Senhores zuriquenses

25/10/2010

Em uma rapidíssima viagem para Zurique (que será tema de um futuro post), registrei o que achei mais interessante.

Assim como idosos que têm preferência em filas e acentos, existem carros clássicos (em perfeito estado de conservação) que deveriam ser isentos ao pagamento de estacionamento. Questão de respeito ao passado.

Anúncios

Consumidor exigente, propaganda consciente

23/10/2010

Mais informações para um consumidor mais exigente

Uma das grandes diferenças entre as propagandas de automóveis na Europa e Brasil é, sem dúvidas, a quantidade de informações que acompanham a foto do veículo dos anúncios europeus.

O velho continente tem as mais rigorosas leis ambientais que regulamentam as emissões de gases poluentes no mundo, forçando montadoras  ao desenvolvimento de novas tecnologias “limpas”. Mas o grande motivador vai além da consciência ecológica do consumidor: atinge o bolso.

As normas europeias atrelaram, inteligentemente, o consumo de combustível e emissão de CO2 ao tributo que o consumidor deve pagar anualmente referente ao carro. Assim, o imposto equivalente ao nosso IPVA vai muito além de um percentual do valor de tabela do carro, atingindo também o quão danoso ao meio ambiente é tal veículo.

Além do combate à poluição, esta é uma forma de ativar ainda mais a indústria automobilística porque, com o passar dos anos, um carro velho tende a pagar mais impostos que um veículo novo.

Etiqueta de energia e valor do imposto anual (Reino Unido)

Com tal regulamentação, o consumidor necessita de informações complementares para comprar um carro, e todas as montadoras desenvolveram uma etiqueta de energia semelhante à encontrada nas geladeiras, mencionando a quantidade de CO2 que o veículo emite e quanto pagará anualmente.

Mas o ponto mais curioso  é que tais informações ecológicas de cada carro vão além das lojas e da boca do vendedor: vão para as ruas e, no acirrado mercado automobilístico, a etiqueta de energia torna-se uma importante arma publicitária na decisão de qual carro comprar.

Os consumidores europeus sabem que tais informações não são apenas dados técnicos, elas resultam também em economia financeira. Com isso, as propagandas de automóveis na Europa acrescentam cada vez mais informações referentes ao carro, como resultado no crash test, consumo e quantidade de CO2.

Bem menos exigente, o consumidor brasileiro, quando muito, pergunta ao vendedor da concessionária qual é a média de consumo que tal veículo faz. Incentivo todos, quando procurarem um carro para comprar, que perguntem também ao vendedor qual é o nível de segurança que ele atingiu nos testes e quantas toneladas de CO2 o carro emite. Tenho sérias dúvidas se o vendedor saberá responder.

Marcio Vieira


Omelete de Gruyère

29/09/2010

Vacas poderosas

Se na Índia as vaquinhas são sagradas, na Suíça, então, são muito mais que isso: boa parte da fama e faturamento do país se deve ao leite dessas adoráveis ruminantes.

As vacas são tão importantes, mas tão importantes, que o governo suíço diminuiu a velocidade dos trens-bala para não estressá-las. Houve, há tempos, um estudo mostrando que barulhos em excesso atrapalham na qualidade do leite e, para os helvéticos não perderem a reputação conquistada, frearam as locomotivas.

O paraíso fiscal é, também, a terra de chocolates de diversas qualidades e sabores, como Lindt, Frey e Toblerone, além da Nestlé. Do lado “salgado” da vida suíça, o prazer é o mesmo: queijos e mais queijos de ótima qualidade, como Emmental e Gruyère.

E a vantagem disso é aproveitar ótimos produtos à preços excelentes, bem baratos mesmo. No café da manhã, como um sanduíche de banana amassada com nutella e vou para aula.

Omelete chique

Hoje fiz uma excentricidade, me senti rico: como aqui a mussarela é praticamente o mesmo preço dos queijos finos, então eu parto para cima dos chiques. Acontece que estava com vontade de comer omelete e, na falta de queijos de pobre (olha o ego!), o Gruyère foi para frigideira.

Ficou bom, mas não igual à pizza do domingo, que “turbinei” a simples margherita da promoção com Gouda e o falecido Gruyère. Saudades da quatro queijos paulistana, mas nem tanta.

E assim começo a conhecer os produtos “Made in Switzerland”. Os produtos suíços são de extrema qualidade, porém, sempre há o lado B, as coisas do povão, que é minha atual condição. Mas aqui o povão vive muito bem, tudo graças ao Migros e o Denner.

Há o Coop, também, mas achei os preços caros.  Migros e Denner são mercados pequenos, enxutos, com tudo que alguém precisa para viver bem. O problema é que o dono do Migros ou não bebe cerveja, ou não gosta, sei lá. Só sei que não vende bebidas alcoólicas.

Foi assim que conheci o Denner. Denner é gente boa, gosta de uma cana, é menor, mais esculachado, bagunçado, e com algumas coisas realmente baratas, além de uma variedade incrível de cerveja. Ontem fui lá e comprei uma tal de Rastella, uma versão bem tosca (e mais barata) da Nutella.

Mas o produto que mais intrigou é o Sabão em Pó Calgon (na propaganda fala-se “Cagón”). Fiquei imaginando o agradável aroma de cagón na sua camiseta. O perfume do campo de cagón me fez lembrar na hora das vaquinhas suíças… Ainda bem que não há sabão cagón no Brasil, acho que, com esse nome, não seria bem recebido nos trópicos.

O perfume irresistível de Calgon


Mudanças no plano de vôo

27/09/2010

Com 70% de uma prateleira e espaço para uma garrafa na geladeira, fora o freezer e armário, as coisas vão entrando numa rotina. Aos poucos, a primeira impressão de ser uma viagem de férias vai se transformando, deixando de ser uma viagem de turismo para ser uma mudança de vida.

Eu em Birmingham (2005), escolhendo um caminho

Mudança é entrar num estado novo e perceber sensações novas. Não precisa mudar de casa e se afastar de pessoas queridas. Para mudar, basta querer. Seja por causa do desconforto, seja por causa de novos desejos.

Se estiver num outro país, num outro mundo!, mas se sua cabeça continuar pensando no que ficou, isso não será uma mudança.  Assim como posso estar onde sempre estive, se desejar mudar algo novo, um emprego, uma paixão, uma fé, basta a mudança de pensamento e de atitudes. Todos estão sujeitos à mudanças a qualquer momento e a felicidade não pode ser delimitada.

Se deixar uma criança a vida inteira dentro de um quarto com todos os brinquedos, ela estará feliz. Mas se ela descobrir, por livros, revistas, tv, etc., novas coisas, lugares, pessoas, ela deixará o “estado de felicidade” porque vai saber o que não tem, o que não é, e perceberá que a vida é feita de mudanças.

Contentar-se é se auto-mutilar. “Contente” é derivada de “Contentar”, que vem da palavra “Conter”, que significa reter, manter, bloquear, limitar. No entanto, se você nunca ficar contente e satisfeito, dificilmente gozará da felicidade momentânea.

Vôos são limitados pelos tamanhos das nossas asas, pelo tempo que conseguimos voar e por senso de direção. Se não tivermos noção do que somos, da força que temos e aquilo que conhecemos, não adianta nem voar. Quer dizer, adianta sim, e muito, para perceber o que precisa ser melhorado nas nossas vidas.

Querer melhorar significa que você tomou consciência de alguma coisa. Se o seu patrão está afiando o machado ou sua bóia está murchando, é sinal de que algo precisa ser feito antes de morrer.

Se rugas e gorduras estão aparecendo, cabelos caindo, estresse acumulando, dinheiro fugindo, apatia e conformismo surgindo, é sinal que algo precisa ser feito. E se você já consegue se olhar/visualizar/prever como estará daqui vinte, trinta anos, está na hora de mudar o plano de vôo. Não disse “sonhar”, disse “prever”.

Qual é seu plano de vôo?

Planos de vôo são feitos antes do avião decolar. Nele há horários, posição global, tempo, tudo pré-determinado. Se você entrar num determinado avião, saberá para onde irá, que instruções receberá, o que poderá levar, o que não poderá fazer, e até o que vai comer, tudo antes de partir. Ah, você saberá, também, quando chegará no destino.

Aviões e vidas são iguais, nisso. Por isso devemos dar importância à tempestades, tufões, nuvens negras. Elas existem para mudarmos algo na vida, não tenho fé que “mensagens divinas” determinam nossa vida, que a vida já está escrita e não podemos mudar nada, que devemos aceitar as condições e imposições dos “superiores”.

No entanto, acredito sim que “mensagens divinas” possam ser sinais para que haja uma reflexão acerca do caminho que estamos seguindo. É aquela máxima, “não diga que não avisei”.

Tem gente que prefere um vôo seguro. Eu não encontrei graça nisso e optei em voar pelo desconhecido. É a forma que encontrei para atingir um tipo, dentre milhões, de felicidade. Ter uma interrogação na testa, para mim, é desafiador. Dentro das dificuldades há sentimentos belíssimos que devem ser explorados porque o corpo é feito de diversos lados.

Como um albatroz

Como um albatroz, voando no alto, que, de repente, mergulha no mar: ele mergulhou para pescar, comer, sobreviver. Ele desce, se molha, se arrisca, pois sabe que precisa se alimentar para ter forças de voar mais alto e mais longe.

Pode não ter sucesso nas “pescarias”, mas ele sabe voar, aprendeu a mergulhar dentro de sentimentos e dificuldades. Se aparecer uma tempestade ou um lindo pôr-do-sol, não terá tanto medo em fazer uma mudança no plano de vôo. Restringir a vida aos planos pode, também, atrapalhar sonhos.

Tudo isso para dizer: “felicidade é um caminho, e não um destino”. E estou muito feliz em caminhar, quer dizer, em voar!


Reflexões sobre roupas e pessoas

10/09/2010

A primeira vez que morei sozinho, exorcizei o ferro de passar roupas: não sei passar, e não entendo o motivo de se vestir uma roupa lisa para ser amassada.

Então só lavava. Fiquei mais de um ano sem passar roupa. É chato, cansativo, difícil, e não há um fim: na outra semana, as mesmas roupas estarão lá para serem passadas.

Normalmente, quando mais se fica velho, ficamos mais viados (viado com “i” mesmo, da forma que falamos).  Viados, não no sentido da opção sexual, mas no sentido de frescos (existem muitos héteros mais viados que gays). São medos naturais, arriscamos menos, buscamos garantias, confortos, segurança e por aí vai.

Inclui-se, nisso, a reputação. Pensamos mais nos que os outros pensam sobre nós mesmo. Inseguros com medo de chamar atenção por ser quem realmente é, é comum entrar no “molde”, pensar e vestir-se de forma igual, seguir as tendências, e ser mais uma formiguinha da sociedade.

Quanto a sujeira, óbvio ser necessário ter higiene, mas a questão é porque cargas d’água a sociedade nos molda para usarmos roupas lisas, passadas? Ainda, com tanta tecnologia, por que não inventam camisas sociais com base nos tecidos dry-fit ou outros que amassam pouco?

Somos moldados ao ferro de passar roupa. Ele direciona toda a economia doméstica: se existem roupas complicadas de se passar, levamos à lavanderia ou contratamos uma diarista, ou perdemos horas e horas num domingo, suposto dia de descanso.

Gastamos muito dinheiro por causa do ferro de passar roupa. Usar roupa amassada diminui sua inteligência? Usar roupa amassada te deixa mais feio? Imaginamos num encontro: a roupa, que horas depois estará no chão de um motel toda abarrotada, precisa estar lisinha antes? Qual o sentido, já que o propósito é ficar pelado?

Protesto, enfim, contra o uso do ferro de passar roupas! Teremos mais tempo e dinheiro para aproveitar a vida, encontrar amigos, família, cachorro, sozinho, seja lá aonde.

#####################################

Ainda no tema, vou dar algumas dicas de sobrevivência aos mochileiros viajantes quanto ao que vestimos:

1- Toda roupa tem dois lados. Camisetas, meias, cuecas podem ser perfeitamente reaproveitadas numa viagem;

2- Se a temperatura está um pouco mais fria, evite blusas. É melhor um frio suportável e transpirar menos, do que colocar uma blusa e suar tanto a camiseta quanto a blusa;

3- Percebe-se roupa suja pelo cheiro mal. Use-as pela 3a, 4a. vez e não se preocupe: ou você está com nariz congestionado, ou a roupa está realmente utilizável;

4- Evite repetir a mesma roupa em dias seguidos. Roupas são que nem pessoas numa caminhada, numa subida: ela precisa parar, respirar, tomar um ar, para depois voltar à ativa;

4- Vai viajar? 10 dias ou 300 dias, a quantidade de roupas é a mesma;

5- Tenha diversos sacos de roupa suja, mas subdivida em muito sujas (sem condições de uso), sujas (No aperto, vai ela), pouco sujas (sem viadagem, vai até pra balada com ela), e utilizáveis (estão praticamente novas). Tudo isso porque roupas sujas são como batatas podres: elas passam, transmitem a podridão com muita rapidez;

6- Um bom desodorante  ocupa menos espaço e menos peso de que quatro ou cinco camisetas a mais.


Aplicando “Arte da Guerra” na cozinha

01/09/2010

(Manual de sobrevivência do viajante – Alimentação)

Manolo e Antônia proporam 400 francos por mês a mais no aluguel e as geladeiras e a despensa estariam liberadas para eu comer o que quiser.

Não é uma simples despensa: eles devem esperar alguma guerra, invasão alienígena, 2012, sei lá o que mais pois é muita comida que eles guardam aqui.

Lógico que a fome deles é um pouco maior que a minha. Quer dizer, bem maior, mas não titubiei em agradecer tal oferta, mas vou recusar.  Primeiro porque não tenho essa grana para gastar com comida. E depois vem a questão da necessidade e estética: não preciso comer tanto e não quero virar um gordinho simpático.

Já estou quase careca, se ficar gordo, aí só a loteria me salvaria para arrumar mulher!

Antonia é um amor de pessoa, muito do bem, toda sorridente, mas falei para ela que vou tentar me manter sozinho para ver quanto gastarei por dia, então fui ao mercado com a ideia de não gastar mais de 20 francos e sobreviver 5 dias, até hoje.

Gastei 16. Meta cumprida: comprei 1,5 de leite, manteiga, 3 latas de atum, macarrão (aquele que fica lá embaixo na gôndola, dificil de pegar, sempre é o mais barato), uma caixa de nuggets de peixe, molho de tomate, maionese e pão. Tudo do preço mais barato, óbvio.

Luxo: uma latinha de champignon (da marca mais barata).

Ótimo, agora é viver assim: de manhã são 3 goles de leite, 2 fatias de pão com manteiga. Vou para faculdade com 3 sanduíches de patê de atum, e a noite faço um macarrão e nuggets no forno.

Ficou um clima um pouco chato na hora de trazer a comida pois na casa, ao que me parece, sou o primeiro a decidir pela própria comida. Mas nada que uma conversa, outros assuntos não resolvam, e Manolo e Antonia são pessoas bem legais, então aqui vem o manual de guerrilha do viajante.

Veja meu espaço na geladeira. É minúsculo, o freezer horizontal está lotado, outra geladeira abarrotada, só sobrou, mesmo, tal espaço. Nem na porta tenho.

Mas nada de reclamar, vamos aplicar “Arte da Guerra” e outros livros de estratégia para melhorar minha condição, mas sem criar atritos com meus flatmates.

A tática é simples, usada já em muitas guerras pelo mundo: se algum combatente seu morreu, não deixe o inimigo saber. Seu soldado morto é muito útil ainda pois, além de atrair a atenção do adversário, ele poderá servir de barricada, escudo!

A zona vermelha na foto é minha área inicial. O leite é meu soldado morto: já está quase no osso, mas não vou jogá-lo no lixo antes de aumentar meu território, então mostro a necessidade por mais espaço, e assim conquistei a área azul.

É simples, é silenciosa e intimida/sensibiliza o inimigo.

Tal tática pode ser usada em vários assuntos, até em escritórios: Se você for para uma reunião com o chefe, nunca vá só com caderninho e caneta. Leve mais alguma pasta. Se você for na copa beber um café, nunca vá de mãos abanando: leve uma pasta.

Se a reunião for externa, for de conciliação (estresse entre advogados!!), nunca vá em menor número: leve um estagiário, amigo que resgatou no boteco, etc, enfia na mão dele algumas pastas, fala para ele ir com cara de sério.

Sim, o seu estagiário e o bêbado do seu amigo, nesses casos, são as mesmas coisas que os soldados mortos e a caixa de leite vazia: não servem para nada além de fazer número!! hahah 🙂

Essas coisas aumentam seu espaço físico, faz o adversário perder tempo/atenção, então você pode concentrar suas forças só para atacar, já que o inimigo vai se defender no primeiro momento.

Au Revoir!