Tragédia nada virtual

27/11/2013

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Duas jovens perderam a vida de forma trágica nos últimos dias que, embora de formas completamente diferentes, há um grande paralelo entre as duas o qual deve ser muito bem discutido: a exposição em redes sociais.

No Piauí, Júlia Rebeca, de 17 anos, cometeu suicídio motivada pela divulgação na internet de um vídeo íntimo, o qual foi espalhado via Whatsapp sem seu consentimento.

Ontem, em Itanhaém, litoral paulista, Giovanna Alves, de 19 anos, morreu ao colidir seu carro em uma coluna de um viaduto quando dirigia. O detalhe: instantes antes de morrer, a jovem tirou uma foto do velocímetro do carro, o qual marcava 170km/h que provavelmente seria publicada no Instagram, como ela já tinha feito em outra oportunidade.

A grande maioria das mortes de pessoas com menos de 20 anos está diretamente ligada ao crime e, embora sejam dois exemplos claros de exceção à regra, é de suma importância começar a analisar as consequências que redes sociais podem causar em usuários.

Nos últimos anos, o computador deixou de ser uma ferramenta de trabalho e se tornou uma janela social que possibilitou mihões de pessoas se conectarem, se conhecerem, sendo que o ambiente virtual é facilmente manipulado, afinal, eu posso colocar minhas informações, minhas características, meus gostos, minhas opiniões, etc., da forma como eu achar melhor, deixando os “pontos negativos” escondidos.

Em muitos casos, o usuário da internet é um personagem do próprio indivíduo porque existe a necessidade de auto-afirmação num mundo virtual paralelo à realidade em que a manifestação da própria felicidade é o grande objetivo.

Assim, ultrapassar a quantidade de mil pessoas nos contatos o faz “popular”, mostra ser “bem relacionado”, mostrar o corpo saudável o faz “desejável”, expor fotos de viagens, do que se come, do que se veste, do que se tem, do que se usa, de onde vai, pra onde foi, e outra infinidade de atividades o faz “ser presente na virtualidade”.

Auto-exposição é instintivo e está em todo reino animal: o pavão abre suas virtuosas asas para conquistar a fêmea, o leão ruge mais alto para dominar suas leoas, assim como gorilas, hipopótamos, rinocerontes e uma infinidade de animais que, no momento da “concorrência”, exploram suas potencialidades físicas. E age assim o ser humano, dentro das redes sociais, demonstrando ser apenas outro animal.

No entanto, a tal concorrência é que motiva pessoas a tentarem uma superação, e é aí pode iniciar um grande problema, que resultou nas duas mortes citadas: a busca incansável para demonstrar o sucesso, consequentemente a felicidade, está presente tanto no suicídio quanto no acidente automobilístico.

Bem possível que o jovem que se relacionou com Rebeca compartilhou seu vídeo com amigos para mostrar seu lado conquistador Don Juan pra dizer: “olha como eu sou foda”, e certamente que, enquanto dirigia à 170km/h, Giovanna pensou o mesmo, na sua condição fodástica.

Ambos fizeram isso porque há uma expectativa de retorno, o famoso “like”, ou “joinha”, “curti”, etc. É o que tanta gente, eu diria que a grande maioria das pessoas na internet espera acontecer. Receber um feedback positivo, além de mostrar-se vivo num mundo virtual, o desejo maior é mostrar ser feliz.

E para atingir a felicidade nas redes sociais, não há mais limite. Riscos de vida tornam-se frequentes, assim como ultrapassar os limites legais, muito menos morais, afinal, o importante é chamar atenção, como rachas em estradas, beber de forma exagerada, tirar fotos rodeados de mulheres, tirar foto do carro luxuoso, da vida luxuosa, até culminar no grande vômito da música atual: funk da ostentação!

Para ter sucesso nas redes sociais, as exigências estão cada vez maiores e natural que o fracasso seja proporcional, visto que as conquistas ficam cada vez mais difíceis de serem atingidas, como gastar “de 5 mil reais ao infinito” em uma noite.

E toda moeda tem dois lados, tudo é muito perigoso porque causa consequências graves, quando a exposição na internet é negativa. Suicídio, depressão, e outros problemas serão cada dia mais comuns na realidade por causa de problemas origem de virtual, afinal, é a reputação que está em jogo.

Tal reputação, aliás, teve um capítulo muito importante iniciado recentemente: o Lulu, em que a reputação de homens é divulgada sem controle algum, sendo que são covardemente realizadas de forma anônima.  Informações falsas (ou mesmo reais, mas íntimas, confidenciais) poderão causar separações, brigas, desemprego, depressões… suicídios, depende de como será absorvido pelo usuário.

E quando inventarem o aplicativo Lulu na versão masculina, como será que as mulheres reagirão? Aspectos físicos aparentes não são mais motivos de julgamento porque será possível julgar o comportamento, comentar do desempenho, expor intimidades, etc. Isso não é certo!

Júlia Rebeca não foi a primeira e nem será a última a cometer suicídio por causa de uma má reputação na internet. É preciso ficar atento e começar a respeitar as individualidades dos usuários para evitar novas tragédias.

É livre a exposição da vida na internet, no entanto, é preciso refletir sobre quais são as motivações de cada um e qual é o limite da razoabilidade, afinal, muita gente já considera a vida virtual mais importante que a real. Por exemplo, já tentei sair já com pessoas que “conversam” com você, mas não tiram os olhos  do celular. É decepcionante! Tem gente que surta se esquecer o telefone em casa. Tem gente que só falta compartilhar “fiz um cocozinho lindo hoje”, e tirar uma foto do elemento boiante.

O mundo está cada vez mais pervertido, mentiroso, descartável e irreal, e tudo isso é reflexo da busca pelo sucesso no ambiente virtual, algo que a falta de limites das redes sociais permite.

As consequências do uso exagerado, não são apenas um “encerrar conta” ou um “bloquear”.  Pode ser um log off da vida real, e isso não tem volta.

Marcio Vieira

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Luluzinhas, tão bobinhas

25/11/2013

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Este final de semana, em conversa com um amigo, ele comentou comigo sobre um aplicativo para celular chamado Lulu, o qual, na hora, fiquei em estado de choque. Foram tantos sentimentos negativos sucessivos que ainda não consegui digerir, o que motivou escrever este texto.

Para quem não conhece, Lulu é um aplicativo exclusivo para mulheres, que avaliam comportamento de homens sem que estes saibam de tais avaliações porque o acesso pelos homens é proibido! Ou seja, sem consentimento/autorização do homem, a mulherada escreve o que quiser, o homem não fica sabendo e muito menos tem chance de se defender.

Após o momento de choque, só consigo resumir minhas sensações desta forma: decepção com a humanidade.

Antes que venham com piadinhas do “quem não deve, não teme”, ou “está com medinho” do que escreverão sobre você, já digo que estou cagando para tais opiniões e, provavelmente, cagarei para as pessoas que gastam tempo nisso, pelo simples fato de que eu preservo e respeito meu passado, além de procurar entender os motivos que alguns relacionamentos não foram pra frente e, a partir de então, procurar evoluir como pessoa.

Um aplicativo para escrever feedback de como os homens são, fazem, ou não são ou deixam de fazer, é um suicídio social para qualquer mulher que entra em tal “brincadeira”, afinal, é como se ela falasse: “vai lá, eu saí com ele. Pega esse cara que ele manda bem”, ou “fuja, é fria”, ou qualquer outro comentário sobre a intimidade de tais homens.

Não consigo enxergar como brincadeira um programa em que as participantes colocam homens como se fossem objetos para uso e desuso num claro sentido materialista e que, ainda conseguem extrair prazer ao publicar anonimamente informações sobre a vida íntima.

Ser humano não pode ser tratado dessa forma, e é de dar pena pois, ao meu ver, quem trata pessoas como objeto e considera isso normal provavelmente já foram (ou são) tratadas como objeto.  E mulheres não estão num nível de superioridade em relação aos homens, nem o inverso.  São serem que devem ser tratados de forma igual!

(Tive a oportunidade de realizar um estágio na ONU em Genebra, Suíça, em que eu presenciei o quão difícil e inferiorizada é a vida da mulher em diversas culturas, a forma submissa com que vive mesmo em países desenvolvidos, e a árdua luta para equiparação com o homem em direitos e deveres)

É decepcionante o ponto que as pessoas estão chegando em que não conseguem preservar sentimentos e individualidades, a ponto de ter que expor intimidade para o mundo, e agora de forma vulgar, demonstrando que quantidade é mais importante que qualidade e, mais grave ainda, publicar a vida íntima para qualquer pessoa ver, ler e julgar.

As redes sociais não têm limites, afinal, quem cria tais limites são os próprios usuários, porém, a falta de autoestima de milhares de mulheres que aderiram ao Clube das Luluzinhas demonstra a quantidade de respeito elas mesmo se dão: zero.

Homens e Mulheres não são objetos para receberem feedback de relacionamentos na internet, a menos que você seja uma Garota de Programa (mais conhecida como p…), visto que existem sites especializados em que esse tipo troca de informação existe por se tratar de uma prestação de serviço onerosa, suponho.

Agora, se tais Luluzinhas consideram relacionamento como prestação de serviço, provavelmente essas mulheres, quando se arrumam para sair com alguém, ao olhar para o espelho podem estar vendo uma garota de programa.  Afinal, relacionamento é bilateral, há uma troca!

Eu não me vendi para ninguém para ser tratado como prestador de serviço e muito menos considero ex-namoradas como prestadoras de serviço para terem na internet um feedback meu. É decepcionante ver o quão baixo está o nível de humanidade das pessoas a ponto de acharam graça nisso.

Podem me chamar de chato, arcaico, velho, carrancudo, ultrapassado, idiota, mas é minha opinião. Pelo menos eu tenho respeito por mim mesmo, dou valor à minha intimidade e respeito meu passado (o qual inclui todas as pessoas que passaram na minha vida de alguma forma), afinal, meu passado não muda e eu não tenho prepotência para me achar superior às mulheres com que me relacionei, a ponto de não enxergar meus próprios atos e simplesmente apontar o dedo para Elas e dizer que são as responsáveis pelo insucesso do relacionamento.

Relacionamentos, minhas queridas Luluzinhas, nunca são iguais. O que funcionou comigo pode não funcionar com outra pessoa, ou o inverso, pelo simples fato de serem pessoas, e não robôs/objetos. Aliás, se querem um relacionamento que será sempre igual, vão até um sex shop e comprem o que mais satisfazer: com certeza tal objeto fará sempre o mesmo para você.

Se vocês acreditam em tais feedbacks anônimos como referência para julgar uma pessoa, além de demonstrar ansiedade em querer saber como são tais homens ao invés de tentar conhecer o fulano e tirar a própria opinião, vocês acabam transparecendo outra característica bem negativa: são pessoas frustradas.

Como se pode desejar ser respeitada se não há nem respeito por si mesma? Valorize-se!

A única boa notícia vai para os advogados, afinal, vai chover processos por calúnia, injúria e difamação, que poderão atingir o bolso das usuárias do aplicativo Lulu, ou elas acham que, na esfera judicial, será mantido o anonimato de tais declarações?  Luluzinhas, tão bobinhas…

Marcio Vieira