Um joinha, por favor

22/11/2011

Eu sou um cara legal

Eu sou um cara consciente

Acompanho tudo, sou atual

Às vezes incoerente

.

Preciso de autoafirmação

Olhem as baladas que vou

Sou o rei da pegação

Tag me aonde estou

.

Eu também sei protestar

Belo Monte também me indignei

Apesar de nem saber aonde está

Nem sei pra quê, apenas assinei

.

Um joinha, por favor!

Gostem de mim, eu sou demais

Like me, com muito amor!

Não vou te bloquear, jamais

.

Poke me, quero ser querido!

Cutuque me, quero me sentir valorizado

Não importa que fora tenho poucos amigos

No Facebook, eu quero ser disputado

.

Amoooo, Love Ya, Adoooro, Curti!

Só vou malhar para na foto estar sarado

Preciso agradar o mundo virtual daqui

causar inveja, e ser muito comentado

.

Valeu, Facebook, por me aceitar

Tenho mais de mil amigos

embora, fora, são poucos à ligar

E querer sorrir, viajar, sair, viver comigo

.

Hoje meu sonho é mudar de nome

escrever no final “lotado”

mudam-se objetivos, continua a fome

não entendem o que é ironia, sou odiado

.

Não sei mais conversar olhando nos olhos

Impossível ficar 5 minutos sem no meu i-phone futricar

Vai que postou algo ruim, pode causar um imbróglio

Dane-se minha privacidade, vou compartilhar

.

Tudo isso é porque quero construir uma reputação

Só que isso não se constrói, meu caro, se preserva

Você não vai morrer com suposta rejeição

Volte a ser a boa pessoa que você era

.

Marcio Vieira

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Euro: sem vinhos para o bon vivant indignado

17/11/2011

Não deu, Euro. No começo a ideia parecia boa, uma moeda única para mais de uma dezena de países, para facilitar o comércio interno, para ser uma opção ao dólar em reservas cambiais, para equiparar economias e todas, juntas, se fortalecerem.

Em poucos anos, países como Espanha, Portugal e Grécia ficaram ricos. Propriedades inflacionaram, preços subiram, prestação de serviço cada vez mais cara. Era a chance dos imigrantes latinos e africanos conseguirem bons empregos lavando pratos e carregando cimento nas costas.

A maior burrice dos emergentes europeus foi não criar uma cadeia econômica sustentável, achando que o país sobreviveria com prestação de serviços, como o turismo. Um erro grotesco que inflacionou o consumo interno sem criar riqueza, achando que suas praias no Mediterrâneo são as maiores riquezas, afinal, o bon vivant europeu gosta de bons vinhos, boa gastronomia, clima ameno no inverno e farra no verão.

E vendo tudo isso, o pessoal do norte, o alemão que recebeu uma educação militar, rigorosa, apertava parafusos, pensava, trabalhava, suava e criava. Alemanha criou riqueza para depois consumir serviços. A Alemanha tem indústria: Automobilística, Farmacêutica, Ferramentaria, Química, entre outras que são a referência global, e todas essas possuem uma cadeia de produção enorme que gera milhões de empregos.  Quando o mundo falava que sustentabilidade é abraçar árvore, o alemão criava conceitos, uma nova indústria, um novo setor.

Enquanto Alemanha criava necessidades e soluções para o mundo, o sul achava que estava tudo bonito, afinal, o Euro é de todos, diziam, a riqueza é de todos!  Deixem os branquelos trabalharem que eu abro aqui meu vinho, só vou buscar meu primeiro emprego depois que terminar meu mestrado.

Mas a garrafa do vinho secou, bon vivant. Tirar Zapatero agora com 22% de desemprego na Espanha não resolve, são jovens gregos quebrando tudo nas ruas até mudarem de líder, são italianos revoltados com a putaria de Berlusconi, e o português é puxa-saco de espanhol, não sabe nem do que reclamar.  Não adianta falar que tem Ibiza, Algarve, Mikonos, Riviera, etc., querer ter vida de rico e confundir com o resto do país.

A boa vida na última década era uma maravilha. Ficaram ricos em poucos anos e sinto em dizer que a maioria vai perder tudo em menos tempo ainda. Não adianta botar a culpa nos poloneses, tchecos, só porque eles trabalham mais horas sem reclamar, aceitam limpar banheiro pela metade do seu salário.  Bon vivant gosta de reclamar, fazer greve sem apresentar soluções coerentes e contextualizadas. Lutar por justiça social!  Ora, isso é lindo, mas que tal arregaçar as mangas um pouco?

As pessoas se acostumam rápido com a riqueza, esquecem o que passou no passado, não enxergam que o milagre da riqueza era fictício, e agora querem ir para rua protestar, ocupar! Marchemos, Indignados! Marchar por o quê? Querem poder comprar uma pata negra no natal? Querem abrir um chardonnay ? Querem o quê, especificamente?  Vocês tiveram mais de dez anos para criar riquezas, mas só inflacionaram o que tinham antes, e agora que há concorrência no mercado de trabalho europeu e somado o crescimento da qualidade das indústrias na China, vocês se vêm sem esperança.

Não adianta ir para rua reclamar da igualdade de países, sendo que vocês foram os primeiros a gostar da farra do Euro.  Não tem mais vinho, e tão cedo não vai ter. A derrocada europeia só está começando.

A zona do Euro está em coma, vai morrer e precisa morrer para voltar ao que era antes. Quem aproveitou a oportunidade para construir riqueza, como holandeses e alemães, não vão sofrer tanto. Não adianta por culpa no chinês, no polaco ou no brasileiro que roubaram seus empregos. Afinal, vocês pouco se importavam com subempregos, achavam que limpar privada é coisa de imigrante.

A partir de agora iniciará um canibalismo na Europa. Crises aparecem primeiro naqueles mais fracos, e serão esses os primeiros a morrer.  Estima-se que 25 milhões de pessoas entrarão na condição de pobreza na Europa nos próximos anos. É muita gente que bebeu muito vinho e comeu muito queijo de frente para o mar e agora irão para a fila do restaurante popular.

O cachorro, sem comida, vai morder o próprio rabo. Resta torcer para que tal canibalismo não vire uma guerra explícita, não só de palavras. O que não me surpreenderia se ocorrer.

Marcio Vieira


Pá Pá Pá entre Plim Plim

14/11/2011

 

Um grande batalhão

helicóptero, caveirão

Claquete… Ação

Na TV, no plantão

 

Os heróis ressurgiram

outro morro subiram

bandidos não reagiram

castelos descobriram

 

Agendaram data e hora

No script, sem demora

Para ninguém perder

E para ninguém prender

 

Hastearam a bandeira, filmou?

Será que o telespectador gostou?

Mas nenhum sangue jorrou

A prévia, horas antes, Galvão narrou

 

O caos vende, dá lucro

A pessoa se rende, compra o produto

Não a droga do morro, o ilegal

Mas aquele que passou no comercial

 

A população está indignada

com a mansão levantada

pelo custo da erva e do pó

pela lei de matar, sem dó

 

Leblon, Barra, Projac

Playboy fuma e cheira

Para o pobre sobra o crack

Todos usam, população inteira

 

A culpa é da polícia, uns dirão

A culpa é do governo, reforçarão

A culpa é da família, replicarão

Ou culpa é a falta de Deus, perdão

 

Não querem acabar com essa tragédia

Não é bom a bala perdida dar trégua

Fantástica televisão, há influência

Povo não questiona, muita audiência

 

Plim Plim e a lavagem começou

Pá Pá Pá, o choro se escutou

Uns ao vivo, no conforto da poltrona

Outros mortos, é de chumbo a azeitona

 

Tudo arquitetado, minuciosamente pensado

Tudo para agradar o eleitorado

No horário nobre, televisionado

Só com Tropa na TV morro é pacificado

 

Ipanema, Jardins, Pampulha, Morumbi

Moinhos do Vento, Boa Viagem, Copacabana

Batel, Barra, Lago Norte, Itaim Bibi

É daí que surgiu tudo, vem daí a grana

 

Sem medo para pedir droga, há nextel

Entrega rápida, até na claridade do céu

Aviãozinho empregado, nike no pé

Sobrevive quem não é X9 do Pajé

 

Domingo tem sol, futevolei, ver o mar

Final da tarde enrola um para queimar

Fantoches são Nem, ADA, CV e Beira-Mar

A indústria atrás do estúdio não serve só para gravar

 

Audiência, nunca serão, jamais serão

Nascimento é produto de eleição

Financiado por engravatados, empreiteiras

Acorde!, isso tudo não é brincadeira

 

Cuidado é pouco com a platinada

População pode estar viciada

Sensacionalismo, mente domesticada

Logo chega a Copa, corrupção justificada

 

Marcio Vieira


Verdades mentirosas

11/11/2011

Uma semana foi tempo suficiente para ler diversos textos, ver algumas reportagens, centenas de opiniões sobre os conflitos na USP entre estudantes e Polícia Militar.

Analisei, fiz minha auto-crítica sobre o posicionamento inicial de um fato que, com o tempo, novas informações são passadas e é preciso digeri-las, podendo mudar ou reforçar mais o ponto de vista.

Muita coisa percebi, via Facebook, principalmente: a sociedade está surtada a ponto de explodir. Eu faço parte dela, e a voz da internet é potente (convido para uma leitura do texto anterior) que merece maiores cuidados e, mais ainda, é necessário saber ler além da segunda página.

Ocorre que muita coisa está errada em tal conflito universitário e um posicionamento polarizado é perigoso, capaz de injustiças absurdas. Como exemplo, fiquei horrorizado com uma campanha de tanta gente para a PM bater, dar borrachadas nos estudantes rebeldes. Desse fato, encontro algumas justificativas: estão indignados pelo estopim do conflito ser três estudantes que consumiram drogas (recusando entender que não é só esse o problema) e, enxergo também uma inveja, mesmo que pequena, por eles estarem na USP, coisa que eu (e milhares de revoltados do Facebook) não tiveram competência para passar.

Outro fator é que sempre a minoria negativa infecciona todo o grupo. A batata podre não contamina todo o saco?  Toda brasileira é puta no exterior? Todo nigeriano é traficante? Estudante de universidade pública é vagabundo? Quem estuda sociologia é drogado? É a mesma coisa para tudo, pelo erro de poucos, muitos pagam o preço. Os alunos contrários ao policiamento da PM dentro da USP, ao que me consta, é uma minoria. Tais alunos que se rebelaram de forma mais incisiva é uma minoria dentro dessa primeira minoria, porém todos pagam pelo preço da sociedade não saber distinguir quem é o “playboy-drogado revolucionário” e quem é estudante sério.   Não generalizar é o primeiro passo para ser justo e proporcional.

No entanto, é culpa também dessa maioria de estudantes mornos que não se comprometem dentro da USP.  Quem vai discutir melhorias da própria universidade são poucos pois há um desinteresse gigantesco semelhante ao desinteresse brasileiro em tentar mudar a merda que está. Quem vai para rua protestar é minoria, taxada de revolucionário, mas que deve-se valorizar, pelo menos, a coragem de mostrar a cara indignada clamando por mudanças.

Generalizando de forma errada, brasileiro é apático, seja rico, seja pobre, seja culto ou seja ignorante.  Brasileiro, na maioria, é bunda mole e não tem espelho em casa. E tal flacidez dos glúteos prejudica tudo, afinal, os políticos são o reflexo do povo, porém a sociedade facebookiana foge da responsabilidade, são pessoas que só querem reclamar, se indignar com a indignação dos “loucos”.

Assim vemos tanta gente surtada, sem paciência, que explodem sentimentos aprisionados de forma desproporcional. São as pessoas do contra, aqueles que torcem pela tragédia, aqueles que assistem Datena e Jornal Nacional para depois dizer “tá vendo, não disse que avisei?”, enfim, os facebookianos sempre têm razão e não sabem olhar para os dois lados da mesma moeda.

Não existe verdade absoluta na vida. Não existe, não adianta nem tentar procurar pois opiniões divergentes sempre existirão, e cabe à inteligência humana ser proporcional, razoável na medição da opinião, sem querer colocar mais lenha na fogueira, coisa que o brasileiro bunda mole adora fazer.  Querem ver o caos para falar que tinham razão, mas na hora que tem a possibilidade de mudar, de apresentar ideias, ficam calados, não conseguem levar tal posicionamento além do Facebook ou da mesa do bar.

As pessoas surtadas são influenciadas facilmente. Exemplos são infinitos, seja a influência religiosa, esportiva, sexual, racial, naturalidades, nacionalidades, etc. Afinal, coitado do judeu negro homossexual que nasceu na China, é maloqueiro da Fiel, e que agora estuda na USP!

Influência é direcionar a opinião das pessoas, e isso tem que ser feito por pessoas responsáveis, não por uma imprensa que, muitas vezes, é asquerosamente comercial, catastrófica e sensacionalista. Dentro do tema “USP, PM e Estudantes”, há muita influência negativa, e é preciso frieza antes de soltar os cachorros.

É preciso analisar também o contexto atual do que é a USP em 2011, não mais na Ditadura Militar. O que faziam os professores da USP há 35 anos? Alguns crianças, outros jovens, outros mais adultos receberam uma educação influenciada pela repressão da opinião. Aonde quero chegar:  a base da personalidade e opinião daqueles que viraram professores, a profissão de maior influência (após o jornalismo distorcido), e que devem repassar o ensino não apenas de forma imparcial, incentivando o aluno ter sua própria opinião.

Opiniões devem acompanhar o cotidiano, e mudar de opinião não quer dizer que você não tem opinião. Muito pelo contrário! Eu, por exemplo, mudei de opinião umas quatro vezes em relação à invasão da reitoria na USP. Estar suscetível é peneirar melhor, mastigar melhor, enxergar melhor, e o problema de muita gente (inclusive a minha) é que tomam partido rapidamente sem analisar com calma.

Estudantes de cursos de humanas em universidades públicas recebem uma influência maior que precisa ser digerida melhor pois senão vão causar conflitos por coisas ridículas. A defesa dos 3 consumidores de maconha foi um ato de burrice pois, a partir de agora, o movimento estudantil perdeu credibilidade dentro da sociedade.

Falar que foram maltratados na delegacia e que são presos políticos, que ficaram três horas sem água numa sala abafada, é de doer. Vocês acham que delegacia é pousada na praia? Estamos no Brasil, acordem! Acha que reintegração de posse é algo pacífico que vão te tratar com carinho? Sua invasão por acaso foi pacífica? Olhem para seus atos primeiro!

Caros estudantes, se seus mentores foram presos políticos, eles viveram outro contexto histórico que não serve de influência para seus atos de hoje. Caros indignados do Facebook, vocês estão nervosinhos demais e incitação à violência é algo gravíssimo.

A contradição do estudante com moletom da GAP ridiculariza qualquer protesto político-social, mas protestar é a forma de mostrar a insatisfação. No entanto, prejulgar a sociedade ao dizer que “esquerdistas” só causam tumulto e que a “elite” é ignorante também está errado. Estamos julgando a minoria que infecciona a coletividade.

Eu cometo esse erro milhares de vezes ao generalizar um acontecimento. A maioria dos estudantes da USP é séria, assim como a maioria da PM é séria. É preciso ser forte à influência das notícias de tragédia, pois o ruim é vendável, o ruim dá lucro, o ruim chama atenção mas é nisso que toda a sociedade concentra a opinião em discussões superficiais.

Mas, para não apenas ser um texto de crítica social, precisamos apresentar soluções, senão giraremos sempre dentro do tema “indignação”.  Indignação por quê? Que alternativas serão dadas? O que é necessário mudar, e o que serve de exemplo?

Algo precisa ser mudado na universidade mais cara do país. Sim, o custo da USP é o mais alto. Ela limita, potencializa os que tiveram melhor base, maiores investimentos em colégios particulares e que agora gozam de um ensino público. Essa é a maior injustiça que vejo.

Apresento a seguinte ideia para debate: estudantes de universidades públicas devem pagar uma mensalidade e que tal dinheiro seria destinado ao ProUni e outros créditos estudantis para alunos de baixa renda e melhorias (melhores salários, inclusive) dentro da própria universidade. Tal crédito poderia ser usado também para o Ensino Médio (na minha época, o Colegial).  A mensalidade seria um valor baixo nos dias atuais, entre 100 e 200 reais.

Outra possibilidade de cobrança de mensalidade conforme o poder aquisitivo da família. Basta puxar o CPF dos pais do aluno, a declaração deles no Imposto de Renda, quais bens eles têm, qual é o salário, etc., para que estipule um valor de mensalidade condizente à renda familiar. Assim o estudante com moletom da GAP teria mais argumentos para protestar, seria melhor ouvido, e deixaríamos o estereótipo de lado para escutar o que ele defende.

A sociedade, como um todo, precisa se comprometer, assumir sua responsabilidade e, principalmente, potencializar a educação, a saúde e a economia daqueles que não tem nada.

Protestar pelo Facebook, apenas, não leva à lugar algum, só deixará as pessoas mais surtadas ainda. É preciso apresentar ideias, soluções, como o abaixo-assinado “Não Foi Acidente” que, de alguma forma, já chegou no Congresso para aumentar as penas para alcoolizados ao volante.

Não só reclamar , é preciso agir para a sociedade evoluir.

Marcio Vieira


Ativistas de pantufas

08/11/2011

Ela não fala, mas todos escutam. Ela não tem vida, mas pensa. Ela não apanha, mas agride. Ela ainda está na adolescência, era da rebeldia, era dos conflitos e questionamentos expelidos instintivamente. Uma jovem que já é tão poderosa quanto qualquer outra. Ela é a Internet.

A cada dia, a tendência é ela ficar mais ácida, mais rápida, mais venenosa, mais prazerosa, maior, mais forte para atingir cada vez mais pessoas. E cada vez mais pessoas atingem a Internet onde a maioria transparece suas ideias, suas frustrações, suas virtudes com alcance inimaginável que faz imaginar quem do outro lado vê o que você faz.

O Sr. Anonymous agora tem rosto, ou melhor, tem seu próprio avatar. Agora novas respostas são ditas e novas perguntas são feitas. Perdeu-se a restrição da informação, o controle remoto da televisão está com inveja do teclado do computador.  Nada pode deter essa garota que nem chegou aos vinte.

Assim como nada pode deter milhões, quiçá em pouco tempo bilhões de pensamentos, bilhões de mentes e vozes intercaladas que, em tempos de crise, seu ferrão fere mais que qualquer chumbo ponteagudo. É a insatisfação de uma multidão porque não se pode mais esconder a fome, não se pode esconder a crise, a corrupção, não se pode esconder o desemprego, os atos do Sr. Anonymous travestido de engravatado político agora caminha na corda bamba, e qualquer deslize, já era.

E o mais forte dessa menina chamada Internet é que ela pode trabalhar na rua, na praia, no escritório, hoje até acima dos 30 mil pés, em todos os lugares possíveis, inclusive sem sair da própria casa.

Coturnos dos punks foram trocados por pantufas de qualquer pessoa, o cyberativismo cresce, amadurece, enfurece e, cada dia mais, alista novos integrantes e novos simpatizantes, seja lá qual for sua causa: a pobreza, os animais, a corrupção, a religião, a liberdade sexual, a fome, a sonegação, a desigualdade, as florestas, as águas, o calor que derrete, a poluição que contamina, a doença que mata e a paz que morre.

Calçando pantufas, textos e vídeos são espalhados no apertar de alguns botões. Opiniões são registradas, convocações são feitas, vozes são escutadas, mentes são abertas, ideologias discutidas, isso tudo de forma livre e voluntária. Essa garota Internet é liberal, às vezes promíscua, tamanha sua libertinagem, sua acessibilidade. Essa menina-mulher Internet é facinha, “libera para todo mundo”, sem restrições.

E os usuários dela se reúnem, não importa o quão distantes uns dos outros estão, eles se reúnem como quiserem. E assim são criados grupos de ativismo, grupos que lutam por melhorias e justiça, ou por badernas e caos, afinal centenas de milhões de opiniões são digeridas ao mesmo tempo e inevitável é não serem conflitantes, mas todas pedem por mudanças.

De pantufas, reunidos, protestando, iniciam movimentos, se juntam para engrossar a voz, para fortalecer a porrada, para fomentar a opinião. E só por causa dessa adolescente tanta coisa mudou e, mais ainda, tanta coisa vai mudar. Ela encoraja, ela estimula, incentiva por lutas necessárias. Ela nos convida a conhecer mentes parecidas e, assim, para os mais inquietos, direciona para as ruas.

Inicia-se com pantufas para depois utilizar faixas, caminhadas, manifestações, por vezes até pedras pela defesa da voz, da liberdade de expressar a insatisfação contra batalhões anti-choque, gás e balas de borracha.

O povo tem voz, cada dia mais e mais, querendo participar, querendo questionar o que fazem com o mundo, que é de todos. É hora de participar por aquilo que se crê, por aquilo que quer, porém, não basta calçar pantufas, melhor será se aglomerações de insatisfeitos forem feitas, não para os ativistas, mas sim para aqueles que não conheceram essa menina.

Aos que sofrem, mas não tem voz, aos que sofrem, mas não sabem reclamar e não conhecem os próprios direitos. Mendigos nas ruas precisam ver protestos. Favelados precisam ver protestos. Estuprados pela sociedade precisam ver para, quem sabe, decidir melhor numa próxima eleição.

É preciso agradecer muito essa garota chamada Internet.

Marcio Vieira


Filhos da liberdade

04/11/2011

Filhos da Liberdade, tão cultos

Papai lutou, e daquela história, ele nos contou.

Botinadas levou, feridas no coração, a repressão da opinião.

Papai apanhou, alguns exilados, outros com sacos eletrocutados,

não poderia discordar, era a truculência dos fardados.

 

O preço com tanto sangue fez o Brasil mudar,

O povo, finalmente, voltou à votar

Escolher quem quiser, seja lá quem são

A liberdade era um sonho da nação.

 

Papai sofreu, a inflação comia o dinheiro

Almoçar, agora não dá mais para o tempero

Planos infinitos, Cruzado, Cruzeiro

Além de votar errado naquele que foi o primeiro.

 

E dentro desse momento, papai nos concebeu

Eram filhos da esperança, filhos da liberdade

Depositando aquilo que ele nunca recebeu

A chance de opinar, de falar, a tal dignidade.

 

Com muito esforço, papai nos educou no Real,

para um dia, quem sabe, entrarmos na Federal

Difícil foi, não tem como negar,

mas agora os frutos querem gritar.

 

Vamos lutar, ò filhos da democracia!

Lutar por qualquer coisa, serve até a hipocrisia.

Papai nos contou como é lutar para vencer

Temos que ter motivos, e nossos rostos esconder.

 

Vamos reivindicar, vamos protestar

Somos os filhos da esperança

Exigimos no campus mais segurança

Vamos contrariar, nada de Polícia Militar.

 

É que papai falou que aquele coturno dói

Mas isso era em 70, 80, na Ditadura,

quando tinha motivos para a luta,

É com liberdade que uma sociedade se constrói.

 

Então, ò líderes da baderna, qual será nossa luta?

Não sabemos, não importa, faremos nossa conduta.

A liberdade que papai lutou não pode se alterar

Nem que o motivo seja ou não uma baseado para fumar.

 

Papai deve estar orgulhoso de nós acampados aqui!

Invadimos, quebramos tudo, na assembleia vamos votar

Somos o futuro do Brasil, a geração que um dia vai liderar

Não importa se a democracia não sabemos respeitar.

 

Mas a verdade é que papai está com vergonha.

Daquela liberdade que veio, no fim dos 80, numa cegonha.

Filhos que não souberam entender o que é lutar

Que não significa guerrear, mas sim acreditar.

 

Filho não reprimido virou playboy comunista

Rebeldes sem causa, ingratos por uma conquista

Banalizaram a vitória pela liberdade de pensamento

Em badernas travestidas de movimento.

 

Filhos da Liberdade não entendem o que é legalidade

Querer afrontar um sistema com tão pouca idade

Prematuros de Collor, seus 20 e poucos é tão pouco

Com revoltas sem sentido, vocês estão loucos.

 

Papai não sangrou em vão

Honrem agora liberdade de uma nação!

Lutem por injustiças, lutem contra a corrupção

Hoje coturnos e cacetetes não reprimem mais opinião!

 

Acordem, Filhos da Liberdade, cresçam!

Respeitem a democracia, à conheçam.

Polícia Militar é necessária em qualquer lugar

Não é culpa deles se a Guarda Universitária deixava fumar.

 

Tenho medo quando estiver na aposentadoria

Afinal, que geração é essa que será nossa voz um dia?

Filhos da Liberdade, tão carentes de motivos

Mimados, querem que a sociedade os dê ouvidos.

 

Marcio Vieira