João Grilo também vota

14/10/2014

joaogrilo

A paciência, ela já foi embora faz tempo. E a próxima etapa é perder o respeito, e é exatamente isso que está acontecendo nos últimos meses por causa das eleições, principalmente porque o peso do voto é igual, independe da classe social, origem, cor… o que infelizmente causa uma ira em muita gente.

O Fla-Flu eleitoral continua, e ambos os lados estão munidos da mais poderosa arma: a tecnologia. Esta que permite eu, você e todo mundo escrever, ler, ouvir, de praticamente todos os cantos do mundo.

Alguns lugares continuam inatingíveis. É que os programas assistenciais iniciaram há pouco tempo, e famílias que passaram décadas sem eletricidade, só agora conseguiram crédito para financiar a primeira geladeira e a primeira televisão. O computador, para poder conversar conosco e discutirmos sobre o “Bolsa-Esmola” ou o “Bolsa-Vagabundo”, a maioria ainda não têm.

– Mas aonde está a meritocracia?, muitos me questionam, ao mesmo tempo que abrem a geladeira duplex de alumínio escovado para pegar uma Stella Artois trincando de gelada. Após degustar a cerveja belga, abrem algum dispositivo, o Macbook, o Ipad, o Iphone ou qualquer outro objeto de desejo com o logotipo da maça mordida para publicar aberrações, como esta:

nordestinos

Qual a necessidade de tamanho preconceito? Qual a dificuldade em ler sobre o quanto o nordeste se desenvolveu nos últimos dez anos? Deve ser muito sacrificante tentar se informar sobre como era e como está a vida do nordestino, sobre as escolas técnicas que foram criadas na região, que permitiram o nordestino em não precisar vir para “Sumpaulo” tentar a vida.

O incrível é que são pessoas que vão para Europa e Estados Unidos com frequência, e em algum momento dentro dessas viagens podem ter sofrido algum tipo de desrespeito e preconceito por ser o latino, mas mesmo assim descontam sua “superioridade” contra os nordestinos, eternamente prejulgados como um bando de pessoas como Chicó e João Grilo, retirantes motorizados por jegues.

É preciso se informar antes de rechear de fezes a sua coxinha. Seu ódio não me convence! Eu fico muito feliz ao saber que João Grilo também vota e, ao menos nisso, somos iguais.

O acesso as redes sociais permite uma burguesia desinformada ofender milhões de pessoas. O perigoso é que, quanto mais inverdades são ditas exaustivamente por mais e mais pessoas, outros começam a acreditar. Pergunto ao paulista doente:  é ciúme por ser preterido pelas necessidades dos mais pobres, toda essa sua raiva?

Se o seu voto é decidido pelas cretinices publicadas e pelo repúdio aos nordestinos, ou pelo repúdio à programas assistenciais, seja feliz dentro de sua redoma de vidros blindados, e depois me conte como foi o êxtase de comprar uma Prada em Miami. Certamente você gozou horrores.

Enquanto isso, tem gente que só quer dignidade. O Bolsa Família fomentou a microeconomia (algo que você nunca precisou conhecer), permitindo que uma pequena quantia circulasse nas camadas mais pobres da população. O resultado disso foi que o mercadinho do Zé começou a vender mais Dolly, daí o Zé comprou parcelado nas Casas Bahia um freezer maior e contratou um entregador, que no começo ia de bicicleta, mas agora ele conseguiu financiar uma Honda Biz, e não está nem aí se são 70 meses para pagar.

É impossível uma família viver unicamente com Bolsa Família. Já que existe uma preguiça para pesquisar sobre os assistidos dos programas, recomendo muito a ler qualquer artigo ou livro de Muhammad Yunus, vencedor Nobel de Economia, que fala justamente sobre o Microcrédito e os efeitos dele em toda economia, atingindo inclusive você.

Agora, se o seu voto é influenciado pela corrupção e má gestão, o ideal é separar o fanatismo eleitoral que causa cegueira para refletir sobre a falta de credibilidade dos candidatos, já que não há  transparência em nenhum dos dois lados sobreviventes, afinal, Privataria Tucana, Mensalão Mineiro, Metrô Paulista, Helicóptero do Pó não são dignos de confiança.

Ambos não me representam. Essa briga ideológica na internet é deprimente, já que as atuais alianças políticas de ambos os partidos provam que não há, de nenhum lado, coerência. No fundo, a luta não é para nos representar: a disputa sempre será pelo poder.

Sobre os programas assistenciais, iniciado com FHC e muito melhorado com Lula, irão continuar porque é um dinheiro que não prejudica em nada a qualidade do asfalto para sua SUV blindada, nem fará você se misturar com as pessoas que moram da ponte pra lá, ou pessoas do lado de lá do cordão do trio elétrico.

Sua pulserinha Vip “Dazelite”, seja azul ou vermelha, está assegurada, e você continuará com sua cerveja importada. A falta de água não parece preocupação para vocês, afinal, existe desodorante que segura a onda por 48horas! Meu único receio é faltar Dolly.

Marcio Vieira

 

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Dividindo o Yakult

21/03/2013

yakult

Andei refletindo sobre um tema após ir nas passeatas promovidas contra Marco Feliciano. Muitos protestam, mas poucos vão. Já participei de outros movimentos, mas sempre saio com dois sentimentos: um de “dever cumprido” e outro de “desânimo”.

Dever cumprido pois saí, apresentei minha indignação, atravessei a cidade para me juntar com outras pessoas que tiveram a mesma atitude. O Desânimo acompanha porque, com tanta barulheira na internet, a expectativa é sempre maior, de ver mais gente, de ver mais efeito, de ver mais resultado.

Confesso que poderia ir milhares de vezes mais, participar mais. Nunca será o suficiente quando tem tanta coisa errada que precisa de mudança imediata.

Infelizmente o brasileiro não cultivou a “cultura do protesto”. Muita gente não sabe que protestar é a forma mais contundente de demonstrar cidadania. Mostrar-se presente. Atuante. Transparecer que há uma opinião contrária, enfim, dizer nas ruas um sonoro “Não!”

Isso invejo muito dos nossos vizinhos. Argentinos batem suas panelas, lotam as ruas. No Chile, também vão, e muito, para as ruas. Uma das últimas manifestações dos chilenos foi para protestar contra a qualidade do ensino!  Oras, não é falta de professores, não é falta de carteiras, materiais escolares, escolas pichadas, falta de transporte escolar, etc. Eles protestaram contra a qualidade daquilo que se ensina! Daquilo que se aprende!

Protesto é feito para querer mudar algo que caminha de forma errada. Protestos são realizados para querer um futuro diferente daquilo que é pré-anunciado, daquilo que é projetado.

É preciso ir para as ruas, faz bem se sentir cidadão nessas horas. Mostrar que está preocupado com o que está sendo feito, sem apatia.  Se o brasileiro se acostumar a usar essa arma que tem, muita coisa vai ser mudada e, mais ainda, muita coisa vai ser evitada.

Governo corrupto é igual aquele amigo fdp que pede um gole de Yakult. Já é pouco, e assim querem pegar metade. É de se revoltar! Mostre, então, a revolta!

Mas o que não entendem é que quem está no poder é o reflexo do que está no povo. São apenas maus representantes de um povo composto de maus cidadãos. E ser mau cidadão não é culpa de escola, não é culpa de falta de saúde, falta de trabalho, falta de transporte.  Para diagnosticar um mau cidadão, basta um espelho.

O silêncio transmite indiferença. Achar que “ativismo de pantufas” em casa funcionará e o Brasil melhorará, sinto muito em desaponta-lo. Tem muita gente na rua que precisa ser encorajada, e isso depende de passos e decisões de cada indivíduo.

É preciso bater panelas, é preciso gritar, é preciso se indignar para, num primeiro momento, ter a oportunidade de discutir uma situação. Do contrário, tudo isso não passará de uma conversa de bar, de um “post” no Facebook.

E não fique com medo se serão só 10 pessoas, se só serão 1.000. Ao invés de enxergar esse número externo, enxergue e valorize os 100% de você na causa que for abraçar.


Quem se cala, não peca

19/03/2013

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Passaram-se duas semanas da posse do Deputado Marco Feliciano na Comissão dos Direitos Humanos da Câmara dos Deputados. Duas semanas é muito tempo para ficar em silêncio.

Não das minorias, que muitas foram às ruas, revoltadas com a nomeação ridícula de alguém que mostra completo desconhecimento com a “pasta” que vai cuidar.

O silêncio é decepcionante quando vem que quem menos se espera. Uma mulher não pode ficar em silêncio. Uma mãe. Uma mulher filha de imigrante. Uma mulher que lutou por espaço em um ambiente masculino. Uma mulher que lutou contra ditadura não pode ficar calada. Uma mulher Presidente da República não pode fingir que o problema não é dela.

Dilma Rousseff é minoria, também. Todos, os que demonstram opinião, fazem parte da minoria em algum tema, e quem se sente minoria transpira indignação pela nomeação do Pastor Feliciano, que já explicitou inúmeras vezes preconceito contra quem deveria proteger.

Aonde está a indignação da Dilma? Ou da oposição ao governo, aonde está tal indignação?

Mas o silêncio da presidente é justificado pelo medo. Medo de segurar uma bandeira, medo de escolher um lado. Medo de perder eleitores. E não foi só ela que ficou calada. A grande maioria dos políticos ficou calada. Todos têm opiniões, mas quando o assunto é religião, quem se cala, não peca.

Foi assim nas últimas eleições presidenciais quando o assunto foi aborto. Dilma quase “escorregou” ao defender o aborto em casos específicos, mas teve que engolir sua opinião para não perder votos dos cristãos. E o José Serra, no seu costumeiro desespero, tentou aproveitar a situação para ganhar aqueles votos religiosos. Em vão.

Fernando Henrique Cardoso perdeu, para Jânio Quadros, uma eleição praticamente ganha a prefeitura de São Paulo por causa do mesmo tema: crença religiosa. Se tem, qualquer que seja, ou se não tem crença, não interessa! Se é gay, se é bissexual, não interessa para ninguém! A pessoa deve ser eleita por motivos além de escolhas de vida individualizada.

Religião nunca deveria ter influência na política, seja ela qual for e do tamanho que for. Deveria ser proibido partidos políticos sustentados, em boa parte, por Igrejas. Fica claro que tais partidos vão defender primeiro seus interesses específicos antes de representar a coletividade.

E este caminho, o de Cristãos no poder, demonstra ser um caminho sem volta. O problema não é um cristão (seja católico ou evangélico) estar no poder, a preocupação está em saber analisar as necessidades de um povo que vai além de uma crença e, ainda mais podendo ser contrária ao que a religião prega, como a questão do casamento entre pessoas do mesmo sexo, a adoção de crianças por tais casais, a questão de liberar o aborto, a discriminação aos negros, aos retirantes, aos imigrantes ilegais, respeitar e ouvir as mais infinitas diversidades, etc.

Acreditar que Deus, seja ele em qual forma, é quem direciona uma nação, é de uma cegueira monumental. É primordial respeitar as diferenças, quando existentes, e a política surgiu como forma “civilizada” de diálogo entre as diferenças, onde deve-se presumir que a coletividade sobrepõe ao individual.

Crença ou a falta dela, por milhões de devotos que possam existir, é uma questão individual que não pode ter tanto espaço na política como é dado no Brasil no atual momento, a ponto das lideranças, seja a Presidente Dilma, seja os aliados do governo, ou seja da oposição, terem medo de manifestar repúdio à infeliz indicação e eleição do Dep. Marco Feliciano.

Marcio Vieira


Ignorância, o segredo para a felicidade

25/08/2011

Antes de tudo, para deixar bem claro, este texto não chama de ignorantes as pessoas felizes, muito pelo contrário. É apenas um texto o qual tento expressar um conceito existencial sobre sentidos e sentimentos.

Imagine uma criança de uns 3 anos. Toda bonitinha, toda elétrica, curiosa, hiperativa, querendo mexer em tudo, subir em cima de tudo, etc. Ela faz isso por quê? Ela está com a consciência vazia, ainda, muito nova, está conhecendo tudo e sentindo desejos quando olha para tantas coisas, afinal, são tantas descobertas que mexem com a curiosidade. Tal criança tem seu hard disc novinho em folha, praticamente em branco, e todas as vontades de preenchimento surgem instintivamente com aquilo que se vê.

Segunda cena: imagine outra criança bonitinha de 3 anos, porém, num ambiente completamente diferente. Ela, desde seu nascimento, cresceu num quarto todo branco, fechado, e tem como diversão uma bolinha de tênis e um pandeiro. Com aqueles dois brinquedos, sem poder sair daquele quarto (mas com responsáveis ensinando a falar, e a se alimentar), passará toda sua infância e juventude com apenas uma bolinha e um pandeiro.

Qual das duas crianças têm mais chance de ser feliz? Obviamente que me responderão a primeira, pois é um crime gravíssimo que fizeram com a segunda, os direitos da criança presa foram violados, é uma tortura, ela crescerá com traumas seríssimos, etc., me darão inúmeras justificativas, e vocês me darão tais razões porque vocês sabem diferenciar as situações.

Rebato como advogado do diabo: qual das duas crianças vai chorar porque não tem tal brinquedo que viu na televisão? Qual das duas crianças vai chorar porque o amiguinho tem o novo playmobil? Qual das duas crianças vai querer um Playstation? Qual criança vai ficar chorando, berrando, no supermercado porque quer o caminhãozinho de brinquedo e os pais, intimidados, para silenciar o guri, comprarão? Enfim, qual criança vai sofrer mais?  Aonde está a tortura?

A segunda criança, trancada no quarto, que nunca viu televisão, não conhece outras crianças, não sabe da existência de outros brinquedos, de outros sons, que desconhece playstation, carrinhos e bonecas, que passará muitos anos atirando a bolinha de tênis na parede do quarto certamente não reclamará, não sofrerá, não vai pedir para os pais brinquedos novos, afinal, seu campo de visão é limitado tornando também limitados seus desejos, sua consciência e seus sonhos.

A criança aprisionada (que recebeu o mesmo carinho, colo, dos pais da criança livre, única diferença é que ela nunca saiu daquele quarto) tem mais chances de atingir a plenitude da felicidade pelo simples fato dos seus desejos serem pequenos, limitados, e crescerá sem influências do mundo externo. Você acha que ela sofre porque você sabe o que existe do lado de fora de tal quarto, você tem o conhecimento das diferenças, das culturas, idiomas, objetos, enfim, você toma consciência da existência de um mundo amplo, algo que tal criança desconhece, mas que, pelo fato de desconhecer, ela não sente falta.

Saindo do exemplo das duas criancinhas, percebo que a ignorância é um dos fatores para a atingir a felicidade plena. É comum passar na tevê reportagens onde tem lá uma família toda humilde, no meio da roça, plantando o que come, conhecendo poucos vizinhos, mas todos, sempre com um sorriso grande no rosto, simpáticos, que não pensam em mudar de vida. Vocês, das grandes cidades, conectados com o mundo, acham aquilo um absurdo!  Como pode aquele cara desdentado, com roupas esfarrapadas, que nunca saiu daquele fim de mundo, ser todo sorridente?

Ele sabe da existência de um mundo, das grandes cidades, etc., mas o medo, a insegurança, e o risco que se corre em querer “melhorar” de vida faz ele ficar na roça, limitando seus desejos que, por consequência, limitarão seus sofrimentos, e assim terão mais condições de atingir a plenitude da tal sonhada felicidade. O que é melhorar de vida, para ele, com certeza é diferente para nós.

Ampliando este pensamento, todo o histórico da humanidade foi feito com a construção de muros, fortalezas e fronteiras sociais para que suas populações não sofram com as influências externas, e assim (em alusão a criança chorando no shopping) reclamarão menos, se indignarão menos, será mais fácil controlar esse rebanho domesticado. Mas a pergunta é, será que eles são mais felizes?

Tenho muita curiosidade em conhecer dois países: Coreia do Norte e Butão. Países que se fecharam para as influências externas com o intuito de administrar seu povo. Coreia do Norte, massacrada pelo mundo, vive uma regime totalitário, sua população vive o comunismo forçado, não possui liberdade de expressão, mas não há diferenças sociais, todos usam o mesmo tipo de roupa, não conseguem sair para outros países, mas, por outro lado, não sofrem com desemprego, todos moram em apartamentos populares e, por o país ter investido muito no setor militar e na censura, domesticam a população para sentir orgulho do seu país e assim não rebelar a população contra o sistema. Será que os norte coreanos são felizes?

Já o Butão é mais festejado, afinal é o país com maior índice de felicidade. Ironicamente é o país com o visto de turista mais caro do mundo, uma ferramenta para dificultar receber influências do mundo exterior. Se não tem uma força militar repressiva, tem em princípios budistas outra forma para controlar os anseios da sua população, a partir da limitação dos desejos, e assim administram, de certa forma pacífica, mas não menos autoritária, a raiz existencial do ser humano, que é a busca pela felicidade.

Aprecio muito o Budismo. Toda sua essência gira em torno da razão pela existência e na busca de sentimentos e sensações livres de influência, assim não haverá sofrimento. Para atingir o nirvana, uma das quatro nobres verdades do Budismo é a Origem do Sofrimento, que se dá quando os desejos e as vontades em sentir prazer direcionam as atitudes do ser humano.

Ora, todos os exemplos citados, as duas criancinhas, a família na roça, os modelos políticos históricos, a Coreia do Norte e Butão têm exatamente no Desejo o ponto que se interligam, e assim foram desenvolvidas ações, sejam determinadas por um Estado ou seja de forma voluntária, com o intuito de limitar o conhecimento, fomentando a ignorância com o propósito de atingir a felicidade.

É errado prender uma criança no quarto? É, óbvio que é.  Mas você tem essa resposta porque você conhece o lado de fora. A criança, assim como os norte coreanos, são ignorantes, desconhecem o ambiente externo, têm suas consciências limitadas e, por serem domesticadas, têm mais chance de atingir a plenitude de uma satisfação, têm mais chances de serem felizes.

A família na roça optou em não arriscar sair da comodidade, e assim passam dificuldades (que julgamos ser dificuldades, talvez eles não vejam com esses olhos) menores, tem desejos menores, só querem se alimentar, cuidar da vaquinha, do bode, da pequena horta e viver assim. E quando chega um monte de extraterrestre com câmeras, cabos, carro, um monte de parafernália para entrevistar tal família, eles acham aquilo tudo engraçado, cômico, pois o diferente não é a família humilde, mas sim os repórteres e o mundo externo. Eles são ignorantes, mas são felizes. O que é mais importante?

Acrescento outro exemplo, agora do nosso cotidiano:  pedir pizza. Sabemos da existência de dezenas de sabores, mas por que 90% da população paulista repete os quatro principais sabores? Porque são gostosos, sim, está é uma resposta. Mas, além disso, porque têm medo do desconfortável, porque tem insegurança do diferente, porque limitam seus desejos para atingir uma satisfação plena, ou seja, porque ser ignorante com o cardápio na mão é menos arriscado, logo, gera menos sofrimento.

É fato que a criança livre, que deseja, sofre mais, principalmente porque desejos, na maioria das vezes, são só desejos. A criança deseja ser o Homem Aranha, escalar paredes, voar como Superman, desejam o Hot Wheels e a Barbie. Bens, dependendo do poder da família, poderão ser adquiridos, mas atirar teias e pular para o prédio vizinho serão somente desejos, e desejos causam sofrimento.

A frustração, característica do sofrimento, surge a partir da comparação com algo e a partir da tomada de consciência que tal coisa existe, mas que naquele momento, não pode ser ou não pode ter. Assim preenchemos nosso hard disc com inúmeras informações, experiências, culturas, conhecimentos, etc., que, se o perfil do indivíduo for de se alimentar por mais conhecimento, por mais informações, por mais diferenças, a tendência é tal pessoa ser infeliz porque nunca atingirá a plenitude da satisfação.

As ideias expostas neste post poderia virar um livro, quem sabe virará, mas para não me alongar neste momento, acredito que a ignorância, ou melhor, a limitação de conhecimento, é uma forma de atingir 100% de alguma coisa. Se focar algo bom, mesmo que limitado, poderá ser 100% de felicidade em passar a vida com uma bolinha de tênis, poderá ser vivendo num regime totalitário, poderá ser vivendo dentro de muros de um mosteiro, um convento, ou qualquer outra coisa que diminua seu campo de visão e conhecimento.

É possível ser plenamente feliz tendo conhecimento do que acontece no mundo externo? Sinceramente, tenho fé que sim, mas, sendo racional, acho que não dá. Porém, neste mesmo texto, trouxe “soluções” para ser feliz: criar limites, e se esforçar, trabalhar dentro deles para que, naquele espaço, seja de qual tamanho for (mas que seja limitado), você possa chegar o mais perto da plenitude, dos 100%, do preenchimento de algo.

Por que, se colocar no Google Images a palavra Felicidade aparecerá sempre a imagem de alguém de braços para o ar, ou pulando, movimentos que transmitem a sensação de liberdade? Por que isso é realizável, oras!  Porque uma parte da felicidade é não desejar, é limitar sonhos, ou seja, simplificar. E é isso que é vendido desde que a humanidade existe! Quando o Google Images colocar a foto de uma mansão com um Porsche na garagem quando eu escrever a palavra felicidade, aí terá algo de errado, pois vai instigar a frustração e sofrimento.

Porém, outro fator que destrói tudo que escrevi agora: será que, tendo a consciência de que estou limitando meus desejos com o objetivo de atingir a plenitude da felicidade, esta não é uma forma de aceitar a infelicidade? É possível ser feliz tendo a consciência que precisa ser ignorante?

Incoerente, tudo isso. Assim como a vida que também é incoerente, e quer saber?  Que bom que ela é assim!

 

Marcio Vieira


O teu passado te condena?

22/08/2011

Atualmente, de cada dez empresas, onze querem ser consideradas sustentáveis. A maioria delas porque entendem que precisam compensar suas pegadas para permitir uma exploração contínua de uma atividade, outras empresas, infelizmente, buscam a sustentabilidade para agregar valor ao seu produto e à sua marca.

Empresas sustentáveis são mais admiradas, assim como as empresas que valorizam seus colaboradores, que dão benefícios extras, empresas compromissadas com a Agenda do Trabalho Decente, empresas que incluem a sociedade do seu entorno em questões socioambientais, enfim, empresas que vão além da legislação reguladora acabam, por tais práticas, aumentando sua reputação no mercado e sendo escolhidas pelos consumidores na hora de adquirir um produto ou serviço.

Porém, uma questão importante para ser analisada é a relação da empresa com seu passivo. Considerando que a prática da sustentabilidade é mutável a cada dia com a inclusão de novas tecnologias limpas, com a inclusão de novos conceitos, novas leis trabalhistas, novas técnicas de exploração com menos impacto ambiental, novos parâmetros certificadores, etc., e o passivo acumulado de anos, décadas, às vezes séculos, quando foram utilizados procedimentos que hoje são inadequados, o que será feito com tal passivo?

A maioria esmagadora das empresas esconde essa preocupação, jogam para debaixo do tapete, perpetuando o esquecimento em uma gaveta empoeirada qualquer. Não tocam nesse tipo de assunto porque, por se tratar de uma questão muito vertical e aprofundada que poucas pessoas querem saber, tais empresas direcionam seus esforços na neutralização do impacto dos procedimentos atuais, visto que a cadeia de produção e consumo é atual, e não do passado.

Infelizmente é raríssimo encontrar nos departamentos de sustentabilidade ou que tratam de Direitos Humanos dessas empresas estudos que comparam as práticas e legislações do passado com as práticas e legislações do presente, com o intuito de identificar esse gap, às vezes de grandes proporções, que retratam um passivo de impactos que foi deixado de lado.

Não conheço nenhuma empresa que É sustentável, É verde ou É responsável socioambientalmente. No máximo, conheço empresas que ESTÃO sustentáveis e verdes. Existe uma profunda diferença entre o ser e o estar, um retrata desde o seu nascimento, outro retrata o momento, mas que na hora de divulgar em campanhas, muitas vezes milionárias, sobre as práticas socioambientais, utilizam-se o termo errado de ser, enganando o consumidor.

Entendo que, para ser considerado sustentável, para ser “amiga” da natureza e da sociedade, é preciso olhar para o passado. Concordo que é difícil pesquisar métodos em tempos de pouca tecnologia, baixos registros e poucos documentos ainda existentes, mas o termo sustentabilidade retrata a conscietização de uma situação dos impactos ao longo de toda uma existência.

É difícil mensurar as pegadas de gerações passadas mas, se o nome é o mesmo, se a empresa é a mesma, tais atividades fazem parte não só do passado, assim como do presente, visto que tudo está dentro da vida de tal empresa. Não se esquivar do passado e não ter vergonha dele é necessário para o desenvolvimento de um significado efetivamente mais próximo da sustentabilidade.

O atual momento do planeta e da sociedade reflete as ações do passado. Se novas leis e novos procedimentos são considerados vitais para o desenvolvimento socioambiental, muito se deve às práticas inadequadas e às consequências dessa exploração do passado. Portanto, ao invés de esquecer o passado, deve-se trazê-lo à tona para discutir, contabilizar, mensurar, enfim, auditar o passado para que tais empresas paguem pelo seu passado, fazendo sua compensação com a sociedade e com o meio ambiente conforme a atualização dos conceitos de Sustentabilidade.

Nesta linha de pensamento, forma-se uma ciranda, e nunca uma empresa será sustentável ou respeitará o trabalho decente. Direitos Humanos e Sustentabilidade são utópicos. É impossível atingir a plenitude dos Direitos Humanos e da Sustentabilidade, mas este assunto será tema de um próximo capítulo, aqui no Pegadas.

Marcio Vieira


Atritos entre sonho e consciência

12/02/2011

É comum eu me pegar em assuntos viajantes, já que minha facilidade de arrancar a cabeça do resto do corpo é alta, assim acabo entrando num ‘mundo do Bob’, onde conflitos internos e questionamentos são os temas preferidos do diálogo entre meu subconsciente e aquilo que acredito que seja consciente

E o que mais me faz perder horas, sonos, às vezes dias, é o reflexo daquilo que venho fazendo na vida. Tive muita sorte em absorver experiências e conhecimentos sensacionais que, no fim, compactuam com a teoria socratiana do só sei que nada sei. E apenas agora, recentemente, me dei conta que a expansão da consciência é um círculo vicioso, sem fim, e se você for uma pessoa que se cobra muito, a tendência será, infelizmente, a frustração e o sentimento de derrota.

Este blog, propositadamente, tem como nome exatamente as consequências dos caminhos que levamos por toda esta vida, sabendo que  nossas marcas sempre estarão lá, e o que vai diferenciar é se elas serão positivas ou negativas. Neste pensamento do nosso impacto na Terra, inventaram as calculadoras ecológicas e questionários para mensurar tudo que fazemos e que deixaremos para as próximas gerações.

Eu, por vários motivos, principalmente no lado familiar e no interesse próprio, expandi minha mente visando alguma proteção socioambiental. E lá fui plantar árvores, lá fui trocar o carro pela bicicleta, tornar-me vegetariano, estudar Direito, aprofundar o lado dos direitos humanos, desenvolvimento sustentável, protestar contra governos, e outros blábláblás importantíssimos na sociedade contemporânea.

Mas o que me inquieta tanto hoje é que alguns sonhos ficaram reprimidos por parecerem imorais numa sociedade verde a qual deve lutar pela sobrevivência do planeta. Sensações, sabores, vícios que ferem a mãe natureza, neste momento, estão socialmente proibidos, mas que a massacrante maioria da população consciente faz de forma moderada, ou ‘escondida’, sei lá.

Eu fui vegetariano por dois anos. No primeiro ano, ovolactovegetariano. Não aguentei aquela vida e abri espaço para eternas paixões: comida japonesa, a bacalhoada da minha vó e jamón, que comi no segundo ano com um certo peso na consciência, ferindo minha ‘ecoconsciência’.   E durante esse tempo, nunca recusei comidas sangrentas quando eu era visita, pois considero desrespeito quando alguém faz algo com bastante carinho, e chega um vegetariano dizendo que não come.

Hoje, aqui em Genebra, por questões de economia, eu como o que está mais barato na gôndola e que seja fácil de cozinhar, visto que meu tempo está escasso, meu dinheiro, raro, e tenho objetivo de, ao menos, não ficar anêmico.  E o peso na consciência vai perdendo força, não choro mais ao mastigar um franguinho ou um hamburger congelado. O que não pode é passar fome.

O carro foi algo mais natural, colei um adesivo na bike “um carro a menos” e vamos economizar espaço e ganhar em saúde, mas por boa parte do Brasil ter uma sociedade ainda provinciana com relação ao uso de roupas mais leves em ambientes profissionais, isso bloqueia, ainda, o crescimento do uso da bicicleta como veículo.

E, neste âmbito, como é que fica meu sonho de ter uma Kombi antiga e um Fusca? Será que vou me tornar um infrator quando comprar minha kombosa? Mesmo sabendo que sua tecnologia ultrapassada faz ser um carro poluente, será que se configurará crime no momento que andar com um carro antigo ou eu, para participar da sociedade, necessito andar de bicicleta ou comprar um carro de baixas emissões?  Mas e se o carro for para 4, 5 pessoas, e eu andar no máximo com uma pessoa ao lado, deixando o banco de trás vazio, será que a mãe natureza me mandará acertar as contas com o diabo?

O fato é que precisamos, sim, criar uma consciência coletiva, sabendo que o planeta está em coma, precisa ser medicado e policiado. Sabemos que precisamos limpar o ar, a água, a terra, todos contaminados pela ação do homem.  Mas a pergunta é: será que todo sacrifício (e prazer, incluso) em tentar ser um cara bacana para a querida e apaixonante Terra, não me permitirá comer meu sushi e andar de kombi azul calcinha (ou amarela com branco)?

Poxa, eu sou um cara gente boa, Mãe Natureza! Tanto que já andei a pé ou bicicleta quando poderia ir de carro, tanta economia de energia, tantos animais que deixei de consumir, as roupas que pouco compro, hoje estou mergulhado na ONU e OIT, tentando achar as mais diversas soluções de melhorias para toda população, não só de humanos, será que a incansável expansão da consciência não permitiria eu descansar minha própria mente, sem preocupação das minhas pegadas, quando segurar o volante do meu futuro fusquinha de cor laranja?

Será que eu posso deixar minha cabeça em paz sabendo que para cada litro de cerveja que consumo, são dez de água para produzí-lo?  Gosto de cerveja, natureza, ela me faz bem, permite minha desaceleração e relaxamento. Será que posso beber sem achar que estou matando o verde? E os churrascos de no mínimo 7 horas de duração, será que o capeta vai puxar minha orelha por gostar tanto disso, de comer de vez em quando uma carninha mal passada?

Enfim, são tantos ‘serás’ que inquietam minha mente, paralizando, por muitas vezes, minhas pernas nessa jornada tão longa (mas que passa tão rápida) chamada vida. Uma vez estagnado, fico sem as tais pegadas e sem registros na vida por pensar demais. E quanto mais penso, Sócrates, fico tão maluco quanto você foi. Além de me perder, obviamente.

Não estou aqui desistindo da vida de salvador planetário. Apenas cheguei na conclusão que já tenho lá meu saldo positivo com a natureza e com a sociedade por diversos motivos: estar envolvido profissionalmente com questóes sociambientais, gostar de andar de bicicleta, gostar do verde, do mar, do vento, por recusar produtos sem selos e certificados, etc.

Mas não vou bitolar, vou assistir os filmes e ouvir cds oferecidos na internet, vou comer o rango japoronga e vou querer ter minha kombi.  Nem por isso serei um criminoso ecosocial. O que fiz foi enfiar tudo que fiz, faço e quero fazer, nessas calculadoras naturebas sem fim, e vou relaxar a cabeça porque sempre haverá alguma coisa que estou prejudicando, mas não vou passar dias em claro por isso.

O que recomendo, sei lá se posso recomendar, é que cada um expanda sua consciência, busquem conhecimento, enxergue suas próprias pegadas, seus impactos na Terra, e que faça algo para equilibrar todo esse sistema, mas sem ficar neurótico, sem deixar de sonhar, sem peso na consciência de fazer lá sua “sujeirinha” neste planeta azul. Faça de tudo para ter saldo positivo, porque hoje eu cheguei na conclusão que aumentar freneticamente o crédito não é tão importante assim quando a consciência entra em confronto com os sonhos.

É preciso relaxar nesta vida, também.


Incoerente país

27/10/2010

Estranha comoção,

antes picareta ou ladrão,

agora choram ao redor de um caixão.

Enquanto milhões esqueceram seu passado,

que não é tão obscuro, é sanguinário.

Aproveitam os Poderes para escárnio,

porque morreu um ex-ordinário.

Mas se é ex, então morreu um santo?

Não, como esse eu não me engano,

caneta em uma mão, na outra tem um cano.

Pensam que borracha apaga chumbo,

brotam falsas lágrimas em todo mundo,

principalmente naqueles que vivem de eleições

maltratando, desrespeitando multidões.

Pau de arara e choque elétrico,

não importa qual o método

contra aqueles que lutaram pelo certo,

e o torturador levou todo o mérito.

Direitos Humanos foram rasgados,

foi o enviado do Diabo!

que parou lá no Senado

sem deixar nenhum legado.

Incoerente esse país,

que mais de trinta anos depois

onde torturado e torturador,

para mesma foto dizem x.

Se é a força do perdão?

Não, é porque estamos em eleição.

Marcio Vieira