Geração “Pular Anúncio em 5s”

30/10/2014

ponteiros

Não é fácil, mas aceito o desafio: eu tenho poucos segundos para tentar te convencer a ler as “n” palavras deste texto.  Para não assustá-lo com a divulgação de um número alto, melhor dizer que são apenas 13 parágrafos. É rápido, prometo que não vai doer.

Nos próximos 3 minutos de leitura, a missão de fazer você não olhar para o celular para ver se chegou nova mensagem do whatsapp torna tudo ainda mais complicado. 100% de atenção por meros três minutos é uma vitória não só para publicitários, como para qualquer ser humano, especialmente com a própria família. E lá se foi um tempo precioso tentando te sensibilizar para ler até o final.

Geneticamente anciosos. Somos filhos ou netos dos baby-boomers do pós Segunda Guerra, e sei lá qual explicação astrológica possamos dar, as Gerações X, Y e Z têm tudo, menos paciência. Se já estava claro antes, durante as eleições foi ratificado e não precisa de referendo, plebiscito e nem qualquer tipo de consulta da opinião pública para falar da nossa falta de paciência.

A quantidade estarrecedora de compartilhamentos de notícias falsas foi chocante. Seja lá qual a bandeira política hasteada, deveria haver, além de uma pesquisa mínima para verificar a credibilidade do site, uma paciência mínima para ler a matéria por completo e não apenas o título.

Outra contestação foi os inúmeros casos de divulgação de notícias de meses, até anos atrás, sem ao menos ler a data de quando aquilo foi publicado. Tais compartilhamentos, de sites mais conhecidos, são feitas só porque o contexto poderia polemizar com os dias atuais. Novamente só leram o título.

A falta de paciência de alguns causa uma explosão de raiva que extrapola limites, tanto que já é possível prever catástrofes. As 20h010, poucos minutos após a divulgação do resultado parcial (90%) das eleições, escrevi no Facebook para as pessoas refletirem sobre possíveis ataques contra nordestinos. E olha que não precisa ser nenhum Pai de Santo, era óbvio que isso iria acontecer.

Bingo. Uma enxurrada de mensagens discriminatórias contra nordestinos, pobres e pessoas assistidas pelo Governo Federal foi vista na internet. Pessoas que no cotidiano podem até não demonstrar tais reações xenófobas, mas que diante da provocação causada pela derrota incendiaram a internet com aquilo que estava reprimido, esperando o momento para descarregar.

Se foi um descarrego intempestivo, sinal claro de que tal preconceito estava o núcleo desse indivíduo. Isso é grave e precisa ser resolvido com terapia. Após tantos ataques em poucos minutos, dizer “Nordeste, seu lindo” é tentar tratar com um band-aid um ferimento causado por bazuca. A ferida na sociedade brasileira foi exposta, e ela é hemorrágica, cada dia sangra mais e há mais ódio.

A tendência é só piorar porque solidificamos com vigas enormes o que realmente somos: a Geração “Pular Anúncio em 5s”. Ninguém tem mais paciência com nada e com ninguém. Criamos um botão em todos os teclados sociais que batizei de “Acelerador da Vida”. Assistir uma propaganda de 30 segundos é tortura, então o Youtube e afins, com medo de perder seus preciosos espectadores, permitiu pular para evitar sofrimentos alheios.

A situação da nossa sociedade é tão grave que as agências de publicidade atualmente têm a missão de te fisgar em 5 segundos para você não apertar o maldito Acelerador da Vida.  E esse botão está em todos os lugares: se o seu prédio tem dois elevadores, você chama um elevador e não espera nem 2 segundos para chamar o outro. Quando o sinal verde é mostrado e o carro da frente não anda em 5 segundos, a sinfonia de buzina é tocada. E quando o semáforo fecha, todos já correm para pegar o celular para ver se chegou alguma mensagem.

Nem vou me aprofundar muito citando os mecanismos para furar todos os tipos filas, seja desrespeitando quem está à frente ou seja pagando para ser Vip de balada, Vip de Estacionamentos, Vip de Cia. Aérea para entrar primeiro no avião (e todos voarão juntos, catzo!!), Vip de pedágio, etc. O tempo, cada dia, custa mais. E agora estão mensurando (e cobrando!) o valor dos segundos, algo que você nunca pensou… por falta de tempo.

Somos seres apressados, minha dúvida é se tal pressa é sede de viver ou é vontade acelerar tudo para morrer mais rápido com doenças criadas nas últimas décadas em virtude desse estilo de vida. Investe-se fortunas para criar e conviver com necessidades que eram completamente desnecessárias há poucos anos.

Se a história da Terra de 4.5 bilhões de anos fosse resumida à um dia, a humanidade seria contada em seis minutos e nós, da Geração “Pular Anúncio”, os grandes responsáveis por destruir todo o ecossistema, causando danos irreversíveis à Terra, faríamos isso em exatos 5 segundos. Os mesmos 5 segundos que te torturam diariamente.

Marcio Vieira

PS: foram 790 palavras.


Saia do automático

10/01/2014

cambioautomatico

Todo animal busca, por instinto, a facilidade. A lei do menos esforço, a fruta mais acessível para comer, o animal mais lento para caçar, a menor distância para percorrer, o trabalho mais fácil para realizar, o mais rápido para terminar, o menos desgastaste, enfim, o automático.

Conquistar pelos meios mais fáceis é digno, demonstra utilização da inteligência em otimizar o tempo. Mas será que o propósito da vida é mensurar, contabilizar, ou seja, terminar o dia sobrando tempo? Ao meu ver, o propósito é o “como aproveito o tempo”, visando a qualidade, e não quantidade.

Se eu parto de um princípio que somos seres em evolução constante, qual a vantagem de fazer o mais fácil? Conquistar o mais fácil é economizar tempo… e qualidade. Assim, aonde está a evolução?

Para evoluir é preciso mudar, e para realizar a transformação, entendo que há duas formas: a liberdade e o desconforto.

A liberdade serve para pensar e questionar o que está sendo feito em vida, para quem está vivendo, e qual é o modelo de vida que está seguindo. A liberdade de dizer “não”, ou “sim”, dependendo das circunstâncias, e estar ciente sobre os reflexos na sociedade de seus atos. Liberdade para ser quem gostaria de ser, independentemente do que se passa no mundo.

O desconforto, por sua vez, é a imposição da transformação. E o desconforto está em voltar alguns passos, mas com a cabeça de hoje.

Exercitar o desconforto é poder ter mais, no entanto, consumir menos. Exercitar o desconforto é utilizar outros meios de sobrevivência, outros meios de experiência, outros meios de existência, sabendo que há condições socioeconômicas para não participar daquilo.

Uma das maiores experiências da minha vida era enfrentar fila para almoçar no bandejão junto com mendigos, dependentes químicos, pessoas da mais baixa classe social. Eu fiz por desconforto, porque era um privilégio meu ter aquilo como opção, e não necessidade.

Poderia ter gasto dinheiro em restaurante ou em supermercado, mas eu queria, pelo menos uma vez por semana, enxergar um lado da vida que vidros blindados e escurecidos segregam nas ruas.

Uma vez tentei dormir na rua por opção, mas às 4 da manhã meu orgulho venceu e fui para meu carro chorar. Chorar porque tem gente que vive assim como necessidade, e não por experimentar a curiosidade do desconforto.

Não acho que todos devem fazer isso, estar entre os invisíveis, porque a zona do desconforto é completamente subjetiva e individual. O que é desconforto para mim, pode não ser para você. Não há certos, nem errados, mas penso que cada um deve realizar algum tipo de desconforto para evoluir na vida, enfim, sair do modo automático.

O desconforto está na forma de consumir, o que consumir, a quantidade do que consumir, o “por quê” consumir. Consumir bens, serviços, consumir cultura, informação, experiências, o consumo é infinito e livre, desde que esteja na legalidade, porém, isso deve ser mais discutido entre todos, afinal, pouca gente percebeu que inverteram a correnteza do rio: antes era o consumidor que criava a demanda, hoje são as grandes indústrias que criam necessidades.

Necessidades que não existiam passam a ser condicionadores da felicidade. Se você não comprar o celular X, o carro Y ou a roupa Z, você não gozará da felicidade.

Então, surge a frustração. E para acabar com a frustração, inventaram o financiamento. O financiamento, por sua vez, criou o endividamento. O endividamento, por fim, perpetua a vida em um sistema que engaiola o cidadão num ciclo o qual ele mal sabe que entrou e acaba tornando a vida automática do “nascer, estudar, trabalhar, prociar e morrer”.

Vida no automático leva ao automático, aos modelos sociais já existentes, sem novidade alguma. Se isso o satisfaz, abrace a causa e seja muito feliz! Porém, eu quero uma vida no manual, que leva ao desconhecido, ao desconforto e muitas interrogações.

Isso não significa uma apologia à pobreza, muito pelo contrário. Eu entendo que a sociedade vai definitivamente se evoluir quando for iniciada uma manifestação voluntária por uma vida em classe média, com o mínimo de desigualdade possível.  E para isso acontecer, é de responsabilidade dos mais abastados economicamente não inflacionarem o consumo, muito menos desenvolverem novas necessidades desnecessárias porque é isso que causa, nas classes mais baixas, o endividamento e, infelizmente, o crime.

Marcio Vieira


A Gaiola

24/09/2013

thecage

Escrevi, há uns dois meses, e preguei no meu quadro de recados a principal pergunta que existe, e todo dia, desde então, olho para a pergunta. O intuito não é apenas olhar, é também refletir.

Qual é o seu projeto de vida?

Pesada, tal pergunta.

Os últimos dois anos, desde que voltei pra São Paulo, tento vencer os meus próprios questionamentos, insistindo num modelo em que a maioria das pessoas daqui (e qualquer outro lugar) segue, o qual apelidei de “Projeto Gaiola”.

Uma das maiores sacanagens que considero é alguém “cuidar” de passarinhos em gaiolas. Fazem isso, talvez, porque não perceberam que vivem dentro de grandes gaiolas e assim querem que outros animais sigam o mesmo modelo de vida.

A Gaiola consiste, basicamente, em entrar num círculo vicioso com vários subprojetos onde o ponto de partida é sempre o mesmo: a insatisfação.

A insatisfação pode ser vista de diversos ângulos, mas vou destacar o lado positivo: a busca por melhorar. É benéfico o sentimento da insatisfação positiva de, todo dia, querer algo novo: uma roupa nova, um celular novo, um carro novo, um imóvel novo. É uma forma de lutar e realizar vitórias.

No entanto, é perigoso esse sentimento porque a conquista momentânea é apenas um anestésico aos indivíduos que aderiram ao Projeto Gaiola. O prazer, com o passar do tempo, perde eficácia e, em pouco tempo, existirão novas roupas, novos telefones e novos carros.  E, de repente, o seu apartamento ficou pequeno porque sua sala ficou pequena… porque sua televisão aumentou de tamanho.

Porque na sua cozinha ficou pequena: lá tem novos utensílios, panelas elétricas, cafeteira de cartucho, churrasqueiras elétricas, máquina de pão, descascadores, “mixer”, George Foreman, Máquina de suco para nove tipos de frutas, sendo que, para cada fruta, utiliza-se um acessório diferente.

Porque seu armário ficou pequeno:  novas camisas, novos vestidos, novas cores, novas estampas, novos casacos, tênis de corrida, tênis de montanha, sapato, sandália, rasteira, salto alto, médio, baixo, sapatênis, roupa da academia, roupa de ficar em casa, roupa de trabalho, roupa de trabalho às sextas-feira, roupa de sábado de sol, roupa de friozinho, friozão, chuvinha, chuvão, calorzinho, calorzão.

Em resumo, novas necessidades!

O mundo está mais dinâmico, as pessoas estão mais aceleradas, mais conectadas, mais informadas. A mente é mais rápida que os olhos e que as mãos, e o que você segura hoje não será o que você vai desejar amanhã. É aí que surge a primeira frustração, causando insatisfação.

Troca-se!

Para que você não desacelere, para que você continue alimentando sua própria insatisfação, ficou mais fácil trocar tudo. Roupa, carro, emprego, telefone, cidade, casa, amigos, marido.

E tudo isso atingiu essa velocidade de desejos porque está mais fácil se endividar. Quando alguém termina de quitar um bem, tal pessoa sente a obrigação de contrair novas prestações. É como se a conta bancária não permitisse sobrar um dinheiro. Se sobrar, não é feliz.

E ainda tem muita gente que nem espera quitar, já vai atrás de um novo celular, um novo carro, uma nova casa, tudo para anestesiar a insatisfação.  Refinanciamento, e resolve-se tudo.

Não digo para as pessoas se acomodarem com o que tem. Não é isso! O que quero, em resumo, é refletir sobre o Projeto de Vida e ajudar a a responder tal pergunta, então fui atrás de uma palavra: “Necessidade”

Será que é necessário eu me enforcar em prestações para estar satisfeito? Será que é realmente necessário atualizar meus bens? Será que é Necessário precisar de algo ou de alguém para atingir a felicidade?

Na minha opinião, seria muito injusto (sacanagem mesmo!) estabelecer condições para a felicidade. Condicionar a alegria, a satisfação, impor critérios, regulamentar condições, regras, limites para ser feliz.

Porém, entrar nesse carrossel para querer melhorar a gaiola é o propósito mais aceito para justificar a felicidade. A sociedade está condicionada à esse modelo de vida, que gira no mesmo sentido sobre os mesmos trilhos, mudando apenas os bens e pessoas, mantendo as mesmas sensações, mesmas angústias e mesmas frustrações.

O sonho pode parecer diferente aos olhos, mas o que movimentou aquele pensamento são os mesmos sentimentos de outrora.

Seu projeto de vida pode não ser uma gaiola, mas sim um viveiro, lindo, confortável, com churrasqueira na varanda e piscina aquecida.  Mas  é bom lembrar que todo viveiro sempre será gaiola.

São gaiolas e carrosséis espalhados e empilhados por toda cidade, e para sair de mecanismo de vida não precisa rasgar tudo, não precisa vender tudo, sair da cidade, largar tudo, comprar uma kombi e virar hippie, chutar o balde, mandar chefe para “aquele lugar”, etc.

Para sair do Projeto Gaiola, basta identificar as próprias necessidades, olhando para dentro, para o coração. Tem muita gente que está fora da Gaiola, mesmo vivendo na caótica São Paulo. Viver livre independe de locais caóticos ou praias paradisíacas.  Sua mente pode estar presa em qualquer lugar.

A solução, veja bem, não é trocar de gaiola.

O desafio começa pela auto-avaliação do modelo de vida que decidiu seguir. É analisar as influências do consumismo desenfreado, a real necessidade de novos comprometimentos da renda por objetos, imóveis, bens, serviços que não são realmente necessários.

É saber dizer não. Ou sim, onde a prática do desapego é o exercício a ser realizado.

De forma resumida, A Gaiola é o limite do seu vôo. Limite da sua mente.  Não ter gaiola, definitivamente, é o maior desafio da vida, já que ela foi montada dentro das pessoas, porém, cabe somente à você a manutenção do modelo de vida que te traz mais felicidade.

Afinal, qual é o seu projeto de vida?

Marcio Vieira


O Calheiros de cada um

07/02/2013

renancalheiros

Todo esse ânimo exaltado das pessoas indignadas (infelizmente só nas redes sociais) por causa da eleição de Renan Calheiros à Presidência do Senado me fez pensar um pouco mais, saindo da superficialidade do tema.

É muito fácil apontar o dedo para as outras pessoas, e é muito difícil cutucar a própria ferida. Por um único motivo:  cutucar ferida dói, limpar a sujeira debaixo do próprio tapete é trabalhoso, o que faz a maioria é deixar a vida passar rapidamente com essas coisas escondidas para ninguém ver. Para ninguém julgar.

Só quando a ferida sangra é que fica visível. Só quando a sujeira aparece todos enxergam. Quando o ladrão é pego, é preso. Quando o corrupto é desmascarado, pela sociedade é julgado.

– “Oh, os políticos mais corruptos do mundo afundam o próprio país”, chorarão uns.

E depois apontam à tais engravatados de Brasília o motivo do “Brasil não ir pra frente”. Sim, eles têm culpa no cartório, na delegacia, na justiça e na pqp, porém não tem culpa pela flacidez da bunda da população de tão acomodada que é. Deve-se tirar o cabresto porque o buraco é mais embaixo!

É muito fácil ser santo na vida, afinal, todos são até o dia que fizerem a merda besteira, correto?

Não, não é quando cai a auréola acima da cabeça que deixa de ser santo. Infelizmente deixa-se de ser anjo quando a casa cai e a coisa vem à tona. É quando você fica nu.

Cada um sabe o tamanho do Calheiros que tem dentro de si. Eu, por exemplo, refleti sobre meus e, num deles, o que considero mais grave, resolvi mudar de atitude: parar de dirigir após beber álcool.

Tenho sorte de nunca ter perdido alguém próximo, vítima de acidente por causa de bebida alcoólica (seja culpado ou vítima), e não consigo imaginar o tamanho da revolta que deve ser quando se perde alguém por culpa de motoristas alcoolizados. Já cheguei aos 30, e há pelo menos uns 4 anos não vejo graça nenhuma em ficar bêbado.

Sim, sou chato.

Eu nunca me arrisquei dirigindo com álcool no sangue em outro país. Medo de ser preso, de pagar caríssima fiança, medo de matar, medo de morrer.  Por que no Brasil tem que ser diferente? E quando dirigia depois de beber?

Eu voltava bem devagar pois, se desse merda, seria merdinha. Um parachoque, um amassado pequeno, sempre imaginei que não passaria disso. Ainda bem que nunca me envolvi em acidente depois de beber, pois esse é um assunto muito grave, muito mais que corrupção de covardes como Renan Calheiros, afinal, envolve a vida.

50km/h pode derrubar um ciclista que na queda pode morrer. 40km/h pode atropelar um pedestre e pode matá-lo. A merdinha seria comigo, não com os terceiros.

Dirigir bêbado é crime, e não quero desperdiçar minha vida nem das pessoas queridas do meu convívio.

Pensando no Paulo Maluf que cada um carrega, decidi parar de dirigir após beber. Se vou cumprir ou não, o tempo dirá, mas vou me esforçar para cada dia ser uma pessoa melhor, e eu sei que tenho muito ainda que melhorar.

Há outros tipos de Calheiros correndo no sangue de cada um, de não pedir nota fiscal em todos os estabelecimentos, de comprar produtos de origem duvidosa, de pedir “jeitinho” para o Contador na hora de declarar a renda, subornar fiscal, subornar policial, comprar droga, consumir droga, etc. São infinitos Calheiros e cada um sabe o peso disso.

Gandhi eternizou “seja em você a mudança que quer para o mundo”, e cabe a cada um refletir sobre seus atos. Apontar o dedo para o erro dos outros é muito fácil. Ficar indignado pelo desvio de centenas de milhões de reais também é muito fácil.

Mas e os seus próprios atos, conscientemente praticados de forma errada, desigual e até criminosa?  O que vai fazer?  Continuar do jeito que faz e, ainda assim, lutar e reivindicar por “Justiça Social”?

Incoerente, né?

A corrupção de cada um da população é o combustível que alimenta e justifica os crimes dos políticos.

Ninguém precisa apontar o dedo para mim, eu mesmo posso fazer isso pois só eu sei bem o tamanho dos Calheiros que carrego dentro da minha consciência, mas quero arrancar um por um por um único motivo: evolução.

Se eu não sou a mudança, e se eu não faço a mudança acontecer, e se eu não começar em mim o que quero para o mundo, qual sentido disso tudo?  Ou você pensa que o mundo precisa estar lindo, cheiroso, limpo justo e honesto para você começar a mudar os seus próprios hábitos?

Se você gasta tempo mostrando indignação por causa de outras pessoas, você tem tempo mais que suficiente para olhar para dentro de você.

 

Marcio Vieira


Não tem problema, pode me excluir

23/01/2013

a380

Segunda-feira passada entrei no meu Facebook para ver o que se passa lá, e com as pessoas de lá, então tomei um susto: aceitei o pedido de amizade número 700.

Caramba, 700 pessoas!  E daí comecei a refletir sobre isso. É muita gente, capaz até de lotar o Airbus a380 (aquele avião duplex) e ainda fazer overbooking!

Tem alguma coisa errada comigo, não é possível.  Meus aniversários, eu fico mega feliz quando vão 20, 30 pessoas. Fico contente quando umas cem pessoas do mesmo Face me parabenizam na mesma data.  Ok, mas para chegar em 700 faltam ainda 600!  Onde está toda essa gente na minha vida?

Então decidi investigar meus contatos na mais famosa rede social e percebi que tem muita gente que participou da minha vida em algum momento, mas hoje não participa mais.

Os motivos são dos mais variados, pessoal do colégio, da faculdade, dos trabalhos que exerci, da rua, bar, praia, viagem, jogo do Corinthians, galera do carro antigo, da comida vegetariana, da meditação indiana, da bicicleta noturna, do prédio que cresci, do punk rock, das cidades que morei, enfim, são pessoas que participaram da minha vida.

A vontade é sempre ter todas as pessoas por perto, mas é depois da necessidade do “encontro obrigatório”  que percebo que não importa quem vai, quem fica e quem vem. O que realmente vale é descobrir qual sentimento aquela pessoa produz em você.

Considero amigo gente que não vejo há quinze anos, mas não considerei mais gente que vi há poucos meses, mas que o “santo não bateu”. Paciência, não é culpa minha nem de ninguém, o sentimento, quando não é obrigatório, fica mais sincero.

Então fiz uma primeira seleção e em alguns minutos tirei 160 pessoas da minha rede social. Caracas, é muita gente! Muita gente com histórias de vida incríveis que não tive a oportunidade (ou vontade/interesse) de conhecer, muita gente que poderia acrescentar na minha vida pessoal, profissional, etc., mas que, neste exato momento, não fará falta.  Eu me viro sem, e tenho certeza absoluta que tais pessoas já se viram muito bem sem a minha presença.

Pode ser (tomara!) que volte a ser importante, ou não, sei lá, deixa rolar! Vida segue sempre, mas essa coisa de Facebook, Twitter, isso é algo paralelo ao que realmente importa, mas tem muita gente que se incomoda com esses números e faz de tudo para atingir os milhares, tem 2 perfis, etc.  Respeito a necessidade de cada um, mas a minha necessidade eu percebi agora está longe de ser isso.

Quantas pessoas te ligam? quantas pessoas você se sente bem? E, principalmente, com quantas há vontade de conversar? De vivenciar ao redor de uma mesa de bar, de um restaurante, praia, viagem?  Não importa se faz 2, 3 anos, se você se sente confortável de falar com a pessoa, é uma pessoa que vale a pena preservar na vida.

Vale a pena também preservar aquelas que você tem um feeling de que serão importantes em algum momento da vida, seja pessoal ou profissional, ou, apenas, para trocar algumas ideias e dicas.  Ou que a pessoa é bacana, gente fina! Mas que haja um “prazo de validade” nessa expectativa: que essas pessoas participem ou demonstrem querer participar!

Eu dei uma pequena “selecionada” para criar maior importância para quem fica, e semana que vem vou dar outra. E peço, sinceramente, sem mágoas ou rancor: Não tem problema, pode me excluir.  Se o sentimento tem um traço de indiferença, ok, isso é perfeitamente normal, mas o importante disso tudo é dar mais importância para quem é mais importante.

Ou fique tudo do jeito que está, carregue as milhares de pessoas na rede de contato se isso te faz seguro e feliz. Importante é ser feliz, não é mesmo? Mesma coisa pode ser feita pelos contatos carregados no telefone celular os quais você nunca mais vai ligar. Desapegue!

Qual o tamanho do avião que você carrega? E quantos são? Quantos realmente voam com você?

Afinal, ninguém aqui é um número.

Marcio Vieira


Síndrome do Pavão

13/08/2012

Pavão! Um bicho engraçado, bonitão, todo penoso, reluzente, imponente, mas tudo isso quando está com as asas abertas para se mostrar para acasalamento. Abrem-se, então, as asas numa disputa matrimonial e aquele que aparentar ser o bonitão tirará a sorte grande.

Tem um monte de pavão na sociedade. Cada dia mais, a maioria circula na classe média. Muita gente se importa mais com a imagem do que com o que é, e o custo da imagem pode ser caro para quem não tem condição de bancar aparência, ou melhor, o status.

Busquei no Aurélio o significado dessa palavrinha: 1. Situação, estado ou condição de alguém ou algo, esp. perante a opinião das pessoas ou em função do grupo ou categoria em que é classificado. 2. O grau de distinção ou prestígio, ou situação hierárquica de um indivíduo perante demais membros do seu grupo social.

Status é, possivelmente, a palavra central que desencadeia os maiores problemas que o ser humano acha que tem. É tão forte que é capaz de inverter o fluxo natural dos pensamentos: ao invés de ser de dentro para fora, o indivíduo só se preocupa com que vem de fora.

É dar mais atenção à reputação, ao que se enxerga, e isso pode causar muitos danos pois é por causa de priorizar o status que muita gente já se endividou, já quebrou a cara, a cabeça, o coração, e continua fazendo isso sem imaginar que faz, investindo em demonstrar, ao invés de investir em ser.

Só que este, parece, ser um caminho sem volta, visto que cada dia que passa estamos mais expostos ao mundo: é no celular, no Facebook, Twitter, Linkedin, escrever baboseiras em blogs como este, etc., tudo isso faz você estar cada vez mais conectado com pessoas e, nessas horas, ter boa aparência é importante.  Eu escrevi importante, não fundamental.

O que você aparenta pode fazer com que você entre num grupo de indivíduos que se assemelham com seu perfil, mas o que você realmente É determinará o tempo que você permanecerá em tal grupo.

Se o colorido das suas penas de pavão é tão importante, você vai se endividar para ter um carro mais novo (sendo que o velho satisfazia suas necessidades de deslocamento), você vai comprar um celular mega tecnológico (para entrar no Facebook e publicar fotos do Instagram, não mais que isso), entre outras atitudes pouco racionais.

É por isso que tem tanta superficialidade no Brasil, e muitas marcas internacionais exploram da ingenuidade egocêntrica dos brasileiros que supervalorizam produtos que vêm de fora, inflacionando o mercado. É assim com carros, roupas de grife, mercado de alto luxo, no geral.

Resumindo, enquanto tiver trouxa portadores da Síndrome de Pavão que pagam o que for, incluindo ágio, para ter só por questão de aparência e status, o Brasil continuará a ser um dos países mais caros do mundo em bens de consumo, e tal reputação tem efeito dominó: começa lá na Classe A+ que influencia A, esta influencia a B+, que mostra para a B, B- e assim por diante.

A diferença é que a Classe A+ paga à vista pelo consumo, enquanto a média vai se enfiar em dívidas para, muitas vezes, influenciada pela futilidade da maioria da elite social, para ter o mesmo produto sinônimo de status. Indo pro final desse dominó, lá na Classe C, o mais pobre vai comprar a versão falsificada daquilo ou, mais grave ainda, roubar.

E cada vez mais, infelizmente, a Classe A+ tem demonstrado muita futilidade, soberba, ignorância e preconceito, então é preciso tomar uma dose extra de atenção sobre tais “tendências” de consumo.

É preciso saber separar na vida o que é importante daquilo que é fundamental, e muita gente coloca a imagem como fundamental. Não é fundamental, e em se tratando de um país com uma educação limitadíssima, os estragos sociais dessa mudança de valores são catastróficos, onde existe exemplos de pessoas que colocam mais de 50% do valor do imóvel que reside em um automóvel que, por sinal, está no Brasil a maior margem lucro das montadoras de carros do mundo.

Tem famílias de classe média que gastam mais de 150 mil reais para dois automóveis e vivem num apartamento que vale 300 mil. Na Europa e EUA, por exemplo, o gasto em automóvel raramente passa de 10% do valor do imóvel. As prioridades estão distorcidas, definitivamente, por causa de dar atenção à reputação.

Tudo isso fez do Brasil o líder de juros em cartão de crédito e paraíso para banqueiros. Cada dia esticam mais o tempo para se pagar e isso aumenta o risco de inadimplência, então a medida é aumentar o juros, consequentemente o preço final do produto e, quando se trata de produto que o exuberante Pavão gosta de se exibir, o lado emocional atrapalha a razão.

Se as pessoas começarem a buscar dentro de si o que se precisa para ser feliz, perceberão que muito do que têm e muito do que fizeram na vida foi influenciado pelo ambiente externo, o que se viu, e às vezes todo aquele esforço era desnecessário porque não era tão importante. Grandes esforços são necessários na vida, e deve-se escolher realmente no que vale a pena se endividar momentaneamente, e quais sacrifícios são válidos.

Não precisa ser um pavão todo plumoso para demonstrar ser alguém. Aparência tem prazo de validade.

Marcio Vieira


Síndrome de Datena

02/08/2012

Isso vai dar errado! Mas que porcaria de vida! Ô desgraça! Quanto azar, meu Deus!

Se sua mente se prende mais do que devia ao que é ruim, às situações adversas ou seja lá qualquer coisa que for longe de ser agradável, você pode pode ter contraído a Síndrome de Datena.

A doença pertencente a família dos Tragedius Negativus Mondocanis atinge, de forma silenciosa, milhões de pessoas pelo mundo, porém, 99% dos infectados não fazem ideia de como e quando contraíram o mal.

Os primeiros sintomas da Síndrome de Datena surgem com reações comportamentais negativas. Sim, aqueles que adoram contar uma tragédia pessoal, dizer que seus problemas são mais catastróficos que os meus, que suas responsabilidades são maiores, enfim, que tudo aquilo que tal indivíduo faz sofre maior desgraça divina podem já relacionar com a moléstia de Datena.

Não que a notícia ruim seja traumática, mas saber compreender a adversidade faz parte da superação dos problemas pessoais, financeiros, familiares, de saúde, etc. Problemas, afinal, todos têm, o que ocorre, no entanto, é que a mente humana gasta mais energia pensando nas coisas ruins, sendo desproporcional com as coisas boas. Exemplo:

Em uma festa, se vinte pessoas elogiarem sua roupa, e apenas uma, não importa quem seja, dizer que você está mal, o que acontece com você na festa? O mundo acaba pra você! E as outras 20 pessoas estão loucas, mentirosas, o que fica é aquela opinião de fulano dizendo que estou um lixo (tá vendo como já inflou a crítica e  você mesmo agravou, negativou mais, dentro de si?).

A mente humana é assim, descargas negativas atraem mais, por isso é importante treinar o lado positivo para equilibrar as informações que captamos todo o dia, para desbloquear, limpar a mente, deixar os pensamentos fluirem sem tanta tensão.

As pessoas mais negativas, de tão bloqueadas que são, têm o costume de sentir um prazer quase que masoquista de narrar num roteiro digno de novela cheio de dramas existenciais que justificariam a não materialização das próprias expectativas. É o prazer pelo mundo cão! Contar histórias de sofrimento, agonia, e distribuir a notícia para, de certa forma, valorizar a vida, mostrar que existe ao mundo.

Calma! Respire! Tome consciência do que você é antes de sair reclamando da vida. Considere-se, primeiro de tudo, uma pessoa de sorte. Você está vivo, você pensa, você sabe o que dói e o que alegra, você tem pessoas próximas, você tem a sua consciência de que quer fazer o bem. Se os objetivos não forem realizados, novamente, calma!, e reflita sobre a sua intenção, sobre aonde poderia melhorar, onde poderia mudar, e mude!

Passar a vida reclamando do trânsito? Ande de bicicleta! Acorde mais cedo! Passar a vida reclamando da profissão?  Mude! Ah, mas já estou velho para uma nova faculdade? Mais um motivo para não perder o pouco de vida que você acha que lhe resta fazendo algo que não gosta!

Passar a vida reclamando da cidade? Mude! Passar a vida reclamando do chefe? Mude! Do vizinho? Mude! Da mulher? Mude! Do emprego? Mude! Da pizzaria delivery? Mude! Do corpo? Mude! Emagrece, engorde, sei lá, mas mude!  Mude!! Mude, mude, mude tudo que te de insatisfação!

É por isso que admiro tanto quem se propõe à mudança. Mudança significa querer evoluir, melhorar, pois não conheço ninguém no mundo que objetivou uma mudança para regredir, para piorar a própria vida. O resultado da atitude é um detalhe posterior, que depende do primeiro passo: aceitar o que é e querer mudar aquilo que pode, e mais, que tudo, ter paciência.

A primeira mudança é dentro de você. O que você quer para você? Continuar expelindo energias e pensamentos negativos não ajuda em nada, só piora, aliás. Esperar cair do céu a solução, também não! Só reclamar, só se frustrar, só remoer sentimentos ruins todos os dias, isso pra mim é um suicídio em conta-gotas. Enxergar só as notícias ruins, viver rodeado de problemas dignos de Datena, isso sim é desnecessário.

Acreditar naquilo que faz bem, que é especial, e seguir essa intuição faz parte da mudança. Aceitar que nada e ninguém é como gostaríamos, mas que podemos admirar, vivenciar, explorar o lado positivo de cada momento é importante e faz bem, porque a vida acontece no presente. O passado já foi e o futuro sempre será futuro.

Marcio Vieira


Ignorância, o segredo para a felicidade

25/08/2011

Antes de tudo, para deixar bem claro, este texto não chama de ignorantes as pessoas felizes, muito pelo contrário. É apenas um texto o qual tento expressar um conceito existencial sobre sentidos e sentimentos.

Imagine uma criança de uns 3 anos. Toda bonitinha, toda elétrica, curiosa, hiperativa, querendo mexer em tudo, subir em cima de tudo, etc. Ela faz isso por quê? Ela está com a consciência vazia, ainda, muito nova, está conhecendo tudo e sentindo desejos quando olha para tantas coisas, afinal, são tantas descobertas que mexem com a curiosidade. Tal criança tem seu hard disc novinho em folha, praticamente em branco, e todas as vontades de preenchimento surgem instintivamente com aquilo que se vê.

Segunda cena: imagine outra criança bonitinha de 3 anos, porém, num ambiente completamente diferente. Ela, desde seu nascimento, cresceu num quarto todo branco, fechado, e tem como diversão uma bolinha de tênis e um pandeiro. Com aqueles dois brinquedos, sem poder sair daquele quarto (mas com responsáveis ensinando a falar, e a se alimentar), passará toda sua infância e juventude com apenas uma bolinha e um pandeiro.

Qual das duas crianças têm mais chance de ser feliz? Obviamente que me responderão a primeira, pois é um crime gravíssimo que fizeram com a segunda, os direitos da criança presa foram violados, é uma tortura, ela crescerá com traumas seríssimos, etc., me darão inúmeras justificativas, e vocês me darão tais razões porque vocês sabem diferenciar as situações.

Rebato como advogado do diabo: qual das duas crianças vai chorar porque não tem tal brinquedo que viu na televisão? Qual das duas crianças vai chorar porque o amiguinho tem o novo playmobil? Qual das duas crianças vai querer um Playstation? Qual criança vai ficar chorando, berrando, no supermercado porque quer o caminhãozinho de brinquedo e os pais, intimidados, para silenciar o guri, comprarão? Enfim, qual criança vai sofrer mais?  Aonde está a tortura?

A segunda criança, trancada no quarto, que nunca viu televisão, não conhece outras crianças, não sabe da existência de outros brinquedos, de outros sons, que desconhece playstation, carrinhos e bonecas, que passará muitos anos atirando a bolinha de tênis na parede do quarto certamente não reclamará, não sofrerá, não vai pedir para os pais brinquedos novos, afinal, seu campo de visão é limitado tornando também limitados seus desejos, sua consciência e seus sonhos.

A criança aprisionada (que recebeu o mesmo carinho, colo, dos pais da criança livre, única diferença é que ela nunca saiu daquele quarto) tem mais chances de atingir a plenitude da felicidade pelo simples fato dos seus desejos serem pequenos, limitados, e crescerá sem influências do mundo externo. Você acha que ela sofre porque você sabe o que existe do lado de fora de tal quarto, você tem o conhecimento das diferenças, das culturas, idiomas, objetos, enfim, você toma consciência da existência de um mundo amplo, algo que tal criança desconhece, mas que, pelo fato de desconhecer, ela não sente falta.

Saindo do exemplo das duas criancinhas, percebo que a ignorância é um dos fatores para a atingir a felicidade plena. É comum passar na tevê reportagens onde tem lá uma família toda humilde, no meio da roça, plantando o que come, conhecendo poucos vizinhos, mas todos, sempre com um sorriso grande no rosto, simpáticos, que não pensam em mudar de vida. Vocês, das grandes cidades, conectados com o mundo, acham aquilo um absurdo!  Como pode aquele cara desdentado, com roupas esfarrapadas, que nunca saiu daquele fim de mundo, ser todo sorridente?

Ele sabe da existência de um mundo, das grandes cidades, etc., mas o medo, a insegurança, e o risco que se corre em querer “melhorar” de vida faz ele ficar na roça, limitando seus desejos que, por consequência, limitarão seus sofrimentos, e assim terão mais condições de atingir a plenitude da tal sonhada felicidade. O que é melhorar de vida, para ele, com certeza é diferente para nós.

Ampliando este pensamento, todo o histórico da humanidade foi feito com a construção de muros, fortalezas e fronteiras sociais para que suas populações não sofram com as influências externas, e assim (em alusão a criança chorando no shopping) reclamarão menos, se indignarão menos, será mais fácil controlar esse rebanho domesticado. Mas a pergunta é, será que eles são mais felizes?

Tenho muita curiosidade em conhecer dois países: Coreia do Norte e Butão. Países que se fecharam para as influências externas com o intuito de administrar seu povo. Coreia do Norte, massacrada pelo mundo, vive uma regime totalitário, sua população vive o comunismo forçado, não possui liberdade de expressão, mas não há diferenças sociais, todos usam o mesmo tipo de roupa, não conseguem sair para outros países, mas, por outro lado, não sofrem com desemprego, todos moram em apartamentos populares e, por o país ter investido muito no setor militar e na censura, domesticam a população para sentir orgulho do seu país e assim não rebelar a população contra o sistema. Será que os norte coreanos são felizes?

Já o Butão é mais festejado, afinal é o país com maior índice de felicidade. Ironicamente é o país com o visto de turista mais caro do mundo, uma ferramenta para dificultar receber influências do mundo exterior. Se não tem uma força militar repressiva, tem em princípios budistas outra forma para controlar os anseios da sua população, a partir da limitação dos desejos, e assim administram, de certa forma pacífica, mas não menos autoritária, a raiz existencial do ser humano, que é a busca pela felicidade.

Aprecio muito o Budismo. Toda sua essência gira em torno da razão pela existência e na busca de sentimentos e sensações livres de influência, assim não haverá sofrimento. Para atingir o nirvana, uma das quatro nobres verdades do Budismo é a Origem do Sofrimento, que se dá quando os desejos e as vontades em sentir prazer direcionam as atitudes do ser humano.

Ora, todos os exemplos citados, as duas criancinhas, a família na roça, os modelos políticos históricos, a Coreia do Norte e Butão têm exatamente no Desejo o ponto que se interligam, e assim foram desenvolvidas ações, sejam determinadas por um Estado ou seja de forma voluntária, com o intuito de limitar o conhecimento, fomentando a ignorância com o propósito de atingir a felicidade.

É errado prender uma criança no quarto? É, óbvio que é.  Mas você tem essa resposta porque você conhece o lado de fora. A criança, assim como os norte coreanos, são ignorantes, desconhecem o ambiente externo, têm suas consciências limitadas e, por serem domesticadas, têm mais chance de atingir a plenitude de uma satisfação, têm mais chances de serem felizes.

A família na roça optou em não arriscar sair da comodidade, e assim passam dificuldades (que julgamos ser dificuldades, talvez eles não vejam com esses olhos) menores, tem desejos menores, só querem se alimentar, cuidar da vaquinha, do bode, da pequena horta e viver assim. E quando chega um monte de extraterrestre com câmeras, cabos, carro, um monte de parafernália para entrevistar tal família, eles acham aquilo tudo engraçado, cômico, pois o diferente não é a família humilde, mas sim os repórteres e o mundo externo. Eles são ignorantes, mas são felizes. O que é mais importante?

Acrescento outro exemplo, agora do nosso cotidiano:  pedir pizza. Sabemos da existência de dezenas de sabores, mas por que 90% da população paulista repete os quatro principais sabores? Porque são gostosos, sim, está é uma resposta. Mas, além disso, porque têm medo do desconfortável, porque tem insegurança do diferente, porque limitam seus desejos para atingir uma satisfação plena, ou seja, porque ser ignorante com o cardápio na mão é menos arriscado, logo, gera menos sofrimento.

É fato que a criança livre, que deseja, sofre mais, principalmente porque desejos, na maioria das vezes, são só desejos. A criança deseja ser o Homem Aranha, escalar paredes, voar como Superman, desejam o Hot Wheels e a Barbie. Bens, dependendo do poder da família, poderão ser adquiridos, mas atirar teias e pular para o prédio vizinho serão somente desejos, e desejos causam sofrimento.

A frustração, característica do sofrimento, surge a partir da comparação com algo e a partir da tomada de consciência que tal coisa existe, mas que naquele momento, não pode ser ou não pode ter. Assim preenchemos nosso hard disc com inúmeras informações, experiências, culturas, conhecimentos, etc., que, se o perfil do indivíduo for de se alimentar por mais conhecimento, por mais informações, por mais diferenças, a tendência é tal pessoa ser infeliz porque nunca atingirá a plenitude da satisfação.

As ideias expostas neste post poderia virar um livro, quem sabe virará, mas para não me alongar neste momento, acredito que a ignorância, ou melhor, a limitação de conhecimento, é uma forma de atingir 100% de alguma coisa. Se focar algo bom, mesmo que limitado, poderá ser 100% de felicidade em passar a vida com uma bolinha de tênis, poderá ser vivendo num regime totalitário, poderá ser vivendo dentro de muros de um mosteiro, um convento, ou qualquer outra coisa que diminua seu campo de visão e conhecimento.

É possível ser plenamente feliz tendo conhecimento do que acontece no mundo externo? Sinceramente, tenho fé que sim, mas, sendo racional, acho que não dá. Porém, neste mesmo texto, trouxe “soluções” para ser feliz: criar limites, e se esforçar, trabalhar dentro deles para que, naquele espaço, seja de qual tamanho for (mas que seja limitado), você possa chegar o mais perto da plenitude, dos 100%, do preenchimento de algo.

Por que, se colocar no Google Images a palavra Felicidade aparecerá sempre a imagem de alguém de braços para o ar, ou pulando, movimentos que transmitem a sensação de liberdade? Por que isso é realizável, oras!  Porque uma parte da felicidade é não desejar, é limitar sonhos, ou seja, simplificar. E é isso que é vendido desde que a humanidade existe! Quando o Google Images colocar a foto de uma mansão com um Porsche na garagem quando eu escrever a palavra felicidade, aí terá algo de errado, pois vai instigar a frustração e sofrimento.

Porém, outro fator que destrói tudo que escrevi agora: será que, tendo a consciência de que estou limitando meus desejos com o objetivo de atingir a plenitude da felicidade, esta não é uma forma de aceitar a infelicidade? É possível ser feliz tendo a consciência que precisa ser ignorante?

Incoerente, tudo isso. Assim como a vida que também é incoerente, e quer saber?  Que bom que ela é assim!

 

Marcio Vieira


Síndrome de Superman

12/08/2011

Eu sofro da Síndrome de Superman, não num nível extremo, mas sofro. Conheço muita gente que sofre da mesma síndrome. Não é uma doença, propriamente dita, mas são características psicológicas extremamente peculiares que envolve o núcleo de todas as ações na vida do portador, ou seja, a síndrome altera o fluxo de pensamento, as razões, sentidos e propósitos de cada ato.

Desconheço a origem dos sintomas, mas ela atinge um maior grupo de indivíduos das classes média e alta, pessoas que tiveram determinadas oportunidades na sociedade, bom estudo, formação, enfim, receberam um considerável investimento cultural que a maioria da população global não recebeu, e é nesse período, do desenvolvimento da consciência, que se começa a manifestação da síndrome em virtude da facilidade empática e de comparação que tais pessoas têm.

A Síndrome de Superman ataca pessoas que questionam as diferenças sociais e, por entenderem que são privilegiadas, acabam sentindo algum tipo de culpa quando comparam suas oportunidades em relação à maioria da sociedade, e assim acabam nutrindo um sentimento de não merecimento, visto que, na maioria dos casos, apenas “nasceram” em tal família, não construíram nada que faz jus para estudar em escolas particulares, faculdades, aprender idiomas, cursos diversos, viajar, sair, enfim, ter uma vida com mais possibilidades.

A expansão da consciência, muito em razão de tais investimentos culturais que a família proporcionou, pode ser maléfica naquele perfil de indivíduos que têm como ponto forte o questionamento, desse modo, inúmeros deles, num sentimento de frustração e mal estar, direcionam suas carreiras profissionais, seus propósitos de vida, suas opiniões, seu consumo, de forma contínua na busca pelo merecimento, e assim desenvolvem vontades ultradimensionadas para justificar seu nascimento, seu pertencimento a tal determinada família e condição social.

Muitos portadores iniciam atividades de desapego à tais condições socioeconômicas por culpa, perpetuando uma busca ideológica, muitas vezes utópica, criando, num paralelo, outra vida, geralmente em outra cidade, outro país, para tentar se distanciar e renunciando o padrão social de sua origem para buscar a justificativa pela vida, desejando, de alguma forma, pagar um pedágio com um sofrimento que compense todas as condições que recebeu de seus pais.

A Síndrome de Superman ataca o lado existencial do ser humano, e tais portadores desenvolvem sentimentos de abnegação, sacrifício, muitos se tornam depressivos quando se deparam e se comparam com pessoas com menos oportunidades e condições, transparecendo, pela culpa, uma das características mais bonitas, a de gratidão, que embora escondida, salta aos olhos pelo desenvolvimento de uma consciência profunda, ampla e externalizada.

Com isso, muitos portadores acabam buscando atividades sociais, profissões e atividades voluntárias que envolvem questões sociais e ambientais, querem trabalhar para ajudar o mundo, acabar com a fome, erradicar a miséria, possibilitar estudo dos pobres, fomentar emprego e inclusão social, proteger crianças carentes, mulheres, buscar a justiça social, racial, proteger florestas, levar saúde, nutrição, desenvolvimento socioeconômico para lugares remotos e esquecidos, pacificar o mundo, enfim, querem ser o Superman!

É apaixonante conhecer pessoas assim, que inflam desejos de querer contribuir com o mundo, pessoas que se doam pela humanidade, mas um ponto muito crucial e frágil é o motivador de todo esse movimento existencial. Se tais vontades de super-herói são porque se sentem, de alguma forma, não merecedores, e por isso resolvem se abdicar do passado, daquilo que suas famílias construíram, acredito que o fluxo de ações está invertido e é preciso mudar a correnteza desse rio de pensamentos, acabar com esses sentimentos negativos quase que masoquistas que fizeram optar por tais carreiras de Superman, de salvadores do planeta.

Não precisa se sentir culpado, não precisa se recriminar, se maltratar, sofrer, tornar-se um mártir, porque existe a miséria, as doenças e a fome no mundo, sendo que você sempre teve um colchão, roupas e livros. Se você nasceu numa família que te possibilitou estudos e boas oportunidades, sinta-se grato como você sempre se sentiu, essa é sua característica, mas não faça dessa gratidão uma dívida.

Desejar bens, desejar consumir, desejar conhecer, viajar, não são pecados. Vocês já desenvolveram uma consciência coletiva rara. Querer sofrer para justificar seu nascimento e dar sentido à sua vida não é uma coisa legal de se fazer. Vocês, portadores do superheroísmo enrustido, são pessoas excepcionais, com um coração gigantesco e que sofrem com o que acontece no mundo, mas não queiram abraçar tal mundo, não queiram  carregar tudo e todos nas costas, senão você vai cair porque ninguém consegue suportar.

O idealismo é, em cabeças mais questionadoras, prejudicial para um convívio social. Fazer o bem é delicioso, mas entenda que não existe sustentabilidade. Sua existência, de alguma forma, agride a natureza, é inevitável a sua pegada, e tais ações neutralizadoras e compensatórias são extremamente importantes para o futuro do planeta, mas que o processo de ampliação da consciência não desestimule sua ambição, ou nem torne um Superman.

Tal herói, é ficção. Não se cobre tanto, aceite o que você é e de onde você veio, sem culpas.

Marcio Vieira


Saudades de mim

24/02/2011

Saudades, sentimento só transmitido em português, é algo bom, ruim, gostoso, melancólico, faz bem e faz mal. E tudo isso ao mesmo tempo, conforme a lembrança, o contexto e o momento.

Com seis meses de vida na Suíça, sinto saudades de muitas pessoas, principalmente minha avó, pela ligação que tivemos nos últimos anos, e meus sobrinhos, dois que pouco conheci, mais o João, todos fontes inesgotáveis de pureza, energia e transparência.

Minhas saudades vão além disso, sinto falta dos amigos, sinto falta da minha bicicleta, do Corinthians no Pacaembu, de comer temaki na madrugada, sinto falta da minha mãe, meu pai, meus irmãos. Sinto falta de vento da estrada no rosto, dirigir cantando, batucando no volante, sem se preocupar com ninguém me julgando, mas, ultimamente, o que mais sinto saudades é de mim mesmo.

Estranho pensar isso, como sentir saudades de mim mesmo? Mas é isso, um sentimento nostálgico de um passado recente, da possibilidade de se permitir, sem medo, sem insegurança, de estar com quem te entende e que sabe como você é sem precisar se apresentar.

Este ano tem sido fantástico, conheci tanta gente bacana, entrei em tantos lugares diferentes, aprendi, vivenciei coisas importantes, (ou que dizem que é importante, não julguei ainda) e nessa mudança radical, acredito que os sentimentos mais internos se fortalecem, crescem, querendo avisar todo o corpo: “não esquece de quem você é!”, e numa subconsciente defesa, as saudades e lembranças afloram.

Quando se viaja, saímos da normalidade e da segurança. Permitimos novos sentimentos, novas sensações, permitimos novos caminhos, utilizamos novas ligações neurológicas e respiramos diferente. Viajar é permitir o novo, e o confronto com o passado é inevitável. Assim, tenho saudades de mim, mas nada absurdo, muito pelo contrário, tenho saudades boas, nostálgicas, que sei que esta viagem me mudará profundamente, aliás, já está me mudando para muito melhor.

Meu pai sempre me explicou que o retrovisor do carro deve ser pequeno porque ele serve apenas de referência, dando-se atenção para o vidro, para frente. Levei isso para a vida: passado serve de referência, deve ser pequeno se comparado ao presente, afinal, sabemos que ele estará lá para todo o sempre, por isso o meu olhar vai apenas até aonde consigo enxergar. Além da curva, eu não vejo, então não fantasiarei algo.   “Momento presente é inevitável”, dizem meus saudosos amigos respiradores.

As saudades aparecem, também, porque o sacrifício é visível. Morar mal, comer mal, ter pouco tempo, tudo limitado, lógico que ajuda a sentir saudades, afinal, nunca vi nenhum rico ter saudades de quando era pobre. Isso mostra o quanto eu sou rico, ótima família e incríveis amigos, e sorte maior em ter a consciência de saber o quanto estou aumentando minha riqueza pois minha família e amigos que antes tinham, vão continuar sendo, e as pessoas que aos poucos vou conhecendo nessas viagens, entrarão na minha riqueza.

Mas eu me permito, depois disso tudo, ter algumas horas do dia para sentir saudades de mim, de alguém que nunca mais vai voltar a ser o que era, em São Paulo, Genebra ou qualquer lugar, pois todo dia é dia de mudanças e evoluções. É bom, sem exageros, mergulhar para dentro.