Dividindo o Yakult

21/03/2013

yakult

Andei refletindo sobre um tema após ir nas passeatas promovidas contra Marco Feliciano. Muitos protestam, mas poucos vão. Já participei de outros movimentos, mas sempre saio com dois sentimentos: um de “dever cumprido” e outro de “desânimo”.

Dever cumprido pois saí, apresentei minha indignação, atravessei a cidade para me juntar com outras pessoas que tiveram a mesma atitude. O Desânimo acompanha porque, com tanta barulheira na internet, a expectativa é sempre maior, de ver mais gente, de ver mais efeito, de ver mais resultado.

Confesso que poderia ir milhares de vezes mais, participar mais. Nunca será o suficiente quando tem tanta coisa errada que precisa de mudança imediata.

Infelizmente o brasileiro não cultivou a “cultura do protesto”. Muita gente não sabe que protestar é a forma mais contundente de demonstrar cidadania. Mostrar-se presente. Atuante. Transparecer que há uma opinião contrária, enfim, dizer nas ruas um sonoro “Não!”

Isso invejo muito dos nossos vizinhos. Argentinos batem suas panelas, lotam as ruas. No Chile, também vão, e muito, para as ruas. Uma das últimas manifestações dos chilenos foi para protestar contra a qualidade do ensino!  Oras, não é falta de professores, não é falta de carteiras, materiais escolares, escolas pichadas, falta de transporte escolar, etc. Eles protestaram contra a qualidade daquilo que se ensina! Daquilo que se aprende!

Protesto é feito para querer mudar algo que caminha de forma errada. Protestos são realizados para querer um futuro diferente daquilo que é pré-anunciado, daquilo que é projetado.

É preciso ir para as ruas, faz bem se sentir cidadão nessas horas. Mostrar que está preocupado com o que está sendo feito, sem apatia.  Se o brasileiro se acostumar a usar essa arma que tem, muita coisa vai ser mudada e, mais ainda, muita coisa vai ser evitada.

Governo corrupto é igual aquele amigo fdp que pede um gole de Yakult. Já é pouco, e assim querem pegar metade. É de se revoltar! Mostre, então, a revolta!

Mas o que não entendem é que quem está no poder é o reflexo do que está no povo. São apenas maus representantes de um povo composto de maus cidadãos. E ser mau cidadão não é culpa de escola, não é culpa de falta de saúde, falta de trabalho, falta de transporte.  Para diagnosticar um mau cidadão, basta um espelho.

O silêncio transmite indiferença. Achar que “ativismo de pantufas” em casa funcionará e o Brasil melhorará, sinto muito em desaponta-lo. Tem muita gente na rua que precisa ser encorajada, e isso depende de passos e decisões de cada indivíduo.

É preciso bater panelas, é preciso gritar, é preciso se indignar para, num primeiro momento, ter a oportunidade de discutir uma situação. Do contrário, tudo isso não passará de uma conversa de bar, de um “post” no Facebook.

E não fique com medo se serão só 10 pessoas, se só serão 1.000. Ao invés de enxergar esse número externo, enxergue e valorize os 100% de você na causa que for abraçar.

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Quem se cala, não peca

19/03/2013

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Passaram-se duas semanas da posse do Deputado Marco Feliciano na Comissão dos Direitos Humanos da Câmara dos Deputados. Duas semanas é muito tempo para ficar em silêncio.

Não das minorias, que muitas foram às ruas, revoltadas com a nomeação ridícula de alguém que mostra completo desconhecimento com a “pasta” que vai cuidar.

O silêncio é decepcionante quando vem que quem menos se espera. Uma mulher não pode ficar em silêncio. Uma mãe. Uma mulher filha de imigrante. Uma mulher que lutou por espaço em um ambiente masculino. Uma mulher que lutou contra ditadura não pode ficar calada. Uma mulher Presidente da República não pode fingir que o problema não é dela.

Dilma Rousseff é minoria, também. Todos, os que demonstram opinião, fazem parte da minoria em algum tema, e quem se sente minoria transpira indignação pela nomeação do Pastor Feliciano, que já explicitou inúmeras vezes preconceito contra quem deveria proteger.

Aonde está a indignação da Dilma? Ou da oposição ao governo, aonde está tal indignação?

Mas o silêncio da presidente é justificado pelo medo. Medo de segurar uma bandeira, medo de escolher um lado. Medo de perder eleitores. E não foi só ela que ficou calada. A grande maioria dos políticos ficou calada. Todos têm opiniões, mas quando o assunto é religião, quem se cala, não peca.

Foi assim nas últimas eleições presidenciais quando o assunto foi aborto. Dilma quase “escorregou” ao defender o aborto em casos específicos, mas teve que engolir sua opinião para não perder votos dos cristãos. E o José Serra, no seu costumeiro desespero, tentou aproveitar a situação para ganhar aqueles votos religiosos. Em vão.

Fernando Henrique Cardoso perdeu, para Jânio Quadros, uma eleição praticamente ganha a prefeitura de São Paulo por causa do mesmo tema: crença religiosa. Se tem, qualquer que seja, ou se não tem crença, não interessa! Se é gay, se é bissexual, não interessa para ninguém! A pessoa deve ser eleita por motivos além de escolhas de vida individualizada.

Religião nunca deveria ter influência na política, seja ela qual for e do tamanho que for. Deveria ser proibido partidos políticos sustentados, em boa parte, por Igrejas. Fica claro que tais partidos vão defender primeiro seus interesses específicos antes de representar a coletividade.

E este caminho, o de Cristãos no poder, demonstra ser um caminho sem volta. O problema não é um cristão (seja católico ou evangélico) estar no poder, a preocupação está em saber analisar as necessidades de um povo que vai além de uma crença e, ainda mais podendo ser contrária ao que a religião prega, como a questão do casamento entre pessoas do mesmo sexo, a adoção de crianças por tais casais, a questão de liberar o aborto, a discriminação aos negros, aos retirantes, aos imigrantes ilegais, respeitar e ouvir as mais infinitas diversidades, etc.

Acreditar que Deus, seja ele em qual forma, é quem direciona uma nação, é de uma cegueira monumental. É primordial respeitar as diferenças, quando existentes, e a política surgiu como forma “civilizada” de diálogo entre as diferenças, onde deve-se presumir que a coletividade sobrepõe ao individual.

Crença ou a falta dela, por milhões de devotos que possam existir, é uma questão individual que não pode ter tanto espaço na política como é dado no Brasil no atual momento, a ponto das lideranças, seja a Presidente Dilma, seja os aliados do governo, ou seja da oposição, terem medo de manifestar repúdio à infeliz indicação e eleição do Dep. Marco Feliciano.

Marcio Vieira