Novos tempos na Boca

14/05/2012

– Dimiui a velocidade, Vagner. É na próxima rua à direita, ande uns 50 metros e pare. – Disse Alberto.

– Tem certeza que é tranquilo? Lugar tenso, esse!

– Desliga o farol, cacete. E sem buzinar.

– Foi mal. Estou me cagando, porra.

– Relaxa, é rápido e a gente cai fora. O Nego Lau é aquele ali que já vem na nossa direção, junto com dois seguranças. Um eu reconheço, é o Negueba. O outro não sei quem é.  Não desliga o carro. Se der zica a gente sai rasgando.

Laurindo, 32, cresceu rapidamente nos últimos meses. Antes de se tornar o respeitado Nego Lau por toda favela, apenas era um intermediador de pequenos papelotes de droga para jovens da classe média. Visionário, trocou as drogas por sacolas plásticas logo no início das novas leis de circulação e distribuição de sacolas plásticas, montando com eficiência uma rede de infiltrados nas principais redes de supermercados do país, e parcerias no tráfico com outros estados, principalmente o Rio de Janeiro.

– E aí, Nego Lau, beleza? Eu sou o Alberto, que já vim comprar com você algumas vezes.

– Suave. Esse branquelo aí, quem é? – Perguntou Nego Lau.

– É o Vagnão. Tá na família. É ele que quer comprar hoje. – Respondeu Alberto.

– Nego Lau, tu tu tudo bem com você?

– Suave. Vai querer de qual, branquelo?

– Vo vo vo… que que querer… qual que vo vo você tem?

– Porra, é gago essa porra? Tira a piroca da boca, cabaço. – Atravessa, na conversa, o segundo segurança do Nego Lau, o Ratão.

– Foi mal. Ele tá nervoso, pessoal. – Respondeu Alberto, defendendo o amigo Vagner.

Vagnão, qual você quer: da brasileira, francesa ou americana? – Continuou.

– Não sei. É a primeira vez que compro. Qual você acha melhor? – Vagner falou baixinho para Alberto.

– Nego Lau, qual tá num esquema firmeza hoje?

– Parceiro, pro novato aí, melhor começar com uma nacional, tipo Extra. Sabe como é, a vizinhança num nota muito, o lixeiro nem percebe, zelador, porteiro, ninguém vê. É só ficar na miúda que não vai ter problema.

– E a do Pão?  Você tem? – Pergunta Alberto para o Nego Lau.

– Do Pão é publico A, coisa mais seleta, tá ligado. Tem uns playba que vem comprar da Pão, umas peruas que se acham ricas emergentes só por pilotar  Tucson, tá ligado, essas aí só querem se mostrar.  Mas depende de quanto você quer que nóis arruma.

– A francesa também é bacana, né? Descobri só nesses dias o que significa aquele símbolo.  Um “C”!! Acredita, Alberto? Achava que era um monstrinho de chapéu. – Comentou Vagner.

– Hoje não tenho Carrefa, mas se quiser descolo pra amanhã.

– Tão rápido?

– Tenho uns truta infiltrado, é esquema profissa. Ontem chegou pra mim do Wal Mart. Tá no preço.

– Quantas vo…você vende? Que…quero umas cem pr pra esse mês. – Disse Vagner, que não consegue esconder o nervosismo com a negociação com o traficante.

– Vagnão, fica sussa. Nego Lau é da paz. Só não atravessar no trabalho dele.

– Isso aí, Parsa. Sem fuder nóis, firmeza? – Responde o segurança Negueba ao que Alberto disse.

– Ow cabaço, cem sacos é muito pra você. Depois você não se segura prus Polícia e ferra todo meu movimento. Essa parada de tráfico da sustentabilidade é o futuro para os traficantes, e não vou rodar justo agora que tá na moda ecologia, garrafa verde, sacola verde, grama verde, plantinha verde, tá ligado. Pega umas trinta só e depois nóis troca ideia mês que vem. Trinta por dez real, demorô? – Sugeriu Nego Lau.

– Tá bom o preço, Vagnão. Vai por mim que é coisa boa.

– Se virá bom cliente, tem até Santa Luzia. Coisa de magnata. Tá ligado onde é a fita?

– Nos Jardins, sacola bacana essa. Quanto tá saindo?

– Levando essas do Extra, só posso te passar duas agora. Tem muita procura pelos bacanas. As dondoca pira nessa sacola. É dois real cada, da simples. Essas madames tremem pra vir aqui na quebrada, e quem vem buscar é tudo motorista, ou marido corno, tudo dirigindo Beême, Land Rover. Nóis vende pra todo mundo, tá ligado.

– Vou querer duas, por favor. Mais as trinta do Extra.

– Também vou querer duas do Santa Luzia, Nego Lau. – Pede Alberto.

– Peraí que a gente busca.

– Negueba, vai buscar a mercadoria. Faz um pacote pros chegado aqui, é primeira compra do branquelo.

– Pode deixar, chefe!

E entrou num beco, rapidamente, Negueba, deixando Nego Lau apenas com o Ratão de segurança.

– Beto, meu velho!! Animal a sacola da Santa Luzia! O Nego Lau é o cara! Vai ter churrasco no prédio de uns amigos, vou chegar com a cerveja numa dessa. A galera vai pagar um pau enorme! – O entusiasmado Vagner comenta com o amigo.

– Não te disse que o cara é sangue bom. Mas fica na quieto por enquanto, Vagner. Tráfico de sacolinha de supermercado é crime pesado, e não quero escutar lição de moral que eu financio o tráfico de sacolinha. – Alberto faz um alerta à Vagner

Três minutos depois, volta o Negueba com um pacote, entregando-o para o seu chefe.

– Aí rapaziada, tá aqui a mercadoria. Quando quiser mais, é só colar. – Nego Lau entrega as sacolas plásticas para a Alberto, que cumprimenta o traficante.

– Valeu Nego Lau. – Agradece Vagner.

– Fica suave, e qualquer treta, nunca vi vocês.

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O Dia Mad Max

07/03/2012

Busquei a sinopse do filme: “Em um futuro não muito distante (o filme começa com a frase: a few years from now) e pós apocalíptico, o deserto australiano vive dias de caos onde gangues de disputam o poder e aterrorizam a população por um pouco de gasolina”.

Impossível não associar o dia de hoje com o filme feito em 1979, estrelado por Mel Gibson.

O Dia de Mad Max mostra o desespero paulistano por alguns litros de gasolina. O caos se formou, sete milhões de veículos lutam para chegar em seus trabalhos salvos.

A gangue caminhoneira aterroriza a principal capital brasileira. Postos inflacionam o preço, se aproveitam do medo formado pela busca pelo deslocamento.

A gangue caminhoneira aproveita a falta de consciência coletiva do paulistano, que não aceita dividir um ônibus, dividir uma carona, pedalar, caminhar, enfim, buscar alternativas para melhorar o convívio na cidade.

Cidadãos comprometidos com o trabalho que pagam 300 reais por mês de estacionamento, ou que pagam 15 reais a primeira hora (ou ainda mais) para colocar seus carros num lugar “protegido”.

Cidadãos que perdem 20% do valor do automóvel no primeiro ano de uso, que gastam 300 reais para andar mil quilômetros (fora os gastos de manutenção) que gastam entre 3 e 10% do valor do carro por ano em seguro, ou seja, depreciam em uns 25% seu “patrimônio de rodas de liga-leve”.

Contribuintes que pagam regularmente seus impostos, que gastam meia hora para achar uma vaga para estacionar o carro na rua, pois hoje as prefeituras esqueceram que a prioridade da rua é o fluxo contínuo, e não a possibilidade de estacionar, prejudicando o trânsito.

Habitantes que reclamam da ciclofaixa permanente, que tirou a possibilidade de estacionar suas latas de insul-film, ou que não respeitam a placa “Rota de Ciclista”

Caminhoneiros, os malvados, são a corja da sociedade proletária. Afundam São Paulo no caos! Se organizam em sindicatos com barbudos e cruzam os braços. Abusados, vocês!

São Paulo é cidade para andar de carro!  Ônibus é coisa de pobre, preto, ou, pior ainda, pobre preto. Eu ganho meus dez mil reais por mês e vou financiar meu i30. Eu ganho 5 mil reais por mês e pago meu Fox. Eu ganho 3 mil e pago meu Uninho. Eu ganho mil reais por mês e pago as prestações do meu Gol Caixinha!!

E, mais que isso, eu vou andar SOZINHO!  O carro é meu!  Eu faço o que quiser! Eu buzino! Deixe as sardinhas enlatadas no transporte coletivo!  Não vou dar carona para o vizinho, eu não converso com ele, então ele não é bem-vindo no meu possante.

Esses ciclistas idiotas não aprendem que bicicleta é só no Domingo, e apenas para andar aonde tem cone.  Meu carro não divide espaço com uma bicicleta. Eu fecho! Deixo apenas a linha da sarjeta para eles! Meu carro de 50 mil reais com DVD é mais importante que a bicicleta do eco-chato.

Carros de 100 mil reais pra cima, então, são deuses supremos! Não se misturam com a gentalha, diz Dona Florinda a bordo do seu Land Rover.

Vamos, Mad Max, sobreviver pelo líquido sagrado: a Gasolina!

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Brincadeiras à parte, não desejando o sofrimento de ninguém, mas é importante tomar ciência de algumas coisas:

Corredores de ônibus tem fluxo de 30 mil pessoas por hora, enquanto cada faixa para carros tem, em média, fluxo de 2 mil por hora. Se pensar que mais de 80% dos carros em SP estão com APENAS 1 pessoa, calcula-se menos de 2.500 pessoas por hora em cada faixa de rolagem para carros.

Numa avenida com duas faixas para carros e apenas uma para ônibus (exemplos: Avs. Santo Amaro, Nove de Julho, Rebouças, Ibirapuera…), deslocam-se 35 mil pessoas por hora.

Por que não dobrar a faixa de ônibus, deixando apenas uma para carros? Assim seriam 60 mil pessoas por hora, diminuindo o tempo parado no trânsito. Metrô tem fluxo de quase 40 mil pessoas por hora.

Mas ocorre que o morador de Moema não vai entrar no ônibus para ir para a Faria Lima, muito menos gastar 15 minutos e ir de bicicleta.

Prédios comerciais acham mais lucrativo ter TRÊS vagas a mais de carro do que montar, no mesmo espaço, um vestiários e colocar ganchos para pendurar bicicleta.

Homens de negócio não pedalam. Multinacionais têm que fornecer CARRO para seus líderes em sinônimo de status e importância dentro da empresa.

Vamos, sociedade brasileira, estimular que quanto maior e mais caro seu carro, maior é sua influência na sociedade! Se a empresa me deu um Corolla, é porque eu sou fodinha. Se a empresa me der um BMW, eu serei fodão!

Vamos, paulistas, mostrar que carro é sinônimo de poder. Vamos financiar, pagar 30% de juros ao ano para preencher uma das vagas do seu prédio com varanda gourmet.

Vamos, pauliceia, a gasolina é o sangue que bombeia para encher nosso ego. Gasolina Podium é a Absolut das vodkas, deixem a vodka Balalaika para o dono do paliozinho.

Vamos, sociedade motorizada, promover o caos. Com felicidade vamos promover trânsito na saída da garagem dos nossos condomínios-clube. Vamos para a padaria de carro!  Vamos para a academia de carro!

Vamos esperar construir o metrô para enfim deixar o carro na garagem. Vamos esperar o ônibus ficar menos lotado para enfim eu ter meu bilhete único.

Brasileiro é um bicho estranho: fora do país dá uma de “Povo” e anda de bicicleta em Amsterdam, de metrô em Nova York e de ônibus em Londres, mas quando volta, dá uma de “Gente Diferenciada”

O fluxo de investimento está completamente invertido. É preciso criar a demanda, primeiro, para existir o investimento público. Governo nenhum, no mundo, antecipa, faz projeções sócio-administrativas. Vocês acham que Paris sempre foi bonitinha?

É preciso acabar com corrupção. É preciso acabar com burocracia que atravanca o desenvolvimento. É preciso diminuir os gastos públicos com funcionários fantasmas, ou com gabinetes populosos de políticos ineficientes.

É preciso diminuir o número de deputados e vereadores. Mais de 500 neguinhos eleitos em Brasília que não resolvem porra nenhuma. É preciso fazer essa cambada ter cartão de ponto e ganhar por hora trabalhada, desempenho, cortar auxílios bizarros que afrontam a inteligência do eleitorado. É preciso um monte de coisa que só o voto não resolve. É preciso promover um certo caos para revindicar melhorias.

E o caos do Dia de Mad Max é um dia para refletir: o que VOCÊ, contribuinte, cidadão, faz para melhorar o convívio na sua cidade?

O que VOCÊ pode mudar em SEUS hábitos para ter maior qualidade de vida?

Será mesmo, esse desespero todo por combustível, uma necessidade?

Precisamos SURTAR para ter gasolina?

Precisamos de 7 milhões de veículos apenas na cidade de São Paulo?

Precisamos ter mais de um carro dentro da família?

Precisamos ir num carro vazio para o trabalho?

Precisamos inflacionar os preços de estacionamentos?

Precisamos gerar 5 BILHÕES de dólares de lucro em 2011 para as montadoras no Brasil enviarem para suas matrizes espalhadas pelo mundo?

Precisamos dessa vida estressada por causa de individualismo?

Precisamos resolver um problema coletivo resolvendo, com a compra de um carro (ou até segundo carro para rodízio), pensando numa solução individualizada?

Precisamos nos matar no trânsito, xingar, reclamar, buzinar tanto? Seu carro também contribui para o trânsito existir! PENSE!

Precisamos chegar ao ponto de viver como Mad Max?

Marcio Vieira


O teu passado te condena?

22/08/2011

Atualmente, de cada dez empresas, onze querem ser consideradas sustentáveis. A maioria delas porque entendem que precisam compensar suas pegadas para permitir uma exploração contínua de uma atividade, outras empresas, infelizmente, buscam a sustentabilidade para agregar valor ao seu produto e à sua marca.

Empresas sustentáveis são mais admiradas, assim como as empresas que valorizam seus colaboradores, que dão benefícios extras, empresas compromissadas com a Agenda do Trabalho Decente, empresas que incluem a sociedade do seu entorno em questões socioambientais, enfim, empresas que vão além da legislação reguladora acabam, por tais práticas, aumentando sua reputação no mercado e sendo escolhidas pelos consumidores na hora de adquirir um produto ou serviço.

Porém, uma questão importante para ser analisada é a relação da empresa com seu passivo. Considerando que a prática da sustentabilidade é mutável a cada dia com a inclusão de novas tecnologias limpas, com a inclusão de novos conceitos, novas leis trabalhistas, novas técnicas de exploração com menos impacto ambiental, novos parâmetros certificadores, etc., e o passivo acumulado de anos, décadas, às vezes séculos, quando foram utilizados procedimentos que hoje são inadequados, o que será feito com tal passivo?

A maioria esmagadora das empresas esconde essa preocupação, jogam para debaixo do tapete, perpetuando o esquecimento em uma gaveta empoeirada qualquer. Não tocam nesse tipo de assunto porque, por se tratar de uma questão muito vertical e aprofundada que poucas pessoas querem saber, tais empresas direcionam seus esforços na neutralização do impacto dos procedimentos atuais, visto que a cadeia de produção e consumo é atual, e não do passado.

Infelizmente é raríssimo encontrar nos departamentos de sustentabilidade ou que tratam de Direitos Humanos dessas empresas estudos que comparam as práticas e legislações do passado com as práticas e legislações do presente, com o intuito de identificar esse gap, às vezes de grandes proporções, que retratam um passivo de impactos que foi deixado de lado.

Não conheço nenhuma empresa que É sustentável, É verde ou É responsável socioambientalmente. No máximo, conheço empresas que ESTÃO sustentáveis e verdes. Existe uma profunda diferença entre o ser e o estar, um retrata desde o seu nascimento, outro retrata o momento, mas que na hora de divulgar em campanhas, muitas vezes milionárias, sobre as práticas socioambientais, utilizam-se o termo errado de ser, enganando o consumidor.

Entendo que, para ser considerado sustentável, para ser “amiga” da natureza e da sociedade, é preciso olhar para o passado. Concordo que é difícil pesquisar métodos em tempos de pouca tecnologia, baixos registros e poucos documentos ainda existentes, mas o termo sustentabilidade retrata a conscietização de uma situação dos impactos ao longo de toda uma existência.

É difícil mensurar as pegadas de gerações passadas mas, se o nome é o mesmo, se a empresa é a mesma, tais atividades fazem parte não só do passado, assim como do presente, visto que tudo está dentro da vida de tal empresa. Não se esquivar do passado e não ter vergonha dele é necessário para o desenvolvimento de um significado efetivamente mais próximo da sustentabilidade.

O atual momento do planeta e da sociedade reflete as ações do passado. Se novas leis e novos procedimentos são considerados vitais para o desenvolvimento socioambiental, muito se deve às práticas inadequadas e às consequências dessa exploração do passado. Portanto, ao invés de esquecer o passado, deve-se trazê-lo à tona para discutir, contabilizar, mensurar, enfim, auditar o passado para que tais empresas paguem pelo seu passado, fazendo sua compensação com a sociedade e com o meio ambiente conforme a atualização dos conceitos de Sustentabilidade.

Nesta linha de pensamento, forma-se uma ciranda, e nunca uma empresa será sustentável ou respeitará o trabalho decente. Direitos Humanos e Sustentabilidade são utópicos. É impossível atingir a plenitude dos Direitos Humanos e da Sustentabilidade, mas este assunto será tema de um próximo capítulo, aqui no Pegadas.

Marcio Vieira


Síndrome de Superman

12/08/2011

Eu sofro da Síndrome de Superman, não num nível extremo, mas sofro. Conheço muita gente que sofre da mesma síndrome. Não é uma doença, propriamente dita, mas são características psicológicas extremamente peculiares que envolve o núcleo de todas as ações na vida do portador, ou seja, a síndrome altera o fluxo de pensamento, as razões, sentidos e propósitos de cada ato.

Desconheço a origem dos sintomas, mas ela atinge um maior grupo de indivíduos das classes média e alta, pessoas que tiveram determinadas oportunidades na sociedade, bom estudo, formação, enfim, receberam um considerável investimento cultural que a maioria da população global não recebeu, e é nesse período, do desenvolvimento da consciência, que se começa a manifestação da síndrome em virtude da facilidade empática e de comparação que tais pessoas têm.

A Síndrome de Superman ataca pessoas que questionam as diferenças sociais e, por entenderem que são privilegiadas, acabam sentindo algum tipo de culpa quando comparam suas oportunidades em relação à maioria da sociedade, e assim acabam nutrindo um sentimento de não merecimento, visto que, na maioria dos casos, apenas “nasceram” em tal família, não construíram nada que faz jus para estudar em escolas particulares, faculdades, aprender idiomas, cursos diversos, viajar, sair, enfim, ter uma vida com mais possibilidades.

A expansão da consciência, muito em razão de tais investimentos culturais que a família proporcionou, pode ser maléfica naquele perfil de indivíduos que têm como ponto forte o questionamento, desse modo, inúmeros deles, num sentimento de frustração e mal estar, direcionam suas carreiras profissionais, seus propósitos de vida, suas opiniões, seu consumo, de forma contínua na busca pelo merecimento, e assim desenvolvem vontades ultradimensionadas para justificar seu nascimento, seu pertencimento a tal determinada família e condição social.

Muitos portadores iniciam atividades de desapego à tais condições socioeconômicas por culpa, perpetuando uma busca ideológica, muitas vezes utópica, criando, num paralelo, outra vida, geralmente em outra cidade, outro país, para tentar se distanciar e renunciando o padrão social de sua origem para buscar a justificativa pela vida, desejando, de alguma forma, pagar um pedágio com um sofrimento que compense todas as condições que recebeu de seus pais.

A Síndrome de Superman ataca o lado existencial do ser humano, e tais portadores desenvolvem sentimentos de abnegação, sacrifício, muitos se tornam depressivos quando se deparam e se comparam com pessoas com menos oportunidades e condições, transparecendo, pela culpa, uma das características mais bonitas, a de gratidão, que embora escondida, salta aos olhos pelo desenvolvimento de uma consciência profunda, ampla e externalizada.

Com isso, muitos portadores acabam buscando atividades sociais, profissões e atividades voluntárias que envolvem questões sociais e ambientais, querem trabalhar para ajudar o mundo, acabar com a fome, erradicar a miséria, possibilitar estudo dos pobres, fomentar emprego e inclusão social, proteger crianças carentes, mulheres, buscar a justiça social, racial, proteger florestas, levar saúde, nutrição, desenvolvimento socioeconômico para lugares remotos e esquecidos, pacificar o mundo, enfim, querem ser o Superman!

É apaixonante conhecer pessoas assim, que inflam desejos de querer contribuir com o mundo, pessoas que se doam pela humanidade, mas um ponto muito crucial e frágil é o motivador de todo esse movimento existencial. Se tais vontades de super-herói são porque se sentem, de alguma forma, não merecedores, e por isso resolvem se abdicar do passado, daquilo que suas famílias construíram, acredito que o fluxo de ações está invertido e é preciso mudar a correnteza desse rio de pensamentos, acabar com esses sentimentos negativos quase que masoquistas que fizeram optar por tais carreiras de Superman, de salvadores do planeta.

Não precisa se sentir culpado, não precisa se recriminar, se maltratar, sofrer, tornar-se um mártir, porque existe a miséria, as doenças e a fome no mundo, sendo que você sempre teve um colchão, roupas e livros. Se você nasceu numa família que te possibilitou estudos e boas oportunidades, sinta-se grato como você sempre se sentiu, essa é sua característica, mas não faça dessa gratidão uma dívida.

Desejar bens, desejar consumir, desejar conhecer, viajar, não são pecados. Vocês já desenvolveram uma consciência coletiva rara. Querer sofrer para justificar seu nascimento e dar sentido à sua vida não é uma coisa legal de se fazer. Vocês, portadores do superheroísmo enrustido, são pessoas excepcionais, com um coração gigantesco e que sofrem com o que acontece no mundo, mas não queiram abraçar tal mundo, não queiram  carregar tudo e todos nas costas, senão você vai cair porque ninguém consegue suportar.

O idealismo é, em cabeças mais questionadoras, prejudicial para um convívio social. Fazer o bem é delicioso, mas entenda que não existe sustentabilidade. Sua existência, de alguma forma, agride a natureza, é inevitável a sua pegada, e tais ações neutralizadoras e compensatórias são extremamente importantes para o futuro do planeta, mas que o processo de ampliação da consciência não desestimule sua ambição, ou nem torne um Superman.

Tal herói, é ficção. Não se cobre tanto, aceite o que você é e de onde você veio, sem culpas.

Marcio Vieira


Bomba-relógio ativada

08/08/2011

Era uma vez um loiro nórdico poliglota cristão e nacionalista que, por entender que o desemprego e a crise econômica estão relacionados com a imigração de pessoas de outras culturas, resolveu mostrar seu amor à pátria ao matar dezenas jovens simpatizantes do partido da situação.

Era uma vez um bloco econômico poderoso, criado para fazer frente ao dólar, que resolveu colocar numa mesma balança diversos países, antigos rivais, hoje “parceiros”, países completamente diferentes, de economias distintas, estruturas sociais e administrativas distintas, perfis, leis, culturas e padrões distintos.

Era uma vez jovens árabes, desiludidos, desempregados, indignados com ditaduras decanas de presidentes de mandavam e desmandavam em seus países como bem entendiam, e assim, numa insustentável fúria, resolvem liderar revoltas políticas, pagando com milhares de vidas a reestruturação de democracias.

Era uma vez o crescente número de grupos paramilitares no continente africano, onde cada dia as guerras tribais, ignoradas pelo mundo rico, começam a trazer consequências cada vez piores, com massacres, crimes contra humanidade, muito facilitado pelo comércio clandestino de armas produzidas e subsidiadas por indústrias daqueles países ricos.

Era uma vez minorias (mas são milhões de pessoas) acuadas com as guerras civis em tantos países árabes e africanos, começam a debandar, fugir para o país vizinho, só que muitos vizinhos enfrentavam os mesmos problemas, e outros, de forma mais desesperada, superlotam fronteiras e navios com o sonho de cruzar o mediterrâneo e serem aceitos como exilados para ter uma vida nova naqueles mesmos países que tentaram a partir de 1999, juntos mas diferentes, serem poderosos, mas hoje enfrentam uma enorme crise.

Era uma vez milhões de jovens europeus, acostumados a ter o primeiro emprego depois dos 25 anos de idade, depois de concluir uma pós graduação e mestrado, e agora se vêm com pouquíssimas oportunidades de trabalho, se vêm desempregados, despreparados para encher laje ou limpar banheiro, algo que os imigrantes nunca recusaram, e agora vão para ruas protestar por emprego, protestar porque não têm no bolso a moeda que que nasceu com a missão de ser maior que o dólar, protestar contra a abertura para novos países do dito “poderoso bloco”, onde os mais extremos revoltados inflam ideias nacionalistas, racistas, num protecionismo sanguinário.

Era uma vez um país de cultura milenar, que se fechou por décadas, comeu capim, viveu o isolamento e misérias mas, de forma totalitária, condicionou um povo extremamente trabalhador e competitivo, e assim, com muita paciência, se preparou para ser a fábrica do mundo, antes ridicularizado por fazer calculadoras ching-ling e atualmente com pessoas altamente capacitadas, produtos de todas as qualidades, do lixo ao luxo, para atender qualquer tipo de consumidor interno ou em qualquer parte do mundo, atraindo centenas de fábricas, muitas daquele continente que tentou unir o diferente para ser o bloco global dominante e ter uma moeda poderosa, mas que agora se vê com uma cadeia industrial enfraquecida e com trabalhadores extremamente caros, insatisfeitos, com poucas oportunidades e que agora protestam sem oferecer nenhum tipo de solução.

Era uma vez um mundo completamente conectado, interligado, permitindo pessoas, antes distantes, conversar sobre tudo e todos instantaneamente, assim encontrar mentes e ideias similares, capazes tanto de construir como destruir, capazes de difundir pensamentos, muitos preconceituosos, protecionistas, nacionalistas, extremistas religiosos, raciais, homofóbicos, capazes de explodir, se explodir, atirar, matar, muito por causa de insatisfações com a crise, com o desemprego, com a recessão econômica achando que a lojinha do judeu, do islâmico, do indiano, do chinês ou seja lá de quem está “roubando” o emprego daquele que nasceu ali, filho de pessoas que nasceram ali, àqueles do tal sangue azul, que agora difundem  na internet ideologias contra a “invasão” e a mistura racial.

Era uma vez partidos políticos de extrema direita crescendo de forma preocupante naquele continente que tentou há pouco mais de uma década juntar economias diferentes, mas que de certa forma encontrou em cada país simpatizantes contrários a tal abertura social, pessoas que acham que proteger uma cultura é se fechando para as demais, pessoas antissociais, burgueses falidos e preconceituosos que não acompanharam o desenvolvimento global e agora colocam a culpa do desemprego por causa dos latinos, africanos, chineses, indianos, islâmicos e que tais imigrantes, de alguma forma, seja pela possibilidade de conseguir a dupla-nacionalidade em virtude de uma exploração de séculos destes mesmos burgueses de sangue azul, ou seja pela forma ilegal que se arriscaram atravessando fronteiras, mares, barreiras, línguas, para tentar oportunidades que pouco tiveram em suas terras natais, e agora disputam o mesmo emprego com tais europeus, muitos deles que procuram o primeiro emprego depois dos 25 anos de idade, muitos que não se sujeitam a limpar banheiros, muitos que protestam querendo 34 horas de trabalho/semana (sem redução salarial, óbvio), muitos que acham normal trabalhar apenas 1 ano para ter um ano de seguro-desemprego com 80% do salário, e assim mamar nas tetas de governos decadentes que não condicionaram o povo a ser competitivo num mundo interligado, sendo que são pessoas que sempre tiveram oportunidades, escolas gratuitas, inúmeros benefícios, mas que não desenvolveram garra para a sobrevivência, para a disputa de um emprego e, em tempos de crise, qualquer emprego, assim reclamam da tal “abertura”, exigindo, muitas vezes, mudanças racistas e radicais para expulsar os imigrantes.

Era uma vez um continente que viveu infinitas guerras em mais de dois milênios, e elas aconteceram porque estavam com algum tipo de crise econômica, impossibilitando um desenvolvimento harmonioso, impossibilitando o diálogo, e assim desenvolveram línguas próprias, culturas próprias que, em cabeças nacionalistas extremas, foram intolerantes ao diferente, e o maior exemplo foi o massacre a judeus num momento que a economia global patinava após a Crise de 29, achando que tais diferentes roubavam empregos e oportunidades daqueles “arianos superiores”, e essa histórica todos sabem como terminou.

Era uma vez um brasileiro paulista, 29 anos, filho de português e mineiro, misturado, formado, desempregado, às vezes depressivo, às vezes exaltado, hoje com remédio isso é controlado, que já viajou por mais de 20 países, morou em quatro deles, aprendeu a ser minoria, o inferiorizado, que lavou banheiro e foi garçom no continente decadente, que cortou lenha no país do dólar (nem tanto, agora) dominante, que foi até a fábrica do mundo negociar e conhecer a cultura milenar da paciência e competitividade, e que ficou descontente ao vivenciar, engravatado por meses, que a tal Organização das Nações Unidas não é tão unida e é pouco objetiva, enfim, esse paulista maluco que retornou à sua terra depois de outra experiência internacional acha que o filme, aquele com sangue, intolerância e destruição, pode se repetir naquele mesmo cenário de tantas outras guerras.

Esse mesmo paulista às vezes fala besteira, é imaginativo, porém é capaz de apostar uma empadinha de palmito que a intolerância, a crise econômica mundial, bolsas despencando, a perceptível falência de uma moeda, o aumento do desemprego, a insatisfação de jovens, o fortalecimento de redes de contatos de forma global, a facilidade do comércio de armas, a difusão de pensamentos racistas aceitos por muitos desses jovens insatisfeitos e despreparados, a crescente intolerância contra imigrantes e o extremismo religioso e nacionalista, ocorrida também no âmbito governamental, o descontrole emocional de minorias mais exaltadas, capazes de explodir e de se explodir, pessoas que depreciam a vida, enfim, todos esses pontos se somados resultarão numa previsível tragédia de grandes proporções.

Existe uma bomba relógio no mundo, principalmente na Europa, curiosamente o tal “berço da civilização”, em contagem regressiva que foi ativada pelo Homem, e cabe a esse mesmo ser vivo orgulhoso que pouco sabe viver em harmonia com a natureza e com seus semelhantes, resolver de forma racional, mudar o fluxo de ideologias e desenvolver uma consciência coletiva projetada para o futuro, aceitando recuar, reduzir, aceitando negociar, aceitando mudar alguma coisa em tais históricos princípios éticos, morais, religiosos, que hoje muito provam que estão errados.

É preciso mudar para construir outro tipo de história, quem sabe, para desativar essa nova bomba, prestes a explodir, e fazer esse mundo ser, realmente, suportável e sustentável.

Marcio Vieira


Atritos entre sonho e consciência

12/02/2011

É comum eu me pegar em assuntos viajantes, já que minha facilidade de arrancar a cabeça do resto do corpo é alta, assim acabo entrando num ‘mundo do Bob’, onde conflitos internos e questionamentos são os temas preferidos do diálogo entre meu subconsciente e aquilo que acredito que seja consciente

E o que mais me faz perder horas, sonos, às vezes dias, é o reflexo daquilo que venho fazendo na vida. Tive muita sorte em absorver experiências e conhecimentos sensacionais que, no fim, compactuam com a teoria socratiana do só sei que nada sei. E apenas agora, recentemente, me dei conta que a expansão da consciência é um círculo vicioso, sem fim, e se você for uma pessoa que se cobra muito, a tendência será, infelizmente, a frustração e o sentimento de derrota.

Este blog, propositadamente, tem como nome exatamente as consequências dos caminhos que levamos por toda esta vida, sabendo que  nossas marcas sempre estarão lá, e o que vai diferenciar é se elas serão positivas ou negativas. Neste pensamento do nosso impacto na Terra, inventaram as calculadoras ecológicas e questionários para mensurar tudo que fazemos e que deixaremos para as próximas gerações.

Eu, por vários motivos, principalmente no lado familiar e no interesse próprio, expandi minha mente visando alguma proteção socioambiental. E lá fui plantar árvores, lá fui trocar o carro pela bicicleta, tornar-me vegetariano, estudar Direito, aprofundar o lado dos direitos humanos, desenvolvimento sustentável, protestar contra governos, e outros blábláblás importantíssimos na sociedade contemporânea.

Mas o que me inquieta tanto hoje é que alguns sonhos ficaram reprimidos por parecerem imorais numa sociedade verde a qual deve lutar pela sobrevivência do planeta. Sensações, sabores, vícios que ferem a mãe natureza, neste momento, estão socialmente proibidos, mas que a massacrante maioria da população consciente faz de forma moderada, ou ‘escondida’, sei lá.

Eu fui vegetariano por dois anos. No primeiro ano, ovolactovegetariano. Não aguentei aquela vida e abri espaço para eternas paixões: comida japonesa, a bacalhoada da minha vó e jamón, que comi no segundo ano com um certo peso na consciência, ferindo minha ‘ecoconsciência’.   E durante esse tempo, nunca recusei comidas sangrentas quando eu era visita, pois considero desrespeito quando alguém faz algo com bastante carinho, e chega um vegetariano dizendo que não come.

Hoje, aqui em Genebra, por questões de economia, eu como o que está mais barato na gôndola e que seja fácil de cozinhar, visto que meu tempo está escasso, meu dinheiro, raro, e tenho objetivo de, ao menos, não ficar anêmico.  E o peso na consciência vai perdendo força, não choro mais ao mastigar um franguinho ou um hamburger congelado. O que não pode é passar fome.

O carro foi algo mais natural, colei um adesivo na bike “um carro a menos” e vamos economizar espaço e ganhar em saúde, mas por boa parte do Brasil ter uma sociedade ainda provinciana com relação ao uso de roupas mais leves em ambientes profissionais, isso bloqueia, ainda, o crescimento do uso da bicicleta como veículo.

E, neste âmbito, como é que fica meu sonho de ter uma Kombi antiga e um Fusca? Será que vou me tornar um infrator quando comprar minha kombosa? Mesmo sabendo que sua tecnologia ultrapassada faz ser um carro poluente, será que se configurará crime no momento que andar com um carro antigo ou eu, para participar da sociedade, necessito andar de bicicleta ou comprar um carro de baixas emissões?  Mas e se o carro for para 4, 5 pessoas, e eu andar no máximo com uma pessoa ao lado, deixando o banco de trás vazio, será que a mãe natureza me mandará acertar as contas com o diabo?

O fato é que precisamos, sim, criar uma consciência coletiva, sabendo que o planeta está em coma, precisa ser medicado e policiado. Sabemos que precisamos limpar o ar, a água, a terra, todos contaminados pela ação do homem.  Mas a pergunta é: será que todo sacrifício (e prazer, incluso) em tentar ser um cara bacana para a querida e apaixonante Terra, não me permitirá comer meu sushi e andar de kombi azul calcinha (ou amarela com branco)?

Poxa, eu sou um cara gente boa, Mãe Natureza! Tanto que já andei a pé ou bicicleta quando poderia ir de carro, tanta economia de energia, tantos animais que deixei de consumir, as roupas que pouco compro, hoje estou mergulhado na ONU e OIT, tentando achar as mais diversas soluções de melhorias para toda população, não só de humanos, será que a incansável expansão da consciência não permitiria eu descansar minha própria mente, sem preocupação das minhas pegadas, quando segurar o volante do meu futuro fusquinha de cor laranja?

Será que eu posso deixar minha cabeça em paz sabendo que para cada litro de cerveja que consumo, são dez de água para produzí-lo?  Gosto de cerveja, natureza, ela me faz bem, permite minha desaceleração e relaxamento. Será que posso beber sem achar que estou matando o verde? E os churrascos de no mínimo 7 horas de duração, será que o capeta vai puxar minha orelha por gostar tanto disso, de comer de vez em quando uma carninha mal passada?

Enfim, são tantos ‘serás’ que inquietam minha mente, paralizando, por muitas vezes, minhas pernas nessa jornada tão longa (mas que passa tão rápida) chamada vida. Uma vez estagnado, fico sem as tais pegadas e sem registros na vida por pensar demais. E quanto mais penso, Sócrates, fico tão maluco quanto você foi. Além de me perder, obviamente.

Não estou aqui desistindo da vida de salvador planetário. Apenas cheguei na conclusão que já tenho lá meu saldo positivo com a natureza e com a sociedade por diversos motivos: estar envolvido profissionalmente com questóes sociambientais, gostar de andar de bicicleta, gostar do verde, do mar, do vento, por recusar produtos sem selos e certificados, etc.

Mas não vou bitolar, vou assistir os filmes e ouvir cds oferecidos na internet, vou comer o rango japoronga e vou querer ter minha kombi.  Nem por isso serei um criminoso ecosocial. O que fiz foi enfiar tudo que fiz, faço e quero fazer, nessas calculadoras naturebas sem fim, e vou relaxar a cabeça porque sempre haverá alguma coisa que estou prejudicando, mas não vou passar dias em claro por isso.

O que recomendo, sei lá se posso recomendar, é que cada um expanda sua consciência, busquem conhecimento, enxergue suas próprias pegadas, seus impactos na Terra, e que faça algo para equilibrar todo esse sistema, mas sem ficar neurótico, sem deixar de sonhar, sem peso na consciência de fazer lá sua “sujeirinha” neste planeta azul. Faça de tudo para ter saldo positivo, porque hoje eu cheguei na conclusão que aumentar freneticamente o crédito não é tão importante assim quando a consciência entra em confronto com os sonhos.

É preciso relaxar nesta vida, também.


Busquem conhecimento

11/11/2010

A mais nova estrela brasileira, ou melhor, intergalática, é o  simpático extraterrestre Bilú. Um jovem ET de 4.010 anos, brincalhão, todo serelepe que conquistou o Brasil de forma bizarra, e tudo se deu graças à um grande amigo, Roberto Onaga.

Conheço o Onaga faz alguns anos, gente boa, alma do bem. É um brother que resolveu dedicar seu tempo dentro de assuntos relacionados à ufologia, transição planetária, 2012, etc.  E posso falar que nunca vi o cara consumindo drogas, o máximo foi um garrafa de Tonturinha, uma cachaça horrível que bebemos em Garopaba-SC.

E graças ao vídeo do Onaga sobre transição planetária, que foi o primeiro a citar sobre a vida do ET Bilú, toda mídia resolveu ir atrás. SBT, Record, CQC, todos foram até tal cidade do futuro atrás de informações.  Apesar de discordar de quase tudo que ele fala sobre ETs e o lado cômico disso tudo, existem questões implícitas que devem ser separadas, como o realinhamento das galáxias, calendário Maia e a ação do homem na Terra.

Os últimos anos marcaram algumas catástrofes naturais, como tsunamis e grandes terremotos. Presenciamos um clima mais quente em todo mundo, onde, dando um exemplo desta semana, foi batida a maior temperatura de Moscou para o mês de novembro.

É fato que a quantidade de problemas está aumentando, e muito se deve a ação do ser humano e seu consumo irracional, desequilibrado e desnecessário. Uma espécie que está na Terra há pouco tempo, menos de 0,1% de toda a existência do planeta, e que está, literalmente, destruindo tudo.

O mais preocupante, no entanto, é a ignorância e apatia humana daqueles que têm o poder para mudar, mas pouco fazem ou acabam chamando de “ecochatos” aqueles que andam de bicicleta, que são vegetarianos, ambientalistas, ou seja lá o que for, tudo porque é mais fácil criticar do que se desapegar.

Ser humano criou paixão por dinheiro e pelo que ele compra. É inevitável viver sem ele, mas precisa tanto apego? Apego ao novo, novo carro, nova roupa, novo celular, novo isso, novo aquilo, etc., enchendo guarda-roupas, enchendo geladeiras, enchendo o saco sem pensar.

Esta semana, num texto rápido que peguei aqui em Genebra, li a expressão “pensamento global, ação local”. Essas quatro palavras juntas dão corda para escrever uma coleção de livros, principamente no que tange os efeitos daquilo que consumimos.

O reflexo da nossa ação ou omissão é tema que poucos param para pensar. Não falo só das sacolinhas plásticas, falo de tudo, inclusive do conhecimento citado pelo ET Bilú.

Você já parou para pensar se a indústria que produz produto X respeita as leis trabalhistas? Você já viu se a soja Y ou carne S é da Amazônia? Você já percebeu que no seu carro cabem outras quatro pessoas, mas você está dirigindo sozinho? Você já pensou em comer todo seu estoque de comida antes de comprar mais só para ver quanto dinheiro tem lá parado?

O Bilú, seja um charlatão ou um ET, falou para buscar conhecimento. Levem o “personagem” na brincadeira, mas não o que foi dito. Só com a expansão da consciência e ações conjuntas é que esse mundo melhorará.

Eu sei que você sozinho não muda porcaria nenhuma, não pense que seus atos são irrisórios por significarem 0,0000000001% dos reflexos no mundo.  Pense que seus atos são 100% da sua convicção. Todo mundo quer melhorar isso aqui, mas o que precisa é das tais ações locais com pensamento global.

Convide seu vizinho para uma carona, cancele as cartas do banco, peça boletos via e-mail, evite desperdícios de papel, comida, roupa, gasolina, etc. Plante árvores, faça caminhadas se o trajeto for curto, compre só produtos com selos e certificados que protejam a natureza, o trabalhador, que façam compensação do carbono, etc.

Enfim, Bilú falou para buscarmos conhecimento! E o conhecimento está aí para todos. Saiam da caixa, olhem no seu entorno, olhem o mundo e percebam que há muito para ser feito.

Marcio Vieira