Geração “Pular Anúncio em 5s”

30/10/2014

ponteiros

Não é fácil, mas aceito o desafio: eu tenho poucos segundos para tentar te convencer a ler as “n” palavras deste texto.  Para não assustá-lo com a divulgação de um número alto, melhor dizer que são apenas 13 parágrafos. É rápido, prometo que não vai doer.

Nos próximos 3 minutos de leitura, a missão de fazer você não olhar para o celular para ver se chegou nova mensagem do whatsapp torna tudo ainda mais complicado. 100% de atenção por meros três minutos é uma vitória não só para publicitários, como para qualquer ser humano, especialmente com a própria família. E lá se foi um tempo precioso tentando te sensibilizar para ler até o final.

Geneticamente anciosos. Somos filhos ou netos dos baby-boomers do pós Segunda Guerra, e sei lá qual explicação astrológica possamos dar, as Gerações X, Y e Z têm tudo, menos paciência. Se já estava claro antes, durante as eleições foi ratificado e não precisa de referendo, plebiscito e nem qualquer tipo de consulta da opinião pública para falar da nossa falta de paciência.

A quantidade estarrecedora de compartilhamentos de notícias falsas foi chocante. Seja lá qual a bandeira política hasteada, deveria haver, além de uma pesquisa mínima para verificar a credibilidade do site, uma paciência mínima para ler a matéria por completo e não apenas o título.

Outra contestação foi os inúmeros casos de divulgação de notícias de meses, até anos atrás, sem ao menos ler a data de quando aquilo foi publicado. Tais compartilhamentos, de sites mais conhecidos, são feitas só porque o contexto poderia polemizar com os dias atuais. Novamente só leram o título.

A falta de paciência de alguns causa uma explosão de raiva que extrapola limites, tanto que já é possível prever catástrofes. As 20h010, poucos minutos após a divulgação do resultado parcial (90%) das eleições, escrevi no Facebook para as pessoas refletirem sobre possíveis ataques contra nordestinos. E olha que não precisa ser nenhum Pai de Santo, era óbvio que isso iria acontecer.

Bingo. Uma enxurrada de mensagens discriminatórias contra nordestinos, pobres e pessoas assistidas pelo Governo Federal foi vista na internet. Pessoas que no cotidiano podem até não demonstrar tais reações xenófobas, mas que diante da provocação causada pela derrota incendiaram a internet com aquilo que estava reprimido, esperando o momento para descarregar.

Se foi um descarrego intempestivo, sinal claro de que tal preconceito estava o núcleo desse indivíduo. Isso é grave e precisa ser resolvido com terapia. Após tantos ataques em poucos minutos, dizer “Nordeste, seu lindo” é tentar tratar com um band-aid um ferimento causado por bazuca. A ferida na sociedade brasileira foi exposta, e ela é hemorrágica, cada dia sangra mais e há mais ódio.

A tendência é só piorar porque solidificamos com vigas enormes o que realmente somos: a Geração “Pular Anúncio em 5s”. Ninguém tem mais paciência com nada e com ninguém. Criamos um botão em todos os teclados sociais que batizei de “Acelerador da Vida”. Assistir uma propaganda de 30 segundos é tortura, então o Youtube e afins, com medo de perder seus preciosos espectadores, permitiu pular para evitar sofrimentos alheios.

A situação da nossa sociedade é tão grave que as agências de publicidade atualmente têm a missão de te fisgar em 5 segundos para você não apertar o maldito Acelerador da Vida.  E esse botão está em todos os lugares: se o seu prédio tem dois elevadores, você chama um elevador e não espera nem 2 segundos para chamar o outro. Quando o sinal verde é mostrado e o carro da frente não anda em 5 segundos, a sinfonia de buzina é tocada. E quando o semáforo fecha, todos já correm para pegar o celular para ver se chegou alguma mensagem.

Nem vou me aprofundar muito citando os mecanismos para furar todos os tipos filas, seja desrespeitando quem está à frente ou seja pagando para ser Vip de balada, Vip de Estacionamentos, Vip de Cia. Aérea para entrar primeiro no avião (e todos voarão juntos, catzo!!), Vip de pedágio, etc. O tempo, cada dia, custa mais. E agora estão mensurando (e cobrando!) o valor dos segundos, algo que você nunca pensou… por falta de tempo.

Somos seres apressados, minha dúvida é se tal pressa é sede de viver ou é vontade acelerar tudo para morrer mais rápido com doenças criadas nas últimas décadas em virtude desse estilo de vida. Investe-se fortunas para criar e conviver com necessidades que eram completamente desnecessárias há poucos anos.

Se a história da Terra de 4.5 bilhões de anos fosse resumida à um dia, a humanidade seria contada em seis minutos e nós, da Geração “Pular Anúncio”, os grandes responsáveis por destruir todo o ecossistema, causando danos irreversíveis à Terra, faríamos isso em exatos 5 segundos. Os mesmos 5 segundos que te torturam diariamente.

Marcio Vieira

PS: foram 790 palavras.

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João Grilo também vota

14/10/2014

joaogrilo

A paciência, ela já foi embora faz tempo. E a próxima etapa é perder o respeito, e é exatamente isso que está acontecendo nos últimos meses por causa das eleições, principalmente porque o peso do voto é igual, independe da classe social, origem, cor… o que infelizmente causa uma ira em muita gente.

O Fla-Flu eleitoral continua, e ambos os lados estão munidos da mais poderosa arma: a tecnologia. Esta que permite eu, você e todo mundo escrever, ler, ouvir, de praticamente todos os cantos do mundo.

Alguns lugares continuam inatingíveis. É que os programas assistenciais iniciaram há pouco tempo, e famílias que passaram décadas sem eletricidade, só agora conseguiram crédito para financiar a primeira geladeira e a primeira televisão. O computador, para poder conversar conosco e discutirmos sobre o “Bolsa-Esmola” ou o “Bolsa-Vagabundo”, a maioria ainda não têm.

– Mas aonde está a meritocracia?, muitos me questionam, ao mesmo tempo que abrem a geladeira duplex de alumínio escovado para pegar uma Stella Artois trincando de gelada. Após degustar a cerveja belga, abrem algum dispositivo, o Macbook, o Ipad, o Iphone ou qualquer outro objeto de desejo com o logotipo da maça mordida para publicar aberrações, como esta:

nordestinos

Qual a necessidade de tamanho preconceito? Qual a dificuldade em ler sobre o quanto o nordeste se desenvolveu nos últimos dez anos? Deve ser muito sacrificante tentar se informar sobre como era e como está a vida do nordestino, sobre as escolas técnicas que foram criadas na região, que permitiram o nordestino em não precisar vir para “Sumpaulo” tentar a vida.

O incrível é que são pessoas que vão para Europa e Estados Unidos com frequência, e em algum momento dentro dessas viagens podem ter sofrido algum tipo de desrespeito e preconceito por ser o latino, mas mesmo assim descontam sua “superioridade” contra os nordestinos, eternamente prejulgados como um bando de pessoas como Chicó e João Grilo, retirantes motorizados por jegues.

É preciso se informar antes de rechear de fezes a sua coxinha. Seu ódio não me convence! Eu fico muito feliz ao saber que João Grilo também vota e, ao menos nisso, somos iguais.

O acesso as redes sociais permite uma burguesia desinformada ofender milhões de pessoas. O perigoso é que, quanto mais inverdades são ditas exaustivamente por mais e mais pessoas, outros começam a acreditar. Pergunto ao paulista doente:  é ciúme por ser preterido pelas necessidades dos mais pobres, toda essa sua raiva?

Se o seu voto é decidido pelas cretinices publicadas e pelo repúdio aos nordestinos, ou pelo repúdio à programas assistenciais, seja feliz dentro de sua redoma de vidros blindados, e depois me conte como foi o êxtase de comprar uma Prada em Miami. Certamente você gozou horrores.

Enquanto isso, tem gente que só quer dignidade. O Bolsa Família fomentou a microeconomia (algo que você nunca precisou conhecer), permitindo que uma pequena quantia circulasse nas camadas mais pobres da população. O resultado disso foi que o mercadinho do Zé começou a vender mais Dolly, daí o Zé comprou parcelado nas Casas Bahia um freezer maior e contratou um entregador, que no começo ia de bicicleta, mas agora ele conseguiu financiar uma Honda Biz, e não está nem aí se são 70 meses para pagar.

É impossível uma família viver unicamente com Bolsa Família. Já que existe uma preguiça para pesquisar sobre os assistidos dos programas, recomendo muito a ler qualquer artigo ou livro de Muhammad Yunus, vencedor Nobel de Economia, que fala justamente sobre o Microcrédito e os efeitos dele em toda economia, atingindo inclusive você.

Agora, se o seu voto é influenciado pela corrupção e má gestão, o ideal é separar o fanatismo eleitoral que causa cegueira para refletir sobre a falta de credibilidade dos candidatos, já que não há  transparência em nenhum dos dois lados sobreviventes, afinal, Privataria Tucana, Mensalão Mineiro, Metrô Paulista, Helicóptero do Pó não são dignos de confiança.

Ambos não me representam. Essa briga ideológica na internet é deprimente, já que as atuais alianças políticas de ambos os partidos provam que não há, de nenhum lado, coerência. No fundo, a luta não é para nos representar: a disputa sempre será pelo poder.

Sobre os programas assistenciais, iniciado com FHC e muito melhorado com Lula, irão continuar porque é um dinheiro que não prejudica em nada a qualidade do asfalto para sua SUV blindada, nem fará você se misturar com as pessoas que moram da ponte pra lá, ou pessoas do lado de lá do cordão do trio elétrico.

Sua pulserinha Vip “Dazelite”, seja azul ou vermelha, está assegurada, e você continuará com sua cerveja importada. A falta de água não parece preocupação para vocês, afinal, existe desodorante que segura a onda por 48horas! Meu único receio é faltar Dolly.

Marcio Vieira

 


O Gigante e o bastardo

06/10/2014

occupy_hong_kong

Um dia após as eleições, as manifestações de Junho de 2013 me demonstraram apenas uma coisa: formamos uma sociedade alienada e preguiçosa, em que aqueles que têm a possibilidade de ajudar a transformar o país, limitam-se à apenas rechear o mundo cibernético com mais baboseiras.

Ano passado fui em 2 manifestações. A primeira tomei gás de pimenta na cara e, na segunda, aquela que tomou proporções gigantescas, virou uma micareta com um bando de pessoas vagando por horas pela cidade, e pararam na frente do Palácio do Governo para cantar o hino e ir embora superficialmente contente. Perdeu o sentido, a coxinhização do protesto, o que me aborreceu profundamente.

Foi provado que o brasileiro não sabe protestar e, pior ainda, cansa rápido e esquece. Na Copa do Mundo, 99% dos que manifestaram um ano antes cantaram o hino à plenos pulmões, dando razão à corrupção e o superfaturamento de obras, muitas das quais persistem inacabadas.

O atual governo, até hoje, não apresentou os resultados financeiros obtidos no famigerado evento, e este boleto vai chegar para todos nós. O mesmo que aconteceu com países mal preparados para o tamanho do rojão, como Portugal, Grécia, Africa do Sul, que sediaram eventos esportivos populistas e só depois perceberam que o buraco criado gerou enorme crise.

O Gigante que tinha acordado, tão aclamado e reverenciado nas redes sociais, não passa de um bobalhão. Somos bobos, ignorantes e, pior ainda, arrogantes por supervalorizarmos um ínfimo esforço ilusório achando que em 20 dias de manifestações poderia mudar alguma coisa no país.

Não, meu caro. O esforço deve ser constante. Antes de tudo, é necessário mudar o conceito de patriotismo criado aqui. Do jeito que demonstra, o Brasil é e sempre será desigual, desumano e desunido, jogando no lixo a grande oportunidade que teve para discutir política em alto nível.

Enquanto isso, do outro lado do mundo, um filho bastardo prova que é possível enfrentar o governo. Hong Kong luta contra um pai adotivo desde 1998, este que nunca aceitou a liberdade do filho: O autoritário governo chinês quer controlar as eleições em Hong Kong com apenas os candidatos escolhidos pelo Partido Comunista.

Os estudantes de Hong Kong, então, ocuparam a cidade, assim como os brasileiros fizeram ano passado. A grande diferença é a clareza dos objetivos. Enquanto Hong Kong luta pela manutenção da liberdade e democracia, o Brasileiro que se manifestou estava mais preocupado com a selfie no meio da multidão.

Não, nem o Gigante, nem ninguém, acordou. Junho de 2013 foi apenas uma revolta anárquica (longe, bem longe das palavras de Bakunin). Foi a revolta dos “Saco-cheio”, dos indignados, de um povo alienado que não sabe o que realmente quer na vida porque o Estado não educou para pensar.

Então o brasileiro incorporou o discurso ufanista de Galvão Bueno e sua trupe global, e acreditamos que somos fodas, afinal, temos 5 estrelas no futebol e somos os vencedores do desafio de verão no biribol, ou qualquer evento transmitido direto das areias de Copacabana.

A realidade é que estamos bem longe de sermos fodas. Tomamos diariamente 7 a 1 na educação de vizinhos, como Chile, outro 7 a 1 em crescimento industrial do México. Tomamos 7 a 1 em desenvolvimento humano da Colômbia. Isso apenas para ficar no nosso continente, porque se atravessarmos os grandes mares, a humilhação será maior.

Tomamos goleadas diariamente, perdemos competitividade internacional, despencamos no ranking de universidades, e ficamos calados. Calados porque a geração Y brasileira não sofreu com ditadura, não sofreu com inflação ou outros problemas de gerações passadas, então se acomodou quando o assunto é questionar e pressionar os governantes. Vivemos num país em que a educação naufragou nos últimos 20 anos.

Nenhum candidato, nos debates, apresentou projetos realmente convincentes para melhorar a educação, que é o pilar central para qualquer desenvolvimento socioeconômico. É com educação que se gera empregos, é com educação que diminui a criminalidade, etc. É com educação que se gera riquezas, como faz a Coreia do Sul, já citada neste blog.

É vexatória a representatividade política oferecida, porém, é completamente proporcional ao nosso anseio por mudança: que é zero.

Enquanto isso, o filho bastardo da China nos prova que não precisa ser gigante para lutar. Hong Kong, um pequeno território, está peitando um Dragão Chinês, apresentando ideias claras, objetivas que, principalmente, unem todas as crenças políticas dos oprimidos.

Aqui ninguém percebe que esse Fla-Flu político de vermelhos e azuis estagnou o país, e o ego não permite enxergar que ficamos para trás.

Marcio Vieira


Compartilhar Mimimis

26/10/2012

“A ignorância não fica tão distante da verdade quanto o preconceito.”

(Denis Diderot)

As Redes Sociais estão inseridas na vida de milhões de pessoas. Twitter e Facebook são as prediletas para muita gente demonstrar que “existe” para o mundo. É uma forma fácil de participar, mesmo calçando pantufas e tomando leite com sucrilhos, muita gente se acha socialmente responsável e politicamente correto, bastando apenas comentar ou, mais ainda, clicar em compartilhar.

É preciso prestar muita atenção no que se compartilha, qual bandeira é levantada, qual ideia é curtida porque há muita baboseira, principalmente quando o assunto são eleições.

No último mês foi possível ver coisas bizarras sendo espalhadas, só pra citar um como exemplo, o ex-presidente Lula estar na lista da Forbes de bilionários.  Ora, a internet está aí para todos, basta gastar menos de dois minutos e entrar no próprio site da revista estadunidense e consultar tal lista para mostrar que aquilo que se espalhou no Facebook é uma notícia mentirosa.

Acontece que há uma preguiça sociopolítica na classe alta, e o descontentamento com a possível derrota tucana faz pessoas ultrapassarem o limite do bom senso, espalhando notícias falsas e transparecendo um preconceito doentio contra a opinião daquele mais pobres.

Infelizmente, Serristas, a cidade de São Paulo tem mais pobre que rico. E essa é uma desigualdade secular que alguns tentam diminuir. Quando o crime é por uma bolsa em Higienópolis, boa parte dos Compartilhadores de Mimimis percebe que há violência.  Agora, quem desses viu o preto morto em mais uma chacina? E se te falar que não foi só um, são centenas, milhares por ano, e ninguém compartilha o problema.

E a favela que pega fogo, quem viu, mas quem sofreu? E o hospital lotado? E a enchente? E a miséria? E o desemprego? E a fome? E o frio? E a dignidade?

Recomendo olhar para a periferia não no dia que você acha que vai fazer um safari no Capão, na Zeéle ou qualquer outro lugar mais pobre. Olhar para periferia, basta olhar para sua empregada doméstica, para o porteiro do seu prédio, para o pizzaiolo que fez e o motoboy que entregou pizza quentinha às 11 da noite na sua casa.

A periferia não está no malabarismo do semáforo.  A periferia está na cozinha do self-service da Berrini, a periferia está na “tiazinha da limpeza”  do seu escritório, a periferia está no cara que passa a madrugada no supermercado deixando os produtos todos bonitinhos nas gôndolas para você achar com mais facilidade.

Ou você acha que é mágica? Plim e o lixo sumiu! Plim e a chão ficou limpo!  Abra Cadabra e a roupa suada da academia, depois de 1 dia, reapareceu limpinha, cheirosa, e dobrada na sua gaveta.

Vem da periferia, tucanada, quem faz isso pra você. É o “p” de pobre, de preto, de peão, de pedreiro, pintor, puta, pedinte, é o “p” de periferia, mano!

E vieram daí as pessoas que conseguiram 13o. salário pra você. FGTS. Hora extra. Tornar-se mãe com emprego.  São os “p”s de periferia que permitiram que você sair de férias, e ir para Miami trazer 60 quilos de bugiganga sem você correr risco de ficar desemprego.

Ou você acha que a classe dominante, àqueles que se tratam pelos sobrenomes pomposos que possuem que, num momento de iluminação budista, decidiram repartir melhor os ganhos?  Que nada! Morreram alguns Silvas, Santos, Barbosas, Alves e outros sobrenomes populares para isso acontecer.

Daí vem os Compartilhadores de Mimimis reclamarem de cota racial na universidade pública. Cacete, a guria vai pra Disney com 7, 10, 15 anos, estuda em colégio particular a vida inteira, ganhou carro do papis, e fica toda indignada que tem um pobre preto intelectualmente mais limitado (óbvio, olha a estrutura socioeconômica do coitado) dividindo a mesma sala de aula.

Domingo é dia de lutar contra desigualdades de séculos. Se você reclama de pagar 22 reais de pedágio na Imigrantes, procure saber quem vendeu permitindo tais condições. Do contrário, continue reclamando da “orkutização do facebook”.

Tem muita gente, milhões, com necessidades muito maiores que as suas. E são emergenciais.

E não seja tão ingênuo de achar que quem vai votar por mais igualdade social está torcendo para absolvição dos Mensaleiros.

Ah, quanta ignorância!

Marcio Vieira


Vermelha de Raiva

10/10/2012

Seu jornal com termos preconceituosos, “antipetista”, ao invés de simplesmente PSDB e PT

Você que for este texto, sinto muito em lhe dizer, mas ele não é endereçado para você. Não me leve a mal, mas é que você não precisa perder seu precioso tempo lendo algo que provavelmente você não vai concordar, então é melhor parar por aqui.

Afinal, você que acessa diariamente redes sociais, tanto pelo seu laptop como pelo telefone celular, você que assina revistas semanais de péssima qualidade, e que tem em sua confortável estação de trabalho climatizada às margens de uma vistosa avenida paulistana, sinto muito, mas esse texto não é para você.

Este texto vai para quem acorda pelo menos duas horas antes de você, que está no mínimo duas vezes mais distante da famigerada avenida. Este texto vai para quem é responsável pelo mágica que limpou sua mesa e que você não faz ideia qual rosto e qual nome possui, pois faz isso na madrugada.

Este texto também vai para as pessoas que, quando trabalham mesmo horário que o seu, não tem livre acesso as mesmas informações que você recebe. É que o trabalho dessas pessoas, normalmente, não são em frente de um computador, muito menos tem cadeira giratória regulável. O trabalho delas é vestindo macacão sujo de graxa ou com um uniforme da terceirizada.

Serve esta mensagem para aquela senhora que pede licença para retirar os papéis do seu cesto de lixo debaixo da sua mesa. Serve para aquele rapaz que você vê todos os dias ao lado da catraca aonde você passa o crachá, mas nunca falou nada mais aprofundado que um “Hoje é Coringão!”

Este texto serve para aquele cara que passa a madrugada escutando radinho de pilha para esquecer a solidão, e abrindo portão da garagem do seu prédio. Ou para o entregador de pizza, fazendo hora extra depois de 8 horas arriscando a vida para facilitar sua vida e entregar suas coisas com mais rapidez.

E tantas outras pessoas que, embora hoje tenham mais de 70 milhões de brasileiros conectados na internet, a imensa maioria entra bem a noite, quando chega do trabalho, ou quando chega da aula daquela faculdade mixuruca que você tanto reclama da existência, raramente vão ter saco para procurar algo mais conceituado para se informar na internet.

São pessoas criadas no ritmo vida loka, tá ligado? E que, apesar de tudo, estão suaves, bem diferente de você, que adora reclamar da merda do trânsito, mas que necessita sentir-se vivo nas redes sociais, e para isso vale tudo, até comentar repetitivamente sobre o tempo.

Você que tem acesso à este blog e, mesmo com avisos insistiu em continuar a leitura, precisa entender uma coisa fundamental das eleições: você é minoria.

Você que vai em rodízio de comida japonesa é minoria, você que leva 1 hora de trânsito para chegar ao trabalho, é minoria também. Você que tem a possibilidade de viajar de avião com frequência, de ir em baladas, de comprar iphone e outros produtos da maçã mordida, é minoria.

Você que reclama que está lotado o Parque do Ibirapuera aos domingos de sol, você é minoria. Pois a maioria está feliz, lá, e está cagando para seu nojinho com o pobre. Você que reclama de rodovias congestionadas, você é minoria, pois a maioria vai ficar sem viajar, e vai curtir o Shopping Interlagos ou Center Norte lotado, pegar uma fila de 15 minutos no McDonald’s e, depois disso, sorrir.

E o espantoso de tudo é que o centro rico e poderoso de São Paulo não consegue entender que suas necessidades não menores, afinal, sua vida em Moema, Pinheiros e Jardins é sempre uma maravilha, apesar do pedinte no farol e do medo de assalto.

A maioria mora longe de você, nos arredores, basta ver os mapas coloridos publicados após a eleição. É a periferia, mano! Amontoados, vivem espremidos, mas que na hora de votar, o peso dele é igual ao seu, e daí não vale reclamar.

E não adianta reclamar em conversas nos bares de happy hour ou, principalmente, com comentários preconceituosos no twitter e facebook. Expor a opinião é algo livre na sociedade, mas recomendo valorizar sua própria inteligência, afinal, quem foi pra Miami e Paris foi você, que deveria compreender que você é o historicamente privilegiado.

Só que acontece que você é a minoria que acha lindo incendiarem uma favela em pontos nobres, afinal, não é você que nasceu nela, e que das pessoas dela, o máximo que você sente é ignorância e medo.

É preciso entender que a maioria está cansada de uma política elitista, com seus eleitores, incrédulos, xenófobos, preconceituosos com pobre, com preto, com nordestino, com favelado, que vão votar por quem acredita que, no mínimo, darão mais dignidade.

Pobre quer espaço pra respirar. Fique tranquilo que ele não vai entrar na balada da Vila Olímpia. Fique tranquilo que ele não quer conhecer o Shopping JK. O Pobre, a maioria, só quer espaço para viver, e está cansado de políticos que ignoram a periferia, vermelha de raiva.

Eu sou do mesmo lugar de você, leitor. Eu sou da minoria, porém, eu tenho a consciência que São Paulo precisa priorizar a maioria, que está no subúrbio, na periferia. Dane-se se serão anos ruins para o lado azul. Meus problemas não passam de um asfalto esburacado, de uma calçada suja, da falta de um semáforo.

O problema da maioria é ter medo de enchente, de incêndio, de ter ônibus perto (lotado ou não, o importante é ter), de ter escola pública perto, etc.

Afinal, qual o tamanho da sua prioridade?

Marcio Vieira


Direito de Não Votar

15/08/2012

Eu não votei em três eleições. Morava no exterior e essa foi minha justificativa quando, ao ir no cartório eleitoral, pagava uma multa (a última foi de sete reais) para estar quite com o sistema.

Eu não votei e fui obrigado a justificar minha ausência, então pergunto: o que é democracia?

É dar poder aos cidadãos de decidir o futuro político de um Estado com o voto? Sim, pode ser, sendo assim, eu tenho direito de decidir o que vou fazer com meu voto, correto? E se minha decisão é não querer decidir?

Democracia é obrigar alguém que faltou ao dever cívico de votar e, mais que isso, ser multado? Do contrário, se eu ainda resistir, poderei ter meu CPF cancelado e não vou poder tirar outros documentos, como passaporte. Que democracia é esta? Isso está mais para ditadura!

Se eu tenho que justificar perante o sistema eleitoral minha decisão de não votar, por que as pessoas que votam sem pensar não são obrigadas a justificar em quem votou?  E se nenhum candidato me convenceu, por que eu sou obrigado a ir na Zona Eleitoral anular meu voto, sob pena de multa?

O povo está preocupado com a Carminha e a Nina, e estão cagando para o que se passa em Brasília. E não vale dizer que é o povão desorientado sem escola que decide o futuro do país, basta ver o que as desocupadas do Iguatemi pensam sobre o Mensalão.

CPMI do Cachoeira? Eu não quero saber de Cachoeira, eu nunca jogo no Bicho, prefiro dar parte do meu dinheiro para a Caixa Econômica Federal nas lotéricas, afinal, todo jogo é ilegal, menos o que o governo faz. Lotofácil, Megasena, Dupla, Lotomania, esses você pode jogar e arriscar sua sorte, mas se o cidadão quer menos concorrência, o Bingo é ilegal, Jogo do Bicho é ilegal, Caça-níquel de boteco é ilegal, então vai ter que infringir as regras.

Eu quero tchú e tchá e estou puto que o Brasil pipocou contra o México. Eu não quero saber do resultado da qualidade do ensino brasileiro, eu só quero saber quando o idiota do Jorginho vai descobrir quem é o seu pai, e isso me dá agonia.

A má distribuição de renda não dá agonia, saber que brasileiros tem mais de U$ 500 bilhões depositados em paraísos fiscais não dá agonia.

Frustração vai ser ver o Mc Catra e o Latino cantando na abertura das Olimpíadas do Rio. Isso sim vai ser decepcionante. O superfaturamento das obras não é decepcionante, aliás, é até esperado, tanto que esse tipo de papo, no bar, com meus amigos, não dura muito tempo, e o assunto acaba voltando para o futebol. Então resta abrir mais uma Original e depois sair dirigindo.

Eu fico indignado com o preço de 50 reais o cinema no Cidade Jardim, ou com os 20 reais de estacionamento na Vila Madalena, agora o garoto de 10 anos de idade fazendo malabarismo no semáforo com 3 limões às 11 da noite, isso não causa indignação, basta fingir que não vê.

É só desviar a atenção para a novela e fingir que não vê.

É só fingir acreditar que o voto obrigatório é bom para o Brasil.

É só fingir mostrar interesse pelo que está acontecendo no país.

Ao invés de fingir tudo isso, por que não assumir de vez?

Assumir que novela, futebol, bundas do pânico, fofoca de famosos, etc., são assuntos melhores do que os reflexos daquilo que você fez com seu voto. Que tal exigir uma plena democracia? Que tal lutar pelo voto facultativo, sem imposições de multas para quem não for votar?

Assim só irão para as urnas aqueles que estão mesmo afim de votar, e daí não precisa falar “ai que saco, eu ia viajar”, ou “pouts, poderia estar na praia”, ou “acordei de ressaca e que merda ir para aquela escola votar”, “vou perder o domingo votando”.

Não perca seu dia, caro eleitor! Se quiser votar, que vote de forma consciente. Do contrário, vá fazer o que você tiver vontade de fazer, afinal, democracia é poder decidir o futuro, inclusive recusar esta decisão.

Marcio Vieira


Malditos kebabs!

23/04/2012

Ódio aos imigrantes

Irônica (e preconceituosa) sociedade, que batiza extremistas de turbante de terroristas e, ao mesmo tempo, outras pessoas, muitas de cabelos dourados, são denominadas, simplesmente, extremistas.

O branquelo de olho azul vai passar por exame psiquiátrico, afinal, não pode ser são o Sr. Breivik, culto, poliglota, que planeja, e mata, 77 pessoas. Porém, é terrorista um Mohamed qualquer, que não pode andar de mochila pela Europa sem ser revistado por policiais assustados, despreparados, pois toda a Europa vai pensar que tem uma bomba pronta para explodir.

E, se realmente tiver uma bomba, polícia nenhuma vai impedir dele se matar e levar algumas dezenas junto. Enquanto o muçulmano enrolado em panos transparece seu ódio ao querer defender sua própria religião, que é historicamente alvo de ataques preconceituosos, o bonitinho norueguês pode comprar armas pesadas sem a desconfiança da sociedade, afinal, no máximo, ele é um louco.  Terrorista é o barbudo de cara fechada.

Campanha do partido nacionalista Suíço, que quer expulsar as ovelhas negras (imigrantes) do país

Só que o nórdico extremista fez o que muitos, hoje milhões de europeus, pensam em fazer:  não a matança sanguinária, mas sim o controle da imigração. Basta ver os 18% de votos que a extrema direita recebeu nas eleições francesas no último domingo. É muita gente que não quer dividir espaço com negros, árabes e latinos. A minoria, em crise e época de sobrevivência, vira o alvo de ataques e campanhas políticas.

Mas em domingo de eleição, com cédula na mão, sai dali o que a Europa está pensando em anos de crise e desemprego. Concorrer com imigrantes na seleção de um emprego, só porque o desgraçado brasileiro ou argelino conseguiu um passaporte comunitário deve doer no orgulho do povo dominante, e como ninguém vai ver em quem se vota, Hitlers contemporâneos viram notícia.

A extrema Direita cresce

No entanto, ninguém assume. Quantos de vocês conhecem quem votou no Maluf e assumiu isso? É a mesma coisa na Europa: ninguém assume porque o voto é secreto, mas ontem, na França, mais de cinco milhões de pessoas votaram na Le Pen.

A extrema direita cresce, e assusta quase que proporcionalmente ao crescimento das taxas de desemprego.  Ultrapassada, não se produz mais na Europa porque o custo do trabalhador é altíssimo, então indústrias foram para China produzir.

O grande erro do europeu é achar que a cadeia econômica baseada na prestação de serviços, principalmente o turismo, sustentaria toda a economia. Espanha foi para o brejo por achar que ficou rica de uma hora para outra, sem ter uma cadeia industrial competitiva e abrangente.

Mas calma, Europa, ainda não é o fim do poço que justifique votos em desespero e ódio. Quando o mundo voar em avião Made in China sem medo, aí vocês estarão lascados. Por enquanto são computadores e outros eletrônicos, mas cabe lembrar que há menos de duas décadas era apenas àquelas calculadoras bizarras.

Encontro de terroristas?

E vocês da direita nacionalista europeia querendo apontar o dedo para o barbudo que clama por Alá, ou para o latino que esquenta a barriga no fogão sem reclamar?  Esperava mais inteligência, pois. O Alemão pagou uma multa chamada Hitler, e hoje tem uma indústria diversificada que atingiram a excelência na produção de bens de consumo. É a forma de proteger empregos na globalização, de lacunas em leis trabalhistas, salários mínimos injustos e concorrência desleal (subentenda China): qualificar a cadeia industrial e produzir com alta qualidade protege emprego, protege o país e protege economia, não dando margem para crises que desencadeiam teorias preconceituosas.

Pensa num carro bom, numa ferramenta boa, ou num remédio bom. Quando o mundo comprar na farmácia um remédio chinês, só aí a Alemanha vai quebrar. Mas isso não vai acontecer quando um país se renova e cria novas tecnologias e soluções.

Merkel aprendeu a conviver com Kebab

Não são os imigrantes que roubaram empregos na França. Foi o Japão, depois Coreia do Sul e, agora, a China, que se qualificaram para entregar um produto de melhor qualidade, feito há milhares de quilômetros de distância, por um preço competitivo.

A dinastria Le Pen quer tirar o kebab das ruas para proteger a baguete com queijo brie, assim como Hitler, que não perdoava e não comia guildene. Mas como o ódio se adapta facilmente, se estivesse vivo, Hitler também não comeria kebab e também exterminaria gays, africanos, latinos, tudo que for miscigenação que atrapalhasse seus planos nacionalistas.  Malditos Kebabs!

18% dos franceses se incomodam com imigrantes de pele mais escurecida. Assustador, o número. É muita gente querendo expulsar as minorias étnicas e religiosas, ao invés de, simplesmente, modernizar pensamentos e conviver com a mistura, encontrando inclusive oportunidades de negócio. Do contrário, novas guerras, não serão surpresa.

Malditos Kebabs!