Comanda para o Inferno

28/01/2013

comanda

Muito se falou e muito se comentou sobre a tragédia ocorrida em Santa Maria. Em 99% dos casos de graves acidentes, nunca um fator isolado é capaz de provocar tantas mortes, e o ocorrido na Boate Kiss segue a regra de muitas falhas, erros e crimes que, somados, mataram mais de duas centenas de pessoas. É muita gente.

Não vou nem tocar no assunto de serem jovens, cheios de futuro na vida, etc e tal, não vou citar a corrupção de diversos órgãos de fiscalização, muito menos acrescentar o coro de que os responsáveis devem pagar civil e criminalmente. Essas pessoas que trabalhavam na famigerada boate estão fodidas (com o perdão, mas nem tanto, da palavra).

Essa gente toda já morreu, e deve-se respeitar as famílias, principalmente não mostrando imagens dos mortos. Agora, é preciso aprender com a tragédia e levantar possíveis soluções para isso nunca mais acontecer.

Resolvi escrever este texto para tentar apresentar uma simples sugestão de mudança da “cultura brasileira” em boates, bares e afins, e o assunto central será a Comanda do cliente.

Quando morava em Genebra, Suíça, trabalhei numa casa noturna como bartender e às vezes ficava na entrada, e ali aprendi muita coisa. O lugar era um inferninho de dois andares, cabiam umas 200-250 pessoas, e só tinha uma porta, e pequena, igual à Kiss. Mas o principal estava no fluxo/escoamento das pessoas: era muito rápido, todos iam embora sem fazer grandes filas.  O motivo disso é a ausência de comanda.

No Brasil todo lugar te dão comanda, e no final, resta ir para o caixa e pagar o que consumiu (e muitas vezes discutir erros ou malandragens da casa).  A grande maioria na Europa não têm comanda, nos Estados Unidos também não, em Hong Kong, idem (digo dos lugares que conheci). Sempre que for querer alguma bebida, paga-se na hora sem deixar acumular, sem “conta”, sem “comanda”, etc.

Dá mais trabalho? Depende. Demora-se um pouco mais para beber, mas o lado positivo é que você nunca terá conflitos/erro do garçom para falar o que consumiu ou o que deixou de consumir e o principal: quer sair, sai e ninguém vai encher seu saco exigindo um cartão ou papel carimbado “PAGO”.

Segurança nenhum vai te segurar, e esse é o erro no Brasil.  Aqui, um brutamonte engravatado, muitas vezes impaciente e truculento, estufa o peito e exige tal papel. Em outros países, não! Afinal, tudo que você consumiu, você pagou na hora de consumir! Muito mais fácil, muito mais honesto!

E por causa desses seguranças, segundo relatos de testemunhas, demorou o escoamento das pessoas. Não culpo totalmente os seguranças, pois é responsabilidade deles verificar a porrinha do cartãozinho “PAGO”, mas culpo a falta de raciocínio em perceber o caos que aquelas portas fechadas causaram.

O controle de saída cozinhou muitas pessoas, a comanda transformou em inferno a casa noturna. Poderia, não digo totalmente, ter diminuído drasticamente o número de mortos na tragédia gaúcha se um outro sistema de cobrança fosse estabelecido, deixando as pessoas livres para saírem a hora que bem entendessem, de preferência com portas escancaradas.

Marcio Vieira

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Não tem problema, pode me excluir

23/01/2013

a380

Segunda-feira passada entrei no meu Facebook para ver o que se passa lá, e com as pessoas de lá, então tomei um susto: aceitei o pedido de amizade número 700.

Caramba, 700 pessoas!  E daí comecei a refletir sobre isso. É muita gente, capaz até de lotar o Airbus a380 (aquele avião duplex) e ainda fazer overbooking!

Tem alguma coisa errada comigo, não é possível.  Meus aniversários, eu fico mega feliz quando vão 20, 30 pessoas. Fico contente quando umas cem pessoas do mesmo Face me parabenizam na mesma data.  Ok, mas para chegar em 700 faltam ainda 600!  Onde está toda essa gente na minha vida?

Então decidi investigar meus contatos na mais famosa rede social e percebi que tem muita gente que participou da minha vida em algum momento, mas hoje não participa mais.

Os motivos são dos mais variados, pessoal do colégio, da faculdade, dos trabalhos que exerci, da rua, bar, praia, viagem, jogo do Corinthians, galera do carro antigo, da comida vegetariana, da meditação indiana, da bicicleta noturna, do prédio que cresci, do punk rock, das cidades que morei, enfim, são pessoas que participaram da minha vida.

A vontade é sempre ter todas as pessoas por perto, mas é depois da necessidade do “encontro obrigatório”  que percebo que não importa quem vai, quem fica e quem vem. O que realmente vale é descobrir qual sentimento aquela pessoa produz em você.

Considero amigo gente que não vejo há quinze anos, mas não considerei mais gente que vi há poucos meses, mas que o “santo não bateu”. Paciência, não é culpa minha nem de ninguém, o sentimento, quando não é obrigatório, fica mais sincero.

Então fiz uma primeira seleção e em alguns minutos tirei 160 pessoas da minha rede social. Caracas, é muita gente! Muita gente com histórias de vida incríveis que não tive a oportunidade (ou vontade/interesse) de conhecer, muita gente que poderia acrescentar na minha vida pessoal, profissional, etc., mas que, neste exato momento, não fará falta.  Eu me viro sem, e tenho certeza absoluta que tais pessoas já se viram muito bem sem a minha presença.

Pode ser (tomara!) que volte a ser importante, ou não, sei lá, deixa rolar! Vida segue sempre, mas essa coisa de Facebook, Twitter, isso é algo paralelo ao que realmente importa, mas tem muita gente que se incomoda com esses números e faz de tudo para atingir os milhares, tem 2 perfis, etc.  Respeito a necessidade de cada um, mas a minha necessidade eu percebi agora está longe de ser isso.

Quantas pessoas te ligam? quantas pessoas você se sente bem? E, principalmente, com quantas há vontade de conversar? De vivenciar ao redor de uma mesa de bar, de um restaurante, praia, viagem?  Não importa se faz 2, 3 anos, se você se sente confortável de falar com a pessoa, é uma pessoa que vale a pena preservar na vida.

Vale a pena também preservar aquelas que você tem um feeling de que serão importantes em algum momento da vida, seja pessoal ou profissional, ou, apenas, para trocar algumas ideias e dicas.  Ou que a pessoa é bacana, gente fina! Mas que haja um “prazo de validade” nessa expectativa: que essas pessoas participem ou demonstrem querer participar!

Eu dei uma pequena “selecionada” para criar maior importância para quem fica, e semana que vem vou dar outra. E peço, sinceramente, sem mágoas ou rancor: Não tem problema, pode me excluir.  Se o sentimento tem um traço de indiferença, ok, isso é perfeitamente normal, mas o importante disso tudo é dar mais importância para quem é mais importante.

Ou fique tudo do jeito que está, carregue as milhares de pessoas na rede de contato se isso te faz seguro e feliz. Importante é ser feliz, não é mesmo? Mesma coisa pode ser feita pelos contatos carregados no telefone celular os quais você nunca mais vai ligar. Desapegue!

Qual o tamanho do avião que você carrega? E quantos são? Quantos realmente voam com você?

Afinal, ninguém aqui é um número.

Marcio Vieira