Ok, vamos combinar!

27/12/2011

Todo natal é a mesma coisa de forma diferente. Família de sangue reunida por uma noite e um almoço, esquecendo, por tais horas, a família por opção, daquelas pessoas que conhecemos e escolhemos durante a vida.

E família é tudo igual, só muda o endereço, dizem os saudosistas. E com razão, sempre tem aquela tia dondoca casada com o tio boêmio, e são nesses momentos de família reunida que entendemos o motivo conjugal para o tio beber.

Sempre tem aquele primo “pegador” das baladas perdidas, que conta vantagem de tudo que faz, quantas mulheres pegou na última semana, enfim, o verdadeiro (pelo menos para ele) artilheiro do amor.

Opiniões acerca do novo namoradinho da prima, que a família não percebeu ainda que ela já saiu dos dezoito, vão existir só para deixar a coitada da menina envergonhada diante da parentada que pouco vê durante o ano.

Tem sempre as fofocas, os mal-me-disse entre os familiares, sempre querendo apontar o dedo para quem acham que está na merda, só porque resolveu escolher propósitos de vida diferente.

Essa disputa pelo poder, pelos louros de ter o filho mais bem sucedido, ou de chegar de carro novo sem tirar os plásticos nos bancos só pra mostrar a novidade para aquele seu primo. Essas picuinhas no 25 do doze enchem o saco, não só do São Nicolau.

Mas até aí entende-se, pois dentro da família de sangue todos querem dar seus pitacos na vida do outro. Acham-se no direito disso, sem conhecer de fato o que se passa do outro lado, ainda mais dentro daquelas famílias que se reúnem geralmente naquela quantidade de pessoas, no máximo, três vezes ao ano (páscoa, natal e mais alguma outra)

Mas há o lado positivo dessa reunião: e se chama vó. Esta é a personagem principal de qualquer natal. É ela que faz questão e cozinhar, de fazer o pudim de sobremesa, de ver a algazarra dos netos e bisnetos.

O natal é feito para as avós e avôs. Esquecemos o resto da família, esquecemos rusgas e briguinhas infantis entre os pertencentes do clã. O natal gira em torno do que os mais velhos desejam, que querem ver todos ali, e há de se respeitar isso. Ainda mais que nunca se sabe se aquele será o último natal que eles passarão conosco.

E o bordão natalino mais comum de se falar não é a piadinha tosca do pavê: o mais repetitivo é o tal “vamos combinar” que um diz para o outro durante esse encontro no final do ano.

Vamos combinar um almoço que nunca é marcado porque sempre a vida é uma correria.  Vamos combinar uma viagem que nunca é agendada porque o chefe não vai liberar. Vamos combinar de tomar um chopp na Vila Madalena. Vamos combinar de ir ao estádio, somos Corinthianos, maloqueiros e sofredores!

Vamos combinar de se ver mais no próximo ano. E isso nunca é feito. As mesmas promessas de organizar melhor a vida são ditas, e quase sempre, nunca cumpridas.

“Vamos combinar” é uma forma de dividir a responsabilidade com o outro que a família sanguínea está cada dia mais distante.  “Vamos combinar” serve para falar que a culpa não é só minha de ver seu familiar apenas em eventos que não enchem os dedos de uma única mão.

“Vamos combinar” é deixar no vazio, em aberto, um dia o qual farei algo pela família. Ao invés do “vamos combinar”, por que não se aproveita o evento natalino e já agendem um dia para fazer tal coisa?  Troquem o vamos combinar por está combinado!

“Vamos combinar” é torturante, às vezes falso, é também desgastante, porém, depois de tantos vamos combinar que foram escutados e ditos na vida, já se cria uma expectativa que aquilo não vai ser cumprido, só estão falando por falar, jogando palavras ao vento, talvez pela falta de assunto ou falta de familiaridade com a própria família.

Enquanto isso, a família por escolha, àquela dos seus amigos que dividem a mesa de bar com certa frequência, dividem o sofá de casa jogando xbox enquanto as respectivas ficam na cozinha fofocando, àqueles que te ligam para assistir o jogo lá no bar ou se auto-convidar telefonando  “estou chegando com uma caixinha de cerveja, quer mais alguma coisa?”, àqueles que falam “vamos num carro só, estou passando aí em 15 minutos”, a família dos amigos que por três ou quatro eventos no ano são esquecidas no natal, apenas recebem um torpedo coletivo ou, no máximo, um telefonema de 4 minutos.

Mas, por serem tão amigos, os amigos relevam, não se apequenam por serem preteridos porque sabem que o mesmo está acontecendo na casa da tia fofoqueira, aonde você está acontecendo as festividades deste ano, agendada há exatos 365 dias.

Porém, mesmo não estando com amigos que te conhecem mais que a própria família, há de se pescar coisas engraçadas e positivas durante o natal. A cara do sobrinho contando dos presentes deixados pelo Papai Noel, a cara de “que bosta” daquele primo que ganhou um jogo de Lenços Presidente da tia-avó, a cara de tanto faz do tio boêmio que ganhou mais um par de meias bege, a roupa brega da tia, etc.

É importante acabar com essa papagaiada socialmente correta dos tradicionais dizeres do vamos combinar, e só depois disso que  vamos combinar, efetivamente, que vamos excluir esse vamos combinar natalino das nossas promessas.

E depois disso tudo, ao encontrar um amigo no elevador: “Hey, topa uma cervejinha no final de semana?”

Vamos combinar!


E não diga que não avisei

19/12/2011

Ah, eles envelheceram antes da hora. Idade não envelhece, o que envelhece é a convicção. Curiosidade não envelhece, rigidez envelhece. Aceitação não envelhece, soberba envelhece. Superioridade envelhece.

O excesso de confiança envelhece e a reação de muitos é contra-atacar. Não se pode mais contar suas próprias histórias que sempre alguém virá com uma tragédia maior. E não se pode mais dividir suas conquistas porque sempre alguém vai falar que fez mais, inferiorizando o que você fez.

Hoje em dia, seja num happy hour com amigos ou numa macarronada dominical com a família, o leão que rugir mais alto com suas tragédias vencerá a batalha. Hoje amigos são rivais nas narrativas, e é questão de força desmerecer a luta daquele que bebe cerveja ao seu lado e dizer que você se ferrou mais na vida que ele, um nobre sortudo.

Afinal, ninguém enfrentou os problemas que você enfrentou! São tragédias imensuráveis, tristezas e guerras homéricas. O seu chefe é o mais carcamano do mundo, seu vizinho é o mais irritante, seu trânsito é pior que de todos, sua agenda é a mais cheia, seus problemas os mais injustos, seu tempo o mais escasso, e suas desculpas as mais justificadas.

Velhos de pensamento convictos que são injustiçados pelos divinos, mártires da vida moderna que precisam da complacência boêmia, divagando sobre a decadente vida cheia de causos negativos.

Todo essa linha de pensamentos é comum em gente idosa, não velha. Mas aí é perfeitamente compreensível: aumenta-se as dores, aumenta-se o número de remédios, aumenta o medo, a insegurança sobre tornar-se dependente dos filhos e enfermeiros, etc.

Idosos têm mais motivos para contar suas tragédias que as pessoas com pensamentos envelhecidos precocemente. Porém, para muitos, o reumatismo do Seu Aristides é coisa pequena se comparada à ressaca da balada de ontem ou a enrabada que o chefe deu na reunião.

E a chuva que peguei ontem, tudo alagado! E o masoquismo para achar a vaga no estacionamento do shopping, que stress que passei!! E minha roupa toda suada e amassada, dentro do superlotado metrô que pego todos os dias!

Meu Deus é injusto comigo! Só comigo! Vocês que brindam agora comigo estão com a vida mansa, não têm noção do que é sofrimento e dificuldade., sejam solidários com minha dor que é maior que a sua! Vocês que brindam comigo são pessoas que não reconhecem minhas condições desfavoráveis.

Minha gripe é pior que sua cirurgia. A calçada que piso é mais esburacada que a sua. A roupa que comprei é mais bonita que a sua, você é burro de ter gasto o dobro do preço. Lá no centro isso é uma pechincha!

Pessoas precocemente velhas sempre têm dicas melhores, recomendações melhores, experiências melhores, conquistas maiores, desafios maiores, sofrimentos piores, enfim, eles são sempre mais. Ah, e tem egos maiores também.

Eu falei que ia dar merda! E não diga que não te avisei! Eu sei mais que você, amador. Eu sou melhor que você, eu sou mais quando você quer ser mais, e sou menos quando o menos é mais glorioso.

Enquanto isso o Seu Aristides ri desses jovens egos inflados e pensa com seus velhos botões: “ah, esses meninos pouco sabem da vida”, diferentemente do que o Seu Nélio, seu rival de dominó nas manhãs de domingo, que prefere reclamar dessa chatice juvenil com o famoso “depois não digam que eu avisei.” Eles podem.


9 Segundos

12/12/2011

Saí, vi e contei: 9 segundos. Tempo que para mim, confesso, é irrelevante, mas para tanta gente parece ser crucial, questão de vida ou morte.

Quando saí do vagão do metrô (Estação Pinheiros), uma multidão saía correndo igual largada da São Silvestre pelo prêmio de ser o primeiro a entrar na escada rolante.

Mas não é só a chegada na escada o que importa. Tais competidores querem mais: subir ensandecidamente as escadas rolantes para receber os louros da vitória que, nesta altura, não sei o que é.

Imagino que deve ter alguma premiação lá em cima para os primeiros. Alguma champagne os espera, uma gostosona entregando aquele cheque gigante e a chance de agradecer ao vivo os patrocinadores e mandar um alô para suas famílias.

Enquanto isso, piso no primeiro degrau da escada rolante, estagnado do lado direito para não atrapalhar nenhum competidor e conto os nove segundos que me separaram daquele que entrou comigo ao mesmo tempo na escada rolante, mas que preferiu a adrenalizante subida pela esquerda.

Por outro lado, pela recusa da competição subterrânea, minha vida toda ficará 9 segundos atrasada. As atividades durante o dia estarão 9 segundos atrasada porque eu não quis subir rapidamente a eficiente escada.

Nove segundos em cada escada rolante, acho que já perdi algo em torno de 2 horas da minha vida. Tempo para fazer tanta coisa, não? Duas horas que não voltarão mais por causa de uma estressante correria.

Creio (e torço) que no fim da minha vida serão mais umas 3 horas a menos na vida. Não estou triste, estou é aliviado. Poderia acelerar minha vida, mas optei em respirar com calma e observar tanta gente diferente, tantos semblantes, tantas mentes que devem pensar no que o patrão vai falar por causa desses nove segundos, que a fila no próximo trem será maior, que o elevador estará menos lotado, que vai passar o crachá nove segundos antes ou que vai chegar em casa nove segundos antes.

Enquanto vou subindo, perdendo, mas aprendendo, por mais nove segundos.