Canibais do Tempo

Ilha de Páscoa é conhecida pelos enigmáticos Moais espalhados pela ilha, conhecida também por ser um dos pontos mais isolados do planeta, metade do caminho da América do Sul para a polinésia.

Menos conhecido pela maioria é o motivo da decadência da sociedade de Rapa Nui, tão inteligente para construir centenas de esculturas (imensa maioria, diga-se de passagem, destruída pelos espanhóis), mas que ao mesmo tempo sucumbiu dentro de si.

A ilhota chilena é exemplo corriqueiro para a “Turma da Sustentabilidade” em palestras, apresentações ou papo de bar. Um povo tão avançado foi destruído, principalmente, por eles mesmos, quando começaram a notar que a falta de comida acontecia porque não havia planejamento, sem respeitar agricultura ou pesca consciente.

Surgiram, então, os primeiros conflitos. Pequenas guerras na pequena ilha para comer o pouco de alimento que tinha até que chegou ao limite da sobrevivência: viraram canibais.  Canibalismo matou uma das mais místicas sociedades da história, de inteligência ímpar, ambição idem, esta que, infelizmente, se transformou em ganância, e aí a coisa degringolou.

Algumas dezenas de séculos depois, numa grande cidade que se orgulha em estufar o peito, com certa arrogância, de ser a “locomotiva do Brasil”, sem perceber que são canibais contemporâneos.

Paulistas, imigrantes e retirantes se juntam para lutar pela sobrevivência. O monstro, antes domesticado, tomou conta da cidade. Um monstro invisível que não cansa, não descansa. Um monstro chamado Tempo.

Tempo que hoje faz paulistas saírem 5 da manhã de carro para conseguir uma vaga e dormir no carro até às 8h. Tempo que faz outros paulistas entrarem no trabalho às 10h e sair às 20 para fugir do trânsito. Tempo que criou novas categorias de trabalho, como Motoboys, que existem, que se arriscam, por entregas em menos… Tempo.

Paulistas loucos, ignorantes, que não aceitam diminuir seu consumo besta, desnecessário e doentio. Paulistas ricos e arrogantes que planejam a agenda da semana pela placa do próprio carro, isso quando não compram o “carro do rodízio”.

Paulistas, tão inteligentes para formar uma das cidades mais ricas do mundo, mas tão burros que não percebem que estão se matando. A ganância da Ilha de Páscoa e de São Paulo é a mesma, são cachorros cegos e famintos que não perceberam que estão mordendo o próprio rabo.

Um canibal motorista na Avenida mais importante do país matou uma ciclista, mais uma, e não será a última. Canibais que se matam no trânsito com latas velozes, caras, sinônimos de poder e status. Canibais que se matam porque se acham no direito de reclamar do trânsito, mas não percebem que mais de 85% dos carros na cidade, que andam com APENAS 1 ocupante, e que são os responsáveis pelo trânsito.

Trânsito doentio que suga energia, que faz milhões de paulistas reclamarem, que faz milhões de paulistas perguntarem a razão de continuar vivendo assim, que faz milhões de paulistas sonharem com a vida na praia ou no campo, mas que não tiram a mão do volante nem para ir na padaria.

Paulistas doentes que criam seu futuro (seus filhos) com os mesmos medos, dando celular para um guri de 5 anos, ou deixar ele trancado em casa jogando PlayStation, enquanto os velhos engravatados se fecham dentro de carros solitários.

Paulistas medrosos e orgulhosos. Simultaneamente são assassinos e vítimas. Matam quem quer viver. Matam quem quer usar uma bicicleta como veículo, matam porque a “sociedade burguesa antiquada” exige uma merda de terno e gravata para te respeitar, atrapalhando você ir de bicicleta numa cidade que faz 34 graus.

Quem quer ser diferente, se fode. Morre. Prédios comerciais lotados de vagas para seus engravatados, enquanto não tem um mísero vestiário para o ciclista poder tomar um banho e se trocar. Paulistas que se matam quando o motoboy ganha 5 reais por entrega durante o dia e trabalha a noite, por gorjeta, entregando pizza.

O Tempo mata o paulista, e não adianta vir reclamar do governo, com o Papa ou com a puta que pariu. Quem criou a falta de tempo foi o próprio paulista.

Quem criou o monstro chamado Tempo, foram nós, os Paulistas. E o monstro Tempo já procriou e tem filhos: Stress, Caos, Medo, Doença, Raiva…

Mas não se preocupe, Paulista, domingo você ficará mofando no sofá e esquecerá da semana que passou. Na segunda-feira, você relembrará. É questão de tempo.

Marcio Vieira

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2 Responses to Canibais do Tempo

  1. Aplausos Marcinho, por explicar tão bem o que eu sinto e não sei dizer. Posso compartilhar?

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