Ignorância, o segredo para a felicidade

25/08/2011

Antes de tudo, para deixar bem claro, este texto não chama de ignorantes as pessoas felizes, muito pelo contrário. É apenas um texto o qual tento expressar um conceito existencial sobre sentidos e sentimentos.

Imagine uma criança de uns 3 anos. Toda bonitinha, toda elétrica, curiosa, hiperativa, querendo mexer em tudo, subir em cima de tudo, etc. Ela faz isso por quê? Ela está com a consciência vazia, ainda, muito nova, está conhecendo tudo e sentindo desejos quando olha para tantas coisas, afinal, são tantas descobertas que mexem com a curiosidade. Tal criança tem seu hard disc novinho em folha, praticamente em branco, e todas as vontades de preenchimento surgem instintivamente com aquilo que se vê.

Segunda cena: imagine outra criança bonitinha de 3 anos, porém, num ambiente completamente diferente. Ela, desde seu nascimento, cresceu num quarto todo branco, fechado, e tem como diversão uma bolinha de tênis e um pandeiro. Com aqueles dois brinquedos, sem poder sair daquele quarto (mas com responsáveis ensinando a falar, e a se alimentar), passará toda sua infância e juventude com apenas uma bolinha e um pandeiro.

Qual das duas crianças têm mais chance de ser feliz? Obviamente que me responderão a primeira, pois é um crime gravíssimo que fizeram com a segunda, os direitos da criança presa foram violados, é uma tortura, ela crescerá com traumas seríssimos, etc., me darão inúmeras justificativas, e vocês me darão tais razões porque vocês sabem diferenciar as situações.

Rebato como advogado do diabo: qual das duas crianças vai chorar porque não tem tal brinquedo que viu na televisão? Qual das duas crianças vai chorar porque o amiguinho tem o novo playmobil? Qual das duas crianças vai querer um Playstation? Qual criança vai ficar chorando, berrando, no supermercado porque quer o caminhãozinho de brinquedo e os pais, intimidados, para silenciar o guri, comprarão? Enfim, qual criança vai sofrer mais?  Aonde está a tortura?

A segunda criança, trancada no quarto, que nunca viu televisão, não conhece outras crianças, não sabe da existência de outros brinquedos, de outros sons, que desconhece playstation, carrinhos e bonecas, que passará muitos anos atirando a bolinha de tênis na parede do quarto certamente não reclamará, não sofrerá, não vai pedir para os pais brinquedos novos, afinal, seu campo de visão é limitado tornando também limitados seus desejos, sua consciência e seus sonhos.

A criança aprisionada (que recebeu o mesmo carinho, colo, dos pais da criança livre, única diferença é que ela nunca saiu daquele quarto) tem mais chances de atingir a plenitude da felicidade pelo simples fato dos seus desejos serem pequenos, limitados, e crescerá sem influências do mundo externo. Você acha que ela sofre porque você sabe o que existe do lado de fora de tal quarto, você tem o conhecimento das diferenças, das culturas, idiomas, objetos, enfim, você toma consciência da existência de um mundo amplo, algo que tal criança desconhece, mas que, pelo fato de desconhecer, ela não sente falta.

Saindo do exemplo das duas criancinhas, percebo que a ignorância é um dos fatores para a atingir a felicidade plena. É comum passar na tevê reportagens onde tem lá uma família toda humilde, no meio da roça, plantando o que come, conhecendo poucos vizinhos, mas todos, sempre com um sorriso grande no rosto, simpáticos, que não pensam em mudar de vida. Vocês, das grandes cidades, conectados com o mundo, acham aquilo um absurdo!  Como pode aquele cara desdentado, com roupas esfarrapadas, que nunca saiu daquele fim de mundo, ser todo sorridente?

Ele sabe da existência de um mundo, das grandes cidades, etc., mas o medo, a insegurança, e o risco que se corre em querer “melhorar” de vida faz ele ficar na roça, limitando seus desejos que, por consequência, limitarão seus sofrimentos, e assim terão mais condições de atingir a plenitude da tal sonhada felicidade. O que é melhorar de vida, para ele, com certeza é diferente para nós.

Ampliando este pensamento, todo o histórico da humanidade foi feito com a construção de muros, fortalezas e fronteiras sociais para que suas populações não sofram com as influências externas, e assim (em alusão a criança chorando no shopping) reclamarão menos, se indignarão menos, será mais fácil controlar esse rebanho domesticado. Mas a pergunta é, será que eles são mais felizes?

Tenho muita curiosidade em conhecer dois países: Coreia do Norte e Butão. Países que se fecharam para as influências externas com o intuito de administrar seu povo. Coreia do Norte, massacrada pelo mundo, vive uma regime totalitário, sua população vive o comunismo forçado, não possui liberdade de expressão, mas não há diferenças sociais, todos usam o mesmo tipo de roupa, não conseguem sair para outros países, mas, por outro lado, não sofrem com desemprego, todos moram em apartamentos populares e, por o país ter investido muito no setor militar e na censura, domesticam a população para sentir orgulho do seu país e assim não rebelar a população contra o sistema. Será que os norte coreanos são felizes?

Já o Butão é mais festejado, afinal é o país com maior índice de felicidade. Ironicamente é o país com o visto de turista mais caro do mundo, uma ferramenta para dificultar receber influências do mundo exterior. Se não tem uma força militar repressiva, tem em princípios budistas outra forma para controlar os anseios da sua população, a partir da limitação dos desejos, e assim administram, de certa forma pacífica, mas não menos autoritária, a raiz existencial do ser humano, que é a busca pela felicidade.

Aprecio muito o Budismo. Toda sua essência gira em torno da razão pela existência e na busca de sentimentos e sensações livres de influência, assim não haverá sofrimento. Para atingir o nirvana, uma das quatro nobres verdades do Budismo é a Origem do Sofrimento, que se dá quando os desejos e as vontades em sentir prazer direcionam as atitudes do ser humano.

Ora, todos os exemplos citados, as duas criancinhas, a família na roça, os modelos políticos históricos, a Coreia do Norte e Butão têm exatamente no Desejo o ponto que se interligam, e assim foram desenvolvidas ações, sejam determinadas por um Estado ou seja de forma voluntária, com o intuito de limitar o conhecimento, fomentando a ignorância com o propósito de atingir a felicidade.

É errado prender uma criança no quarto? É, óbvio que é.  Mas você tem essa resposta porque você conhece o lado de fora. A criança, assim como os norte coreanos, são ignorantes, desconhecem o ambiente externo, têm suas consciências limitadas e, por serem domesticadas, têm mais chance de atingir a plenitude de uma satisfação, têm mais chances de serem felizes.

A família na roça optou em não arriscar sair da comodidade, e assim passam dificuldades (que julgamos ser dificuldades, talvez eles não vejam com esses olhos) menores, tem desejos menores, só querem se alimentar, cuidar da vaquinha, do bode, da pequena horta e viver assim. E quando chega um monte de extraterrestre com câmeras, cabos, carro, um monte de parafernália para entrevistar tal família, eles acham aquilo tudo engraçado, cômico, pois o diferente não é a família humilde, mas sim os repórteres e o mundo externo. Eles são ignorantes, mas são felizes. O que é mais importante?

Acrescento outro exemplo, agora do nosso cotidiano:  pedir pizza. Sabemos da existência de dezenas de sabores, mas por que 90% da população paulista repete os quatro principais sabores? Porque são gostosos, sim, está é uma resposta. Mas, além disso, porque têm medo do desconfortável, porque tem insegurança do diferente, porque limitam seus desejos para atingir uma satisfação plena, ou seja, porque ser ignorante com o cardápio na mão é menos arriscado, logo, gera menos sofrimento.

É fato que a criança livre, que deseja, sofre mais, principalmente porque desejos, na maioria das vezes, são só desejos. A criança deseja ser o Homem Aranha, escalar paredes, voar como Superman, desejam o Hot Wheels e a Barbie. Bens, dependendo do poder da família, poderão ser adquiridos, mas atirar teias e pular para o prédio vizinho serão somente desejos, e desejos causam sofrimento.

A frustração, característica do sofrimento, surge a partir da comparação com algo e a partir da tomada de consciência que tal coisa existe, mas que naquele momento, não pode ser ou não pode ter. Assim preenchemos nosso hard disc com inúmeras informações, experiências, culturas, conhecimentos, etc., que, se o perfil do indivíduo for de se alimentar por mais conhecimento, por mais informações, por mais diferenças, a tendência é tal pessoa ser infeliz porque nunca atingirá a plenitude da satisfação.

As ideias expostas neste post poderia virar um livro, quem sabe virará, mas para não me alongar neste momento, acredito que a ignorância, ou melhor, a limitação de conhecimento, é uma forma de atingir 100% de alguma coisa. Se focar algo bom, mesmo que limitado, poderá ser 100% de felicidade em passar a vida com uma bolinha de tênis, poderá ser vivendo num regime totalitário, poderá ser vivendo dentro de muros de um mosteiro, um convento, ou qualquer outra coisa que diminua seu campo de visão e conhecimento.

É possível ser plenamente feliz tendo conhecimento do que acontece no mundo externo? Sinceramente, tenho fé que sim, mas, sendo racional, acho que não dá. Porém, neste mesmo texto, trouxe “soluções” para ser feliz: criar limites, e se esforçar, trabalhar dentro deles para que, naquele espaço, seja de qual tamanho for (mas que seja limitado), você possa chegar o mais perto da plenitude, dos 100%, do preenchimento de algo.

Por que, se colocar no Google Images a palavra Felicidade aparecerá sempre a imagem de alguém de braços para o ar, ou pulando, movimentos que transmitem a sensação de liberdade? Por que isso é realizável, oras!  Porque uma parte da felicidade é não desejar, é limitar sonhos, ou seja, simplificar. E é isso que é vendido desde que a humanidade existe! Quando o Google Images colocar a foto de uma mansão com um Porsche na garagem quando eu escrever a palavra felicidade, aí terá algo de errado, pois vai instigar a frustração e sofrimento.

Porém, outro fator que destrói tudo que escrevi agora: será que, tendo a consciência de que estou limitando meus desejos com o objetivo de atingir a plenitude da felicidade, esta não é uma forma de aceitar a infelicidade? É possível ser feliz tendo a consciência que precisa ser ignorante?

Incoerente, tudo isso. Assim como a vida que também é incoerente, e quer saber?  Que bom que ela é assim!

 

Marcio Vieira

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O teu passado te condena?

22/08/2011

Atualmente, de cada dez empresas, onze querem ser consideradas sustentáveis. A maioria delas porque entendem que precisam compensar suas pegadas para permitir uma exploração contínua de uma atividade, outras empresas, infelizmente, buscam a sustentabilidade para agregar valor ao seu produto e à sua marca.

Empresas sustentáveis são mais admiradas, assim como as empresas que valorizam seus colaboradores, que dão benefícios extras, empresas compromissadas com a Agenda do Trabalho Decente, empresas que incluem a sociedade do seu entorno em questões socioambientais, enfim, empresas que vão além da legislação reguladora acabam, por tais práticas, aumentando sua reputação no mercado e sendo escolhidas pelos consumidores na hora de adquirir um produto ou serviço.

Porém, uma questão importante para ser analisada é a relação da empresa com seu passivo. Considerando que a prática da sustentabilidade é mutável a cada dia com a inclusão de novas tecnologias limpas, com a inclusão de novos conceitos, novas leis trabalhistas, novas técnicas de exploração com menos impacto ambiental, novos parâmetros certificadores, etc., e o passivo acumulado de anos, décadas, às vezes séculos, quando foram utilizados procedimentos que hoje são inadequados, o que será feito com tal passivo?

A maioria esmagadora das empresas esconde essa preocupação, jogam para debaixo do tapete, perpetuando o esquecimento em uma gaveta empoeirada qualquer. Não tocam nesse tipo de assunto porque, por se tratar de uma questão muito vertical e aprofundada que poucas pessoas querem saber, tais empresas direcionam seus esforços na neutralização do impacto dos procedimentos atuais, visto que a cadeia de produção e consumo é atual, e não do passado.

Infelizmente é raríssimo encontrar nos departamentos de sustentabilidade ou que tratam de Direitos Humanos dessas empresas estudos que comparam as práticas e legislações do passado com as práticas e legislações do presente, com o intuito de identificar esse gap, às vezes de grandes proporções, que retratam um passivo de impactos que foi deixado de lado.

Não conheço nenhuma empresa que É sustentável, É verde ou É responsável socioambientalmente. No máximo, conheço empresas que ESTÃO sustentáveis e verdes. Existe uma profunda diferença entre o ser e o estar, um retrata desde o seu nascimento, outro retrata o momento, mas que na hora de divulgar em campanhas, muitas vezes milionárias, sobre as práticas socioambientais, utilizam-se o termo errado de ser, enganando o consumidor.

Entendo que, para ser considerado sustentável, para ser “amiga” da natureza e da sociedade, é preciso olhar para o passado. Concordo que é difícil pesquisar métodos em tempos de pouca tecnologia, baixos registros e poucos documentos ainda existentes, mas o termo sustentabilidade retrata a conscietização de uma situação dos impactos ao longo de toda uma existência.

É difícil mensurar as pegadas de gerações passadas mas, se o nome é o mesmo, se a empresa é a mesma, tais atividades fazem parte não só do passado, assim como do presente, visto que tudo está dentro da vida de tal empresa. Não se esquivar do passado e não ter vergonha dele é necessário para o desenvolvimento de um significado efetivamente mais próximo da sustentabilidade.

O atual momento do planeta e da sociedade reflete as ações do passado. Se novas leis e novos procedimentos são considerados vitais para o desenvolvimento socioambiental, muito se deve às práticas inadequadas e às consequências dessa exploração do passado. Portanto, ao invés de esquecer o passado, deve-se trazê-lo à tona para discutir, contabilizar, mensurar, enfim, auditar o passado para que tais empresas paguem pelo seu passado, fazendo sua compensação com a sociedade e com o meio ambiente conforme a atualização dos conceitos de Sustentabilidade.

Nesta linha de pensamento, forma-se uma ciranda, e nunca uma empresa será sustentável ou respeitará o trabalho decente. Direitos Humanos e Sustentabilidade são utópicos. É impossível atingir a plenitude dos Direitos Humanos e da Sustentabilidade, mas este assunto será tema de um próximo capítulo, aqui no Pegadas.

Marcio Vieira


Consciência da coexistência

17/08/2011

Caos, por quê?

Trânsito ruim? Filas no supermercado, no banco, na balada? Situação chata, né? Dá raiva, dá vontade de explodir tudo? Calma, você coexiste!

Quando fazia alguns cursos de respiração (que, aliás, recomendo para todo mundo) da Fundação Arte de Viver, num dos dias peguei um trânsito extremamente complicado, tudo parado, era um caos. Nesse dia, provavelmente, já estava dentro do processo de reflexões que o curso estimula e enxerguei algo que antes nunca tinha enxergado ao ouvir tantas buzinas: a coexistência.

Eu poderia fazer parte da orquestra urbana que estressa qualquer pessoa, eu estava atrasado, o trânsito me prejudicava, mas refleti algo que nunca tinha parado para pensar: eu, dentro daquele carro, naquele trânsito, contribuia para o trânsito existir. Quantos de nós, moradores de grandes centros urbanos, já ficou puto da vida com o trânsito? Vocês já perceberam que vocês também são causadores do trânsito?

Naquele dia, olhei para o lado direito e tinha um ônibus, não tão cheio, com pessoas cansadas voltando de seus trabalhos, e daí olhei para o resto do meu carro, vazio, com lugar para mais quatro pessoas. Aumentei o campo de percepção, analisei cada carro ao redor, de cada dez automóveis, apenas 1 ou 2 tinha mais de uma pessoa no carro, sendo que a maioria esmagadora dos carros cabem 5 pessoas.

Desde então, nunca mais buzinei para reclamar do trânsito, eu não me sentia no direito de reclamar de algo que eu contribuia para existir. Reclamo quando vejo caixas fechado, locais com poucos atendentes, causando filas desnecessárias. Mas, nas ruas, nunca mais reclamei. Quem tem direito de reclamar do trânsito são os usuários de transporte público, deficitário, sujo, inoperante, desconfortável, atrasado, etc.

Quem também tem direito de reclamar do trânsito é o ciclista, que não tem pista exclusiva, que não polui, que sofre com a ignorância e desrespeito de grande parte dos motoristas, que no espaço de um  carro pode trafegar, com segurança, seis bicicletas, e foi depois disso, também, que colei um adesivo na minha bicicleta de “um carro a menos”. Muito, não tudo (por preguiça), posso fazer de bicicleta, posso tirar um carro das ruas, e tudo isso foi feito após minha expansão da consciência acerca das causas e efeitos das minhas atitudes.

Então, antes de reclamar do trânsito, antes de buzinar, pense: você contribui para o trânsito? São Paulo é um caos em muitos aspectos, mas são seus habitantes os grandes responsáveis por isso. São seus habitantes que inflacionaram os preços dos imóveis perto de metrô, são seus habitantes que pouco reclamam do transporte público inoperante, são seus habitantes que preferem resolver um problema coletivo com uma atitude individual, adquirindo um carro novo, um segundo carro, etc.

Sim, concordo que 99% das pessoas preferem ficar sentado dentro de seus carros por 1 hora do que em pé, no ônibus, pela mesma hora. Cada um age conforme sua própria consciência, assim, aceite o caos pelo qual você contribui, ou plante uma semente utópica, ideológica e pense olhando para fora da caixa.

Ora, por que não fazer uma atitude coletiva?  Seja uma carona, rodízio entre vizinhos, pedale, seja uma caminhada maior (vá de tênis, leve o sapato numa mochila, e caminhe!), seja um dia da semana, pelo menos, ir de transporte público e não apenas alterar seu horário de trabalho por causa da placa do carro.

Você não tem que adaptar seus horários conforme o rodízio da placa do carro. Você não precisa inventar cursos (muitas vezes são úteis) para “fugir” do rodízio. Esse dia semanal é para você fazer um sacrifício pela sociedade, pelo coletivo porque simplesmente coexistimos.

Enfim, estimular a consciência é importante pra caramba, principalmente para ver a causa de um problema, e não apenas constatar a existência de um problema. Não estamos sozinhos, tenha consciência da coexistência.

Marcio Vieira


Paraíso das vaquinhas envenenadas

15/08/2011

vaquinhas envenenadas

No Direito Processual Penal existe a Teoria dos Frutos da Árvore Envenenada que, resumidamente, é a proibição da utilização de provas obtidas por meios ilícitos. Muito comum, principalmente, em escutas ilegais, onde o acusado pode até assumir a autoria de um crime mas, se tal prova foi obtida de forma irregular, esta deverá ser excluída dos autos, não podendo nem influenciar a decisão do magistrado.

A teoria acima reflete filosoficamente a questão central maquiavélica, aquela dos “fins justificam os meios”. Será que é justo utilizar meios não tão claros para fazer uma boa ação?  Será que ser Robin Hood é correto? Será que aceitar dinheiro de origem duvidosa para ajudar o desenvolvimento econômico é justo? Será que os fins justificam os meios?

Fiz essa pequena introdução para criar um paralelo dessa teoria com outras situações do cotidiano e que, após um grande amigo me encaminhar uma notícia da evasão de divisas na Alemanha para a Suíça, e somando-se os meses que morei em Genebra, resultaram num decepcionante coeficiente da ética do governo helvético (assim como de todos os paraísos fiscais).

Tax Heavens, fundos de investimento offshore, entre outras atividades, são lícitas em virtude, principalmente, da soberania de um Estado em determinar a alíquota de seus tributos. No entanto o ponto de discussão deste post é a transparência, os valores éticos para atrair um investidor internacional e, bem mais vertical, conhecer a origem desse dinheiro.

“Dinheiro não aceita desaforo”, governos suíços, monegascos e bahamitas dizem há décadas. É muito fácil abrir uma conta na Suíça, principal paraíso fiscal do mundo. A secular neutralidade helvética (já criticada neste blog) esconde métodos pouco éticos que contribuíram, vejam só, para o desenvolvimento de todo o país, ativar seu poder econômico, ser referência global em algumas áreas industriais.

Basta ver os recentes bloqueios de contas de ditadores árabes, exaltando o poder de fiscalização do governo suíço. É vergonhoso noticiar que tais contas foram bloqueadas, por que ninguém questionou a abertura delas?  Por que o país alpino permitiu que ditadores abrissem suas contas? Soma-se outros infinitos exemplos, como a ‘descoberta’ de contas traficantes, políticos corruptos, sonegadores e tantos outros indivíduos que, em operações fraudulentas, transformam laranjas em ouro.

Mas os paraísos fiscais não sabem, coitadinhos, ou fingem não saber!  Basta ver a quantidade de moradores e empresas registradas em Mônaco. Fisicamente dois corpos não ocupam o mesmo lugar, mas naquele minúsculo principado eles dão um jeitinho para mais alguém depositar seu dinheiro, afinal, dinheiro, seja limpo ou sujo, não aceita desaforo!

E assim, misturando o limpo e o sujo, paraísos fiscais recebem dinheiro que será utilizado, e muito, no desenvolvimento socioeconômico do próprio país. Será um lugar seguro, agradável, terá escolas públicas de qualidade, terá uma infra-estrutura excepcional, ruas pavimentadas, limpas, o sistema de saúde equipado, o salário mínimo será alto, enfim, são construídos paraísos!

Para descobrir parte do milagre que faz a Suíça ter três cidades entre as dez melhores do mundo para se viver, basta olhar para debaixo do tapete. Permitir a entrada de dinheiro ilegal, oriundo do crime, é uma forma de contribuir para a droga destruir mais famílias em todo o mundo, é uma forma de contribuir com novos assassinatos na América Latina, é uma forma de contribuir com mais massacres no continente africano, é uma forma de contribuir com mais trabalho escravo na Ásia, é uma forma de contribuir com mais tráfico sexual, é uma forma de contribuir com mais fome, miséria, é uma forma de contribuir com a destruição do planeta.

As famosas vaquinhas da Suíça foram envenenadas! E delas são produzidos os famosos chocolates e queijos. Tais vaquinhas comeram um capim podre, e agora produzem leite podre que resultarão em chocolates e queijos podres. Afinal, é muita competência o transporte público de Genebra, ilimitado, pontual e de altíssima qualidade custar aproximadamente 120 reais por mês. Afinal, é muita competência do governo ter uma das menores taxas de crime do mundo. Afinal, é muita competência do governo ter um salário mínimo de quase R$6.000,00 (Seis Mil Reais de salário mínimo). Helvéticos, qual a razão de tanta superioridade em comparação ao resto do mundo? Por que vocês são tão melhores??

Simples resposta: porque eles utilizam o dinheiro dos outros países, paraísos fiscais utilizam parte de dinheiro público roubado pelo Maluf e tantos outros em todo o mundo, utilizam dinheiro dos traficantes mexicanos, utilizam dinheiro dos ditadores sanguinários, utilizam dinheiro de empresários sonegadores, utilizam dinheiro de 50 empresas num mesmo endereço (de fachada).  Dinheiro esse que deveria estar nas economias de origem, e esse foi o acordo que a Alemanha conseguiu com a Suíça, para tentar reaver dinheiro que atravessou a fronteira e que agora, em tempos de crise, faz muita falta.

Você acha que os milionários pilotos de Formula 1 adoram morar num apartamento alugado de 80 metros em Mônaco. Você acha que eles realmente moram ali ou deixam ali um simples endereço para comprovar residência e justificar sua conta bancária, mas optam por morar confortavelmente numa mansão na Espanha, ou no Algarve?

É lícito o que eles fazem?  É.  Mas pergunto se é ético. Tem até dinheiro de famílias nazistas em contas na Suíça! É orgulhoso viver num país que se apoia em um sistema obscuro? Ora, a Suíça não participa da Comunidade Europeia por quê?  Se fizesse parte da zona (e hoje, uma puta zona) do Euro, ela deveria abrir as contas, mostrar quem tem dinheiro lá.  Você acha que eles querem isso?  Claro que não, tanto que o governo suíço está cagando nas calças de medo de tal CD room com a informação de milhares de contas bancárias que foi roubado, e tal acordo com os germânicos só saiu se a Alemanha não utilizar tais informações.

A crise global vai escancarar, desmascarar, muita gente, muito governo, muitas culturas e muitas condutas. É na hora ruim que cada um começa seu instinto de sobrevivência, e a tendência será tais paraísos fiscais sofrerem com a retirada de grandes valores, será a diminuição de fundos offshore, aumento da fiscalização, etc. Na verdade, a tendência é o dinheiro ilegal voltar para sua origem, e muito curioso será descobrir como tais governos se comportarão quando o dinheiro sujo parar de entrar. Será que vão continuar com 6 mil reais de salário mínimo?

É esperar, e ver, e cada um refletir: os fins justificam os meios? Eu não me sentia bem quando comecei a perceber como funciona tal sistema suíço. Eu não me sinto bem em usufruir de um sistema funcional, de uma boa infra-estrutura, de um bom salário, sabendo que tal sistema foi muito ajudado por dinheiro sujo de tantos outros países, muitos enfrentando pobreza, miséria e guerras. Seja pouco ou seja muito, bloqueios de contas, ações da justiça internacional, interpol, outras investigações que encontram remessas ilegais, contas ilegais e, o mais absurdo de todos, essa tentativa de acordo com medo de divulgar o nome de pessoas com dinheiro na Suíça comprovam que paraísos fiscais, na verdade, são esgotos contaminados, que produzem frutos envenenados.

Se começou errado, não importando se as próximas ações sejam certas, será sempre errado.

Marcio Vieira


Síndrome de Superman

12/08/2011

Eu sofro da Síndrome de Superman, não num nível extremo, mas sofro. Conheço muita gente que sofre da mesma síndrome. Não é uma doença, propriamente dita, mas são características psicológicas extremamente peculiares que envolve o núcleo de todas as ações na vida do portador, ou seja, a síndrome altera o fluxo de pensamento, as razões, sentidos e propósitos de cada ato.

Desconheço a origem dos sintomas, mas ela atinge um maior grupo de indivíduos das classes média e alta, pessoas que tiveram determinadas oportunidades na sociedade, bom estudo, formação, enfim, receberam um considerável investimento cultural que a maioria da população global não recebeu, e é nesse período, do desenvolvimento da consciência, que se começa a manifestação da síndrome em virtude da facilidade empática e de comparação que tais pessoas têm.

A Síndrome de Superman ataca pessoas que questionam as diferenças sociais e, por entenderem que são privilegiadas, acabam sentindo algum tipo de culpa quando comparam suas oportunidades em relação à maioria da sociedade, e assim acabam nutrindo um sentimento de não merecimento, visto que, na maioria dos casos, apenas “nasceram” em tal família, não construíram nada que faz jus para estudar em escolas particulares, faculdades, aprender idiomas, cursos diversos, viajar, sair, enfim, ter uma vida com mais possibilidades.

A expansão da consciência, muito em razão de tais investimentos culturais que a família proporcionou, pode ser maléfica naquele perfil de indivíduos que têm como ponto forte o questionamento, desse modo, inúmeros deles, num sentimento de frustração e mal estar, direcionam suas carreiras profissionais, seus propósitos de vida, suas opiniões, seu consumo, de forma contínua na busca pelo merecimento, e assim desenvolvem vontades ultradimensionadas para justificar seu nascimento, seu pertencimento a tal determinada família e condição social.

Muitos portadores iniciam atividades de desapego à tais condições socioeconômicas por culpa, perpetuando uma busca ideológica, muitas vezes utópica, criando, num paralelo, outra vida, geralmente em outra cidade, outro país, para tentar se distanciar e renunciando o padrão social de sua origem para buscar a justificativa pela vida, desejando, de alguma forma, pagar um pedágio com um sofrimento que compense todas as condições que recebeu de seus pais.

A Síndrome de Superman ataca o lado existencial do ser humano, e tais portadores desenvolvem sentimentos de abnegação, sacrifício, muitos se tornam depressivos quando se deparam e se comparam com pessoas com menos oportunidades e condições, transparecendo, pela culpa, uma das características mais bonitas, a de gratidão, que embora escondida, salta aos olhos pelo desenvolvimento de uma consciência profunda, ampla e externalizada.

Com isso, muitos portadores acabam buscando atividades sociais, profissões e atividades voluntárias que envolvem questões sociais e ambientais, querem trabalhar para ajudar o mundo, acabar com a fome, erradicar a miséria, possibilitar estudo dos pobres, fomentar emprego e inclusão social, proteger crianças carentes, mulheres, buscar a justiça social, racial, proteger florestas, levar saúde, nutrição, desenvolvimento socioeconômico para lugares remotos e esquecidos, pacificar o mundo, enfim, querem ser o Superman!

É apaixonante conhecer pessoas assim, que inflam desejos de querer contribuir com o mundo, pessoas que se doam pela humanidade, mas um ponto muito crucial e frágil é o motivador de todo esse movimento existencial. Se tais vontades de super-herói são porque se sentem, de alguma forma, não merecedores, e por isso resolvem se abdicar do passado, daquilo que suas famílias construíram, acredito que o fluxo de ações está invertido e é preciso mudar a correnteza desse rio de pensamentos, acabar com esses sentimentos negativos quase que masoquistas que fizeram optar por tais carreiras de Superman, de salvadores do planeta.

Não precisa se sentir culpado, não precisa se recriminar, se maltratar, sofrer, tornar-se um mártir, porque existe a miséria, as doenças e a fome no mundo, sendo que você sempre teve um colchão, roupas e livros. Se você nasceu numa família que te possibilitou estudos e boas oportunidades, sinta-se grato como você sempre se sentiu, essa é sua característica, mas não faça dessa gratidão uma dívida.

Desejar bens, desejar consumir, desejar conhecer, viajar, não são pecados. Vocês já desenvolveram uma consciência coletiva rara. Querer sofrer para justificar seu nascimento e dar sentido à sua vida não é uma coisa legal de se fazer. Vocês, portadores do superheroísmo enrustido, são pessoas excepcionais, com um coração gigantesco e que sofrem com o que acontece no mundo, mas não queiram abraçar tal mundo, não queiram  carregar tudo e todos nas costas, senão você vai cair porque ninguém consegue suportar.

O idealismo é, em cabeças mais questionadoras, prejudicial para um convívio social. Fazer o bem é delicioso, mas entenda que não existe sustentabilidade. Sua existência, de alguma forma, agride a natureza, é inevitável a sua pegada, e tais ações neutralizadoras e compensatórias são extremamente importantes para o futuro do planeta, mas que o processo de ampliação da consciência não desestimule sua ambição, ou nem torne um Superman.

Tal herói, é ficção. Não se cobre tanto, aceite o que você é e de onde você veio, sem culpas.

Marcio Vieira


Bomba-relógio ativada

08/08/2011

Era uma vez um loiro nórdico poliglota cristão e nacionalista que, por entender que o desemprego e a crise econômica estão relacionados com a imigração de pessoas de outras culturas, resolveu mostrar seu amor à pátria ao matar dezenas jovens simpatizantes do partido da situação.

Era uma vez um bloco econômico poderoso, criado para fazer frente ao dólar, que resolveu colocar numa mesma balança diversos países, antigos rivais, hoje “parceiros”, países completamente diferentes, de economias distintas, estruturas sociais e administrativas distintas, perfis, leis, culturas e padrões distintos.

Era uma vez jovens árabes, desiludidos, desempregados, indignados com ditaduras decanas de presidentes de mandavam e desmandavam em seus países como bem entendiam, e assim, numa insustentável fúria, resolvem liderar revoltas políticas, pagando com milhares de vidas a reestruturação de democracias.

Era uma vez o crescente número de grupos paramilitares no continente africano, onde cada dia as guerras tribais, ignoradas pelo mundo rico, começam a trazer consequências cada vez piores, com massacres, crimes contra humanidade, muito facilitado pelo comércio clandestino de armas produzidas e subsidiadas por indústrias daqueles países ricos.

Era uma vez minorias (mas são milhões de pessoas) acuadas com as guerras civis em tantos países árabes e africanos, começam a debandar, fugir para o país vizinho, só que muitos vizinhos enfrentavam os mesmos problemas, e outros, de forma mais desesperada, superlotam fronteiras e navios com o sonho de cruzar o mediterrâneo e serem aceitos como exilados para ter uma vida nova naqueles mesmos países que tentaram a partir de 1999, juntos mas diferentes, serem poderosos, mas hoje enfrentam uma enorme crise.

Era uma vez milhões de jovens europeus, acostumados a ter o primeiro emprego depois dos 25 anos de idade, depois de concluir uma pós graduação e mestrado, e agora se vêm com pouquíssimas oportunidades de trabalho, se vêm desempregados, despreparados para encher laje ou limpar banheiro, algo que os imigrantes nunca recusaram, e agora vão para ruas protestar por emprego, protestar porque não têm no bolso a moeda que que nasceu com a missão de ser maior que o dólar, protestar contra a abertura para novos países do dito “poderoso bloco”, onde os mais extremos revoltados inflam ideias nacionalistas, racistas, num protecionismo sanguinário.

Era uma vez um país de cultura milenar, que se fechou por décadas, comeu capim, viveu o isolamento e misérias mas, de forma totalitária, condicionou um povo extremamente trabalhador e competitivo, e assim, com muita paciência, se preparou para ser a fábrica do mundo, antes ridicularizado por fazer calculadoras ching-ling e atualmente com pessoas altamente capacitadas, produtos de todas as qualidades, do lixo ao luxo, para atender qualquer tipo de consumidor interno ou em qualquer parte do mundo, atraindo centenas de fábricas, muitas daquele continente que tentou unir o diferente para ser o bloco global dominante e ter uma moeda poderosa, mas que agora se vê com uma cadeia industrial enfraquecida e com trabalhadores extremamente caros, insatisfeitos, com poucas oportunidades e que agora protestam sem oferecer nenhum tipo de solução.

Era uma vez um mundo completamente conectado, interligado, permitindo pessoas, antes distantes, conversar sobre tudo e todos instantaneamente, assim encontrar mentes e ideias similares, capazes tanto de construir como destruir, capazes de difundir pensamentos, muitos preconceituosos, protecionistas, nacionalistas, extremistas religiosos, raciais, homofóbicos, capazes de explodir, se explodir, atirar, matar, muito por causa de insatisfações com a crise, com o desemprego, com a recessão econômica achando que a lojinha do judeu, do islâmico, do indiano, do chinês ou seja lá de quem está “roubando” o emprego daquele que nasceu ali, filho de pessoas que nasceram ali, àqueles do tal sangue azul, que agora difundem  na internet ideologias contra a “invasão” e a mistura racial.

Era uma vez partidos políticos de extrema direita crescendo de forma preocupante naquele continente que tentou há pouco mais de uma década juntar economias diferentes, mas que de certa forma encontrou em cada país simpatizantes contrários a tal abertura social, pessoas que acham que proteger uma cultura é se fechando para as demais, pessoas antissociais, burgueses falidos e preconceituosos que não acompanharam o desenvolvimento global e agora colocam a culpa do desemprego por causa dos latinos, africanos, chineses, indianos, islâmicos e que tais imigrantes, de alguma forma, seja pela possibilidade de conseguir a dupla-nacionalidade em virtude de uma exploração de séculos destes mesmos burgueses de sangue azul, ou seja pela forma ilegal que se arriscaram atravessando fronteiras, mares, barreiras, línguas, para tentar oportunidades que pouco tiveram em suas terras natais, e agora disputam o mesmo emprego com tais europeus, muitos deles que procuram o primeiro emprego depois dos 25 anos de idade, muitos que não se sujeitam a limpar banheiros, muitos que protestam querendo 34 horas de trabalho/semana (sem redução salarial, óbvio), muitos que acham normal trabalhar apenas 1 ano para ter um ano de seguro-desemprego com 80% do salário, e assim mamar nas tetas de governos decadentes que não condicionaram o povo a ser competitivo num mundo interligado, sendo que são pessoas que sempre tiveram oportunidades, escolas gratuitas, inúmeros benefícios, mas que não desenvolveram garra para a sobrevivência, para a disputa de um emprego e, em tempos de crise, qualquer emprego, assim reclamam da tal “abertura”, exigindo, muitas vezes, mudanças racistas e radicais para expulsar os imigrantes.

Era uma vez um continente que viveu infinitas guerras em mais de dois milênios, e elas aconteceram porque estavam com algum tipo de crise econômica, impossibilitando um desenvolvimento harmonioso, impossibilitando o diálogo, e assim desenvolveram línguas próprias, culturas próprias que, em cabeças nacionalistas extremas, foram intolerantes ao diferente, e o maior exemplo foi o massacre a judeus num momento que a economia global patinava após a Crise de 29, achando que tais diferentes roubavam empregos e oportunidades daqueles “arianos superiores”, e essa histórica todos sabem como terminou.

Era uma vez um brasileiro paulista, 29 anos, filho de português e mineiro, misturado, formado, desempregado, às vezes depressivo, às vezes exaltado, hoje com remédio isso é controlado, que já viajou por mais de 20 países, morou em quatro deles, aprendeu a ser minoria, o inferiorizado, que lavou banheiro e foi garçom no continente decadente, que cortou lenha no país do dólar (nem tanto, agora) dominante, que foi até a fábrica do mundo negociar e conhecer a cultura milenar da paciência e competitividade, e que ficou descontente ao vivenciar, engravatado por meses, que a tal Organização das Nações Unidas não é tão unida e é pouco objetiva, enfim, esse paulista maluco que retornou à sua terra depois de outra experiência internacional acha que o filme, aquele com sangue, intolerância e destruição, pode se repetir naquele mesmo cenário de tantas outras guerras.

Esse mesmo paulista às vezes fala besteira, é imaginativo, porém é capaz de apostar uma empadinha de palmito que a intolerância, a crise econômica mundial, bolsas despencando, a perceptível falência de uma moeda, o aumento do desemprego, a insatisfação de jovens, o fortalecimento de redes de contatos de forma global, a facilidade do comércio de armas, a difusão de pensamentos racistas aceitos por muitos desses jovens insatisfeitos e despreparados, a crescente intolerância contra imigrantes e o extremismo religioso e nacionalista, ocorrida também no âmbito governamental, o descontrole emocional de minorias mais exaltadas, capazes de explodir e de se explodir, pessoas que depreciam a vida, enfim, todos esses pontos se somados resultarão numa previsível tragédia de grandes proporções.

Existe uma bomba relógio no mundo, principalmente na Europa, curiosamente o tal “berço da civilização”, em contagem regressiva que foi ativada pelo Homem, e cabe a esse mesmo ser vivo orgulhoso que pouco sabe viver em harmonia com a natureza e com seus semelhantes, resolver de forma racional, mudar o fluxo de ideologias e desenvolver uma consciência coletiva projetada para o futuro, aceitando recuar, reduzir, aceitando negociar, aceitando mudar alguma coisa em tais históricos princípios éticos, morais, religiosos, que hoje muito provam que estão errados.

É preciso mudar para construir outro tipo de história, quem sabe, para desativar essa nova bomba, prestes a explodir, e fazer esse mundo ser, realmente, suportável e sustentável.

Marcio Vieira


Vida do rico, assunto do pobre

04/08/2011

E agora a dúvida é quem dirigia a Land Rover blindada que atropelou e encurtou a vida de mais um jovem paulistano. Entre mesas de bar, recepções, elevadores, filas e quaisquer outras aglomerações, reuniões ou encontros, a dúvida entre todos é se era mesmo a namorada que dirigia o carro de luxo. Algumas semanas antes, era a perplexidade dos 150km/h de um alucinado motorista de um Porsche que acabou com a vida de uma jovem advogada. Em ambos os casos, o principal fator para tanto comentário não é o álcool no sangue ou a gravidade da tragédia, mas sim o dinheiro.

Nos últimos dias comecei a refletir sobre o dinheiro, sobre o peso que ele tem e os reflexos que ele causa. O dinheiro (e a falta dele) é o motivador para tanta conversa, tanto debate, tanta repercussão de tragédias da vida moderna principalmente por causa do orgulho do ser humano. Afinal, será que se fosse um atropelamento de um fusquinha na periferia do Jardim Mão na Cabeça prenderia nossa atenção? Será que se fosse um Gol turbinado do manolo vida-loka nos mesmo 150km/h causaria tanta indignação?

Crime do rico vende mais

Claro que não. Não só o crime do rico, mas toda sua vida, chama mais atenção da sociedade, e esta, por sinal, comprova seu provincianismo mesmo dentro de uma cidade de mais de 10 milhões de habitantes. É como se o rico não pudesse cometer erros, assim julga a sociedade, incrédula quando acontece. A sociedade brasileira de hoje é a mesma de duzentos anos atrás: só foi alterado o cenário, mas a cabeça limitada que pensa no que os outros têm, o poder de influência, o poder do dinheiro, o poder de sei lá o que mais, etc., faz você ser maior ou menor que alguém.

As novelas globais (sempre com grandes núcleos em famílias ricas do leblon ou jardins), as notícias pelo mundo em que um casamento real britânico dá mais audiência que a guerra civil em diversos países árabes, etc. reforçam esta teoria. O Datena vai perder tempo com os famélicos africanos?  Claro que não!  Mas o bonitão do Porsche terá notícias pelas próximas semanas, até um próximo crime que chocará a sociedade.

Aliás, não consigo entender o motivo da sociedade se chocar mais com o crime do rico. Talvez porque eles “tiveram estudo”, emprego, base, tudo aquilo que os podres presos dizem nunca ter tido. Mas a sociedade se esquece que todos são humanos, suscetíveis a erros e acertos, e não é o bolso recheado que fará diferença na hora de agir. O dinheiro ajuda a tirar alguém da cadeia com melhores advogados, etc., mas o dinheiro não muda a ação do homem.

Assim a mídia sensacionalista agradece quando um rico ou famoso faz besteira, é garantia de lucro e audiência dos pobres! Sim, são os pobres os curiosos que querem saber o que os ricos consomem, fazem, quem pega quem, quem exerce poder, quem influencia, quem lidera, quem tem mais dinheiro, etc. Celebridades de uma novela real, Nardonis e Richthofens pagam dinheiro por ter … dinheiro!  Afinal, num país de Silvas e Santos, um sobrenome incomum faz a diferença na hora de noticiar um crime e chamar atenção.

O povo, povão, independentemente de condição socioeconômica, deve entender que endinheirados e famosos não são obrigados a dar bons exemplos para ninguém, assim não criaria tantos comentários, muitos deles precipitados, palpitando sobre o crime ocorrido. Mas no subconsciente do brasileiro o maior crime não é o tipificado em leis, mas sim o de ter dinheiro. Parece ser uma afronta ter dinheiro no Brasil, um desrespeito a maioria.

Ricos não são obrigados a dar dinheiro aos miseráveis. Aliás, ninguém é obrigado a dar dinheiro para ninguém, mas é comum no Brasil ouvir coisas do tipo “onde já se viu andar com um carro de meio milhão de reais” ou “esse cara, além de assassino, deve ser um sonegador para ter um carro desse”, etc. Pessoas com mais dinheiro pagam pelo julgamento precipitado de um povo preconceituoso, querendo achar justificativas em supostos trambiques e falcatruas daqueles que têm condição de comprar Porsches do que aceitar que tais pessoas foram mais competentes ou bem sucedidas em suas atividades.

Mais uma vítima, infelizmente, como outra qualquer

No Brasil soa como insulto desejar ser milionário para gastar com carros e coisas desnecessárias, tanto que a promessa de qualquer um quando faz seu jogo na mega-sena é “ajudar os mais pobres”.  Se eu desejar comprar uma Ferrari e não dar nada pra ninguém, nem para o pedinte do semáforo, vão me recriminar. Ora, o dinheiro será meu, faço o que bem entender com ele, devendo pagar o preço daquilo que faço, não daquilo que deixo de fazer. Assim, a imensa maioria dos brasileiros têm que entender que tais obrigações devem ser exigidas dos políticos, e não daquele que tem mais dinheiro que você.

O endinheirado tem os mesmos direitos e deveres que qualquer outra pessoa, mas no Brasil, e em outros países também, o rico deve reprimir seu poder para não “ofender” a maioria.  Se houve passeata quando o filho skatista de uma atriz foi atropelado, será que os mesmos manifestantes estariam protestando se o crime fosse lá no Angela, no Capão ou Graja, etc. com um garoto “qualquer”?  (Sim, é esse o termo que se utiliza quando um pobre morre) Morre-se, no silêncio, todo dia, na periferia, e tanto o filho da atriz, tanto o atropelado na Vila Madalena ou a jovem advogada, são quaisquer pessoas, assim como eu e você.

Se atropelaram alguém em alta velocidade com uma Land Rover  ou Uno Mille, a indignação deve ser a mesma, mas no subconsciente de cada um de nós (população, imprensa, etc.) é aonde se descobre quem é mais materialista, que prioriza mais a imagem, o status, distanciando daqueles que olham a cena de forma mais neutra.

Para desenvolver a sociedade, deve-se parar de apontar o dedo fora de hora, devendo também parar de querer cuidar da vida alheia, do jardim do seu vizinho, do pop-star ou as pessoas de seu convívio. Faça por você e pra você.

Muito do que se vê, não é.

Marcio Vieira