Comanda para o Inferno

28/01/2013

comanda

Muito se falou e muito se comentou sobre a tragédia ocorrida em Santa Maria. Em 99% dos casos de graves acidentes, nunca um fator isolado é capaz de provocar tantas mortes, e o ocorrido na Boate Kiss segue a regra de muitas falhas, erros e crimes que, somados, mataram mais de duas centenas de pessoas. É muita gente.

Não vou nem tocar no assunto de serem jovens, cheios de futuro na vida, etc e tal, não vou citar a corrupção de diversos órgãos de fiscalização, muito menos acrescentar o coro de que os responsáveis devem pagar civil e criminalmente. Essas pessoas que trabalhavam na famigerada boate estão fodidas (com o perdão, mas nem tanto, da palavra).

Essa gente toda já morreu, e deve-se respeitar as famílias, principalmente não mostrando imagens dos mortos. Agora, é preciso aprender com a tragédia e levantar possíveis soluções para isso nunca mais acontecer.

Resolvi escrever este texto para tentar apresentar uma simples sugestão de mudança da “cultura brasileira” em boates, bares e afins, e o assunto central será a Comanda do cliente.

Quando morava em Genebra, Suíça, trabalhei numa casa noturna como bartender e às vezes ficava na entrada, e ali aprendi muita coisa. O lugar era um inferninho de dois andares, cabiam umas 200-250 pessoas, e só tinha uma porta, e pequena, igual à Kiss. Mas o principal estava no fluxo/escoamento das pessoas: era muito rápido, todos iam embora sem fazer grandes filas.  O motivo disso é a ausência de comanda.

No Brasil todo lugar te dão comanda, e no final, resta ir para o caixa e pagar o que consumiu (e muitas vezes discutir erros ou malandragens da casa).  A grande maioria na Europa não têm comanda, nos Estados Unidos também não, em Hong Kong, idem (digo dos lugares que conheci). Sempre que for querer alguma bebida, paga-se na hora sem deixar acumular, sem “conta”, sem “comanda”, etc.

Dá mais trabalho? Depende. Demora-se um pouco mais para beber, mas o lado positivo é que você nunca terá conflitos/erro do garçom para falar o que consumiu ou o que deixou de consumir e o principal: quer sair, sai e ninguém vai encher seu saco exigindo um cartão ou papel carimbado “PAGO”.

Segurança nenhum vai te segurar, e esse é o erro no Brasil.  Aqui, um brutamonte engravatado, muitas vezes impaciente e truculento, estufa o peito e exige tal papel. Em outros países, não! Afinal, tudo que você consumiu, você pagou na hora de consumir! Muito mais fácil, muito mais honesto!

E por causa desses seguranças, segundo relatos de testemunhas, demorou o escoamento das pessoas. Não culpo totalmente os seguranças, pois é responsabilidade deles verificar a porrinha do cartãozinho “PAGO”, mas culpo a falta de raciocínio em perceber o caos que aquelas portas fechadas causaram.

O controle de saída cozinhou muitas pessoas, a comanda transformou em inferno a casa noturna. Poderia, não digo totalmente, ter diminuído drasticamente o número de mortos na tragédia gaúcha se um outro sistema de cobrança fosse estabelecido, deixando as pessoas livres para saírem a hora que bem entendessem, de preferência com portas escancaradas.

Marcio Vieira

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Malditos kebabs!

23/04/2012

Ódio aos imigrantes

Irônica (e preconceituosa) sociedade, que batiza extremistas de turbante de terroristas e, ao mesmo tempo, outras pessoas, muitas de cabelos dourados, são denominadas, simplesmente, extremistas.

O branquelo de olho azul vai passar por exame psiquiátrico, afinal, não pode ser são o Sr. Breivik, culto, poliglota, que planeja, e mata, 77 pessoas. Porém, é terrorista um Mohamed qualquer, que não pode andar de mochila pela Europa sem ser revistado por policiais assustados, despreparados, pois toda a Europa vai pensar que tem uma bomba pronta para explodir.

E, se realmente tiver uma bomba, polícia nenhuma vai impedir dele se matar e levar algumas dezenas junto. Enquanto o muçulmano enrolado em panos transparece seu ódio ao querer defender sua própria religião, que é historicamente alvo de ataques preconceituosos, o bonitinho norueguês pode comprar armas pesadas sem a desconfiança da sociedade, afinal, no máximo, ele é um louco.  Terrorista é o barbudo de cara fechada.

Campanha do partido nacionalista Suíço, que quer expulsar as ovelhas negras (imigrantes) do país

Só que o nórdico extremista fez o que muitos, hoje milhões de europeus, pensam em fazer:  não a matança sanguinária, mas sim o controle da imigração. Basta ver os 18% de votos que a extrema direita recebeu nas eleições francesas no último domingo. É muita gente que não quer dividir espaço com negros, árabes e latinos. A minoria, em crise e época de sobrevivência, vira o alvo de ataques e campanhas políticas.

Mas em domingo de eleição, com cédula na mão, sai dali o que a Europa está pensando em anos de crise e desemprego. Concorrer com imigrantes na seleção de um emprego, só porque o desgraçado brasileiro ou argelino conseguiu um passaporte comunitário deve doer no orgulho do povo dominante, e como ninguém vai ver em quem se vota, Hitlers contemporâneos viram notícia.

A extrema Direita cresce

No entanto, ninguém assume. Quantos de vocês conhecem quem votou no Maluf e assumiu isso? É a mesma coisa na Europa: ninguém assume porque o voto é secreto, mas ontem, na França, mais de cinco milhões de pessoas votaram na Le Pen.

A extrema direita cresce, e assusta quase que proporcionalmente ao crescimento das taxas de desemprego.  Ultrapassada, não se produz mais na Europa porque o custo do trabalhador é altíssimo, então indústrias foram para China produzir.

O grande erro do europeu é achar que a cadeia econômica baseada na prestação de serviços, principalmente o turismo, sustentaria toda a economia. Espanha foi para o brejo por achar que ficou rica de uma hora para outra, sem ter uma cadeia industrial competitiva e abrangente.

Mas calma, Europa, ainda não é o fim do poço que justifique votos em desespero e ódio. Quando o mundo voar em avião Made in China sem medo, aí vocês estarão lascados. Por enquanto são computadores e outros eletrônicos, mas cabe lembrar que há menos de duas décadas era apenas àquelas calculadoras bizarras.

Encontro de terroristas?

E vocês da direita nacionalista europeia querendo apontar o dedo para o barbudo que clama por Alá, ou para o latino que esquenta a barriga no fogão sem reclamar?  Esperava mais inteligência, pois. O Alemão pagou uma multa chamada Hitler, e hoje tem uma indústria diversificada que atingiram a excelência na produção de bens de consumo. É a forma de proteger empregos na globalização, de lacunas em leis trabalhistas, salários mínimos injustos e concorrência desleal (subentenda China): qualificar a cadeia industrial e produzir com alta qualidade protege emprego, protege o país e protege economia, não dando margem para crises que desencadeiam teorias preconceituosas.

Pensa num carro bom, numa ferramenta boa, ou num remédio bom. Quando o mundo comprar na farmácia um remédio chinês, só aí a Alemanha vai quebrar. Mas isso não vai acontecer quando um país se renova e cria novas tecnologias e soluções.

Merkel aprendeu a conviver com Kebab

Não são os imigrantes que roubaram empregos na França. Foi o Japão, depois Coreia do Sul e, agora, a China, que se qualificaram para entregar um produto de melhor qualidade, feito há milhares de quilômetros de distância, por um preço competitivo.

A dinastria Le Pen quer tirar o kebab das ruas para proteger a baguete com queijo brie, assim como Hitler, que não perdoava e não comia guildene. Mas como o ódio se adapta facilmente, se estivesse vivo, Hitler também não comeria kebab e também exterminaria gays, africanos, latinos, tudo que for miscigenação que atrapalhasse seus planos nacionalistas.  Malditos Kebabs!

18% dos franceses se incomodam com imigrantes de pele mais escurecida. Assustador, o número. É muita gente querendo expulsar as minorias étnicas e religiosas, ao invés de, simplesmente, modernizar pensamentos e conviver com a mistura, encontrando inclusive oportunidades de negócio. Do contrário, novas guerras, não serão surpresa.

Malditos Kebabs!


Euro: sem vinhos para o bon vivant indignado

17/11/2011

Não deu, Euro. No começo a ideia parecia boa, uma moeda única para mais de uma dezena de países, para facilitar o comércio interno, para ser uma opção ao dólar em reservas cambiais, para equiparar economias e todas, juntas, se fortalecerem.

Em poucos anos, países como Espanha, Portugal e Grécia ficaram ricos. Propriedades inflacionaram, preços subiram, prestação de serviço cada vez mais cara. Era a chance dos imigrantes latinos e africanos conseguirem bons empregos lavando pratos e carregando cimento nas costas.

A maior burrice dos emergentes europeus foi não criar uma cadeia econômica sustentável, achando que o país sobreviveria com prestação de serviços, como o turismo. Um erro grotesco que inflacionou o consumo interno sem criar riqueza, achando que suas praias no Mediterrâneo são as maiores riquezas, afinal, o bon vivant europeu gosta de bons vinhos, boa gastronomia, clima ameno no inverno e farra no verão.

E vendo tudo isso, o pessoal do norte, o alemão que recebeu uma educação militar, rigorosa, apertava parafusos, pensava, trabalhava, suava e criava. Alemanha criou riqueza para depois consumir serviços. A Alemanha tem indústria: Automobilística, Farmacêutica, Ferramentaria, Química, entre outras que são a referência global, e todas essas possuem uma cadeia de produção enorme que gera milhões de empregos.  Quando o mundo falava que sustentabilidade é abraçar árvore, o alemão criava conceitos, uma nova indústria, um novo setor.

Enquanto Alemanha criava necessidades e soluções para o mundo, o sul achava que estava tudo bonito, afinal, o Euro é de todos, diziam, a riqueza é de todos!  Deixem os branquelos trabalharem que eu abro aqui meu vinho, só vou buscar meu primeiro emprego depois que terminar meu mestrado.

Mas a garrafa do vinho secou, bon vivant. Tirar Zapatero agora com 22% de desemprego na Espanha não resolve, são jovens gregos quebrando tudo nas ruas até mudarem de líder, são italianos revoltados com a putaria de Berlusconi, e o português é puxa-saco de espanhol, não sabe nem do que reclamar.  Não adianta falar que tem Ibiza, Algarve, Mikonos, Riviera, etc., querer ter vida de rico e confundir com o resto do país.

A boa vida na última década era uma maravilha. Ficaram ricos em poucos anos e sinto em dizer que a maioria vai perder tudo em menos tempo ainda. Não adianta botar a culpa nos poloneses, tchecos, só porque eles trabalham mais horas sem reclamar, aceitam limpar banheiro pela metade do seu salário.  Bon vivant gosta de reclamar, fazer greve sem apresentar soluções coerentes e contextualizadas. Lutar por justiça social!  Ora, isso é lindo, mas que tal arregaçar as mangas um pouco?

As pessoas se acostumam rápido com a riqueza, esquecem o que passou no passado, não enxergam que o milagre da riqueza era fictício, e agora querem ir para rua protestar, ocupar! Marchemos, Indignados! Marchar por o quê? Querem poder comprar uma pata negra no natal? Querem abrir um chardonnay ? Querem o quê, especificamente?  Vocês tiveram mais de dez anos para criar riquezas, mas só inflacionaram o que tinham antes, e agora que há concorrência no mercado de trabalho europeu e somado o crescimento da qualidade das indústrias na China, vocês se vêm sem esperança.

Não adianta ir para rua reclamar da igualdade de países, sendo que vocês foram os primeiros a gostar da farra do Euro.  Não tem mais vinho, e tão cedo não vai ter. A derrocada europeia só está começando.

A zona do Euro está em coma, vai morrer e precisa morrer para voltar ao que era antes. Quem aproveitou a oportunidade para construir riqueza, como holandeses e alemães, não vão sofrer tanto. Não adianta por culpa no chinês, no polaco ou no brasileiro que roubaram seus empregos. Afinal, vocês pouco se importavam com subempregos, achavam que limpar privada é coisa de imigrante.

A partir de agora iniciará um canibalismo na Europa. Crises aparecem primeiro naqueles mais fracos, e serão esses os primeiros a morrer.  Estima-se que 25 milhões de pessoas entrarão na condição de pobreza na Europa nos próximos anos. É muita gente que bebeu muito vinho e comeu muito queijo de frente para o mar e agora irão para a fila do restaurante popular.

O cachorro, sem comida, vai morder o próprio rabo. Resta torcer para que tal canibalismo não vire uma guerra explícita, não só de palavras. O que não me surpreenderia se ocorrer.

Marcio Vieira


Bomba-relógio ativada

08/08/2011

Era uma vez um loiro nórdico poliglota cristão e nacionalista que, por entender que o desemprego e a crise econômica estão relacionados com a imigração de pessoas de outras culturas, resolveu mostrar seu amor à pátria ao matar dezenas jovens simpatizantes do partido da situação.

Era uma vez um bloco econômico poderoso, criado para fazer frente ao dólar, que resolveu colocar numa mesma balança diversos países, antigos rivais, hoje “parceiros”, países completamente diferentes, de economias distintas, estruturas sociais e administrativas distintas, perfis, leis, culturas e padrões distintos.

Era uma vez jovens árabes, desiludidos, desempregados, indignados com ditaduras decanas de presidentes de mandavam e desmandavam em seus países como bem entendiam, e assim, numa insustentável fúria, resolvem liderar revoltas políticas, pagando com milhares de vidas a reestruturação de democracias.

Era uma vez o crescente número de grupos paramilitares no continente africano, onde cada dia as guerras tribais, ignoradas pelo mundo rico, começam a trazer consequências cada vez piores, com massacres, crimes contra humanidade, muito facilitado pelo comércio clandestino de armas produzidas e subsidiadas por indústrias daqueles países ricos.

Era uma vez minorias (mas são milhões de pessoas) acuadas com as guerras civis em tantos países árabes e africanos, começam a debandar, fugir para o país vizinho, só que muitos vizinhos enfrentavam os mesmos problemas, e outros, de forma mais desesperada, superlotam fronteiras e navios com o sonho de cruzar o mediterrâneo e serem aceitos como exilados para ter uma vida nova naqueles mesmos países que tentaram a partir de 1999, juntos mas diferentes, serem poderosos, mas hoje enfrentam uma enorme crise.

Era uma vez milhões de jovens europeus, acostumados a ter o primeiro emprego depois dos 25 anos de idade, depois de concluir uma pós graduação e mestrado, e agora se vêm com pouquíssimas oportunidades de trabalho, se vêm desempregados, despreparados para encher laje ou limpar banheiro, algo que os imigrantes nunca recusaram, e agora vão para ruas protestar por emprego, protestar porque não têm no bolso a moeda que que nasceu com a missão de ser maior que o dólar, protestar contra a abertura para novos países do dito “poderoso bloco”, onde os mais extremos revoltados inflam ideias nacionalistas, racistas, num protecionismo sanguinário.

Era uma vez um país de cultura milenar, que se fechou por décadas, comeu capim, viveu o isolamento e misérias mas, de forma totalitária, condicionou um povo extremamente trabalhador e competitivo, e assim, com muita paciência, se preparou para ser a fábrica do mundo, antes ridicularizado por fazer calculadoras ching-ling e atualmente com pessoas altamente capacitadas, produtos de todas as qualidades, do lixo ao luxo, para atender qualquer tipo de consumidor interno ou em qualquer parte do mundo, atraindo centenas de fábricas, muitas daquele continente que tentou unir o diferente para ser o bloco global dominante e ter uma moeda poderosa, mas que agora se vê com uma cadeia industrial enfraquecida e com trabalhadores extremamente caros, insatisfeitos, com poucas oportunidades e que agora protestam sem oferecer nenhum tipo de solução.

Era uma vez um mundo completamente conectado, interligado, permitindo pessoas, antes distantes, conversar sobre tudo e todos instantaneamente, assim encontrar mentes e ideias similares, capazes tanto de construir como destruir, capazes de difundir pensamentos, muitos preconceituosos, protecionistas, nacionalistas, extremistas religiosos, raciais, homofóbicos, capazes de explodir, se explodir, atirar, matar, muito por causa de insatisfações com a crise, com o desemprego, com a recessão econômica achando que a lojinha do judeu, do islâmico, do indiano, do chinês ou seja lá de quem está “roubando” o emprego daquele que nasceu ali, filho de pessoas que nasceram ali, àqueles do tal sangue azul, que agora difundem  na internet ideologias contra a “invasão” e a mistura racial.

Era uma vez partidos políticos de extrema direita crescendo de forma preocupante naquele continente que tentou há pouco mais de uma década juntar economias diferentes, mas que de certa forma encontrou em cada país simpatizantes contrários a tal abertura social, pessoas que acham que proteger uma cultura é se fechando para as demais, pessoas antissociais, burgueses falidos e preconceituosos que não acompanharam o desenvolvimento global e agora colocam a culpa do desemprego por causa dos latinos, africanos, chineses, indianos, islâmicos e que tais imigrantes, de alguma forma, seja pela possibilidade de conseguir a dupla-nacionalidade em virtude de uma exploração de séculos destes mesmos burgueses de sangue azul, ou seja pela forma ilegal que se arriscaram atravessando fronteiras, mares, barreiras, línguas, para tentar oportunidades que pouco tiveram em suas terras natais, e agora disputam o mesmo emprego com tais europeus, muitos deles que procuram o primeiro emprego depois dos 25 anos de idade, muitos que não se sujeitam a limpar banheiros, muitos que protestam querendo 34 horas de trabalho/semana (sem redução salarial, óbvio), muitos que acham normal trabalhar apenas 1 ano para ter um ano de seguro-desemprego com 80% do salário, e assim mamar nas tetas de governos decadentes que não condicionaram o povo a ser competitivo num mundo interligado, sendo que são pessoas que sempre tiveram oportunidades, escolas gratuitas, inúmeros benefícios, mas que não desenvolveram garra para a sobrevivência, para a disputa de um emprego e, em tempos de crise, qualquer emprego, assim reclamam da tal “abertura”, exigindo, muitas vezes, mudanças racistas e radicais para expulsar os imigrantes.

Era uma vez um continente que viveu infinitas guerras em mais de dois milênios, e elas aconteceram porque estavam com algum tipo de crise econômica, impossibilitando um desenvolvimento harmonioso, impossibilitando o diálogo, e assim desenvolveram línguas próprias, culturas próprias que, em cabeças nacionalistas extremas, foram intolerantes ao diferente, e o maior exemplo foi o massacre a judeus num momento que a economia global patinava após a Crise de 29, achando que tais diferentes roubavam empregos e oportunidades daqueles “arianos superiores”, e essa histórica todos sabem como terminou.

Era uma vez um brasileiro paulista, 29 anos, filho de português e mineiro, misturado, formado, desempregado, às vezes depressivo, às vezes exaltado, hoje com remédio isso é controlado, que já viajou por mais de 20 países, morou em quatro deles, aprendeu a ser minoria, o inferiorizado, que lavou banheiro e foi garçom no continente decadente, que cortou lenha no país do dólar (nem tanto, agora) dominante, que foi até a fábrica do mundo negociar e conhecer a cultura milenar da paciência e competitividade, e que ficou descontente ao vivenciar, engravatado por meses, que a tal Organização das Nações Unidas não é tão unida e é pouco objetiva, enfim, esse paulista maluco que retornou à sua terra depois de outra experiência internacional acha que o filme, aquele com sangue, intolerância e destruição, pode se repetir naquele mesmo cenário de tantas outras guerras.

Esse mesmo paulista às vezes fala besteira, é imaginativo, porém é capaz de apostar uma empadinha de palmito que a intolerância, a crise econômica mundial, bolsas despencando, a perceptível falência de uma moeda, o aumento do desemprego, a insatisfação de jovens, o fortalecimento de redes de contatos de forma global, a facilidade do comércio de armas, a difusão de pensamentos racistas aceitos por muitos desses jovens insatisfeitos e despreparados, a crescente intolerância contra imigrantes e o extremismo religioso e nacionalista, ocorrida também no âmbito governamental, o descontrole emocional de minorias mais exaltadas, capazes de explodir e de se explodir, pessoas que depreciam a vida, enfim, todos esses pontos se somados resultarão numa previsível tragédia de grandes proporções.

Existe uma bomba relógio no mundo, principalmente na Europa, curiosamente o tal “berço da civilização”, em contagem regressiva que foi ativada pelo Homem, e cabe a esse mesmo ser vivo orgulhoso que pouco sabe viver em harmonia com a natureza e com seus semelhantes, resolver de forma racional, mudar o fluxo de ideologias e desenvolver uma consciência coletiva projetada para o futuro, aceitando recuar, reduzir, aceitando negociar, aceitando mudar alguma coisa em tais históricos princípios éticos, morais, religiosos, que hoje muito provam que estão errados.

É preciso mudar para construir outro tipo de história, quem sabe, para desativar essa nova bomba, prestes a explodir, e fazer esse mundo ser, realmente, suportável e sustentável.

Marcio Vieira


Multilinguismo

07/11/2010

Um futuro multilinguístico

Um dos grandes desafios do brasileiro é a dificuldade inicial para raciocinar rápido e falar outros idiomas quando se viaja para o exterior, ou quando recepciona um estrangeiro. Mesmo tendo conhecimentos de outras línguas, o processamento das informações é devagar, se comparado com pessoas de outros países.

A razão para isso é a soma de alguns fatores, como o baixo interesse dos governos em investir em um bom ensino de línguas estrangeiras que se associa à uma característica geopolítica quase única no mundo: a unificação de um idioma oficial num território tão grande.

Se no mundo há cerca de seis mil idiomas, o Brasil é um dos poucos países que unificou um só idioma dentro de um território gigantesco, dando condições para todos os habitantes compreenderem quase que perfeitamente o português. É óbvio que os sotaques regionais são grandes, mas isso não impede a comunicação entre os indivíduos.

Pela dimensão territorial e a suposição de uma desnecessidade, é secular o descaso político acerca de estudos de línguas, visto que são poucos brasileiros que acabam utilizando outros idiomas no cotidiano. No Brasil acabaram enfatizando outras matérias no ensino fundamental, como matemática e biologia.

Força-se no Brasil, então, a cultura de estudar em escolas particulares específicas para ensino de línguas estrangeiras, visto que a qualidade do ensino, seja em colégios públicos como em particulares (excluindo-se colégios de alto padrão) é insatisfatória, deixando alunos sem uma preparação adequada.

E, mesmo investindo em cursos particulares, há um travamento natural quando o brasileiro viaja, principalmente para Europa, porque ele não tem o ouvido e a mente treinados para escutar distintas línguas ao mesmo tempo, causando quase um curto circuito na cabeça do cidadão.

Bem diferente está o continente europeu visto que, desde os primeiros anos do ensino fundamental, as línguas são priorizadas muito em virtude da pequena dimensão de seus países e de uma rica diversidade de culturas, culminando no desenvolvimento do multilinguismo.

Multilinguismo é a facilidade de aprender e de se comunicar em diversos idiomas ao mesmo tempo. Ainda crianças, eles treinam tais mentes para uma compreensão mais rápida e eficiente. Assim não precisam fazer o que todo brasileiro faz, que é mentalizar em português o que quer dizer, traduzir para o idioma que conhece, e só depois falar.

Os europeus, desde cedo, pulam as etapas de mentalização e tradução. Eles integram tudo à fala de forma natural, instantânea e dinâmica. E nos países com índices de desenvolvimento humano mais altos, o multilinguismo é ainda mais eficiente.

Na Suíça, por exemplo, além de ter um IDH elevadíssimo, o país conta com quatro idiomas oficiais (em parênteses a porcentagem da população tem como língua materna): Alemão (63%), Francês (21%), Italiano (7%) e Romanche (0,5%), e o restante é falado por imigrantes, dando destaque ao idioma Português (3,5%) e Espanhol (2,5%).

Soma-se, na formação básica (mesmo em escolas públicas) de um jovem suíço, o Inglês às três principais línguas oficiais do país, fazendo um estudante de 17 anos estar apto para entrar em qualquer universidade do mundo onde o curso será ministrado em tais línguas.

Com essa miscigenação linguística, os suíços desenvolveram uma mente veloz para compreender os diversos idiomas falados por todo o país, onde o pluralismo de línguas é evidente e está em amplo crescimento, já que o país atrai imigrantes de todas as partes do mundo.

Há outros casos no mundo com cidades internacionalizadas como Londres, Hong Kong e Nova Iorque que acabaram fortalecendo o Inglês. No entanto, quando não há uma ligação cultural à língua britânica, outras cidades internacionalizadas, como Genebra, têm seus habitantes desenvolvido uma mente multilinguística, escutando-se num vagão de trem, por exemplo, pelo menos quatro ou cinco línguas simultaneamente.

A cidade de São Paulo, inclusive, está num forte processo de multilinguismo, tanto que é comum escutar ao menos três diferentes idiomas numa simples caminhada por algumas quadras nas avenidas Paulista, Faria Lima ou Berrini.

Os próximos passos dessa multiculturalidade são evidentes. Alguns lugares desenvolveram novas línguas globalizadas, como o “Spanglish”, falado por jovens de origem hispânica, principalmente na Califórnia. Tal “idioma”  mistura Inglês e Espanhol dentro de uma mesma frase.

Já que o Esperanto não se desenvolveu, o Inglês ocupará cada vez mais espaço no cérebro de cada um. No entanto, mais oportunidades comerciais e acadêmicas terão àqueles que investirem em idiomas e treinarem a mente  para respostas rápidas e em uma quantidade maior de línguas.

Fronteiras estão ruindo, e é preciso aplicar um velho ditado: “quem não se comunica, se estrumbica.”

Marcio Vieira