Tragédia nada virtual

27/11/2013

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Duas jovens perderam a vida de forma trágica nos últimos dias que, embora de formas completamente diferentes, há um grande paralelo entre as duas o qual deve ser muito bem discutido: a exposição em redes sociais.

No Piauí, Júlia Rebeca, de 17 anos, cometeu suicídio motivada pela divulgação na internet de um vídeo íntimo, o qual foi espalhado via Whatsapp sem seu consentimento.

Ontem, em Itanhaém, litoral paulista, Giovanna Alves, de 19 anos, morreu ao colidir seu carro em uma coluna de um viaduto quando dirigia. O detalhe: instantes antes de morrer, a jovem tirou uma foto do velocímetro do carro, o qual marcava 170km/h que provavelmente seria publicada no Instagram, como ela já tinha feito em outra oportunidade.

A grande maioria das mortes de pessoas com menos de 20 anos está diretamente ligada ao crime e, embora sejam dois exemplos claros de exceção à regra, é de suma importância começar a analisar as consequências que redes sociais podem causar em usuários.

Nos últimos anos, o computador deixou de ser uma ferramenta de trabalho e se tornou uma janela social que possibilitou mihões de pessoas se conectarem, se conhecerem, sendo que o ambiente virtual é facilmente manipulado, afinal, eu posso colocar minhas informações, minhas características, meus gostos, minhas opiniões, etc., da forma como eu achar melhor, deixando os “pontos negativos” escondidos.

Em muitos casos, o usuário da internet é um personagem do próprio indivíduo porque existe a necessidade de auto-afirmação num mundo virtual paralelo à realidade em que a manifestação da própria felicidade é o grande objetivo.

Assim, ultrapassar a quantidade de mil pessoas nos contatos o faz “popular”, mostra ser “bem relacionado”, mostrar o corpo saudável o faz “desejável”, expor fotos de viagens, do que se come, do que se veste, do que se tem, do que se usa, de onde vai, pra onde foi, e outra infinidade de atividades o faz “ser presente na virtualidade”.

Auto-exposição é instintivo e está em todo reino animal: o pavão abre suas virtuosas asas para conquistar a fêmea, o leão ruge mais alto para dominar suas leoas, assim como gorilas, hipopótamos, rinocerontes e uma infinidade de animais que, no momento da “concorrência”, exploram suas potencialidades físicas. E age assim o ser humano, dentro das redes sociais, demonstrando ser apenas outro animal.

No entanto, a tal concorrência é que motiva pessoas a tentarem uma superação, e é aí pode iniciar um grande problema, que resultou nas duas mortes citadas: a busca incansável para demonstrar o sucesso, consequentemente a felicidade, está presente tanto no suicídio quanto no acidente automobilístico.

Bem possível que o jovem que se relacionou com Rebeca compartilhou seu vídeo com amigos para mostrar seu lado conquistador Don Juan pra dizer: “olha como eu sou foda”, e certamente que, enquanto dirigia à 170km/h, Giovanna pensou o mesmo, na sua condição fodástica.

Ambos fizeram isso porque há uma expectativa de retorno, o famoso “like”, ou “joinha”, “curti”, etc. É o que tanta gente, eu diria que a grande maioria das pessoas na internet espera acontecer. Receber um feedback positivo, além de mostrar-se vivo num mundo virtual, o desejo maior é mostrar ser feliz.

E para atingir a felicidade nas redes sociais, não há mais limite. Riscos de vida tornam-se frequentes, assim como ultrapassar os limites legais, muito menos morais, afinal, o importante é chamar atenção, como rachas em estradas, beber de forma exagerada, tirar fotos rodeados de mulheres, tirar foto do carro luxuoso, da vida luxuosa, até culminar no grande vômito da música atual: funk da ostentação!

Para ter sucesso nas redes sociais, as exigências estão cada vez maiores e natural que o fracasso seja proporcional, visto que as conquistas ficam cada vez mais difíceis de serem atingidas, como gastar “de 5 mil reais ao infinito” em uma noite.

E toda moeda tem dois lados, tudo é muito perigoso porque causa consequências graves, quando a exposição na internet é negativa. Suicídio, depressão, e outros problemas serão cada dia mais comuns na realidade por causa de problemas origem de virtual, afinal, é a reputação que está em jogo.

Tal reputação, aliás, teve um capítulo muito importante iniciado recentemente: o Lulu, em que a reputação de homens é divulgada sem controle algum, sendo que são covardemente realizadas de forma anônima.  Informações falsas (ou mesmo reais, mas íntimas, confidenciais) poderão causar separações, brigas, desemprego, depressões… suicídios, depende de como será absorvido pelo usuário.

E quando inventarem o aplicativo Lulu na versão masculina, como será que as mulheres reagirão? Aspectos físicos aparentes não são mais motivos de julgamento porque será possível julgar o comportamento, comentar do desempenho, expor intimidades, etc. Isso não é certo!

Júlia Rebeca não foi a primeira e nem será a última a cometer suicídio por causa de uma má reputação na internet. É preciso ficar atento e começar a respeitar as individualidades dos usuários para evitar novas tragédias.

É livre a exposição da vida na internet, no entanto, é preciso refletir sobre quais são as motivações de cada um e qual é o limite da razoabilidade, afinal, muita gente já considera a vida virtual mais importante que a real. Por exemplo, já tentei sair já com pessoas que “conversam” com você, mas não tiram os olhos  do celular. É decepcionante! Tem gente que surta se esquecer o telefone em casa. Tem gente que só falta compartilhar “fiz um cocozinho lindo hoje”, e tirar uma foto do elemento boiante.

O mundo está cada vez mais pervertido, mentiroso, descartável e irreal, e tudo isso é reflexo da busca pelo sucesso no ambiente virtual, algo que a falta de limites das redes sociais permite.

As consequências do uso exagerado, não são apenas um “encerrar conta” ou um “bloquear”.  Pode ser um log off da vida real, e isso não tem volta.

Marcio Vieira


Luluzinhas, tão bobinhas

25/11/2013

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Este final de semana, em conversa com um amigo, ele comentou comigo sobre um aplicativo para celular chamado Lulu, o qual, na hora, fiquei em estado de choque. Foram tantos sentimentos negativos sucessivos que ainda não consegui digerir, o que motivou escrever este texto.

Para quem não conhece, Lulu é um aplicativo exclusivo para mulheres, que avaliam comportamento de homens sem que estes saibam de tais avaliações porque o acesso pelos homens é proibido! Ou seja, sem consentimento/autorização do homem, a mulherada escreve o que quiser, o homem não fica sabendo e muito menos tem chance de se defender.

Após o momento de choque, só consigo resumir minhas sensações desta forma: decepção com a humanidade.

Antes que venham com piadinhas do “quem não deve, não teme”, ou “está com medinho” do que escreverão sobre você, já digo que estou cagando para tais opiniões e, provavelmente, cagarei para as pessoas que gastam tempo nisso, pelo simples fato de que eu preservo e respeito meu passado, além de procurar entender os motivos que alguns relacionamentos não foram pra frente e, a partir de então, procurar evoluir como pessoa.

Um aplicativo para escrever feedback de como os homens são, fazem, ou não são ou deixam de fazer, é um suicídio social para qualquer mulher que entra em tal “brincadeira”, afinal, é como se ela falasse: “vai lá, eu saí com ele. Pega esse cara que ele manda bem”, ou “fuja, é fria”, ou qualquer outro comentário sobre a intimidade de tais homens.

Não consigo enxergar como brincadeira um programa em que as participantes colocam homens como se fossem objetos para uso e desuso num claro sentido materialista e que, ainda conseguem extrair prazer ao publicar anonimamente informações sobre a vida íntima.

Ser humano não pode ser tratado dessa forma, e é de dar pena pois, ao meu ver, quem trata pessoas como objeto e considera isso normal provavelmente já foram (ou são) tratadas como objeto.  E mulheres não estão num nível de superioridade em relação aos homens, nem o inverso.  São serem que devem ser tratados de forma igual!

(Tive a oportunidade de realizar um estágio na ONU em Genebra, Suíça, em que eu presenciei o quão difícil e inferiorizada é a vida da mulher em diversas culturas, a forma submissa com que vive mesmo em países desenvolvidos, e a árdua luta para equiparação com o homem em direitos e deveres)

É decepcionante o ponto que as pessoas estão chegando em que não conseguem preservar sentimentos e individualidades, a ponto de ter que expor intimidade para o mundo, e agora de forma vulgar, demonstrando que quantidade é mais importante que qualidade e, mais grave ainda, publicar a vida íntima para qualquer pessoa ver, ler e julgar.

As redes sociais não têm limites, afinal, quem cria tais limites são os próprios usuários, porém, a falta de autoestima de milhares de mulheres que aderiram ao Clube das Luluzinhas demonstra a quantidade de respeito elas mesmo se dão: zero.

Homens e Mulheres não são objetos para receberem feedback de relacionamentos na internet, a menos que você seja uma Garota de Programa (mais conhecida como p…), visto que existem sites especializados em que esse tipo troca de informação existe por se tratar de uma prestação de serviço onerosa, suponho.

Agora, se tais Luluzinhas consideram relacionamento como prestação de serviço, provavelmente essas mulheres, quando se arrumam para sair com alguém, ao olhar para o espelho podem estar vendo uma garota de programa.  Afinal, relacionamento é bilateral, há uma troca!

Eu não me vendi para ninguém para ser tratado como prestador de serviço e muito menos considero ex-namoradas como prestadoras de serviço para terem na internet um feedback meu. É decepcionante ver o quão baixo está o nível de humanidade das pessoas a ponto de acharam graça nisso.

Podem me chamar de chato, arcaico, velho, carrancudo, ultrapassado, idiota, mas é minha opinião. Pelo menos eu tenho respeito por mim mesmo, dou valor à minha intimidade e respeito meu passado (o qual inclui todas as pessoas que passaram na minha vida de alguma forma), afinal, meu passado não muda e eu não tenho prepotência para me achar superior às mulheres com que me relacionei, a ponto de não enxergar meus próprios atos e simplesmente apontar o dedo para Elas e dizer que são as responsáveis pelo insucesso do relacionamento.

Relacionamentos, minhas queridas Luluzinhas, nunca são iguais. O que funcionou comigo pode não funcionar com outra pessoa, ou o inverso, pelo simples fato de serem pessoas, e não robôs/objetos. Aliás, se querem um relacionamento que será sempre igual, vão até um sex shop e comprem o que mais satisfazer: com certeza tal objeto fará sempre o mesmo para você.

Se vocês acreditam em tais feedbacks anônimos como referência para julgar uma pessoa, além de demonstrar ansiedade em querer saber como são tais homens ao invés de tentar conhecer o fulano e tirar a própria opinião, vocês acabam transparecendo outra característica bem negativa: são pessoas frustradas.

Como se pode desejar ser respeitada se não há nem respeito por si mesma? Valorize-se!

A única boa notícia vai para os advogados, afinal, vai chover processos por calúnia, injúria e difamação, que poderão atingir o bolso das usuárias do aplicativo Lulu, ou elas acham que, na esfera judicial, será mantido o anonimato de tais declarações?  Luluzinhas, tão bobinhas…

Marcio Vieira


Comanda para o Inferno

28/01/2013

comanda

Muito se falou e muito se comentou sobre a tragédia ocorrida em Santa Maria. Em 99% dos casos de graves acidentes, nunca um fator isolado é capaz de provocar tantas mortes, e o ocorrido na Boate Kiss segue a regra de muitas falhas, erros e crimes que, somados, mataram mais de duas centenas de pessoas. É muita gente.

Não vou nem tocar no assunto de serem jovens, cheios de futuro na vida, etc e tal, não vou citar a corrupção de diversos órgãos de fiscalização, muito menos acrescentar o coro de que os responsáveis devem pagar civil e criminalmente. Essas pessoas que trabalhavam na famigerada boate estão fodidas (com o perdão, mas nem tanto, da palavra).

Essa gente toda já morreu, e deve-se respeitar as famílias, principalmente não mostrando imagens dos mortos. Agora, é preciso aprender com a tragédia e levantar possíveis soluções para isso nunca mais acontecer.

Resolvi escrever este texto para tentar apresentar uma simples sugestão de mudança da “cultura brasileira” em boates, bares e afins, e o assunto central será a Comanda do cliente.

Quando morava em Genebra, Suíça, trabalhei numa casa noturna como bartender e às vezes ficava na entrada, e ali aprendi muita coisa. O lugar era um inferninho de dois andares, cabiam umas 200-250 pessoas, e só tinha uma porta, e pequena, igual à Kiss. Mas o principal estava no fluxo/escoamento das pessoas: era muito rápido, todos iam embora sem fazer grandes filas.  O motivo disso é a ausência de comanda.

No Brasil todo lugar te dão comanda, e no final, resta ir para o caixa e pagar o que consumiu (e muitas vezes discutir erros ou malandragens da casa).  A grande maioria na Europa não têm comanda, nos Estados Unidos também não, em Hong Kong, idem (digo dos lugares que conheci). Sempre que for querer alguma bebida, paga-se na hora sem deixar acumular, sem “conta”, sem “comanda”, etc.

Dá mais trabalho? Depende. Demora-se um pouco mais para beber, mas o lado positivo é que você nunca terá conflitos/erro do garçom para falar o que consumiu ou o que deixou de consumir e o principal: quer sair, sai e ninguém vai encher seu saco exigindo um cartão ou papel carimbado “PAGO”.

Segurança nenhum vai te segurar, e esse é o erro no Brasil.  Aqui, um brutamonte engravatado, muitas vezes impaciente e truculento, estufa o peito e exige tal papel. Em outros países, não! Afinal, tudo que você consumiu, você pagou na hora de consumir! Muito mais fácil, muito mais honesto!

E por causa desses seguranças, segundo relatos de testemunhas, demorou o escoamento das pessoas. Não culpo totalmente os seguranças, pois é responsabilidade deles verificar a porrinha do cartãozinho “PAGO”, mas culpo a falta de raciocínio em perceber o caos que aquelas portas fechadas causaram.

O controle de saída cozinhou muitas pessoas, a comanda transformou em inferno a casa noturna. Poderia, não digo totalmente, ter diminuído drasticamente o número de mortos na tragédia gaúcha se um outro sistema de cobrança fosse estabelecido, deixando as pessoas livres para saírem a hora que bem entendessem, de preferência com portas escancaradas.

Marcio Vieira


Vida do rico, assunto do pobre

04/08/2011

E agora a dúvida é quem dirigia a Land Rover blindada que atropelou e encurtou a vida de mais um jovem paulistano. Entre mesas de bar, recepções, elevadores, filas e quaisquer outras aglomerações, reuniões ou encontros, a dúvida entre todos é se era mesmo a namorada que dirigia o carro de luxo. Algumas semanas antes, era a perplexidade dos 150km/h de um alucinado motorista de um Porsche que acabou com a vida de uma jovem advogada. Em ambos os casos, o principal fator para tanto comentário não é o álcool no sangue ou a gravidade da tragédia, mas sim o dinheiro.

Nos últimos dias comecei a refletir sobre o dinheiro, sobre o peso que ele tem e os reflexos que ele causa. O dinheiro (e a falta dele) é o motivador para tanta conversa, tanto debate, tanta repercussão de tragédias da vida moderna principalmente por causa do orgulho do ser humano. Afinal, será que se fosse um atropelamento de um fusquinha na periferia do Jardim Mão na Cabeça prenderia nossa atenção? Será que se fosse um Gol turbinado do manolo vida-loka nos mesmo 150km/h causaria tanta indignação?

Crime do rico vende mais

Claro que não. Não só o crime do rico, mas toda sua vida, chama mais atenção da sociedade, e esta, por sinal, comprova seu provincianismo mesmo dentro de uma cidade de mais de 10 milhões de habitantes. É como se o rico não pudesse cometer erros, assim julga a sociedade, incrédula quando acontece. A sociedade brasileira de hoje é a mesma de duzentos anos atrás: só foi alterado o cenário, mas a cabeça limitada que pensa no que os outros têm, o poder de influência, o poder do dinheiro, o poder de sei lá o que mais, etc., faz você ser maior ou menor que alguém.

As novelas globais (sempre com grandes núcleos em famílias ricas do leblon ou jardins), as notícias pelo mundo em que um casamento real britânico dá mais audiência que a guerra civil em diversos países árabes, etc. reforçam esta teoria. O Datena vai perder tempo com os famélicos africanos?  Claro que não!  Mas o bonitão do Porsche terá notícias pelas próximas semanas, até um próximo crime que chocará a sociedade.

Aliás, não consigo entender o motivo da sociedade se chocar mais com o crime do rico. Talvez porque eles “tiveram estudo”, emprego, base, tudo aquilo que os podres presos dizem nunca ter tido. Mas a sociedade se esquece que todos são humanos, suscetíveis a erros e acertos, e não é o bolso recheado que fará diferença na hora de agir. O dinheiro ajuda a tirar alguém da cadeia com melhores advogados, etc., mas o dinheiro não muda a ação do homem.

Assim a mídia sensacionalista agradece quando um rico ou famoso faz besteira, é garantia de lucro e audiência dos pobres! Sim, são os pobres os curiosos que querem saber o que os ricos consomem, fazem, quem pega quem, quem exerce poder, quem influencia, quem lidera, quem tem mais dinheiro, etc. Celebridades de uma novela real, Nardonis e Richthofens pagam dinheiro por ter … dinheiro!  Afinal, num país de Silvas e Santos, um sobrenome incomum faz a diferença na hora de noticiar um crime e chamar atenção.

O povo, povão, independentemente de condição socioeconômica, deve entender que endinheirados e famosos não são obrigados a dar bons exemplos para ninguém, assim não criaria tantos comentários, muitos deles precipitados, palpitando sobre o crime ocorrido. Mas no subconsciente do brasileiro o maior crime não é o tipificado em leis, mas sim o de ter dinheiro. Parece ser uma afronta ter dinheiro no Brasil, um desrespeito a maioria.

Ricos não são obrigados a dar dinheiro aos miseráveis. Aliás, ninguém é obrigado a dar dinheiro para ninguém, mas é comum no Brasil ouvir coisas do tipo “onde já se viu andar com um carro de meio milhão de reais” ou “esse cara, além de assassino, deve ser um sonegador para ter um carro desse”, etc. Pessoas com mais dinheiro pagam pelo julgamento precipitado de um povo preconceituoso, querendo achar justificativas em supostos trambiques e falcatruas daqueles que têm condição de comprar Porsches do que aceitar que tais pessoas foram mais competentes ou bem sucedidas em suas atividades.

Mais uma vítima, infelizmente, como outra qualquer

No Brasil soa como insulto desejar ser milionário para gastar com carros e coisas desnecessárias, tanto que a promessa de qualquer um quando faz seu jogo na mega-sena é “ajudar os mais pobres”.  Se eu desejar comprar uma Ferrari e não dar nada pra ninguém, nem para o pedinte do semáforo, vão me recriminar. Ora, o dinheiro será meu, faço o que bem entender com ele, devendo pagar o preço daquilo que faço, não daquilo que deixo de fazer. Assim, a imensa maioria dos brasileiros têm que entender que tais obrigações devem ser exigidas dos políticos, e não daquele que tem mais dinheiro que você.

O endinheirado tem os mesmos direitos e deveres que qualquer outra pessoa, mas no Brasil, e em outros países também, o rico deve reprimir seu poder para não “ofender” a maioria.  Se houve passeata quando o filho skatista de uma atriz foi atropelado, será que os mesmos manifestantes estariam protestando se o crime fosse lá no Angela, no Capão ou Graja, etc. com um garoto “qualquer”?  (Sim, é esse o termo que se utiliza quando um pobre morre) Morre-se, no silêncio, todo dia, na periferia, e tanto o filho da atriz, tanto o atropelado na Vila Madalena ou a jovem advogada, são quaisquer pessoas, assim como eu e você.

Se atropelaram alguém em alta velocidade com uma Land Rover  ou Uno Mille, a indignação deve ser a mesma, mas no subconsciente de cada um de nós (população, imprensa, etc.) é aonde se descobre quem é mais materialista, que prioriza mais a imagem, o status, distanciando daqueles que olham a cena de forma mais neutra.

Para desenvolver a sociedade, deve-se parar de apontar o dedo fora de hora, devendo também parar de querer cuidar da vida alheia, do jardim do seu vizinho, do pop-star ou as pessoas de seu convívio. Faça por você e pra você.

Muito do que se vê, não é.

Marcio Vieira


A preconceituosa burguesia

20/10/2010

Multidão, feliz, comprando

Gostaria de fazer algumas perguntas para todos acerca de um grupo determinado que chamarei aqui de “rico idiota”.  Tais ricos, que pregam o elitismo com prepotência, são milhões que se misturam entre as classes A e B do Brasil e expõe um preconceituoso entendimento das classes mais humildes, ou de pessoas vindas de regiões mais pobres, e à eles faço algumas perguntas para reflexão:

É tão ruim ver milhões de pobres subirem para classe média? É tão ruim ver outras dezenas de milhões de miseráveis subir para a classe C?

Mais, é tão ruim ver o zelador do seu prédio com uma televisão “das fininhas” igual à sua? É tão ruim saber que o faxineiro comprou uma scooter zero quilômetro?

“Ah, mas é financiada em 5, 10 anos”, dirão alguns! “Para a televisão ele fez carnê que terminará de ser pago na Copa do Mundo do Brasil. O carro, só em 2018, quando não custará nem metade do preço atual! “

Existem centenas de desculpas para cutucar a felicidade do pobre que nos últimos anos ganhou espaço, ganhou respeito e condições de não só ter o mesmo celular, mas também comprar a mesma televisão e até o mesmo carro de milhões de pessoas que estão na classe média.

Então, vem tais idiotas da burguesia justificar a facilidade de financiamento, dizer que o pobre vai “casar” com o carnê de prestações e só assim conseguiu entrar no mesmo mundo de consumo que tais pessoas já estavam. Pergunto: e daí? Se o crédito foi aceito, qual é o problema dele comprar? Está triste porque a piadinha deles consumirem um CCE acabou?

O problema é que muita gente se sente incomodada ao voar de Gol para o nordeste e ter que dividir o vôo com vários retirantes que visitarão suas famílias. Há ainda um enorme grupo que acha que avião é transporte de rico e pobre tem que se perpetuar dentro de ônibus pinga-pinga.

É problema seu que pobres quitarão o carro em 10 anos?

O mesmo pobre vai tirar o carro zero quilômetro não tem vergonha de dizer que o carro é financiado em 80 vezes. Mas o suposto rico estufa o peito, faz pose e esconde um carnê de três anos. E depois tais burgueses reclamam da quantidade de carros, do trânsito por causa que pobres estão comprando carro. Pessoas que não se olham primeiro no espelho são as primeiras a reclamar.

É muito constrangedor saber que o motoboy está na universidade? Que a menina que te serve café também está na universidade? “Ah, mas são as ‘universidades de esquina’ que rifam o ensino brasileiro“, tais ricos de pensamento responderão.

O fato é que existe um incômodo enorme, principalmente de tradicionais paulistas e sulistas, com o avanço e desenvolvimento de regiões mais pobres, como norte e nordeste.

Se alguma consumidora com sotaque nordestino entrar na Daslu ou Oscar Freire já pensarão, algumas paulistanas, que tal mulher vai deixar o salário inteiro para comprar uma simples carteira. “Que petulância! Onde já se viu um nordestino comprar na Oscar Freire?“, elas pensarão, desconhecendo o crescimento econômico do Nordeste.

Existe, implícita na sociedade brasileira, uma preocupante segregação racial e econômica, principalmente vindo dos eternos frequentadores da classe média, que não admitem novos integrantes que saíram da pobreza. E tais pessoas criticam programas sociais, rotulando alguns como “bolsa-vagabundo”.

Nordestinos, felizes, com suas novas motos

São pensamentos preconceituosos contra programas sociais às classes D e E, e contra as novas aquisições da classe C, como a primeira moto, primeiro carro, primeira viagem de avião, primeira faculdade e primeira casa que milhões de pobres estão adquirindo. Mexeram no queijo do rico (Para quem leu “quem mexeu no meu queijo?”), deixando transparecer em tempos de eleição toda sua insatisfação em ter que dividir o mesmo espaço.

E muita gente com esse pensamento hitleriano perde oportunidades de crescimento do próprio negócio por desconfiar do pobre e de sua condição financeira. O atual governo permitiu que os beneficiários de auxílios consumam, fazendo a economia regional de rincões crescer. Em outras palavras: o dinheiro gira.

Para mudar a vista, precisa mudar de pensamentos

Tais ultrapassados burgueses criticam até as eleições, dizendo que pobre não tem consciência do voto. Ora, o que eles querem, a volta do voto censitário?

A alta elite se dá o luxo de aumentar seus preços para selecionar seu público, deixando a classe média vulverável à invasão dos pobres em ascensão. Está na hora de jogar essa arrogância e prepotência fora, no lixo, e aceitar dividir lojas, bares, aviões, avenidas, hotéis, boates, praia com todos, só assim será possível desenvolver uma sociedade justa.

Para começar uma justiça social e acabar com a desigualdade tem que aceitar dividir o mesmo espaço, mas isso muita gente não está disposta a fazer, infelizmente.

Há, claro, muita gente que está nas classes A e B que não pactuam do mesmo pensamento discriminatório, e que estão dispostos a ajudar ou, na pior das hipóteses, não restringir o acesso e desenvolvimento das classes menos abastadas. Porém, há um grande e triste grupo de pessoas que receberam ótima educação, mas que têm atitudes preconceituosas, seja com uma simples e “inocente” piadinha, ou seja mesmo com tons mais incisivos contra programas de assistência social.

À estes elitistas, um conselho:  Não se preocupem tanto com a vida alheia e não se preocupem com o espaço que nunca foi só de vocês.

Don’t worry, be happy.

Marcio Vieira


I-phode com a vida

07/10/2010

Há tempos penso em escrever algo sobre os efeitos da tecnologia na vida. Até que ponto ela oferece mais benefícios que prejuízos? Até que ponto ela é saudável?

Desde que cheguei na Suíça, minha primeira percepção é de uma população feliz… mas isolada. Não entendo nada dos critérios de avaliação que usam para elaboração do ranking de melhores cidades para se viver, há anos, Zurique e Genebra frequentam listas das dez melhores cidades do mundo.

São felizes porque a Suíça permite, dá condições de ter uma vida boa, com salário mínimo digno, férias, estudos acessíveis, transporte eficaz, segurança e saúde. De fato, motivos não faltam para o país ter níveis altíssimos de qualidade, mas a questão é: os prejuízos do excesso de qualidade.

É bom ter condições de comprar de tudo, mas é muito pior comprar sem precisar usar, ou sem saber usar. E, em se tratando de produtos eletrônicos, os prejuízos do mau uso são devastadores na vida de uma pessoa.

Durante as últimas semanas, fiz uma estimativa: de cada dez pessoas que entram diariamente nos trens e ônibus de Genebra, 4 estão com fones no ouvido. O pior é entre jovens (aparência entre 16 e 30 anos): de cada dez que vejo, 7 ou 8 estão “isolados” à sua música.

À sua música, ao seu mundo, jovens de hoje perdem a chance de desfrutar daquilo que seus pais lutaram um dia: a liberdade!, em troca do individualismo infinito fornecido pela internet. A grande rede permitiu aos jovens do mundo todo encontrar suas respectivas “tribos”, estilos distintos de música, de roupas, de aparência e de referência.

E a indústria eletrônica acompanhou isso. Acredito que o primeiro pontapé disso tudo foi o saudoso Walkman, da Sony, para escutar seus k-7 em qualquer lugar.

 

O pioneiro

 

No final dos anos 80, ser portátil era o que faltava. Mas, depois de vinte anos de uma chuva de lançamentos, novos produtos, novas tecnologias e novas dependências, vivenciamos uma vida estranha e artificial.

Criam-se todos os anos novas necessidades desnecessárias: celulares ultra modernos “all in one” são as coqueluches da vida high-tech. A cada dia, a principal função de um celular, que é telefonar, perde eficácia diante dos novos apelos consumistas: TV digital, acesso à internet, e-mail, blog, facebook, msn, mp3, mp4, mp18, 20 gigas, 50 gigas, video-conferência, Ipod,  Imac, Iphone, Iphode!

Tudo isso é legal ter, mas cuidado com a dependência que traz. Em excesso, faz mal. Tudo tem seu momento de uso. Existem momentos sociáveis do dia, como transporte público onde há oportunidade de conhecer gente nova, dar bom dia, receber bom dia, conversar, etc., mas o consumo exagerado de produtos e o isolamento que isso traz causa, também, isolamento às outras pessoas “offline” da modernidade.

Mais alguns anos, é capaz de você conversar com a pessoa do seu lado via torpedo. Vai dar  desespero no dia que você esquecer seu celular em casa, vai achar que seu dia será uma tragédia. Calma, isso é só uma algema eletrônica: a vida é muito além de seus contatos do msn e dos amigos do orkut.

E esse isolamento não é só aqui na Europa. Em Hong Kong a coisa é bem pior, e toda população asiática é completamente fechada no mundo cibernético. Nova Iorque, quem não abrir a caixa de e-mails via blackberry em pleno  horário de almoço não será eleito o funcionário do mês.

E no Brasil não será diferente, pois só precisam duas coisas: o povo ter condições de comprar (o que já está acontecendo) e a diminuição do risco de roubo, que vai diminuir, não por eficácia da segurança pública, e sim pela avalanche de produtos: todo mundo estará plugado, o que dificultará o ladrão saber qual é um original e qual é chinês mequetrefe.

Toda essa tecnologia trouxe dependências e novas horas de trabalho, de atenção. Mas o dia mantém com 24 horas, então, recomendo buscar um equilíbrio entre a vida real e a vida eletrônica.

Do contrário, repetindo a bíblica história de Adão, Eva e o fruto proibido, Steve Jobs e cia. vão I-phoder com sua vida.

 

A vida artificial de um mundo que Iphode

 


Um carro a menos

21/09/2010

Dia Mundial Sem Carro, você fez sua parte? (Não fez, não deu. Se quiser mudar a data, não vale deixar para o final de semana!)

Eu, no caso, não tenho carro, então tudo facilita, ainda mais dentro de uma cidade que todos os meios de transporte estão completamente integrados, mas não é só isso. Este é apenas o resultado de décadas e décadas inserindo a bicicleta na sociedade.

Em Genebra, bicicletas têm seu espaço

Mas e São Paulo, dá pra mudar? Uma cidade com quase sete milhões de automóveis (e 800 novos carros emplacados por dia) é um desafio um tanto quanto complicado, mas não impossível.  A questão principal, vejo, é a mudança de atitude da população.

E tudo começa, ao meu ver, da aceitação da sociedade (postos de trabalho, comércio, etc.) que as pessoas utilizem roupas menos formais. Brasil é um país tropical, quente, e é totalmente incoerente o uso de ternos, gravatas, dentre outras roupas pesadas de origem europeia. Se na Europa já é perceptível a diminuição de tamanha formalidade, por que o Brasil insiste?

Se a sociedade começar a se acostumar com roupas mais leves, e disponibilizar boas guardarias e vestiários para ciclistas, o uso de bicicletas poderá ser uma solução para enfrentar as ruas.

Em São Paulo morre-se mais de doenças causadas por problemas cardíacos decorrentes de sedentarismo e má alimentação do que em acidentes de bicicleta. Ou seja, gastos hospitalares seriam amenizados, ainda, se o número de ciclistas aumentar, aumentará a consciência e atenção dos motoristas.

Bicicleta Fantasma, mais uma vítima.

Quando morava em São Paulo, por diversas vezes saí em horários de rush para confirmar que a bicicleta vai mais rápido. Entre outras saídas, fazia um percurso de 12 quilômetros até chegar na Av. Paulista x Av. Consolação para o encontro com o grupo Bicicletada (www.bicicletada.org). Percurso esse feito em 45-55 minutos. De carro, leva-se mais de uma hora.

Outros testes foram feitos comprovando a maior velocidade da bicicleta frente aos outros meios de transporte. Ora, por que então só utilizá-la aos finais de semana?

Ainda, por que o governo federal concedeu isenção de IPI para automóveis e motos, e não para bicicletas. Por que bicicleta dá prejuízo. Imagine toda a cadeia de produção que leva um automóvel, e ainda perpetuar a utilização de combustíveis.

Agora pense se um determinado grupo (18-40 anos) iniciar o uso de bicicletas como principal veículo, quantos milhares de automóveis deixarão de ser utilizados? Quanto diminuirá a arrecadação fiscal?

O comércio/indústria segue a forma de consumo da população: se continuar o fomento ao consumo desenfreado, desequilibrado e irracional, o estresse e problemas de saúde acompanharão tal curva de crescimento.

12 Vagas?!?

Está provado que o rodízio de veículos em São Paulo atingiu, por determinado momento, somente as clásses B e C, mas hoje, com as facilidades de financiamento e compra de automóveis, ficou ineficaz a restrição, de nada serve porque compram-se novos carros para não ficar à pé.

Por mais que tenhamos ambições na vida de conquistar e comprar mais e melhor, cabe à todos pensar de forma coletiva. Se não quiser pedalar, convoque vizinhos e conhecidos, dividam um carro, promovam a carona, mas evite usar sozinho um carro, sendo que cabem outras quatro pessoas.

Não se resolve um problema coletivo tomando uma medida individualizada.