João Grilo também vota

14/10/2014

joaogrilo

A paciência, ela já foi embora faz tempo. E a próxima etapa é perder o respeito, e é exatamente isso que está acontecendo nos últimos meses por causa das eleições, principalmente porque o peso do voto é igual, independe da classe social, origem, cor… o que infelizmente causa uma ira em muita gente.

O Fla-Flu eleitoral continua, e ambos os lados estão munidos da mais poderosa arma: a tecnologia. Esta que permite eu, você e todo mundo escrever, ler, ouvir, de praticamente todos os cantos do mundo.

Alguns lugares continuam inatingíveis. É que os programas assistenciais iniciaram há pouco tempo, e famílias que passaram décadas sem eletricidade, só agora conseguiram crédito para financiar a primeira geladeira e a primeira televisão. O computador, para poder conversar conosco e discutirmos sobre o “Bolsa-Esmola” ou o “Bolsa-Vagabundo”, a maioria ainda não têm.

– Mas aonde está a meritocracia?, muitos me questionam, ao mesmo tempo que abrem a geladeira duplex de alumínio escovado para pegar uma Stella Artois trincando de gelada. Após degustar a cerveja belga, abrem algum dispositivo, o Macbook, o Ipad, o Iphone ou qualquer outro objeto de desejo com o logotipo da maça mordida para publicar aberrações, como esta:

nordestinos

Qual a necessidade de tamanho preconceito? Qual a dificuldade em ler sobre o quanto o nordeste se desenvolveu nos últimos dez anos? Deve ser muito sacrificante tentar se informar sobre como era e como está a vida do nordestino, sobre as escolas técnicas que foram criadas na região, que permitiram o nordestino em não precisar vir para “Sumpaulo” tentar a vida.

O incrível é que são pessoas que vão para Europa e Estados Unidos com frequência, e em algum momento dentro dessas viagens podem ter sofrido algum tipo de desrespeito e preconceito por ser o latino, mas mesmo assim descontam sua “superioridade” contra os nordestinos, eternamente prejulgados como um bando de pessoas como Chicó e João Grilo, retirantes motorizados por jegues.

É preciso se informar antes de rechear de fezes a sua coxinha. Seu ódio não me convence! Eu fico muito feliz ao saber que João Grilo também vota e, ao menos nisso, somos iguais.

O acesso as redes sociais permite uma burguesia desinformada ofender milhões de pessoas. O perigoso é que, quanto mais inverdades são ditas exaustivamente por mais e mais pessoas, outros começam a acreditar. Pergunto ao paulista doente:  é ciúme por ser preterido pelas necessidades dos mais pobres, toda essa sua raiva?

Se o seu voto é decidido pelas cretinices publicadas e pelo repúdio aos nordestinos, ou pelo repúdio à programas assistenciais, seja feliz dentro de sua redoma de vidros blindados, e depois me conte como foi o êxtase de comprar uma Prada em Miami. Certamente você gozou horrores.

Enquanto isso, tem gente que só quer dignidade. O Bolsa Família fomentou a microeconomia (algo que você nunca precisou conhecer), permitindo que uma pequena quantia circulasse nas camadas mais pobres da população. O resultado disso foi que o mercadinho do Zé começou a vender mais Dolly, daí o Zé comprou parcelado nas Casas Bahia um freezer maior e contratou um entregador, que no começo ia de bicicleta, mas agora ele conseguiu financiar uma Honda Biz, e não está nem aí se são 70 meses para pagar.

É impossível uma família viver unicamente com Bolsa Família. Já que existe uma preguiça para pesquisar sobre os assistidos dos programas, recomendo muito a ler qualquer artigo ou livro de Muhammad Yunus, vencedor Nobel de Economia, que fala justamente sobre o Microcrédito e os efeitos dele em toda economia, atingindo inclusive você.

Agora, se o seu voto é influenciado pela corrupção e má gestão, o ideal é separar o fanatismo eleitoral que causa cegueira para refletir sobre a falta de credibilidade dos candidatos, já que não há  transparência em nenhum dos dois lados sobreviventes, afinal, Privataria Tucana, Mensalão Mineiro, Metrô Paulista, Helicóptero do Pó não são dignos de confiança.

Ambos não me representam. Essa briga ideológica na internet é deprimente, já que as atuais alianças políticas de ambos os partidos provam que não há, de nenhum lado, coerência. No fundo, a luta não é para nos representar: a disputa sempre será pelo poder.

Sobre os programas assistenciais, iniciado com FHC e muito melhorado com Lula, irão continuar porque é um dinheiro que não prejudica em nada a qualidade do asfalto para sua SUV blindada, nem fará você se misturar com as pessoas que moram da ponte pra lá, ou pessoas do lado de lá do cordão do trio elétrico.

Sua pulserinha Vip “Dazelite”, seja azul ou vermelha, está assegurada, e você continuará com sua cerveja importada. A falta de água não parece preocupação para vocês, afinal, existe desodorante que segura a onda por 48horas! Meu único receio é faltar Dolly.

Marcio Vieira

 


Raios, não é a Dilma!

21/06/2013

Congresso

Com tantas manifestações de opiniões das mais variadas vertentes, vou transmitir a minha também.

O Brasil é composto por três poderes (Executivo, Judiciário e Legislativo) em três esferas (Federal, Estadual e Municipal). Ok, todo mundo sabe isso, ou deveria saber.

Para mim, o grande vilão, se é que se pode chamar assim (para não escrever merecidos palavrões) é o Poder Legislativo, e vou tentar explicar:

A quantidade de deputados e vereadores no Brasil é desproporcional com outras nações.

Só para dar um exemplo: os Estados Unidos (com 50 Estados) tem 529 Deputados Federais para uma população aproximada de 320 milhões de pessoas, o que dá uma média (conta burra, eu sei) de 1 deputado para cada 610 mil habitantes. No Brasil (com quase metade das unidades federativas em relação aos EUA), são 513 deputados para uma população de  200 milhões, o que resulta num número 1 deputado para cada 380 mil habitantes.

Se os EUA forem o exemplo a ser seguido, para chegar em 1 deputado para cada 600 mil habitantes, deveriam ter 333 deputados federais no Brasil, ou seja, uma redução de 35% no número de representantes, algo que se aplicaria também às casas legislativas estaduais e municipais.

A Constituição Federal limita o número mínimo e máximo de vereadores, deputados estudais e federais, portanto, é possível sim reduzir o número desses representantes, o que daria fôlego financeiro para resolver outros problemas.

Com tanto cargo, o Poder Legislativo é literalmente a casa da mãe Joana, estimulando o maior cabide de empregos do país. Só para se ter uma ideia, cada Deputado Federal pode contratar 25 assessores.  Pra que tanta gente?

No que isso resulta: troca de favores. O candidato eleito fica amarrado aos investidores de suas campanhas, tendo que agraciá-los com milhares de cargos de confiança (os não-concursados), isso sem contar as obscuras licitações.

O fato é que há muita gente para “representar” o povo, sendo que as recentes manifestações são claras: não há eficiência em tal representação visto que estão todos indignados, revoltados, com o descaso com a sociedade.

Essa quantidade absurda de cargos estimula outro grave e vergonhoso problema do Brasil: oportunidade para “Candidatos Fantoche”. Sim, são aqueles pseudo-famosos que iniciam a vida política numa lucrativa troca: o famosinho oferece sua “notoriedade”, enquanto o Partido Político explorará o tráfico de influência em votações no plenário, além dos generosos salários dos cargos de confiança.

Assim, Dep. Tiririca, Dep. Popó, Vereador Marquito, Agnaldo Timóteo, e outras aberrações políticas assumem cargos no Legislativo sem qualquer conhecimento e pior: sem qualquer motivação social para querer desenvolver o país.

Se tivermos um Poder Legislativo mais enxuto, além da diminuição dos gastos em salários, ocorrerão outros impactos fundamentais: haverá maior peso nas decisões dos parlamentares e, o primordial para hoje: as pautas serão mais rápidas, decisões mais rápidas, aprovações de reformas mais rápidas, etc.

Raios, não é a Dilma! (nem Lula, nem FHC). É o Poder Legislativo que ferra o país. O Executivo tem enormes responsabilidades, é outro lugar inchado com muita gente que não deveria estar lá, mas ele não é o maior problema para a situação catastrófica que o Brasil.

Está no Legislativo o maior buraco negro da política. Está lá o maior número de traidores de ideologias sociais, onde adoram pular de galho, mudar de partido por interesses financeiros e, por mesquinharia política, travam todo o sistema deixando de aprovar as reformas necessárias.

E se tudo fica travado, qual é o primeiro que tem o c* na reta?  O Presidente. É contra ele que a população vai se revoltar de início, mal sabendo que o Poder Executivo não decide nada sozinho. Relembre, são 3 poderes em “mãos” distintas.

Isso aqui não é uma Ditadura!!! E espero que não se transforme, apesar da intenção de muitos que estiveram nas passeatas pregando discursos de extrema direita que incluía até Golpe de Estado.

O presidente é eleito por maioria de votos. É um claro exemplo de respeito à democracia, observando o interesse da maioria da população. Diferentemente do Legislativo, com tantas regras de eleição ultrapassadas e protecionistas.

Eu sou muito favorável na redução do número de parlamentares nas três esferas em pelo menos 25%. Sou completamente favorável em cortar todos os auxílios que os parlamentares desfrutam. Sou a favor de todos os parlamentares serem obrigados a bater cartão e cumprirem metas. Não cumprindo, que seja demitido, assumindo o não-eleito com maior votação.

Sou favorável também em proibir candidatos muito votados possam eleger outros da mesma legenda que tiveram poucos votos. Enéas fez muito isso, Tiririca fez, Clodovil e tantos outros, dando cargos políticos para pessoas com pouquíssimos votos. Oras, com poucos votos, fica claro que o eleito não tem representatividade com o povo.

O país está em crise, e é preciso cortar gastos. Dinheiro há, e há muito, o que falta é direcionar para as necessidades, e devendo cortar gastos com tanto político que não tem nenhum compromisso com o desenvolvimento do país.

É assim em qualquer momento de crise em empresas ou na própria casa de cada um.  Se a coisa vai mal, diminuir gastos é fundamental. Corte de empregos nas empresas infelizmente é natural e, quando atinge a própria casa, corta a tv por assinatura, deixa de ir ao cinema, deixa de comprar pizza às 4as., cortando assim o supérfluo.

Pelo que eles fazem hoje, considero uns 200 deputados federais, no mínimo, supérfluos à sociedade.

É preciso limpar, mas respeitando a democracia e o pluripartidarismo que temos hoje.


O Calheiros de cada um

07/02/2013

renancalheiros

Todo esse ânimo exaltado das pessoas indignadas (infelizmente só nas redes sociais) por causa da eleição de Renan Calheiros à Presidência do Senado me fez pensar um pouco mais, saindo da superficialidade do tema.

É muito fácil apontar o dedo para as outras pessoas, e é muito difícil cutucar a própria ferida. Por um único motivo:  cutucar ferida dói, limpar a sujeira debaixo do próprio tapete é trabalhoso, o que faz a maioria é deixar a vida passar rapidamente com essas coisas escondidas para ninguém ver. Para ninguém julgar.

Só quando a ferida sangra é que fica visível. Só quando a sujeira aparece todos enxergam. Quando o ladrão é pego, é preso. Quando o corrupto é desmascarado, pela sociedade é julgado.

– “Oh, os políticos mais corruptos do mundo afundam o próprio país”, chorarão uns.

E depois apontam à tais engravatados de Brasília o motivo do “Brasil não ir pra frente”. Sim, eles têm culpa no cartório, na delegacia, na justiça e na pqp, porém não tem culpa pela flacidez da bunda da população de tão acomodada que é. Deve-se tirar o cabresto porque o buraco é mais embaixo!

É muito fácil ser santo na vida, afinal, todos são até o dia que fizerem a merda besteira, correto?

Não, não é quando cai a auréola acima da cabeça que deixa de ser santo. Infelizmente deixa-se de ser anjo quando a casa cai e a coisa vem à tona. É quando você fica nu.

Cada um sabe o tamanho do Calheiros que tem dentro de si. Eu, por exemplo, refleti sobre meus e, num deles, o que considero mais grave, resolvi mudar de atitude: parar de dirigir após beber álcool.

Tenho sorte de nunca ter perdido alguém próximo, vítima de acidente por causa de bebida alcoólica (seja culpado ou vítima), e não consigo imaginar o tamanho da revolta que deve ser quando se perde alguém por culpa de motoristas alcoolizados. Já cheguei aos 30, e há pelo menos uns 4 anos não vejo graça nenhuma em ficar bêbado.

Sim, sou chato.

Eu nunca me arrisquei dirigindo com álcool no sangue em outro país. Medo de ser preso, de pagar caríssima fiança, medo de matar, medo de morrer.  Por que no Brasil tem que ser diferente? E quando dirigia depois de beber?

Eu voltava bem devagar pois, se desse merda, seria merdinha. Um parachoque, um amassado pequeno, sempre imaginei que não passaria disso. Ainda bem que nunca me envolvi em acidente depois de beber, pois esse é um assunto muito grave, muito mais que corrupção de covardes como Renan Calheiros, afinal, envolve a vida.

50km/h pode derrubar um ciclista que na queda pode morrer. 40km/h pode atropelar um pedestre e pode matá-lo. A merdinha seria comigo, não com os terceiros.

Dirigir bêbado é crime, e não quero desperdiçar minha vida nem das pessoas queridas do meu convívio.

Pensando no Paulo Maluf que cada um carrega, decidi parar de dirigir após beber. Se vou cumprir ou não, o tempo dirá, mas vou me esforçar para cada dia ser uma pessoa melhor, e eu sei que tenho muito ainda que melhorar.

Há outros tipos de Calheiros correndo no sangue de cada um, de não pedir nota fiscal em todos os estabelecimentos, de comprar produtos de origem duvidosa, de pedir “jeitinho” para o Contador na hora de declarar a renda, subornar fiscal, subornar policial, comprar droga, consumir droga, etc. São infinitos Calheiros e cada um sabe o peso disso.

Gandhi eternizou “seja em você a mudança que quer para o mundo”, e cabe a cada um refletir sobre seus atos. Apontar o dedo para o erro dos outros é muito fácil. Ficar indignado pelo desvio de centenas de milhões de reais também é muito fácil.

Mas e os seus próprios atos, conscientemente praticados de forma errada, desigual e até criminosa?  O que vai fazer?  Continuar do jeito que faz e, ainda assim, lutar e reivindicar por “Justiça Social”?

Incoerente, né?

A corrupção de cada um da população é o combustível que alimenta e justifica os crimes dos políticos.

Ninguém precisa apontar o dedo para mim, eu mesmo posso fazer isso pois só eu sei bem o tamanho dos Calheiros que carrego dentro da minha consciência, mas quero arrancar um por um por um único motivo: evolução.

Se eu não sou a mudança, e se eu não faço a mudança acontecer, e se eu não começar em mim o que quero para o mundo, qual sentido disso tudo?  Ou você pensa que o mundo precisa estar lindo, cheiroso, limpo justo e honesto para você começar a mudar os seus próprios hábitos?

Se você gasta tempo mostrando indignação por causa de outras pessoas, você tem tempo mais que suficiente para olhar para dentro de você.

 

Marcio Vieira


Nós corruptos

20/06/2012

Ontem chovia, levei 1h15 para dirigir 20km, num horário (20h00), teoricamente, fora do caos. Encontrei amigos, bebi, minha parte em cervejas foi de  três garrafas de 600ml, e voltei para casa tranquilo, sem medo. É que, com chuva, não há blitz, para felicidade da nação.

Quando bebo, dirijo bem devagar, pois, se der merda, será uma merdinha. Viva o jeitinho, os “inhos” dos brasileirinhos que adoram diminuir as responsabilidades.

Acredito que exista alguns milhões de brasileiros que pensam como eu: são pessoas que tem medo da multa, da apreensão do automóvel, da dor de cabeça econômica que isso vai custar. Autoconfiança achando que dirige bem. O medo de causar acidente, matar e morrer, ficou secundário. A vida é secundária no Brasil.

Algumas horas antes, por volta das 16h, comprei de um vendedor de rua quatro caixas de morango por dez reais. Desses que estacionam o caminhão em qualquer ponto para vender. Nota fiscal? Garantia que os morangos não estejam envenenados ou foram colhidos por trabalhadores semi-escravizados? Registro em carteira de trabalho do ajudante? Isso tudo é secundário. Brasileiro é secundário. O importante era ter os morangos.

Ontem dificultei um pouco mais o Brasil. Poderia ter comprado o morango no supermercado por 16 reais, poderia ter gasto mais de cem reais de taxi (ida e volta), ou 6 reais de transporte coletivo (mas que levaria, pelo menos, 2h30 para chegar).

Só que, se é para ficar 2h30 no trânsito, ou se é para gastar 100 reais de taxi, não vou. Fico em casa, e deixo de gastar 42 reais. Deixo de rever alguns amigos, e daí eu vou para o computador fazer o download de algumas discografias de bandas ou filmes clandestinamente.

Se eu fosse um brasileiro bonitinho, teria gasto, entre morangos e cervejas, uns 200 reais. Mas não sou bonitinho, tenho consciência da minha pegada destrutiva.

O quanto você, caro leitor, atrapalha o Brasil?

Discute-se na Rio+20 a pegada ecológica da população mundial, os desafios de uma economia sustentável, etc. Mas e a sua “pegada corruptiva”, qual o nível dela?

Qual o tamanho da sua corrupção, da sua sonegação, o quanto você contribui para o caos, o quanto você contribui para o Brasil ser o que ele é?

Foi para Miami e trouxe Ipad, Imac, Iphode e não declarou nada? Ultrapassou os U$ 500.00 de cota e ficou quietinho? Dirigiu bêbado? Não pediu nota fiscal para comprar pão ou cerveja? Foi na 25 de Março comprar um novo rádio para o carro? Comprou guarda-chuva do camelô? Pediu nota fiscal? Tem garantia? Esse produto chegou como? Molharam o bolso do fiscal no porto que verificou o container?

Arrombaram meu carro para furtar o estepe. A concessionária cobrava 350 reais. Fui num borracheiro e comprei um por 90 reais. Nota fiscal? Procedência? Esquece. Fui a vítima, tenho “direito” de comprar produto roubado porque fui roubado?

Comprou drogas? Sabe por quantas pessoas isso passou até fazer efeito na sua cabeça? Quantos crimes? Quantas mortes? Quantos policiais e tiveram seus silêncios comprados? Quantas famílias despedaçadas, uns presos, outros viciados.

Enrola no trabalho lendo essa besteirol que escrevi? Faz acordo com o chefe para receber parte do salário “por fora”? Comprou aparelho para desbloqueio de canais de televisão à cabo? Declarou a venda do seu apartamento por menos para não pagar tanto com lucros imobiliários?

Sua declaração de Imposto de Renda é 100% honesta? Existe 90% honesto? E parcialmente honesto?

Eu, tu, eles, nós financiamos a informalidade. Eu, tu, eles, nós contribuímos para essa quantidade monstra de impostos existir porque eu, tu, eles, nós buscamos brechas para pagar menos ou, melhor ainda, não pagar. Eu, tu, eles, nós atrapalhamos o desenvolvimento do país porque a maioria adora ser malandra.

Uns mais, outros menos, raros são os que estão fora disso. E ainda assim queremos reclamar. Eu, tu, ele, nós achamos no direito de reclamar da corrupção. Nós corruptos não desatados que emperram isso aqui de funcionar.

Apontar o dedo para os eleitos é fácil. Eles têm diversas responsabilidades pelo que se vê, menos uma: eles não são responsáveis por seus hábitos. Reflita sobre seus atos, e calcule o seu impacto.

Que exemplo é dado para o futuro? O que serão as crianças?

Mude os hábitos e, quem sabe, daqui 20, 30, 40 anos, eu, tu, eles, nós mudaremos o país.


Pá Pá Pá entre Plim Plim

14/11/2011

 

Um grande batalhão

helicóptero, caveirão

Claquete… Ação

Na TV, no plantão

 

Os heróis ressurgiram

outro morro subiram

bandidos não reagiram

castelos descobriram

 

Agendaram data e hora

No script, sem demora

Para ninguém perder

E para ninguém prender

 

Hastearam a bandeira, filmou?

Será que o telespectador gostou?

Mas nenhum sangue jorrou

A prévia, horas antes, Galvão narrou

 

O caos vende, dá lucro

A pessoa se rende, compra o produto

Não a droga do morro, o ilegal

Mas aquele que passou no comercial

 

A população está indignada

com a mansão levantada

pelo custo da erva e do pó

pela lei de matar, sem dó

 

Leblon, Barra, Projac

Playboy fuma e cheira

Para o pobre sobra o crack

Todos usam, população inteira

 

A culpa é da polícia, uns dirão

A culpa é do governo, reforçarão

A culpa é da família, replicarão

Ou culpa é a falta de Deus, perdão

 

Não querem acabar com essa tragédia

Não é bom a bala perdida dar trégua

Fantástica televisão, há influência

Povo não questiona, muita audiência

 

Plim Plim e a lavagem começou

Pá Pá Pá, o choro se escutou

Uns ao vivo, no conforto da poltrona

Outros mortos, é de chumbo a azeitona

 

Tudo arquitetado, minuciosamente pensado

Tudo para agradar o eleitorado

No horário nobre, televisionado

Só com Tropa na TV morro é pacificado

 

Ipanema, Jardins, Pampulha, Morumbi

Moinhos do Vento, Boa Viagem, Copacabana

Batel, Barra, Lago Norte, Itaim Bibi

É daí que surgiu tudo, vem daí a grana

 

Sem medo para pedir droga, há nextel

Entrega rápida, até na claridade do céu

Aviãozinho empregado, nike no pé

Sobrevive quem não é X9 do Pajé

 

Domingo tem sol, futevolei, ver o mar

Final da tarde enrola um para queimar

Fantoches são Nem, ADA, CV e Beira-Mar

A indústria atrás do estúdio não serve só para gravar

 

Audiência, nunca serão, jamais serão

Nascimento é produto de eleição

Financiado por engravatados, empreiteiras

Acorde!, isso tudo não é brincadeira

 

Cuidado é pouco com a platinada

População pode estar viciada

Sensacionalismo, mente domesticada

Logo chega a Copa, corrupção justificada

 

Marcio Vieira


O verdadeiro homem-bomba

08/12/2010

Há cerca de um mês tentei entrar na ONU, aqui de Genebra, para assistir Julian Assange apresentar documentos comprometedores os quais os Estados Unidos violoram Direitos Humanos nas invasões ao Iraque e Afeganistão.

Muita gente na porta, burocracias, então fecharam apenas para jornalistas credenciados e um monte de diplomatas engravatados, tensos, afinal, não há raio-x para parar o fundador do Wikileaks, o verdadeiro homem-bomba que mudou definitivamente as relações diplomáticas entre Estados.

Algumas semanas depois, e nova chuva de documentos. Esta, uma chuva ácida, corrosiva, capaz de deixar nú os que não sabiam nem abaixar a cabeça: os líderes que sobem em palanques sorrindo, mas suas canetadas provaram o contrário.

Nos próximos meses, dezenas de livros acerca da nova diplomacia serão publicados, afinal, um novo marco zero foi estabelecido. A figura da sala fechada, a mesa redonda, e planos ultrassecretos foram dilacerados. Se antes as paredes tinham ouvidos, com as emblemáticas e até folclóricas figuras de corruptos e espiões, agora o Wikileaks implodiu tudo usando a maior arma existente: a palavra, associada à velocidade da internet.

Não se pode confiar em ninguém mais para guardar segredos e mensagens ‘top secret’, afinal, tudo está escancarado, e esse é o ponto de partida da primeira linha do novo manual da diplomacia a partir de agora: tudo é para todos, livre e aberto.

Mas, por séculos, a diplomacia insistiu em ações obscuras, então não precisaria de muito tempo para perceber que, quando se esconde, é porque estão fazendo algo de errado. Assim, bastava deixar as cobras soltas porque o instinto ganancioso causaria, cedo ou tarde, esse nó coletivo, um emaranhado de corrupção e sujeira.

Governantes, Chefes de Estado, Diplomatas, esta é a Era da Transparência, onde deve-se entender que vocês são apenas representantes, não donos. Não se deve procurar motivos para encobrir planos mirabolantes sobre a economia global, e nem venham com a desculpa de proteção ao terrorismo, afinal, o terror é uma dissidência da espionagem, criada por vocês, caros diplomatas.
Julian Assange, fundador do Wikileaks

Para os governos acostumados à invasão de computadores e dados pessoais e bancários de milhões de pessoas, o sabor do próprio veneno é um tanto quanto indigesto, onde a ganância, ao longo de décadas, imperou na formação e atuação dos líderes da política global. O preço do descrédito, da repulsa, será contabilizado agora, não antes das últimas tentativas de repremir a informação, já que multinacionais historicamente beneficiadas por governos de todo mundo, literalmente com rabo preso, tentarão bloquear o acesso às informações.

Assange colocou em xeque a figura do Estado e sua real importância. A confidencialidade estimula o belicismo, a apologia a guerra, consequentemente, a violência generalizada, impedindo concentrar os investimentos no desenvolvimento de uma civilização consciente, justa, moderna.

Já disse algumas vezes que “a maior prova da decadência do ser humano é o crescimento do mercado dos advogados, já que as pessoas não conseguem mais conversar, se entenderem de forma pacífica, e precisam buscar ‘meios legais’ para defesa de (supostos) direitos”, e o principal responsável por esse buraco é o Estado, que semeia a discórdia e corrupção.

A criatura dominou o criador, e Estados perderam o controle do barco chamado Terra, que está à deriva, e isso se deve à existência de almirantes que brigaram por séculos para por suas mãos no timão, utilizando os meios mais sujos e sanguinários existentes.

Wikileaks escancarou para bilhões de pessoas o quão podre, atrasada e burra é a Diplomacia Internacional, que ao invés de lutar por questões socioambientais relevantes, contabilizam prejuízos de trilhões por causa da “Indústria do Medo”, criada por eles mesmos.

Ao invés de tentar consertar os destroços do homem-bomba Julian Assange, tais líderes da geopolítica mundial deveriam compreender a derrota e começar do zero, com pessoas novas que não tem medo da transparência nas relações. Muito pelo contrário, deve-se usar a transparência como ferramenta para unir e desenvolver a sociedade.

E, Estados, não sejam infantis ao ponto de limitar os passos do Wikileaks. Outros seguidores, espalhados pelo mundo, vão continuar tirando máscaras dos vossos rostos. Não tenham medo, afinal, quem não deve, não teme. Não é?

Marcio Vieira


Verde não é transparente

25/10/2010

"Não sejamos neutros", Elie Wiesel

Semana passada tive a oportunidade de assistir uma palestra de Elie Wiesel, Nobel da Paz em 1986. A palestra na Universidade de Genebra contava também com José Manuel Durão Barroso, ex-presidente de Portugal, e ambos falaram sobre Direitos Humanos.

O ponto que mais me chamou atenção foi a crítica que o escritor romeno fez à tradicional neutralidade da Suíça com relação às guerras, invasões, e destruições que marcaram toda Europa no último século.

Ele disse que, quando o objetivo é a paz e o desenvolvimento por uma igualdade social, não se deve ficar calado ao ver mortes, ao ver crimes, ao ver desrespeito às leis e desrespeito ao próprio ser humano.

Logo após o evento, criei um paralelo com a decisão do Partido Verde no segundo turno das eleições presidenciais, que divulgou sua independência em relação aos presidenciáveis.

20 milhões querem mudança

Marina Silva conquistou quase vinte milhões de eleitores, cerca de 1/5 do total. É muita gente que acredita numa terceira via diante dessa incoerente polarização partidária que vive o Brasil nos últimos anos. É muita gente que acredita que o Brasil pode avançar mais com pessoas engajadas e atualizadas. É muita gente que está de saco cheio de tantos escândalos e corrupções.

A impunidade desestimula eleitores, e a obrigatoriedade do voto dá mais forças ao continuísmo da sujeira que se formou em Planaltos, Palácios e Poderes.

Mensalões do PT e DEM, compra de votos para reeleição, dinheiro na cueca, propinas em privatizações, hidrelétrica mal projetada, pedágios, empresa do filho do presidente, absolvição de Renan Calheiros, os 40 petistas, Sudam/Sudene, etc etc etc…

Foram dezesseis anos de incontáveis escândalos que resultaram em nada: Genuíno, Palocci, Eduardo Jorge, Zé Dirceu, Renan Calheiros, e outras dezenas de políticos continuam saboreando suas pizzas, enquanto a população, apática, pouco reclama.

E são em momentos de crise que realmente transparece a índole de cada indivíduo. A debandada de alguns ex-petistas como Marina Silva e Eloísa Helena mostrou que caráter não se compra. Mercadante, se mantivesse sua posição de sair do PT quando estourou a crise no partido, estaria nesse seleto rol de honestos, mas sua covardia e seus escusos interesses mostraram que também faz parte da velha corja de políticos.

Dois ciclos de oito anos repletos de corrupção se passaram, e cá estamos, faltando poucas semanas para decidir qual fantoche será empossado. Se a luz verde diante de tanta lama não foi suficiente para este ano, sua decisão de independência foi aquém das expectativas.

Calar-se  é, de certa forma, abaixar a cabeça para a gravidade de ter dois partidos com comprovadas administrações corruptas que tomarão conta de centenas de bilhões de reais nos próximos anos.  E nisso, a lúcida mente de Plínio de Arruda Sampaio foi mais convicta que o Partido Verde ao dizer que vai anular o voto. É a forma que ele encontrou de mostrar toda sua insatisfação e raiva com o atual sistema político brasileiro.

Ao invés de pregar uma apática independência, Marina Silva poderia ter sido mais incisiva e mais agressiva. Ultrapassam vinte milhões de votos (PV e PSOL somados) àqueles que querem uma mudança significativa.

A neutralidade do PV foi semelhante à secular neutralidade suíça que Elie Wiesel criticou. Não se pode ficar quieto, independente, dentro de um mundo de injustiças e corrupções. É preciso protestar de forma contundente e ser mais agressivo ao expressar sua insatisfação.

Há uma enorme diferença entre dizer “não” e ficar calado. Verdes, se realmente desejam ficar maduros dentro da política nacional, não sejam incolores ou transparentes.

Marcio Vieira