O Calheiros de cada um

07/02/2013

renancalheiros

Todo esse ânimo exaltado das pessoas indignadas (infelizmente só nas redes sociais) por causa da eleição de Renan Calheiros à Presidência do Senado me fez pensar um pouco mais, saindo da superficialidade do tema.

É muito fácil apontar o dedo para as outras pessoas, e é muito difícil cutucar a própria ferida. Por um único motivo:  cutucar ferida dói, limpar a sujeira debaixo do próprio tapete é trabalhoso, o que faz a maioria é deixar a vida passar rapidamente com essas coisas escondidas para ninguém ver. Para ninguém julgar.

Só quando a ferida sangra é que fica visível. Só quando a sujeira aparece todos enxergam. Quando o ladrão é pego, é preso. Quando o corrupto é desmascarado, pela sociedade é julgado.

– “Oh, os políticos mais corruptos do mundo afundam o próprio país”, chorarão uns.

E depois apontam à tais engravatados de Brasília o motivo do “Brasil não ir pra frente”. Sim, eles têm culpa no cartório, na delegacia, na justiça e na pqp, porém não tem culpa pela flacidez da bunda da população de tão acomodada que é. Deve-se tirar o cabresto porque o buraco é mais embaixo!

É muito fácil ser santo na vida, afinal, todos são até o dia que fizerem a merda besteira, correto?

Não, não é quando cai a auréola acima da cabeça que deixa de ser santo. Infelizmente deixa-se de ser anjo quando a casa cai e a coisa vem à tona. É quando você fica nu.

Cada um sabe o tamanho do Calheiros que tem dentro de si. Eu, por exemplo, refleti sobre meus e, num deles, o que considero mais grave, resolvi mudar de atitude: parar de dirigir após beber álcool.

Tenho sorte de nunca ter perdido alguém próximo, vítima de acidente por causa de bebida alcoólica (seja culpado ou vítima), e não consigo imaginar o tamanho da revolta que deve ser quando se perde alguém por culpa de motoristas alcoolizados. Já cheguei aos 30, e há pelo menos uns 4 anos não vejo graça nenhuma em ficar bêbado.

Sim, sou chato.

Eu nunca me arrisquei dirigindo com álcool no sangue em outro país. Medo de ser preso, de pagar caríssima fiança, medo de matar, medo de morrer.  Por que no Brasil tem que ser diferente? E quando dirigia depois de beber?

Eu voltava bem devagar pois, se desse merda, seria merdinha. Um parachoque, um amassado pequeno, sempre imaginei que não passaria disso. Ainda bem que nunca me envolvi em acidente depois de beber, pois esse é um assunto muito grave, muito mais que corrupção de covardes como Renan Calheiros, afinal, envolve a vida.

50km/h pode derrubar um ciclista que na queda pode morrer. 40km/h pode atropelar um pedestre e pode matá-lo. A merdinha seria comigo, não com os terceiros.

Dirigir bêbado é crime, e não quero desperdiçar minha vida nem das pessoas queridas do meu convívio.

Pensando no Paulo Maluf que cada um carrega, decidi parar de dirigir após beber. Se vou cumprir ou não, o tempo dirá, mas vou me esforçar para cada dia ser uma pessoa melhor, e eu sei que tenho muito ainda que melhorar.

Há outros tipos de Calheiros correndo no sangue de cada um, de não pedir nota fiscal em todos os estabelecimentos, de comprar produtos de origem duvidosa, de pedir “jeitinho” para o Contador na hora de declarar a renda, subornar fiscal, subornar policial, comprar droga, consumir droga, etc. São infinitos Calheiros e cada um sabe o peso disso.

Gandhi eternizou “seja em você a mudança que quer para o mundo”, e cabe a cada um refletir sobre seus atos. Apontar o dedo para o erro dos outros é muito fácil. Ficar indignado pelo desvio de centenas de milhões de reais também é muito fácil.

Mas e os seus próprios atos, conscientemente praticados de forma errada, desigual e até criminosa?  O que vai fazer?  Continuar do jeito que faz e, ainda assim, lutar e reivindicar por “Justiça Social”?

Incoerente, né?

A corrupção de cada um da população é o combustível que alimenta e justifica os crimes dos políticos.

Ninguém precisa apontar o dedo para mim, eu mesmo posso fazer isso pois só eu sei bem o tamanho dos Calheiros que carrego dentro da minha consciência, mas quero arrancar um por um por um único motivo: evolução.

Se eu não sou a mudança, e se eu não faço a mudança acontecer, e se eu não começar em mim o que quero para o mundo, qual sentido disso tudo?  Ou você pensa que o mundo precisa estar lindo, cheiroso, limpo justo e honesto para você começar a mudar os seus próprios hábitos?

Se você gasta tempo mostrando indignação por causa de outras pessoas, você tem tempo mais que suficiente para olhar para dentro de você.

 

Marcio Vieira


Novos tempos na Boca

14/05/2012

– Dimiui a velocidade, Vagner. É na próxima rua à direita, ande uns 50 metros e pare. – Disse Alberto.

– Tem certeza que é tranquilo? Lugar tenso, esse!

– Desliga o farol, cacete. E sem buzinar.

– Foi mal. Estou me cagando, porra.

– Relaxa, é rápido e a gente cai fora. O Nego Lau é aquele ali que já vem na nossa direção, junto com dois seguranças. Um eu reconheço, é o Negueba. O outro não sei quem é.  Não desliga o carro. Se der zica a gente sai rasgando.

Laurindo, 32, cresceu rapidamente nos últimos meses. Antes de se tornar o respeitado Nego Lau por toda favela, apenas era um intermediador de pequenos papelotes de droga para jovens da classe média. Visionário, trocou as drogas por sacolas plásticas logo no início das novas leis de circulação e distribuição de sacolas plásticas, montando com eficiência uma rede de infiltrados nas principais redes de supermercados do país, e parcerias no tráfico com outros estados, principalmente o Rio de Janeiro.

– E aí, Nego Lau, beleza? Eu sou o Alberto, que já vim comprar com você algumas vezes.

– Suave. Esse branquelo aí, quem é? – Perguntou Nego Lau.

– É o Vagnão. Tá na família. É ele que quer comprar hoje. – Respondeu Alberto.

– Nego Lau, tu tu tudo bem com você?

– Suave. Vai querer de qual, branquelo?

– Vo vo vo… que que querer… qual que vo vo você tem?

– Porra, é gago essa porra? Tira a piroca da boca, cabaço. – Atravessa, na conversa, o segundo segurança do Nego Lau, o Ratão.

– Foi mal. Ele tá nervoso, pessoal. – Respondeu Alberto, defendendo o amigo Vagner.

Vagnão, qual você quer: da brasileira, francesa ou americana? – Continuou.

– Não sei. É a primeira vez que compro. Qual você acha melhor? – Vagner falou baixinho para Alberto.

– Nego Lau, qual tá num esquema firmeza hoje?

– Parceiro, pro novato aí, melhor começar com uma nacional, tipo Extra. Sabe como é, a vizinhança num nota muito, o lixeiro nem percebe, zelador, porteiro, ninguém vê. É só ficar na miúda que não vai ter problema.

– E a do Pão?  Você tem? – Pergunta Alberto para o Nego Lau.

– Do Pão é publico A, coisa mais seleta, tá ligado. Tem uns playba que vem comprar da Pão, umas peruas que se acham ricas emergentes só por pilotar  Tucson, tá ligado, essas aí só querem se mostrar.  Mas depende de quanto você quer que nóis arruma.

– A francesa também é bacana, né? Descobri só nesses dias o que significa aquele símbolo.  Um “C”!! Acredita, Alberto? Achava que era um monstrinho de chapéu. – Comentou Vagner.

– Hoje não tenho Carrefa, mas se quiser descolo pra amanhã.

– Tão rápido?

– Tenho uns truta infiltrado, é esquema profissa. Ontem chegou pra mim do Wal Mart. Tá no preço.

– Quantas vo…você vende? Que…quero umas cem pr pra esse mês. – Disse Vagner, que não consegue esconder o nervosismo com a negociação com o traficante.

– Vagnão, fica sussa. Nego Lau é da paz. Só não atravessar no trabalho dele.

– Isso aí, Parsa. Sem fuder nóis, firmeza? – Responde o segurança Negueba ao que Alberto disse.

– Ow cabaço, cem sacos é muito pra você. Depois você não se segura prus Polícia e ferra todo meu movimento. Essa parada de tráfico da sustentabilidade é o futuro para os traficantes, e não vou rodar justo agora que tá na moda ecologia, garrafa verde, sacola verde, grama verde, plantinha verde, tá ligado. Pega umas trinta só e depois nóis troca ideia mês que vem. Trinta por dez real, demorô? – Sugeriu Nego Lau.

– Tá bom o preço, Vagnão. Vai por mim que é coisa boa.

– Se virá bom cliente, tem até Santa Luzia. Coisa de magnata. Tá ligado onde é a fita?

– Nos Jardins, sacola bacana essa. Quanto tá saindo?

– Levando essas do Extra, só posso te passar duas agora. Tem muita procura pelos bacanas. As dondoca pira nessa sacola. É dois real cada, da simples. Essas madames tremem pra vir aqui na quebrada, e quem vem buscar é tudo motorista, ou marido corno, tudo dirigindo Beême, Land Rover. Nóis vende pra todo mundo, tá ligado.

– Vou querer duas, por favor. Mais as trinta do Extra.

– Também vou querer duas do Santa Luzia, Nego Lau. – Pede Alberto.

– Peraí que a gente busca.

– Negueba, vai buscar a mercadoria. Faz um pacote pros chegado aqui, é primeira compra do branquelo.

– Pode deixar, chefe!

E entrou num beco, rapidamente, Negueba, deixando Nego Lau apenas com o Ratão de segurança.

– Beto, meu velho!! Animal a sacola da Santa Luzia! O Nego Lau é o cara! Vai ter churrasco no prédio de uns amigos, vou chegar com a cerveja numa dessa. A galera vai pagar um pau enorme! – O entusiasmado Vagner comenta com o amigo.

– Não te disse que o cara é sangue bom. Mas fica na quieto por enquanto, Vagner. Tráfico de sacolinha de supermercado é crime pesado, e não quero escutar lição de moral que eu financio o tráfico de sacolinha. – Alberto faz um alerta à Vagner

Três minutos depois, volta o Negueba com um pacote, entregando-o para o seu chefe.

– Aí rapaziada, tá aqui a mercadoria. Quando quiser mais, é só colar. – Nego Lau entrega as sacolas plásticas para a Alberto, que cumprimenta o traficante.

– Valeu Nego Lau. – Agradece Vagner.

– Fica suave, e qualquer treta, nunca vi vocês.


Síndrome de Superman

12/08/2011

Eu sofro da Síndrome de Superman, não num nível extremo, mas sofro. Conheço muita gente que sofre da mesma síndrome. Não é uma doença, propriamente dita, mas são características psicológicas extremamente peculiares que envolve o núcleo de todas as ações na vida do portador, ou seja, a síndrome altera o fluxo de pensamento, as razões, sentidos e propósitos de cada ato.

Desconheço a origem dos sintomas, mas ela atinge um maior grupo de indivíduos das classes média e alta, pessoas que tiveram determinadas oportunidades na sociedade, bom estudo, formação, enfim, receberam um considerável investimento cultural que a maioria da população global não recebeu, e é nesse período, do desenvolvimento da consciência, que se começa a manifestação da síndrome em virtude da facilidade empática e de comparação que tais pessoas têm.

A Síndrome de Superman ataca pessoas que questionam as diferenças sociais e, por entenderem que são privilegiadas, acabam sentindo algum tipo de culpa quando comparam suas oportunidades em relação à maioria da sociedade, e assim acabam nutrindo um sentimento de não merecimento, visto que, na maioria dos casos, apenas “nasceram” em tal família, não construíram nada que faz jus para estudar em escolas particulares, faculdades, aprender idiomas, cursos diversos, viajar, sair, enfim, ter uma vida com mais possibilidades.

A expansão da consciência, muito em razão de tais investimentos culturais que a família proporcionou, pode ser maléfica naquele perfil de indivíduos que têm como ponto forte o questionamento, desse modo, inúmeros deles, num sentimento de frustração e mal estar, direcionam suas carreiras profissionais, seus propósitos de vida, suas opiniões, seu consumo, de forma contínua na busca pelo merecimento, e assim desenvolvem vontades ultradimensionadas para justificar seu nascimento, seu pertencimento a tal determinada família e condição social.

Muitos portadores iniciam atividades de desapego à tais condições socioeconômicas por culpa, perpetuando uma busca ideológica, muitas vezes utópica, criando, num paralelo, outra vida, geralmente em outra cidade, outro país, para tentar se distanciar e renunciando o padrão social de sua origem para buscar a justificativa pela vida, desejando, de alguma forma, pagar um pedágio com um sofrimento que compense todas as condições que recebeu de seus pais.

A Síndrome de Superman ataca o lado existencial do ser humano, e tais portadores desenvolvem sentimentos de abnegação, sacrifício, muitos se tornam depressivos quando se deparam e se comparam com pessoas com menos oportunidades e condições, transparecendo, pela culpa, uma das características mais bonitas, a de gratidão, que embora escondida, salta aos olhos pelo desenvolvimento de uma consciência profunda, ampla e externalizada.

Com isso, muitos portadores acabam buscando atividades sociais, profissões e atividades voluntárias que envolvem questões sociais e ambientais, querem trabalhar para ajudar o mundo, acabar com a fome, erradicar a miséria, possibilitar estudo dos pobres, fomentar emprego e inclusão social, proteger crianças carentes, mulheres, buscar a justiça social, racial, proteger florestas, levar saúde, nutrição, desenvolvimento socioeconômico para lugares remotos e esquecidos, pacificar o mundo, enfim, querem ser o Superman!

É apaixonante conhecer pessoas assim, que inflam desejos de querer contribuir com o mundo, pessoas que se doam pela humanidade, mas um ponto muito crucial e frágil é o motivador de todo esse movimento existencial. Se tais vontades de super-herói são porque se sentem, de alguma forma, não merecedores, e por isso resolvem se abdicar do passado, daquilo que suas famílias construíram, acredito que o fluxo de ações está invertido e é preciso mudar a correnteza desse rio de pensamentos, acabar com esses sentimentos negativos quase que masoquistas que fizeram optar por tais carreiras de Superman, de salvadores do planeta.

Não precisa se sentir culpado, não precisa se recriminar, se maltratar, sofrer, tornar-se um mártir, porque existe a miséria, as doenças e a fome no mundo, sendo que você sempre teve um colchão, roupas e livros. Se você nasceu numa família que te possibilitou estudos e boas oportunidades, sinta-se grato como você sempre se sentiu, essa é sua característica, mas não faça dessa gratidão uma dívida.

Desejar bens, desejar consumir, desejar conhecer, viajar, não são pecados. Vocês já desenvolveram uma consciência coletiva rara. Querer sofrer para justificar seu nascimento e dar sentido à sua vida não é uma coisa legal de se fazer. Vocês, portadores do superheroísmo enrustido, são pessoas excepcionais, com um coração gigantesco e que sofrem com o que acontece no mundo, mas não queiram abraçar tal mundo, não queiram  carregar tudo e todos nas costas, senão você vai cair porque ninguém consegue suportar.

O idealismo é, em cabeças mais questionadoras, prejudicial para um convívio social. Fazer o bem é delicioso, mas entenda que não existe sustentabilidade. Sua existência, de alguma forma, agride a natureza, é inevitável a sua pegada, e tais ações neutralizadoras e compensatórias são extremamente importantes para o futuro do planeta, mas que o processo de ampliação da consciência não desestimule sua ambição, ou nem torne um Superman.

Tal herói, é ficção. Não se cobre tanto, aceite o que você é e de onde você veio, sem culpas.

Marcio Vieira


Atritos entre sonho e consciência

12/02/2011

É comum eu me pegar em assuntos viajantes, já que minha facilidade de arrancar a cabeça do resto do corpo é alta, assim acabo entrando num ‘mundo do Bob’, onde conflitos internos e questionamentos são os temas preferidos do diálogo entre meu subconsciente e aquilo que acredito que seja consciente

E o que mais me faz perder horas, sonos, às vezes dias, é o reflexo daquilo que venho fazendo na vida. Tive muita sorte em absorver experiências e conhecimentos sensacionais que, no fim, compactuam com a teoria socratiana do só sei que nada sei. E apenas agora, recentemente, me dei conta que a expansão da consciência é um círculo vicioso, sem fim, e se você for uma pessoa que se cobra muito, a tendência será, infelizmente, a frustração e o sentimento de derrota.

Este blog, propositadamente, tem como nome exatamente as consequências dos caminhos que levamos por toda esta vida, sabendo que  nossas marcas sempre estarão lá, e o que vai diferenciar é se elas serão positivas ou negativas. Neste pensamento do nosso impacto na Terra, inventaram as calculadoras ecológicas e questionários para mensurar tudo que fazemos e que deixaremos para as próximas gerações.

Eu, por vários motivos, principalmente no lado familiar e no interesse próprio, expandi minha mente visando alguma proteção socioambiental. E lá fui plantar árvores, lá fui trocar o carro pela bicicleta, tornar-me vegetariano, estudar Direito, aprofundar o lado dos direitos humanos, desenvolvimento sustentável, protestar contra governos, e outros blábláblás importantíssimos na sociedade contemporânea.

Mas o que me inquieta tanto hoje é que alguns sonhos ficaram reprimidos por parecerem imorais numa sociedade verde a qual deve lutar pela sobrevivência do planeta. Sensações, sabores, vícios que ferem a mãe natureza, neste momento, estão socialmente proibidos, mas que a massacrante maioria da população consciente faz de forma moderada, ou ‘escondida’, sei lá.

Eu fui vegetariano por dois anos. No primeiro ano, ovolactovegetariano. Não aguentei aquela vida e abri espaço para eternas paixões: comida japonesa, a bacalhoada da minha vó e jamón, que comi no segundo ano com um certo peso na consciência, ferindo minha ‘ecoconsciência’.   E durante esse tempo, nunca recusei comidas sangrentas quando eu era visita, pois considero desrespeito quando alguém faz algo com bastante carinho, e chega um vegetariano dizendo que não come.

Hoje, aqui em Genebra, por questões de economia, eu como o que está mais barato na gôndola e que seja fácil de cozinhar, visto que meu tempo está escasso, meu dinheiro, raro, e tenho objetivo de, ao menos, não ficar anêmico.  E o peso na consciência vai perdendo força, não choro mais ao mastigar um franguinho ou um hamburger congelado. O que não pode é passar fome.

O carro foi algo mais natural, colei um adesivo na bike “um carro a menos” e vamos economizar espaço e ganhar em saúde, mas por boa parte do Brasil ter uma sociedade ainda provinciana com relação ao uso de roupas mais leves em ambientes profissionais, isso bloqueia, ainda, o crescimento do uso da bicicleta como veículo.

E, neste âmbito, como é que fica meu sonho de ter uma Kombi antiga e um Fusca? Será que vou me tornar um infrator quando comprar minha kombosa? Mesmo sabendo que sua tecnologia ultrapassada faz ser um carro poluente, será que se configurará crime no momento que andar com um carro antigo ou eu, para participar da sociedade, necessito andar de bicicleta ou comprar um carro de baixas emissões?  Mas e se o carro for para 4, 5 pessoas, e eu andar no máximo com uma pessoa ao lado, deixando o banco de trás vazio, será que a mãe natureza me mandará acertar as contas com o diabo?

O fato é que precisamos, sim, criar uma consciência coletiva, sabendo que o planeta está em coma, precisa ser medicado e policiado. Sabemos que precisamos limpar o ar, a água, a terra, todos contaminados pela ação do homem.  Mas a pergunta é: será que todo sacrifício (e prazer, incluso) em tentar ser um cara bacana para a querida e apaixonante Terra, não me permitirá comer meu sushi e andar de kombi azul calcinha (ou amarela com branco)?

Poxa, eu sou um cara gente boa, Mãe Natureza! Tanto que já andei a pé ou bicicleta quando poderia ir de carro, tanta economia de energia, tantos animais que deixei de consumir, as roupas que pouco compro, hoje estou mergulhado na ONU e OIT, tentando achar as mais diversas soluções de melhorias para toda população, não só de humanos, será que a incansável expansão da consciência não permitiria eu descansar minha própria mente, sem preocupação das minhas pegadas, quando segurar o volante do meu futuro fusquinha de cor laranja?

Será que eu posso deixar minha cabeça em paz sabendo que para cada litro de cerveja que consumo, são dez de água para produzí-lo?  Gosto de cerveja, natureza, ela me faz bem, permite minha desaceleração e relaxamento. Será que posso beber sem achar que estou matando o verde? E os churrascos de no mínimo 7 horas de duração, será que o capeta vai puxar minha orelha por gostar tanto disso, de comer de vez em quando uma carninha mal passada?

Enfim, são tantos ‘serás’ que inquietam minha mente, paralizando, por muitas vezes, minhas pernas nessa jornada tão longa (mas que passa tão rápida) chamada vida. Uma vez estagnado, fico sem as tais pegadas e sem registros na vida por pensar demais. E quanto mais penso, Sócrates, fico tão maluco quanto você foi. Além de me perder, obviamente.

Não estou aqui desistindo da vida de salvador planetário. Apenas cheguei na conclusão que já tenho lá meu saldo positivo com a natureza e com a sociedade por diversos motivos: estar envolvido profissionalmente com questóes sociambientais, gostar de andar de bicicleta, gostar do verde, do mar, do vento, por recusar produtos sem selos e certificados, etc.

Mas não vou bitolar, vou assistir os filmes e ouvir cds oferecidos na internet, vou comer o rango japoronga e vou querer ter minha kombi.  Nem por isso serei um criminoso ecosocial. O que fiz foi enfiar tudo que fiz, faço e quero fazer, nessas calculadoras naturebas sem fim, e vou relaxar a cabeça porque sempre haverá alguma coisa que estou prejudicando, mas não vou passar dias em claro por isso.

O que recomendo, sei lá se posso recomendar, é que cada um expanda sua consciência, busquem conhecimento, enxergue suas próprias pegadas, seus impactos na Terra, e que faça algo para equilibrar todo esse sistema, mas sem ficar neurótico, sem deixar de sonhar, sem peso na consciência de fazer lá sua “sujeirinha” neste planeta azul. Faça de tudo para ter saldo positivo, porque hoje eu cheguei na conclusão que aumentar freneticamente o crédito não é tão importante assim quando a consciência entra em confronto com os sonhos.

É preciso relaxar nesta vida, também.


Busquem conhecimento

11/11/2010

A mais nova estrela brasileira, ou melhor, intergalática, é o  simpático extraterrestre Bilú. Um jovem ET de 4.010 anos, brincalhão, todo serelepe que conquistou o Brasil de forma bizarra, e tudo se deu graças à um grande amigo, Roberto Onaga.

Conheço o Onaga faz alguns anos, gente boa, alma do bem. É um brother que resolveu dedicar seu tempo dentro de assuntos relacionados à ufologia, transição planetária, 2012, etc.  E posso falar que nunca vi o cara consumindo drogas, o máximo foi um garrafa de Tonturinha, uma cachaça horrível que bebemos em Garopaba-SC.

E graças ao vídeo do Onaga sobre transição planetária, que foi o primeiro a citar sobre a vida do ET Bilú, toda mídia resolveu ir atrás. SBT, Record, CQC, todos foram até tal cidade do futuro atrás de informações.  Apesar de discordar de quase tudo que ele fala sobre ETs e o lado cômico disso tudo, existem questões implícitas que devem ser separadas, como o realinhamento das galáxias, calendário Maia e a ação do homem na Terra.

Os últimos anos marcaram algumas catástrofes naturais, como tsunamis e grandes terremotos. Presenciamos um clima mais quente em todo mundo, onde, dando um exemplo desta semana, foi batida a maior temperatura de Moscou para o mês de novembro.

É fato que a quantidade de problemas está aumentando, e muito se deve a ação do ser humano e seu consumo irracional, desequilibrado e desnecessário. Uma espécie que está na Terra há pouco tempo, menos de 0,1% de toda a existência do planeta, e que está, literalmente, destruindo tudo.

O mais preocupante, no entanto, é a ignorância e apatia humana daqueles que têm o poder para mudar, mas pouco fazem ou acabam chamando de “ecochatos” aqueles que andam de bicicleta, que são vegetarianos, ambientalistas, ou seja lá o que for, tudo porque é mais fácil criticar do que se desapegar.

Ser humano criou paixão por dinheiro e pelo que ele compra. É inevitável viver sem ele, mas precisa tanto apego? Apego ao novo, novo carro, nova roupa, novo celular, novo isso, novo aquilo, etc., enchendo guarda-roupas, enchendo geladeiras, enchendo o saco sem pensar.

Esta semana, num texto rápido que peguei aqui em Genebra, li a expressão “pensamento global, ação local”. Essas quatro palavras juntas dão corda para escrever uma coleção de livros, principamente no que tange os efeitos daquilo que consumimos.

O reflexo da nossa ação ou omissão é tema que poucos param para pensar. Não falo só das sacolinhas plásticas, falo de tudo, inclusive do conhecimento citado pelo ET Bilú.

Você já parou para pensar se a indústria que produz produto X respeita as leis trabalhistas? Você já viu se a soja Y ou carne S é da Amazônia? Você já percebeu que no seu carro cabem outras quatro pessoas, mas você está dirigindo sozinho? Você já pensou em comer todo seu estoque de comida antes de comprar mais só para ver quanto dinheiro tem lá parado?

O Bilú, seja um charlatão ou um ET, falou para buscar conhecimento. Levem o “personagem” na brincadeira, mas não o que foi dito. Só com a expansão da consciência e ações conjuntas é que esse mundo melhorará.

Eu sei que você sozinho não muda porcaria nenhuma, não pense que seus atos são irrisórios por significarem 0,0000000001% dos reflexos no mundo.  Pense que seus atos são 100% da sua convicção. Todo mundo quer melhorar isso aqui, mas o que precisa é das tais ações locais com pensamento global.

Convide seu vizinho para uma carona, cancele as cartas do banco, peça boletos via e-mail, evite desperdícios de papel, comida, roupa, gasolina, etc. Plante árvores, faça caminhadas se o trajeto for curto, compre só produtos com selos e certificados que protejam a natureza, o trabalhador, que façam compensação do carbono, etc.

Enfim, Bilú falou para buscarmos conhecimento! E o conhecimento está aí para todos. Saiam da caixa, olhem no seu entorno, olhem o mundo e percebam que há muito para ser feito.

Marcio Vieira


Consumidor exigente, propaganda consciente

23/10/2010

Mais informações para um consumidor mais exigente

Uma das grandes diferenças entre as propagandas de automóveis na Europa e Brasil é, sem dúvidas, a quantidade de informações que acompanham a foto do veículo dos anúncios europeus.

O velho continente tem as mais rigorosas leis ambientais que regulamentam as emissões de gases poluentes no mundo, forçando montadoras  ao desenvolvimento de novas tecnologias “limpas”. Mas o grande motivador vai além da consciência ecológica do consumidor: atinge o bolso.

As normas europeias atrelaram, inteligentemente, o consumo de combustível e emissão de CO2 ao tributo que o consumidor deve pagar anualmente referente ao carro. Assim, o imposto equivalente ao nosso IPVA vai muito além de um percentual do valor de tabela do carro, atingindo também o quão danoso ao meio ambiente é tal veículo.

Além do combate à poluição, esta é uma forma de ativar ainda mais a indústria automobilística porque, com o passar dos anos, um carro velho tende a pagar mais impostos que um veículo novo.

Etiqueta de energia e valor do imposto anual (Reino Unido)

Com tal regulamentação, o consumidor necessita de informações complementares para comprar um carro, e todas as montadoras desenvolveram uma etiqueta de energia semelhante à encontrada nas geladeiras, mencionando a quantidade de CO2 que o veículo emite e quanto pagará anualmente.

Mas o ponto mais curioso  é que tais informações ecológicas de cada carro vão além das lojas e da boca do vendedor: vão para as ruas e, no acirrado mercado automobilístico, a etiqueta de energia torna-se uma importante arma publicitária na decisão de qual carro comprar.

Os consumidores europeus sabem que tais informações não são apenas dados técnicos, elas resultam também em economia financeira. Com isso, as propagandas de automóveis na Europa acrescentam cada vez mais informações referentes ao carro, como resultado no crash test, consumo e quantidade de CO2.

Bem menos exigente, o consumidor brasileiro, quando muito, pergunta ao vendedor da concessionária qual é a média de consumo que tal veículo faz. Incentivo todos, quando procurarem um carro para comprar, que perguntem também ao vendedor qual é o nível de segurança que ele atingiu nos testes e quantas toneladas de CO2 o carro emite. Tenho sérias dúvidas se o vendedor saberá responder.

Marcio Vieira