada de ontem ou a enrabada que o chefe deu na reunião.

E a chuva que peguei ontem, tudo alagado! E o masoquismo para achar a vaga no estacionamento do shopping, que stress que passei!! E minha roupa toda suada e amassada, dentro do superlotado metrô que pego todos os dias!

Meu Deus é injusto comigo! Só comigo! Vocês que brindam agora comigo estão com a vida mansa, não têm noção do que é sofrimento e dificuldade., sejam solidários com minha dor que é maior que a sua! Vocês que brindam comigo são pessoas que não reconhecem minhas condições desfavoráveis.

Minha gripe é pior que sua cirurgia. A calçada que piso é mais esburacada que a sua. A roupa que comprei é mais bonita que a sua, você é burro de ter gasto o dobro do preço. Lá no centro isso é uma pechincha!

Pessoas precocemente velhas sempre têm dicas melhores, recomendações melhores, experiências melhores, conquistas maiores, desafios maiores, sofrimentos piores, enfim, eles são sempre mais. Ah, e tem egos maiores também.

Eu falei que ia dar merda! E não diga que não te avisei! Eu sei mais que você, amador. Eu sou melhor que você, eu sou mais quando você quer ser mais, e sou menos quando o menos é mais glorioso.

Enquanto isso o Seu Aristides ri desses jovens egos inflados e pensa com seus velhos botões: “ah, esses meninos pouco sabem da vida”, diferentemente do que o Seu Nélio, seu rival de dominó nas manhãs de domingo, que prefere reclamar dessa chatice juvenil com o famoso “depois não digam que eu avisei.” Eles podem.

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