O boy do iphone

14/06/2013

egitocelular

Muita gente, sempre via redes sociais, está criticando as manifestações contra aumento do transporte público por ser um movimento com muita gente da classe média, muitos com carros, sendo pessoas que usam pouco ônibus e metrô.

Expressar opinião é de direito de cada um, há de se respeitar. Por exemplo, eu sinto vontade de vomitar quando alguém compartilha textos do Arnaldo Jabor. Tem gente que gosta, o importante que a internet dá espaço para todo mundo.

Para quem não sabe, a Primavera Árabe foi iniciada por estudantes, boa parte da classe média, que utilizaram o Facebook, Twitter e outras ferramentas da nova sociedade para reunir pessoas com uma mesma opinião, de derrubar regimes ditatoriais.

A classe média está indo para as ruas do Brasil, e por um motivo que deveria orgulhar os almofadinhas: de alguma forma, eles estão dando a cara à tapa para representar os mais pobres, os que dependem de um transporte público eficiente.

Quem está levando bala de borracha tem Facebook. Quem se engasga com gás pimenta está no Twitter. E qual o problema?  Se o boy do I-phone faz mais que você para tentar mudar o país, parabéns à ele!  Que apareçam mais gente com seus smartphones para compartilhar e reunir mais insatisfeitos.

A luta não é por 20 centavos. A luta é por viver dignamente. A luta é contra a dificuldade de viver em São Paulo, seja você rico ou pobre. Dignidade não tem classe social, não está na roupa do Brás ou do Iguatemi. Dignidade está dentro de cada um para agir e reagir da forma como quiser.

É de se comemorar que as pessoas privilegiadas de São Paulo, com acesso à informação e à tecnologia, resolveram botar a pele em risco. Perceberam que ser somente Ativistas de Pantufas não gera solução, e finalmente a revolta deixou as mesas de bar e foi para as ruas.

Se há gente que discorda dos protestos, o espaço para opinar é de todos. Se há críticos às manifestações, utilizem as mesmas redes sociais para se juntarem debaixo do Masp ou no Ibirapuera para não atrapalhar o trânsito. E melhor será se utilizarem o eficiente e confortável sistema de transporte público para chegar em tais lugares.

Porém causar incômodo é necessário para transparecer a insatisfação contra os representantes da sociedade. Caos não é sinônimo para violência ou depredação. Parar as já caóticas avenidas paulistanas é fundamental, do contrário, sua petição online vai ficar no fundo da gaveta do prefeito e do governador.

Está afim de esperar?

Esperar um dia que Haddad, Alckimin, ou qualquer outro representante irá refletir, meditar e, voluntariamente, decidir abaixar os impostos? Abaixar os preços das passagens de ônibus e metrô?   Que mundo você vive?

Deve-se ir às ruas, e dane-se se há um i-phone no bolso ou uma prestação das lojas marabraz. O que importa é transparecer o que se acredita, fazer valer a própria voz.

Protestar não é uma ação. É reação! Passe Livre é uma forma de reagir àquilo que está sendo feito, ou melhor, ao que não está sendo feito.

Marcio Vieira


Dividindo o Yakult

21/03/2013

yakult

Andei refletindo sobre um tema após ir nas passeatas promovidas contra Marco Feliciano. Muitos protestam, mas poucos vão. Já participei de outros movimentos, mas sempre saio com dois sentimentos: um de “dever cumprido” e outro de “desânimo”.

Dever cumprido pois saí, apresentei minha indignação, atravessei a cidade para me juntar com outras pessoas que tiveram a mesma atitude. O Desânimo acompanha porque, com tanta barulheira na internet, a expectativa é sempre maior, de ver mais gente, de ver mais efeito, de ver mais resultado.

Confesso que poderia ir milhares de vezes mais, participar mais. Nunca será o suficiente quando tem tanta coisa errada que precisa de mudança imediata.

Infelizmente o brasileiro não cultivou a “cultura do protesto”. Muita gente não sabe que protestar é a forma mais contundente de demonstrar cidadania. Mostrar-se presente. Atuante. Transparecer que há uma opinião contrária, enfim, dizer nas ruas um sonoro “Não!”

Isso invejo muito dos nossos vizinhos. Argentinos batem suas panelas, lotam as ruas. No Chile, também vão, e muito, para as ruas. Uma das últimas manifestações dos chilenos foi para protestar contra a qualidade do ensino!  Oras, não é falta de professores, não é falta de carteiras, materiais escolares, escolas pichadas, falta de transporte escolar, etc. Eles protestaram contra a qualidade daquilo que se ensina! Daquilo que se aprende!

Protesto é feito para querer mudar algo que caminha de forma errada. Protestos são realizados para querer um futuro diferente daquilo que é pré-anunciado, daquilo que é projetado.

É preciso ir para as ruas, faz bem se sentir cidadão nessas horas. Mostrar que está preocupado com o que está sendo feito, sem apatia.  Se o brasileiro se acostumar a usar essa arma que tem, muita coisa vai ser mudada e, mais ainda, muita coisa vai ser evitada.

Governo corrupto é igual aquele amigo fdp que pede um gole de Yakult. Já é pouco, e assim querem pegar metade. É de se revoltar! Mostre, então, a revolta!

Mas o que não entendem é que quem está no poder é o reflexo do que está no povo. São apenas maus representantes de um povo composto de maus cidadãos. E ser mau cidadão não é culpa de escola, não é culpa de falta de saúde, falta de trabalho, falta de transporte.  Para diagnosticar um mau cidadão, basta um espelho.

O silêncio transmite indiferença. Achar que “ativismo de pantufas” em casa funcionará e o Brasil melhorará, sinto muito em desaponta-lo. Tem muita gente na rua que precisa ser encorajada, e isso depende de passos e decisões de cada indivíduo.

É preciso bater panelas, é preciso gritar, é preciso se indignar para, num primeiro momento, ter a oportunidade de discutir uma situação. Do contrário, tudo isso não passará de uma conversa de bar, de um “post” no Facebook.

E não fique com medo se serão só 10 pessoas, se só serão 1.000. Ao invés de enxergar esse número externo, enxergue e valorize os 100% de você na causa que for abraçar.


O Calheiros de cada um

07/02/2013

renancalheiros

Todo esse ânimo exaltado das pessoas indignadas (infelizmente só nas redes sociais) por causa da eleição de Renan Calheiros à Presidência do Senado me fez pensar um pouco mais, saindo da superficialidade do tema.

É muito fácil apontar o dedo para as outras pessoas, e é muito difícil cutucar a própria ferida. Por um único motivo:  cutucar ferida dói, limpar a sujeira debaixo do próprio tapete é trabalhoso, o que faz a maioria é deixar a vida passar rapidamente com essas coisas escondidas para ninguém ver. Para ninguém julgar.

Só quando a ferida sangra é que fica visível. Só quando a sujeira aparece todos enxergam. Quando o ladrão é pego, é preso. Quando o corrupto é desmascarado, pela sociedade é julgado.

– “Oh, os políticos mais corruptos do mundo afundam o próprio país”, chorarão uns.

E depois apontam à tais engravatados de Brasília o motivo do “Brasil não ir pra frente”. Sim, eles têm culpa no cartório, na delegacia, na justiça e na pqp, porém não tem culpa pela flacidez da bunda da população de tão acomodada que é. Deve-se tirar o cabresto porque o buraco é mais embaixo!

É muito fácil ser santo na vida, afinal, todos são até o dia que fizerem a merda besteira, correto?

Não, não é quando cai a auréola acima da cabeça que deixa de ser santo. Infelizmente deixa-se de ser anjo quando a casa cai e a coisa vem à tona. É quando você fica nu.

Cada um sabe o tamanho do Calheiros que tem dentro de si. Eu, por exemplo, refleti sobre meus e, num deles, o que considero mais grave, resolvi mudar de atitude: parar de dirigir após beber álcool.

Tenho sorte de nunca ter perdido alguém próximo, vítima de acidente por causa de bebida alcoólica (seja culpado ou vítima), e não consigo imaginar o tamanho da revolta que deve ser quando se perde alguém por culpa de motoristas alcoolizados. Já cheguei aos 30, e há pelo menos uns 4 anos não vejo graça nenhuma em ficar bêbado.

Sim, sou chato.

Eu nunca me arrisquei dirigindo com álcool no sangue em outro país. Medo de ser preso, de pagar caríssima fiança, medo de matar, medo de morrer.  Por que no Brasil tem que ser diferente? E quando dirigia depois de beber?

Eu voltava bem devagar pois, se desse merda, seria merdinha. Um parachoque, um amassado pequeno, sempre imaginei que não passaria disso. Ainda bem que nunca me envolvi em acidente depois de beber, pois esse é um assunto muito grave, muito mais que corrupção de covardes como Renan Calheiros, afinal, envolve a vida.

50km/h pode derrubar um ciclista que na queda pode morrer. 40km/h pode atropelar um pedestre e pode matá-lo. A merdinha seria comigo, não com os terceiros.

Dirigir bêbado é crime, e não quero desperdiçar minha vida nem das pessoas queridas do meu convívio.

Pensando no Paulo Maluf que cada um carrega, decidi parar de dirigir após beber. Se vou cumprir ou não, o tempo dirá, mas vou me esforçar para cada dia ser uma pessoa melhor, e eu sei que tenho muito ainda que melhorar.

Há outros tipos de Calheiros correndo no sangue de cada um, de não pedir nota fiscal em todos os estabelecimentos, de comprar produtos de origem duvidosa, de pedir “jeitinho” para o Contador na hora de declarar a renda, subornar fiscal, subornar policial, comprar droga, consumir droga, etc. São infinitos Calheiros e cada um sabe o peso disso.

Gandhi eternizou “seja em você a mudança que quer para o mundo”, e cabe a cada um refletir sobre seus atos. Apontar o dedo para o erro dos outros é muito fácil. Ficar indignado pelo desvio de centenas de milhões de reais também é muito fácil.

Mas e os seus próprios atos, conscientemente praticados de forma errada, desigual e até criminosa?  O que vai fazer?  Continuar do jeito que faz e, ainda assim, lutar e reivindicar por “Justiça Social”?

Incoerente, né?

A corrupção de cada um da população é o combustível que alimenta e justifica os crimes dos políticos.

Ninguém precisa apontar o dedo para mim, eu mesmo posso fazer isso pois só eu sei bem o tamanho dos Calheiros que carrego dentro da minha consciência, mas quero arrancar um por um por um único motivo: evolução.

Se eu não sou a mudança, e se eu não faço a mudança acontecer, e se eu não começar em mim o que quero para o mundo, qual sentido disso tudo?  Ou você pensa que o mundo precisa estar lindo, cheiroso, limpo justo e honesto para você começar a mudar os seus próprios hábitos?

Se você gasta tempo mostrando indignação por causa de outras pessoas, você tem tempo mais que suficiente para olhar para dentro de você.

 

Marcio Vieira


Verdades mentirosas

11/11/2011

Uma semana foi tempo suficiente para ler diversos textos, ver algumas reportagens, centenas de opiniões sobre os conflitos na USP entre estudantes e Polícia Militar.

Analisei, fiz minha auto-crítica sobre o posicionamento inicial de um fato que, com o tempo, novas informações são passadas e é preciso digeri-las, podendo mudar ou reforçar mais o ponto de vista.

Muita coisa percebi, via Facebook, principalmente: a sociedade está surtada a ponto de explodir. Eu faço parte dela, e a voz da internet é potente (convido para uma leitura do texto anterior) que merece maiores cuidados e, mais ainda, é necessário saber ler além da segunda página.

Ocorre que muita coisa está errada em tal conflito universitário e um posicionamento polarizado é perigoso, capaz de injustiças absurdas. Como exemplo, fiquei horrorizado com uma campanha de tanta gente para a PM bater, dar borrachadas nos estudantes rebeldes. Desse fato, encontro algumas justificativas: estão indignados pelo estopim do conflito ser três estudantes que consumiram drogas (recusando entender que não é só esse o problema) e, enxergo também uma inveja, mesmo que pequena, por eles estarem na USP, coisa que eu (e milhares de revoltados do Facebook) não tiveram competência para passar.

Outro fator é que sempre a minoria negativa infecciona todo o grupo. A batata podre não contamina todo o saco?  Toda brasileira é puta no exterior? Todo nigeriano é traficante? Estudante de universidade pública é vagabundo? Quem estuda sociologia é drogado? É a mesma coisa para tudo, pelo erro de poucos, muitos pagam o preço. Os alunos contrários ao policiamento da PM dentro da USP, ao que me consta, é uma minoria. Tais alunos que se rebelaram de forma mais incisiva é uma minoria dentro dessa primeira minoria, porém todos pagam pelo preço da sociedade não saber distinguir quem é o “playboy-drogado revolucionário” e quem é estudante sério.   Não generalizar é o primeiro passo para ser justo e proporcional.

No entanto, é culpa também dessa maioria de estudantes mornos que não se comprometem dentro da USP.  Quem vai discutir melhorias da própria universidade são poucos pois há um desinteresse gigantesco semelhante ao desinteresse brasileiro em tentar mudar a merda que está. Quem vai para rua protestar é minoria, taxada de revolucionário, mas que deve-se valorizar, pelo menos, a coragem de mostrar a cara indignada clamando por mudanças.

Generalizando de forma errada, brasileiro é apático, seja rico, seja pobre, seja culto ou seja ignorante.  Brasileiro, na maioria, é bunda mole e não tem espelho em casa. E tal flacidez dos glúteos prejudica tudo, afinal, os políticos são o reflexo do povo, porém a sociedade facebookiana foge da responsabilidade, são pessoas que só querem reclamar, se indignar com a indignação dos “loucos”.

Assim vemos tanta gente surtada, sem paciência, que explodem sentimentos aprisionados de forma desproporcional. São as pessoas do contra, aqueles que torcem pela tragédia, aqueles que assistem Datena e Jornal Nacional para depois dizer “tá vendo, não disse que avisei?”, enfim, os facebookianos sempre têm razão e não sabem olhar para os dois lados da mesma moeda.

Não existe verdade absoluta na vida. Não existe, não adianta nem tentar procurar pois opiniões divergentes sempre existirão, e cabe à inteligência humana ser proporcional, razoável na medição da opinião, sem querer colocar mais lenha na fogueira, coisa que o brasileiro bunda mole adora fazer.  Querem ver o caos para falar que tinham razão, mas na hora que tem a possibilidade de mudar, de apresentar ideias, ficam calados, não conseguem levar tal posicionamento além do Facebook ou da mesa do bar.

As pessoas surtadas são influenciadas facilmente. Exemplos são infinitos, seja a influência religiosa, esportiva, sexual, racial, naturalidades, nacionalidades, etc. Afinal, coitado do judeu negro homossexual que nasceu na China, é maloqueiro da Fiel, e que agora estuda na USP!

Influência é direcionar a opinião das pessoas, e isso tem que ser feito por pessoas responsáveis, não por uma imprensa que, muitas vezes, é asquerosamente comercial, catastrófica e sensacionalista. Dentro do tema “USP, PM e Estudantes”, há muita influência negativa, e é preciso frieza antes de soltar os cachorros.

É preciso analisar também o contexto atual do que é a USP em 2011, não mais na Ditadura Militar. O que faziam os professores da USP há 35 anos? Alguns crianças, outros jovens, outros mais adultos receberam uma educação influenciada pela repressão da opinião. Aonde quero chegar:  a base da personalidade e opinião daqueles que viraram professores, a profissão de maior influência (após o jornalismo distorcido), e que devem repassar o ensino não apenas de forma imparcial, incentivando o aluno ter sua própria opinião.

Opiniões devem acompanhar o cotidiano, e mudar de opinião não quer dizer que você não tem opinião. Muito pelo contrário! Eu, por exemplo, mudei de opinião umas quatro vezes em relação à invasão da reitoria na USP. Estar suscetível é peneirar melhor, mastigar melhor, enxergar melhor, e o problema de muita gente (inclusive a minha) é que tomam partido rapidamente sem analisar com calma.

Estudantes de cursos de humanas em universidades públicas recebem uma influência maior que precisa ser digerida melhor pois senão vão causar conflitos por coisas ridículas. A defesa dos 3 consumidores de maconha foi um ato de burrice pois, a partir de agora, o movimento estudantil perdeu credibilidade dentro da sociedade.

Falar que foram maltratados na delegacia e que são presos políticos, que ficaram três horas sem água numa sala abafada, é de doer. Vocês acham que delegacia é pousada na praia? Estamos no Brasil, acordem! Acha que reintegração de posse é algo pacífico que vão te tratar com carinho? Sua invasão por acaso foi pacífica? Olhem para seus atos primeiro!

Caros estudantes, se seus mentores foram presos políticos, eles viveram outro contexto histórico que não serve de influência para seus atos de hoje. Caros indignados do Facebook, vocês estão nervosinhos demais e incitação à violência é algo gravíssimo.

A contradição do estudante com moletom da GAP ridiculariza qualquer protesto político-social, mas protestar é a forma de mostrar a insatisfação. No entanto, prejulgar a sociedade ao dizer que “esquerdistas” só causam tumulto e que a “elite” é ignorante também está errado. Estamos julgando a minoria que infecciona a coletividade.

Eu cometo esse erro milhares de vezes ao generalizar um acontecimento. A maioria dos estudantes da USP é séria, assim como a maioria da PM é séria. É preciso ser forte à influência das notícias de tragédia, pois o ruim é vendável, o ruim dá lucro, o ruim chama atenção mas é nisso que toda a sociedade concentra a opinião em discussões superficiais.

Mas, para não apenas ser um texto de crítica social, precisamos apresentar soluções, senão giraremos sempre dentro do tema “indignação”.  Indignação por quê? Que alternativas serão dadas? O que é necessário mudar, e o que serve de exemplo?

Algo precisa ser mudado na universidade mais cara do país. Sim, o custo da USP é o mais alto. Ela limita, potencializa os que tiveram melhor base, maiores investimentos em colégios particulares e que agora gozam de um ensino público. Essa é a maior injustiça que vejo.

Apresento a seguinte ideia para debate: estudantes de universidades públicas devem pagar uma mensalidade e que tal dinheiro seria destinado ao ProUni e outros créditos estudantis para alunos de baixa renda e melhorias (melhores salários, inclusive) dentro da própria universidade. Tal crédito poderia ser usado também para o Ensino Médio (na minha época, o Colegial).  A mensalidade seria um valor baixo nos dias atuais, entre 100 e 200 reais.

Outra possibilidade de cobrança de mensalidade conforme o poder aquisitivo da família. Basta puxar o CPF dos pais do aluno, a declaração deles no Imposto de Renda, quais bens eles têm, qual é o salário, etc., para que estipule um valor de mensalidade condizente à renda familiar. Assim o estudante com moletom da GAP teria mais argumentos para protestar, seria melhor ouvido, e deixaríamos o estereótipo de lado para escutar o que ele defende.

A sociedade, como um todo, precisa se comprometer, assumir sua responsabilidade e, principalmente, potencializar a educação, a saúde e a economia daqueles que não tem nada.

Protestar pelo Facebook, apenas, não leva à lugar algum, só deixará as pessoas mais surtadas ainda. É preciso apresentar ideias, soluções, como o abaixo-assinado “Não Foi Acidente” que, de alguma forma, já chegou no Congresso para aumentar as penas para alcoolizados ao volante.

Não só reclamar , é preciso agir para a sociedade evoluir.

Marcio Vieira


Ativistas de pantufas

08/11/2011

Ela não fala, mas todos escutam. Ela não tem vida, mas pensa. Ela não apanha, mas agride. Ela ainda está na adolescência, era da rebeldia, era dos conflitos e questionamentos expelidos instintivamente. Uma jovem que já é tão poderosa quanto qualquer outra. Ela é a Internet.

A cada dia, a tendência é ela ficar mais ácida, mais rápida, mais venenosa, mais prazerosa, maior, mais forte para atingir cada vez mais pessoas. E cada vez mais pessoas atingem a Internet onde a maioria transparece suas ideias, suas frustrações, suas virtudes com alcance inimaginável que faz imaginar quem do outro lado vê o que você faz.

O Sr. Anonymous agora tem rosto, ou melhor, tem seu próprio avatar. Agora novas respostas são ditas e novas perguntas são feitas. Perdeu-se a restrição da informação, o controle remoto da televisão está com inveja do teclado do computador.  Nada pode deter essa garota que nem chegou aos vinte.

Assim como nada pode deter milhões, quiçá em pouco tempo bilhões de pensamentos, bilhões de mentes e vozes intercaladas que, em tempos de crise, seu ferrão fere mais que qualquer chumbo ponteagudo. É a insatisfação de uma multidão porque não se pode mais esconder a fome, não se pode esconder a crise, a corrupção, não se pode esconder o desemprego, os atos do Sr. Anonymous travestido de engravatado político agora caminha na corda bamba, e qualquer deslize, já era.

E o mais forte dessa menina chamada Internet é que ela pode trabalhar na rua, na praia, no escritório, hoje até acima dos 30 mil pés, em todos os lugares possíveis, inclusive sem sair da própria casa.

Coturnos dos punks foram trocados por pantufas de qualquer pessoa, o cyberativismo cresce, amadurece, enfurece e, cada dia mais, alista novos integrantes e novos simpatizantes, seja lá qual for sua causa: a pobreza, os animais, a corrupção, a religião, a liberdade sexual, a fome, a sonegação, a desigualdade, as florestas, as águas, o calor que derrete, a poluição que contamina, a doença que mata e a paz que morre.

Calçando pantufas, textos e vídeos são espalhados no apertar de alguns botões. Opiniões são registradas, convocações são feitas, vozes são escutadas, mentes são abertas, ideologias discutidas, isso tudo de forma livre e voluntária. Essa garota Internet é liberal, às vezes promíscua, tamanha sua libertinagem, sua acessibilidade. Essa menina-mulher Internet é facinha, “libera para todo mundo”, sem restrições.

E os usuários dela se reúnem, não importa o quão distantes uns dos outros estão, eles se reúnem como quiserem. E assim são criados grupos de ativismo, grupos que lutam por melhorias e justiça, ou por badernas e caos, afinal centenas de milhões de opiniões são digeridas ao mesmo tempo e inevitável é não serem conflitantes, mas todas pedem por mudanças.

De pantufas, reunidos, protestando, iniciam movimentos, se juntam para engrossar a voz, para fortalecer a porrada, para fomentar a opinião. E só por causa dessa adolescente tanta coisa mudou e, mais ainda, tanta coisa vai mudar. Ela encoraja, ela estimula, incentiva por lutas necessárias. Ela nos convida a conhecer mentes parecidas e, assim, para os mais inquietos, direciona para as ruas.

Inicia-se com pantufas para depois utilizar faixas, caminhadas, manifestações, por vezes até pedras pela defesa da voz, da liberdade de expressar a insatisfação contra batalhões anti-choque, gás e balas de borracha.

O povo tem voz, cada dia mais e mais, querendo participar, querendo questionar o que fazem com o mundo, que é de todos. É hora de participar por aquilo que se crê, por aquilo que quer, porém, não basta calçar pantufas, melhor será se aglomerações de insatisfeitos forem feitas, não para os ativistas, mas sim para aqueles que não conheceram essa menina.

Aos que sofrem, mas não tem voz, aos que sofrem, mas não sabem reclamar e não conhecem os próprios direitos. Mendigos nas ruas precisam ver protestos. Favelados precisam ver protestos. Estuprados pela sociedade precisam ver para, quem sabe, decidir melhor numa próxima eleição.

É preciso agradecer muito essa garota chamada Internet.

Marcio Vieira


Filhos da liberdade

04/11/2011

Filhos da Liberdade, tão cultos

Papai lutou, e daquela história, ele nos contou.

Botinadas levou, feridas no coração, a repressão da opinião.

Papai apanhou, alguns exilados, outros com sacos eletrocutados,

não poderia discordar, era a truculência dos fardados.

 

O preço com tanto sangue fez o Brasil mudar,

O povo, finalmente, voltou à votar

Escolher quem quiser, seja lá quem são

A liberdade era um sonho da nação.

 

Papai sofreu, a inflação comia o dinheiro

Almoçar, agora não dá mais para o tempero

Planos infinitos, Cruzado, Cruzeiro

Além de votar errado naquele que foi o primeiro.

 

E dentro desse momento, papai nos concebeu

Eram filhos da esperança, filhos da liberdade

Depositando aquilo que ele nunca recebeu

A chance de opinar, de falar, a tal dignidade.

 

Com muito esforço, papai nos educou no Real,

para um dia, quem sabe, entrarmos na Federal

Difícil foi, não tem como negar,

mas agora os frutos querem gritar.

 

Vamos lutar, ò filhos da democracia!

Lutar por qualquer coisa, serve até a hipocrisia.

Papai nos contou como é lutar para vencer

Temos que ter motivos, e nossos rostos esconder.

 

Vamos reivindicar, vamos protestar

Somos os filhos da esperança

Exigimos no campus mais segurança

Vamos contrariar, nada de Polícia Militar.

 

É que papai falou que aquele coturno dói

Mas isso era em 70, 80, na Ditadura,

quando tinha motivos para a luta,

É com liberdade que uma sociedade se constrói.

 

Então, ò líderes da baderna, qual será nossa luta?

Não sabemos, não importa, faremos nossa conduta.

A liberdade que papai lutou não pode se alterar

Nem que o motivo seja ou não uma baseado para fumar.

 

Papai deve estar orgulhoso de nós acampados aqui!

Invadimos, quebramos tudo, na assembleia vamos votar

Somos o futuro do Brasil, a geração que um dia vai liderar

Não importa se a democracia não sabemos respeitar.

 

Mas a verdade é que papai está com vergonha.

Daquela liberdade que veio, no fim dos 80, numa cegonha.

Filhos que não souberam entender o que é lutar

Que não significa guerrear, mas sim acreditar.

 

Filho não reprimido virou playboy comunista

Rebeldes sem causa, ingratos por uma conquista

Banalizaram a vitória pela liberdade de pensamento

Em badernas travestidas de movimento.

 

Filhos da Liberdade não entendem o que é legalidade

Querer afrontar um sistema com tão pouca idade

Prematuros de Collor, seus 20 e poucos é tão pouco

Com revoltas sem sentido, vocês estão loucos.

 

Papai não sangrou em vão

Honrem agora liberdade de uma nação!

Lutem por injustiças, lutem contra a corrupção

Hoje coturnos e cacetetes não reprimem mais opinião!

 

Acordem, Filhos da Liberdade, cresçam!

Respeitem a democracia, à conheçam.

Polícia Militar é necessária em qualquer lugar

Não é culpa deles se a Guarda Universitária deixava fumar.

 

Tenho medo quando estiver na aposentadoria

Afinal, que geração é essa que será nossa voz um dia?

Filhos da Liberdade, tão carentes de motivos

Mimados, querem que a sociedade os dê ouvidos.

 

Marcio Vieira