Elitizar soluções

29/07/2013

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Como forma de responder (novamente de forma errada) aos protestos, a Prefeitura de São Paulo ampliará a área de restrição ao automóvel (o famoso rodízio de carros), agregando novos bairros ao famigerado “Centro Expandido”.

A justificativa sempre é a mesma: melhorar a circulação, diminuindo o trânsito da caótica cidade, porém, há várias questões que devem ser analisadas antes de tomar qualquer medida restritiva ao cidadão.

O rodízio de carros em São Paulo, há tempos, deixou de ser a razão para diminuição dos gases poluentes na cidade, esta, por sinal, era a primeira desculpa pela imposição do sistema. Hoje o problema é lento deslocamento, em uma cidade que deixa de faturar, por causa do trânsito catastrófico, mais de 20 bilhões de reais todos os anos.

Ao impor o rodízio, a cidade não compensou o cidadão com transporte público eficiente e/ou barato, o que resultou em novos gastos para boa parte da população para adquirir um segundo automóvel. E a medida gerou impactos sucessivos como, por exemplo, inflacionar o valor dos imóveis com duas ou mais vagas de garagem.

Uma vaga de garagem adicional em imóveis residenciais pode ultrapassar 50 mil reais em diversos bairros da capital, o que ajudou a contribuir, também, na especulação imobiliária promovida por grandes construtoras que oferecem lançamentos, na sua grande maioria, com um mínimo de duas vagas por unidade.

O resultado é trágico para o trânsito: são emplacados diariamente em São Paulo 1.000 novos veículos, que farão parte à uma frota que já ultrapassou a barreira dos 6 milhões.  É um número insustentável para a cidade, e as soluções para restringir o carro são completamente ineficazes e desastrosas.

Como na maioria das decisões políticas, a cidade de São Paulo elitiza a solução para um problema de âmbito geral, que forçará os residentes de bairros de alto padrão (na Zona Sul, por exemplo, Av. Berrini, Brooklin e Campo Belo entrarão na “zona do rodízio”) adquirirem um outro carro, visto que a maioria dos habitantes de tais regiões têm fôlego financeiro para comprar um carro que, no caso, pode já ser até o terceiro carro da família.

O efeito-dominó dessa decisão proibitiva é gigantesco: a disputa por vagas nas ruas secundárias às grandes avenidas prejudicará, e muito, o fluxo. Aliás, é o fluxo, o escoamento, a principal finalidade de uma rua/avenida. Ruas não são locais para se estacionar. No entanto, prefeituras (novamente elas) enxergam oportunidade com Carão Zona Azul, além dos oportunistas flanelinhas, nunca coibidos da exploração ilegal de algo público.

12 Vagas?!?

Morador preocupado com rodízio

E quem sofre? Não será o morador do Campo Belo. Muito menos os engravatados da Berrini.  Quem sofre, como sempre, é o povo. O dependente de transporte público.

Quem não é dependente de transporte público arruma uma solução rapidamente. Negocia novos horários na empresa ou entra numa concessionária qualquer e com 10 reais por dia é capaz de sair de carro zero km. O segundo carro.

O rodízio de carros em São Paulo não foi, e nunca será, a melhor medida para combater o trânsito porque se trata de uma medida superficial e elitista.

Diversas cidades no mundo pactuam com o mesmo problema paulistano, porém, há várias formas de se combater a crescente individualização do deslocamento urbano sem estimular aquisição de um novo veículo.

Hong Kong, por exemplo, exige que o cidadão que desejar comprar um automóvel tenha, comprovadamente, uma garagem para não deixar o carro na rua. Seja com contrato anual com estacionamentos ou no próprio imóvel do cidadão. Pode até ter dinheiro para uma Ferrari, mas se não tiver garagem, não vai comprar. Simples assim.

Inúmeras cidades têm tributação diferenciada para o contribuinte que adquirir um segundo automóvel. Aumento de 20, 30 chegando até 50% no valor do IPVA para o segundo carro.  Assim, a conta é mais justa socialmente: cidadão que tem mais, paga mais.

O IPVA é um tributo estadual, então cabe ao Governo e a Prefeitura se entenderem para praticar tal ação restritiva à elitização do trânsito.

O prejudicado, da forma com que tratam a questão da mobilidade urbana, sempre será quem vive na periferia, longe do “Centro Expandido”. Tal sistema é completamente injusto àquele que mora na Estrada do M’Boi Mirim (ou qualquer outra região periférica) que perde 4 horas do dia no trânsito paulistano.

Deve-se estimular a consciência coletiva de toda população, com programas incentivos fiscais para adoção de novos horários para jornada de trabalho, além de evitar um grave erro que é cometido em São Paulo:  o deslocamento (e especulação imobiliária) de centros econômicos. É muito fácil comprar um enorme galpão industrial e construir diversas torres residenciais e comerciais, mas deve-se estudar o impacto no trânsito local e, principalmente, rever a necessidade de empreendimentos desse porte.

Hoje sou terminantemente contra o rodízio de carros em São Paulo como solução ao trânsito. Mais contra ainda ao aumento do Centro Expandido porque são medidas pouco estimulantes à troca do automóvel pelo transporte público. Hoje, quem tem dinheiro, comprará um segundo carro. E quem não tem, financiará, ainda mais com IPI e outros incoerentes incentivos fiscais.

O trânsito caótico continuará o mesmo. Quer dizer, com 1.000 novos carros todos os dias, só vai piorar.

O Movimento Passe Livre é uma pequena luz para discutir uma forma de restabelecer uma ordem social e economicamente justa. Se incentivar que transporte público, embora hoje completamente trágico, seja gratuito (ou, ao menos, que seja realmente barato), haverá demanda por mais ônibus e mais trem.

E é com demanda que se muda prioridades.

Marcio Vieira

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Mulher de Fusca

23/07/2013

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Em tempos de administrar um carro antigo, minhas atenções triplicaram nas ruas para ver outros antigos. E se tem alguma coisa que me tira de sintonia, instantaneamente, é ver uma mulher dirigindo um Fusca.

Não esses modelos novos, cheios de tecnologia que custam uma fortuna.  Fusca mesmo, o original, verdadeiro e único: o Fusquinha. E comecei a imaginar como são tais mulheres, o que elas fazem, o que elas pensam…

Mulher que dirige Fusca antigo atingiu um nível superior na evolução da espécie humana. Ela demonstra segurança, bom gosto, educação e peculiar sofisticação. Se falar francês, então, é um verdadeiro xeque-mate em qualquer homem.

Mulheres são sensoriais, e todas transmitem com gestos parte de suas personalidades, mas a mulher que dirige Fusca e fala francês é de uma inteligência ímpar que, ao entrar no mundo masculino do automóvel, foi sutil e elegante ao escolher o que há de mais charmoso: o Fusca.

girlfusca1Ele não é rápido, não é seguro, muito menos econômico. Mas é gracioso! Tem áurea! Ele quebra, nele se passa calor, mas seus parachoques e calotas cromadas fazem o carro brilhar, e que mulher não gosta de brilhar?  Pois então, sábias estas que dirigem Fusca.

Mas é um brilho diferente e único. Mulheres que dirigem Fusca e falam francês não buscam destaque: buscam “Ser” ao invés de “Estar” e, sem intenção, acabam dando um tapa de luva de pelica no consumismo feminino e na ambição desenfreada que só causa ansiedade.

Mulher que dirige Fusca e fala francês possui valores próprios, sólidos e impenetráveis, e que não adianta você, pobre homem, tentar mudar.  Deve-se apreciar. Elas são raras.

Mulher que dirige Fusca e fala francês é culta. Comentará de bons livros e das melhores uvas. De queijos e viagens, mas também vai ter aquele toque especial de descobrir pechinchas e oportunidades, assim como apreciará convites para comer ceviche no centro da cidade ou andar de bicicleta num domingo qualquer.

Ao abastecer o pequeno besouro, além de receber merecidos elogios pelo carro, trocará figurinhas, dicas com o frentista que tem (ou teve) também um Fusca.  Empatia aguçada tem as mulheres que dirigem Fusca e falam francês. Conversa de tudo e com todos, tratando o porteiro do prédio ao presidente da empresa da mesma forma atenciosa e simpática.

É como água, de fácil adaptação. Entra no botequim para pedir um pão com queijo-minas com a mesma discrição e humildade ao entrar numa reunião de negócios. Espalhafatosa, isso, elas não são.

No entanto, ela não vai te chamar para ir num pagode, muito menos sertanejo. Nada contra esses estilos de música, mas é que mulher que dirige Fusca e fala francês gosta de música boa, rapaz! Se você gosta de barulheiras, traga algo diferente que certamente ela terá curiosidade em querer escutar e, mais ainda, terá uma sinceridade incrível de opinar sobre aquilo que escutou.

Porque mulher que dirige Fusca e fala francês tem sede, insaciável, de aprender. A feira dos imigrantes bolivianos à meditação indiana, assim como a Sala São Paulo e qualquer importante exposição, ela vai querer estar lá.

DSC_0443Essas mulheres que dirigem Fuscas e falam francês são custosas, mas o investimento compensa. Esqueça Los Angeles, esqueça Miami. A viagem com ela será para Estocolmo com uma esticada até Moscou, mas não será surpresa se ela vier com a ideia de mochilar na Patagônia ou alimentar gorilas no Quênia.

Porém, serão muitas as vezes que a balada será no supermercado para preparar algo bom e barato, e assistir um filme. Mulheres que dirigem Fusca e falam francês dão muito valor ao dinheiro que tem, guardam para gastar bem. Elas sabem qual vinho está com bom preço mas, entre legumes e produtos de limpeza nas sacolinhas do supermercado, sempre terá também aquele pedacinho de queijo Maasdam.

Surpreender é o que a mulher que dirige Fusca e fala francês sabe mais fazer, mas ela não faz isso artificialmente. É algo da personalidade que transparece em tudo que faz. É precisa, cirúrgica e sutil nas escolhas e no jeito de levar à vida, e o resto da sociedade tem que entender a superioridade delas, aceitar e, se for inteligente, apreciar o que elas são.

São cheias de personalidade, as mulheres que dirigem Fusca e falam francês. São seguras até para dizer, de forma pura e objetiva, que estão inseguras por alguma coisa ao requisitar um colo.

E gostam de participar da vida de seus carros que, obviamente, tem nome e assim são tratados. Em pouco tempo aprenderão o que é um carburador e como deixa-lo regulado. Saberão guardar aquela lixa de unha para limpar o platinado e terão uma delicada caixa de ferramentas, que raramente serão utilizadas porque essas mulheres sabem conservar seus Fuscas de forma exemplar.

girlbeetleConservar, aliás, é palavra-chave na vida das mulheres que dirigem Fusca e falam francês. Querem (e conseguem!) ter tudo e todos em sintonia, porque o tempo, para elas, é fundamental. O tempo determinará escolhas, já que essas mulheres que dirigem Fusca e falam francês têm coisas e opções incríveis para aproveitar tal tempo.

Elas demorarão 10 minutinhos a mais por causa do Fusca. Mas são sábias porque esses dez minutos, na verdade, elas estão ganhando. Em viver e apreciar cada momento que o Fusca proporcionou.

O Fusca, ou qualquer outro carro antigo que esteja nas mãos de uma mulher, o que para as pessoas próximas foi um ato de rebelião, de nadar contra a correnteza da mesmice, foi a forma encontrada de expressar o Poder de Escolha, principalmente às mulheres, historicamente reprimidas.

A escolha Fusca está longe de ser porque é o  mais caro ou o mais luxuoso. Mulheres que dirigem Fusca e falam francês não estão preocupadas com o que os outros vão pensar, pois só querem, mesmo, é realizar aquilo que sempre desejaram, mas que a sociedade, por muitas vezes, empurrou para ser mais uma dentre milhares.

E ser só mais uma, as mulheres que dirigem Fusca e falam francês, é algo que elas nunca serão.

Ainda bem.

Marcio Vieira


Coxinhismo

04/07/2013

coxinhas

As redes socias (ahhh, sempre elas!!) borbulham nas últimas semanas! Bandeira e hino nacional fizeram hora-extra e foram, finalmente, usados fora dos estádios.

Mas algo estranho surgiu em meio à multidão.  E não foi só um, foram centenas, milhares, e talvez milhões que, de uma uma hora para outra, apareceram nas avenidas de todo o Brasil.

O barulho de fritura denunciava, não restando mais dúvidas: eram as Coxinhas!!

Não aquelas que residem ao lado da empadinha e do croissant, e no andar de baixo fica o Torresmo e o Hamburgão. São outras coxinhas, organizadas em movimentos libertários:  Abaixo o sistema, gritavam!

“Não é esquerda, nem direita, é para frente”, clamavam!

Algumas coxinhas, talvez com mais catupiry no cérebro que o normal, tomaram as rédeas do anonimato e, de máscaras, afinal, hoje é “in” e “cult” vestir a armadura Annonymous. Está na moda, e não “pega bem” demonstrar, nesta altura do campeonato, ser um ignorante político. Se não tiver a máscara, basta pintar o rosto de verde-amarelo.

Então lá vão elas, as Super-Coxinhas, fazer um city-tour no centro de São Paulo, esticando um pouco até a 25 de Março para comprar uma máscara do Anonimato. E negociar com o camelô é uma aventura digna de Indiana Jones ou irmãos Villas-Boas: o homem branco de Moema e Jardins comprando do indígena pobre ambulante que vive de “rolo”.

Mais tarde, rumo aos protestos!

As coxinhas, quando isoladas, não sabem muito o que fazer e ficam mais preocupados com a foto do Instagram, por isso elas têm grande necessidade de se reunirem. O pior é a incoerência de milhares delas: enquanto engrossam o coro por desenvolvimento social, tais Coxinhas criticam, a plenos pulmões, programas de inclusão social.

Chega de “Bolsa-Esmola”, “Bolsa-Vagabundo”, Bolsa-Família ou qualquer raio de nome que isso tenha!!, protestam.

Dentro disso, há algo para ser entendido: É impossível equilibrar a sociedade quando o começo é desiquilibrado.  Não há igualdade social quando o ponto de partida de cada indivíduo é desigual.

Para combater desigualdade, os programas assistenciais são fundamentais para a inclusão de todos na cadeia de consumo, e isso está longe de ser assistencialismo. E foi assim que milhões saíram da Classe D e E, em que a renda familiar é de 1 dólar por dia, e pularam para C.  Foi assim que mais de 10 milhões de famílias perderam o benefício porque subiram de classe social.

1 dólar não paga nem a sua…. Coxinha!, Seu Coxinha. Apesar que Coxinha só come coxinha se for da padaria chique.  Em botecos, os Coxinhas não entram. Eles não se misturam com a gentalha, diria Dona Florinda.

Mas não se preocupe, cada um de nós, em algum momento, foi Coxinha. Atire a primeira Coxinha quem nunca deu uma coxinhada na vida!!

Coxinha é desconhecer. Falar o que não sabe ou o que nunca viu e sentiu. Coxinha é ser reaça. Coxinha é ser chato. É ser intransigente. É ser mala. Coxinha é ser Coxinha!

Coxinha quer Joaquim Barbosa para Presidente da República.  Coxinha não sabe nem o que significa STF, mas sabe o que é Mensalão do PT (e desconhece do PSDB). Sabe o que é PEC 33.  Ou, ao menos, pensa que sabe.

Afinal, O Coxinhismo cultua as aparências na Comunidade Facebookiana. O Twitter está meio “over” nos últimos tempos, serve só para pesquisar Blitz da Lei-Seca.

Marcio Vieira