Tragédia nada virtual

27/11/2013

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Duas jovens perderam a vida de forma trágica nos últimos dias que, embora de formas completamente diferentes, há um grande paralelo entre as duas o qual deve ser muito bem discutido: a exposição em redes sociais.

No Piauí, Júlia Rebeca, de 17 anos, cometeu suicídio motivada pela divulgação na internet de um vídeo íntimo, o qual foi espalhado via Whatsapp sem seu consentimento.

Ontem, em Itanhaém, litoral paulista, Giovanna Alves, de 19 anos, morreu ao colidir seu carro em uma coluna de um viaduto quando dirigia. O detalhe: instantes antes de morrer, a jovem tirou uma foto do velocímetro do carro, o qual marcava 170km/h que provavelmente seria publicada no Instagram, como ela já tinha feito em outra oportunidade.

A grande maioria das mortes de pessoas com menos de 20 anos está diretamente ligada ao crime e, embora sejam dois exemplos claros de exceção à regra, é de suma importância começar a analisar as consequências que redes sociais podem causar em usuários.

Nos últimos anos, o computador deixou de ser uma ferramenta de trabalho e se tornou uma janela social que possibilitou mihões de pessoas se conectarem, se conhecerem, sendo que o ambiente virtual é facilmente manipulado, afinal, eu posso colocar minhas informações, minhas características, meus gostos, minhas opiniões, etc., da forma como eu achar melhor, deixando os “pontos negativos” escondidos.

Em muitos casos, o usuário da internet é um personagem do próprio indivíduo porque existe a necessidade de auto-afirmação num mundo virtual paralelo à realidade em que a manifestação da própria felicidade é o grande objetivo.

Assim, ultrapassar a quantidade de mil pessoas nos contatos o faz “popular”, mostra ser “bem relacionado”, mostrar o corpo saudável o faz “desejável”, expor fotos de viagens, do que se come, do que se veste, do que se tem, do que se usa, de onde vai, pra onde foi, e outra infinidade de atividades o faz “ser presente na virtualidade”.

Auto-exposição é instintivo e está em todo reino animal: o pavão abre suas virtuosas asas para conquistar a fêmea, o leão ruge mais alto para dominar suas leoas, assim como gorilas, hipopótamos, rinocerontes e uma infinidade de animais que, no momento da “concorrência”, exploram suas potencialidades físicas. E age assim o ser humano, dentro das redes sociais, demonstrando ser apenas outro animal.

No entanto, a tal concorrência é que motiva pessoas a tentarem uma superação, e é aí pode iniciar um grande problema, que resultou nas duas mortes citadas: a busca incansável para demonstrar o sucesso, consequentemente a felicidade, está presente tanto no suicídio quanto no acidente automobilístico.

Bem possível que o jovem que se relacionou com Rebeca compartilhou seu vídeo com amigos para mostrar seu lado conquistador Don Juan pra dizer: “olha como eu sou foda”, e certamente que, enquanto dirigia à 170km/h, Giovanna pensou o mesmo, na sua condição fodástica.

Ambos fizeram isso porque há uma expectativa de retorno, o famoso “like”, ou “joinha”, “curti”, etc. É o que tanta gente, eu diria que a grande maioria das pessoas na internet espera acontecer. Receber um feedback positivo, além de mostrar-se vivo num mundo virtual, o desejo maior é mostrar ser feliz.

E para atingir a felicidade nas redes sociais, não há mais limite. Riscos de vida tornam-se frequentes, assim como ultrapassar os limites legais, muito menos morais, afinal, o importante é chamar atenção, como rachas em estradas, beber de forma exagerada, tirar fotos rodeados de mulheres, tirar foto do carro luxuoso, da vida luxuosa, até culminar no grande vômito da música atual: funk da ostentação!

Para ter sucesso nas redes sociais, as exigências estão cada vez maiores e natural que o fracasso seja proporcional, visto que as conquistas ficam cada vez mais difíceis de serem atingidas, como gastar “de 5 mil reais ao infinito” em uma noite.

E toda moeda tem dois lados, tudo é muito perigoso porque causa consequências graves, quando a exposição na internet é negativa. Suicídio, depressão, e outros problemas serão cada dia mais comuns na realidade por causa de problemas origem de virtual, afinal, é a reputação que está em jogo.

Tal reputação, aliás, teve um capítulo muito importante iniciado recentemente: o Lulu, em que a reputação de homens é divulgada sem controle algum, sendo que são covardemente realizadas de forma anônima.  Informações falsas (ou mesmo reais, mas íntimas, confidenciais) poderão causar separações, brigas, desemprego, depressões… suicídios, depende de como será absorvido pelo usuário.

E quando inventarem o aplicativo Lulu na versão masculina, como será que as mulheres reagirão? Aspectos físicos aparentes não são mais motivos de julgamento porque será possível julgar o comportamento, comentar do desempenho, expor intimidades, etc. Isso não é certo!

Júlia Rebeca não foi a primeira e nem será a última a cometer suicídio por causa de uma má reputação na internet. É preciso ficar atento e começar a respeitar as individualidades dos usuários para evitar novas tragédias.

É livre a exposição da vida na internet, no entanto, é preciso refletir sobre quais são as motivações de cada um e qual é o limite da razoabilidade, afinal, muita gente já considera a vida virtual mais importante que a real. Por exemplo, já tentei sair já com pessoas que “conversam” com você, mas não tiram os olhos  do celular. É decepcionante! Tem gente que surta se esquecer o telefone em casa. Tem gente que só falta compartilhar “fiz um cocozinho lindo hoje”, e tirar uma foto do elemento boiante.

O mundo está cada vez mais pervertido, mentiroso, descartável e irreal, e tudo isso é reflexo da busca pelo sucesso no ambiente virtual, algo que a falta de limites das redes sociais permite.

As consequências do uso exagerado, não são apenas um “encerrar conta” ou um “bloquear”.  Pode ser um log off da vida real, e isso não tem volta.

Marcio Vieira

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A Gaiola

24/09/2013

thecage

Escrevi, há uns dois meses, e preguei no meu quadro de recados a principal pergunta que existe, e todo dia, desde então, olho para a pergunta. O intuito não é apenas olhar, é também refletir.

Qual é o seu projeto de vida?

Pesada, tal pergunta.

Os últimos dois anos, desde que voltei pra São Paulo, tento vencer os meus próprios questionamentos, insistindo num modelo em que a maioria das pessoas daqui (e qualquer outro lugar) segue, o qual apelidei de “Projeto Gaiola”.

Uma das maiores sacanagens que considero é alguém “cuidar” de passarinhos em gaiolas. Fazem isso, talvez, porque não perceberam que vivem dentro de grandes gaiolas e assim querem que outros animais sigam o mesmo modelo de vida.

A Gaiola consiste, basicamente, em entrar num círculo vicioso com vários subprojetos onde o ponto de partida é sempre o mesmo: a insatisfação.

A insatisfação pode ser vista de diversos ângulos, mas vou destacar o lado positivo: a busca por melhorar. É benéfico o sentimento da insatisfação positiva de, todo dia, querer algo novo: uma roupa nova, um celular novo, um carro novo, um imóvel novo. É uma forma de lutar e realizar vitórias.

No entanto, é perigoso esse sentimento porque a conquista momentânea é apenas um anestésico aos indivíduos que aderiram ao Projeto Gaiola. O prazer, com o passar do tempo, perde eficácia e, em pouco tempo, existirão novas roupas, novos telefones e novos carros.  E, de repente, o seu apartamento ficou pequeno porque sua sala ficou pequena… porque sua televisão aumentou de tamanho.

Porque na sua cozinha ficou pequena: lá tem novos utensílios, panelas elétricas, cafeteira de cartucho, churrasqueiras elétricas, máquina de pão, descascadores, “mixer”, George Foreman, Máquina de suco para nove tipos de frutas, sendo que, para cada fruta, utiliza-se um acessório diferente.

Porque seu armário ficou pequeno:  novas camisas, novos vestidos, novas cores, novas estampas, novos casacos, tênis de corrida, tênis de montanha, sapato, sandália, rasteira, salto alto, médio, baixo, sapatênis, roupa da academia, roupa de ficar em casa, roupa de trabalho, roupa de trabalho às sextas-feira, roupa de sábado de sol, roupa de friozinho, friozão, chuvinha, chuvão, calorzinho, calorzão.

Em resumo, novas necessidades!

O mundo está mais dinâmico, as pessoas estão mais aceleradas, mais conectadas, mais informadas. A mente é mais rápida que os olhos e que as mãos, e o que você segura hoje não será o que você vai desejar amanhã. É aí que surge a primeira frustração, causando insatisfação.

Troca-se!

Para que você não desacelere, para que você continue alimentando sua própria insatisfação, ficou mais fácil trocar tudo. Roupa, carro, emprego, telefone, cidade, casa, amigos, marido.

E tudo isso atingiu essa velocidade de desejos porque está mais fácil se endividar. Quando alguém termina de quitar um bem, tal pessoa sente a obrigação de contrair novas prestações. É como se a conta bancária não permitisse sobrar um dinheiro. Se sobrar, não é feliz.

E ainda tem muita gente que nem espera quitar, já vai atrás de um novo celular, um novo carro, uma nova casa, tudo para anestesiar a insatisfação.  Refinanciamento, e resolve-se tudo.

Não digo para as pessoas se acomodarem com o que tem. Não é isso! O que quero, em resumo, é refletir sobre o Projeto de Vida e ajudar a a responder tal pergunta, então fui atrás de uma palavra: “Necessidade”

Será que é necessário eu me enforcar em prestações para estar satisfeito? Será que é realmente necessário atualizar meus bens? Será que é Necessário precisar de algo ou de alguém para atingir a felicidade?

Na minha opinião, seria muito injusto (sacanagem mesmo!) estabelecer condições para a felicidade. Condicionar a alegria, a satisfação, impor critérios, regulamentar condições, regras, limites para ser feliz.

Porém, entrar nesse carrossel para querer melhorar a gaiola é o propósito mais aceito para justificar a felicidade. A sociedade está condicionada à esse modelo de vida, que gira no mesmo sentido sobre os mesmos trilhos, mudando apenas os bens e pessoas, mantendo as mesmas sensações, mesmas angústias e mesmas frustrações.

O sonho pode parecer diferente aos olhos, mas o que movimentou aquele pensamento são os mesmos sentimentos de outrora.

Seu projeto de vida pode não ser uma gaiola, mas sim um viveiro, lindo, confortável, com churrasqueira na varanda e piscina aquecida.  Mas  é bom lembrar que todo viveiro sempre será gaiola.

São gaiolas e carrosséis espalhados e empilhados por toda cidade, e para sair de mecanismo de vida não precisa rasgar tudo, não precisa vender tudo, sair da cidade, largar tudo, comprar uma kombi e virar hippie, chutar o balde, mandar chefe para “aquele lugar”, etc.

Para sair do Projeto Gaiola, basta identificar as próprias necessidades, olhando para dentro, para o coração. Tem muita gente que está fora da Gaiola, mesmo vivendo na caótica São Paulo. Viver livre independe de locais caóticos ou praias paradisíacas.  Sua mente pode estar presa em qualquer lugar.

A solução, veja bem, não é trocar de gaiola.

O desafio começa pela auto-avaliação do modelo de vida que decidiu seguir. É analisar as influências do consumismo desenfreado, a real necessidade de novos comprometimentos da renda por objetos, imóveis, bens, serviços que não são realmente necessários.

É saber dizer não. Ou sim, onde a prática do desapego é o exercício a ser realizado.

De forma resumida, A Gaiola é o limite do seu vôo. Limite da sua mente.  Não ter gaiola, definitivamente, é o maior desafio da vida, já que ela foi montada dentro das pessoas, porém, cabe somente à você a manutenção do modelo de vida que te traz mais felicidade.

Afinal, qual é o seu projeto de vida?

Marcio Vieira


Síndrome do Pavão

13/08/2012

Pavão! Um bicho engraçado, bonitão, todo penoso, reluzente, imponente, mas tudo isso quando está com as asas abertas para se mostrar para acasalamento. Abrem-se, então, as asas numa disputa matrimonial e aquele que aparentar ser o bonitão tirará a sorte grande.

Tem um monte de pavão na sociedade. Cada dia mais, a maioria circula na classe média. Muita gente se importa mais com a imagem do que com o que é, e o custo da imagem pode ser caro para quem não tem condição de bancar aparência, ou melhor, o status.

Busquei no Aurélio o significado dessa palavrinha: 1. Situação, estado ou condição de alguém ou algo, esp. perante a opinião das pessoas ou em função do grupo ou categoria em que é classificado. 2. O grau de distinção ou prestígio, ou situação hierárquica de um indivíduo perante demais membros do seu grupo social.

Status é, possivelmente, a palavra central que desencadeia os maiores problemas que o ser humano acha que tem. É tão forte que é capaz de inverter o fluxo natural dos pensamentos: ao invés de ser de dentro para fora, o indivíduo só se preocupa com que vem de fora.

É dar mais atenção à reputação, ao que se enxerga, e isso pode causar muitos danos pois é por causa de priorizar o status que muita gente já se endividou, já quebrou a cara, a cabeça, o coração, e continua fazendo isso sem imaginar que faz, investindo em demonstrar, ao invés de investir em ser.

Só que este, parece, ser um caminho sem volta, visto que cada dia que passa estamos mais expostos ao mundo: é no celular, no Facebook, Twitter, Linkedin, escrever baboseiras em blogs como este, etc., tudo isso faz você estar cada vez mais conectado com pessoas e, nessas horas, ter boa aparência é importante.  Eu escrevi importante, não fundamental.

O que você aparenta pode fazer com que você entre num grupo de indivíduos que se assemelham com seu perfil, mas o que você realmente É determinará o tempo que você permanecerá em tal grupo.

Se o colorido das suas penas de pavão é tão importante, você vai se endividar para ter um carro mais novo (sendo que o velho satisfazia suas necessidades de deslocamento), você vai comprar um celular mega tecnológico (para entrar no Facebook e publicar fotos do Instagram, não mais que isso), entre outras atitudes pouco racionais.

É por isso que tem tanta superficialidade no Brasil, e muitas marcas internacionais exploram da ingenuidade egocêntrica dos brasileiros que supervalorizam produtos que vêm de fora, inflacionando o mercado. É assim com carros, roupas de grife, mercado de alto luxo, no geral.

Resumindo, enquanto tiver trouxa portadores da Síndrome de Pavão que pagam o que for, incluindo ágio, para ter só por questão de aparência e status, o Brasil continuará a ser um dos países mais caros do mundo em bens de consumo, e tal reputação tem efeito dominó: começa lá na Classe A+ que influencia A, esta influencia a B+, que mostra para a B, B- e assim por diante.

A diferença é que a Classe A+ paga à vista pelo consumo, enquanto a média vai se enfiar em dívidas para, muitas vezes, influenciada pela futilidade da maioria da elite social, para ter o mesmo produto sinônimo de status. Indo pro final desse dominó, lá na Classe C, o mais pobre vai comprar a versão falsificada daquilo ou, mais grave ainda, roubar.

E cada vez mais, infelizmente, a Classe A+ tem demonstrado muita futilidade, soberba, ignorância e preconceito, então é preciso tomar uma dose extra de atenção sobre tais “tendências” de consumo.

É preciso saber separar na vida o que é importante daquilo que é fundamental, e muita gente coloca a imagem como fundamental. Não é fundamental, e em se tratando de um país com uma educação limitadíssima, os estragos sociais dessa mudança de valores são catastróficos, onde existe exemplos de pessoas que colocam mais de 50% do valor do imóvel que reside em um automóvel que, por sinal, está no Brasil a maior margem lucro das montadoras de carros do mundo.

Tem famílias de classe média que gastam mais de 150 mil reais para dois automóveis e vivem num apartamento que vale 300 mil. Na Europa e EUA, por exemplo, o gasto em automóvel raramente passa de 10% do valor do imóvel. As prioridades estão distorcidas, definitivamente, por causa de dar atenção à reputação.

Tudo isso fez do Brasil o líder de juros em cartão de crédito e paraíso para banqueiros. Cada dia esticam mais o tempo para se pagar e isso aumenta o risco de inadimplência, então a medida é aumentar o juros, consequentemente o preço final do produto e, quando se trata de produto que o exuberante Pavão gosta de se exibir, o lado emocional atrapalha a razão.

Se as pessoas começarem a buscar dentro de si o que se precisa para ser feliz, perceberão que muito do que têm e muito do que fizeram na vida foi influenciado pelo ambiente externo, o que se viu, e às vezes todo aquele esforço era desnecessário porque não era tão importante. Grandes esforços são necessários na vida, e deve-se escolher realmente no que vale a pena se endividar momentaneamente, e quais sacrifícios são válidos.

Não precisa ser um pavão todo plumoso para demonstrar ser alguém. Aparência tem prazo de validade.

Marcio Vieira


Ignorância, o segredo para a felicidade

25/08/2011

Antes de tudo, para deixar bem claro, este texto não chama de ignorantes as pessoas felizes, muito pelo contrário. É apenas um texto o qual tento expressar um conceito existencial sobre sentidos e sentimentos.

Imagine uma criança de uns 3 anos. Toda bonitinha, toda elétrica, curiosa, hiperativa, querendo mexer em tudo, subir em cima de tudo, etc. Ela faz isso por quê? Ela está com a consciência vazia, ainda, muito nova, está conhecendo tudo e sentindo desejos quando olha para tantas coisas, afinal, são tantas descobertas que mexem com a curiosidade. Tal criança tem seu hard disc novinho em folha, praticamente em branco, e todas as vontades de preenchimento surgem instintivamente com aquilo que se vê.

Segunda cena: imagine outra criança bonitinha de 3 anos, porém, num ambiente completamente diferente. Ela, desde seu nascimento, cresceu num quarto todo branco, fechado, e tem como diversão uma bolinha de tênis e um pandeiro. Com aqueles dois brinquedos, sem poder sair daquele quarto (mas com responsáveis ensinando a falar, e a se alimentar), passará toda sua infância e juventude com apenas uma bolinha e um pandeiro.

Qual das duas crianças têm mais chance de ser feliz? Obviamente que me responderão a primeira, pois é um crime gravíssimo que fizeram com a segunda, os direitos da criança presa foram violados, é uma tortura, ela crescerá com traumas seríssimos, etc., me darão inúmeras justificativas, e vocês me darão tais razões porque vocês sabem diferenciar as situações.

Rebato como advogado do diabo: qual das duas crianças vai chorar porque não tem tal brinquedo que viu na televisão? Qual das duas crianças vai chorar porque o amiguinho tem o novo playmobil? Qual das duas crianças vai querer um Playstation? Qual criança vai ficar chorando, berrando, no supermercado porque quer o caminhãozinho de brinquedo e os pais, intimidados, para silenciar o guri, comprarão? Enfim, qual criança vai sofrer mais?  Aonde está a tortura?

A segunda criança, trancada no quarto, que nunca viu televisão, não conhece outras crianças, não sabe da existência de outros brinquedos, de outros sons, que desconhece playstation, carrinhos e bonecas, que passará muitos anos atirando a bolinha de tênis na parede do quarto certamente não reclamará, não sofrerá, não vai pedir para os pais brinquedos novos, afinal, seu campo de visão é limitado tornando também limitados seus desejos, sua consciência e seus sonhos.

A criança aprisionada (que recebeu o mesmo carinho, colo, dos pais da criança livre, única diferença é que ela nunca saiu daquele quarto) tem mais chances de atingir a plenitude da felicidade pelo simples fato dos seus desejos serem pequenos, limitados, e crescerá sem influências do mundo externo. Você acha que ela sofre porque você sabe o que existe do lado de fora de tal quarto, você tem o conhecimento das diferenças, das culturas, idiomas, objetos, enfim, você toma consciência da existência de um mundo amplo, algo que tal criança desconhece, mas que, pelo fato de desconhecer, ela não sente falta.

Saindo do exemplo das duas criancinhas, percebo que a ignorância é um dos fatores para a atingir a felicidade plena. É comum passar na tevê reportagens onde tem lá uma família toda humilde, no meio da roça, plantando o que come, conhecendo poucos vizinhos, mas todos, sempre com um sorriso grande no rosto, simpáticos, que não pensam em mudar de vida. Vocês, das grandes cidades, conectados com o mundo, acham aquilo um absurdo!  Como pode aquele cara desdentado, com roupas esfarrapadas, que nunca saiu daquele fim de mundo, ser todo sorridente?

Ele sabe da existência de um mundo, das grandes cidades, etc., mas o medo, a insegurança, e o risco que se corre em querer “melhorar” de vida faz ele ficar na roça, limitando seus desejos que, por consequência, limitarão seus sofrimentos, e assim terão mais condições de atingir a plenitude da tal sonhada felicidade. O que é melhorar de vida, para ele, com certeza é diferente para nós.

Ampliando este pensamento, todo o histórico da humanidade foi feito com a construção de muros, fortalezas e fronteiras sociais para que suas populações não sofram com as influências externas, e assim (em alusão a criança chorando no shopping) reclamarão menos, se indignarão menos, será mais fácil controlar esse rebanho domesticado. Mas a pergunta é, será que eles são mais felizes?

Tenho muita curiosidade em conhecer dois países: Coreia do Norte e Butão. Países que se fecharam para as influências externas com o intuito de administrar seu povo. Coreia do Norte, massacrada pelo mundo, vive uma regime totalitário, sua população vive o comunismo forçado, não possui liberdade de expressão, mas não há diferenças sociais, todos usam o mesmo tipo de roupa, não conseguem sair para outros países, mas, por outro lado, não sofrem com desemprego, todos moram em apartamentos populares e, por o país ter investido muito no setor militar e na censura, domesticam a população para sentir orgulho do seu país e assim não rebelar a população contra o sistema. Será que os norte coreanos são felizes?

Já o Butão é mais festejado, afinal é o país com maior índice de felicidade. Ironicamente é o país com o visto de turista mais caro do mundo, uma ferramenta para dificultar receber influências do mundo exterior. Se não tem uma força militar repressiva, tem em princípios budistas outra forma para controlar os anseios da sua população, a partir da limitação dos desejos, e assim administram, de certa forma pacífica, mas não menos autoritária, a raiz existencial do ser humano, que é a busca pela felicidade.

Aprecio muito o Budismo. Toda sua essência gira em torno da razão pela existência e na busca de sentimentos e sensações livres de influência, assim não haverá sofrimento. Para atingir o nirvana, uma das quatro nobres verdades do Budismo é a Origem do Sofrimento, que se dá quando os desejos e as vontades em sentir prazer direcionam as atitudes do ser humano.

Ora, todos os exemplos citados, as duas criancinhas, a família na roça, os modelos políticos históricos, a Coreia do Norte e Butão têm exatamente no Desejo o ponto que se interligam, e assim foram desenvolvidas ações, sejam determinadas por um Estado ou seja de forma voluntária, com o intuito de limitar o conhecimento, fomentando a ignorância com o propósito de atingir a felicidade.

É errado prender uma criança no quarto? É, óbvio que é.  Mas você tem essa resposta porque você conhece o lado de fora. A criança, assim como os norte coreanos, são ignorantes, desconhecem o ambiente externo, têm suas consciências limitadas e, por serem domesticadas, têm mais chance de atingir a plenitude de uma satisfação, têm mais chances de serem felizes.

A família na roça optou em não arriscar sair da comodidade, e assim passam dificuldades (que julgamos ser dificuldades, talvez eles não vejam com esses olhos) menores, tem desejos menores, só querem se alimentar, cuidar da vaquinha, do bode, da pequena horta e viver assim. E quando chega um monte de extraterrestre com câmeras, cabos, carro, um monte de parafernália para entrevistar tal família, eles acham aquilo tudo engraçado, cômico, pois o diferente não é a família humilde, mas sim os repórteres e o mundo externo. Eles são ignorantes, mas são felizes. O que é mais importante?

Acrescento outro exemplo, agora do nosso cotidiano:  pedir pizza. Sabemos da existência de dezenas de sabores, mas por que 90% da população paulista repete os quatro principais sabores? Porque são gostosos, sim, está é uma resposta. Mas, além disso, porque têm medo do desconfortável, porque tem insegurança do diferente, porque limitam seus desejos para atingir uma satisfação plena, ou seja, porque ser ignorante com o cardápio na mão é menos arriscado, logo, gera menos sofrimento.

É fato que a criança livre, que deseja, sofre mais, principalmente porque desejos, na maioria das vezes, são só desejos. A criança deseja ser o Homem Aranha, escalar paredes, voar como Superman, desejam o Hot Wheels e a Barbie. Bens, dependendo do poder da família, poderão ser adquiridos, mas atirar teias e pular para o prédio vizinho serão somente desejos, e desejos causam sofrimento.

A frustração, característica do sofrimento, surge a partir da comparação com algo e a partir da tomada de consciência que tal coisa existe, mas que naquele momento, não pode ser ou não pode ter. Assim preenchemos nosso hard disc com inúmeras informações, experiências, culturas, conhecimentos, etc., que, se o perfil do indivíduo for de se alimentar por mais conhecimento, por mais informações, por mais diferenças, a tendência é tal pessoa ser infeliz porque nunca atingirá a plenitude da satisfação.

As ideias expostas neste post poderia virar um livro, quem sabe virará, mas para não me alongar neste momento, acredito que a ignorância, ou melhor, a limitação de conhecimento, é uma forma de atingir 100% de alguma coisa. Se focar algo bom, mesmo que limitado, poderá ser 100% de felicidade em passar a vida com uma bolinha de tênis, poderá ser vivendo num regime totalitário, poderá ser vivendo dentro de muros de um mosteiro, um convento, ou qualquer outra coisa que diminua seu campo de visão e conhecimento.

É possível ser plenamente feliz tendo conhecimento do que acontece no mundo externo? Sinceramente, tenho fé que sim, mas, sendo racional, acho que não dá. Porém, neste mesmo texto, trouxe “soluções” para ser feliz: criar limites, e se esforçar, trabalhar dentro deles para que, naquele espaço, seja de qual tamanho for (mas que seja limitado), você possa chegar o mais perto da plenitude, dos 100%, do preenchimento de algo.

Por que, se colocar no Google Images a palavra Felicidade aparecerá sempre a imagem de alguém de braços para o ar, ou pulando, movimentos que transmitem a sensação de liberdade? Por que isso é realizável, oras!  Porque uma parte da felicidade é não desejar, é limitar sonhos, ou seja, simplificar. E é isso que é vendido desde que a humanidade existe! Quando o Google Images colocar a foto de uma mansão com um Porsche na garagem quando eu escrever a palavra felicidade, aí terá algo de errado, pois vai instigar a frustração e sofrimento.

Porém, outro fator que destrói tudo que escrevi agora: será que, tendo a consciência de que estou limitando meus desejos com o objetivo de atingir a plenitude da felicidade, esta não é uma forma de aceitar a infelicidade? É possível ser feliz tendo a consciência que precisa ser ignorante?

Incoerente, tudo isso. Assim como a vida que também é incoerente, e quer saber?  Que bom que ela é assim!

 

Marcio Vieira


I-phode com a vida

07/10/2010

Há tempos penso em escrever algo sobre os efeitos da tecnologia na vida. Até que ponto ela oferece mais benefícios que prejuízos? Até que ponto ela é saudável?

Desde que cheguei na Suíça, minha primeira percepção é de uma população feliz… mas isolada. Não entendo nada dos critérios de avaliação que usam para elaboração do ranking de melhores cidades para se viver, há anos, Zurique e Genebra frequentam listas das dez melhores cidades do mundo.

São felizes porque a Suíça permite, dá condições de ter uma vida boa, com salário mínimo digno, férias, estudos acessíveis, transporte eficaz, segurança e saúde. De fato, motivos não faltam para o país ter níveis altíssimos de qualidade, mas a questão é: os prejuízos do excesso de qualidade.

É bom ter condições de comprar de tudo, mas é muito pior comprar sem precisar usar, ou sem saber usar. E, em se tratando de produtos eletrônicos, os prejuízos do mau uso são devastadores na vida de uma pessoa.

Durante as últimas semanas, fiz uma estimativa: de cada dez pessoas que entram diariamente nos trens e ônibus de Genebra, 4 estão com fones no ouvido. O pior é entre jovens (aparência entre 16 e 30 anos): de cada dez que vejo, 7 ou 8 estão “isolados” à sua música.

À sua música, ao seu mundo, jovens de hoje perdem a chance de desfrutar daquilo que seus pais lutaram um dia: a liberdade!, em troca do individualismo infinito fornecido pela internet. A grande rede permitiu aos jovens do mundo todo encontrar suas respectivas “tribos”, estilos distintos de música, de roupas, de aparência e de referência.

E a indústria eletrônica acompanhou isso. Acredito que o primeiro pontapé disso tudo foi o saudoso Walkman, da Sony, para escutar seus k-7 em qualquer lugar.

 

O pioneiro

 

No final dos anos 80, ser portátil era o que faltava. Mas, depois de vinte anos de uma chuva de lançamentos, novos produtos, novas tecnologias e novas dependências, vivenciamos uma vida estranha e artificial.

Criam-se todos os anos novas necessidades desnecessárias: celulares ultra modernos “all in one” são as coqueluches da vida high-tech. A cada dia, a principal função de um celular, que é telefonar, perde eficácia diante dos novos apelos consumistas: TV digital, acesso à internet, e-mail, blog, facebook, msn, mp3, mp4, mp18, 20 gigas, 50 gigas, video-conferência, Ipod,  Imac, Iphone, Iphode!

Tudo isso é legal ter, mas cuidado com a dependência que traz. Em excesso, faz mal. Tudo tem seu momento de uso. Existem momentos sociáveis do dia, como transporte público onde há oportunidade de conhecer gente nova, dar bom dia, receber bom dia, conversar, etc., mas o consumo exagerado de produtos e o isolamento que isso traz causa, também, isolamento às outras pessoas “offline” da modernidade.

Mais alguns anos, é capaz de você conversar com a pessoa do seu lado via torpedo. Vai dar  desespero no dia que você esquecer seu celular em casa, vai achar que seu dia será uma tragédia. Calma, isso é só uma algema eletrônica: a vida é muito além de seus contatos do msn e dos amigos do orkut.

E esse isolamento não é só aqui na Europa. Em Hong Kong a coisa é bem pior, e toda população asiática é completamente fechada no mundo cibernético. Nova Iorque, quem não abrir a caixa de e-mails via blackberry em pleno  horário de almoço não será eleito o funcionário do mês.

E no Brasil não será diferente, pois só precisam duas coisas: o povo ter condições de comprar (o que já está acontecendo) e a diminuição do risco de roubo, que vai diminuir, não por eficácia da segurança pública, e sim pela avalanche de produtos: todo mundo estará plugado, o que dificultará o ladrão saber qual é um original e qual é chinês mequetrefe.

Toda essa tecnologia trouxe dependências e novas horas de trabalho, de atenção. Mas o dia mantém com 24 horas, então, recomendo buscar um equilíbrio entre a vida real e a vida eletrônica.

Do contrário, repetindo a bíblica história de Adão, Eva e o fruto proibido, Steve Jobs e cia. vão I-phoder com sua vida.

 

A vida artificial de um mundo que Iphode

 


Mudanças no plano de vôo

27/09/2010

Com 70% de uma prateleira e espaço para uma garrafa na geladeira, fora o freezer e armário, as coisas vão entrando numa rotina. Aos poucos, a primeira impressão de ser uma viagem de férias vai se transformando, deixando de ser uma viagem de turismo para ser uma mudança de vida.

Eu em Birmingham (2005), escolhendo um caminho

Mudança é entrar num estado novo e perceber sensações novas. Não precisa mudar de casa e se afastar de pessoas queridas. Para mudar, basta querer. Seja por causa do desconforto, seja por causa de novos desejos.

Se estiver num outro país, num outro mundo!, mas se sua cabeça continuar pensando no que ficou, isso não será uma mudança.  Assim como posso estar onde sempre estive, se desejar mudar algo novo, um emprego, uma paixão, uma fé, basta a mudança de pensamento e de atitudes. Todos estão sujeitos à mudanças a qualquer momento e a felicidade não pode ser delimitada.

Se deixar uma criança a vida inteira dentro de um quarto com todos os brinquedos, ela estará feliz. Mas se ela descobrir, por livros, revistas, tv, etc., novas coisas, lugares, pessoas, ela deixará o “estado de felicidade” porque vai saber o que não tem, o que não é, e perceberá que a vida é feita de mudanças.

Contentar-se é se auto-mutilar. “Contente” é derivada de “Contentar”, que vem da palavra “Conter”, que significa reter, manter, bloquear, limitar. No entanto, se você nunca ficar contente e satisfeito, dificilmente gozará da felicidade momentânea.

Vôos são limitados pelos tamanhos das nossas asas, pelo tempo que conseguimos voar e por senso de direção. Se não tivermos noção do que somos, da força que temos e aquilo que conhecemos, não adianta nem voar. Quer dizer, adianta sim, e muito, para perceber o que precisa ser melhorado nas nossas vidas.

Querer melhorar significa que você tomou consciência de alguma coisa. Se o seu patrão está afiando o machado ou sua bóia está murchando, é sinal de que algo precisa ser feito antes de morrer.

Se rugas e gorduras estão aparecendo, cabelos caindo, estresse acumulando, dinheiro fugindo, apatia e conformismo surgindo, é sinal que algo precisa ser feito. E se você já consegue se olhar/visualizar/prever como estará daqui vinte, trinta anos, está na hora de mudar o plano de vôo. Não disse “sonhar”, disse “prever”.

Qual é seu plano de vôo?

Planos de vôo são feitos antes do avião decolar. Nele há horários, posição global, tempo, tudo pré-determinado. Se você entrar num determinado avião, saberá para onde irá, que instruções receberá, o que poderá levar, o que não poderá fazer, e até o que vai comer, tudo antes de partir. Ah, você saberá, também, quando chegará no destino.

Aviões e vidas são iguais, nisso. Por isso devemos dar importância à tempestades, tufões, nuvens negras. Elas existem para mudarmos algo na vida, não tenho fé que “mensagens divinas” determinam nossa vida, que a vida já está escrita e não podemos mudar nada, que devemos aceitar as condições e imposições dos “superiores”.

No entanto, acredito sim que “mensagens divinas” possam ser sinais para que haja uma reflexão acerca do caminho que estamos seguindo. É aquela máxima, “não diga que não avisei”.

Tem gente que prefere um vôo seguro. Eu não encontrei graça nisso e optei em voar pelo desconhecido. É a forma que encontrei para atingir um tipo, dentre milhões, de felicidade. Ter uma interrogação na testa, para mim, é desafiador. Dentro das dificuldades há sentimentos belíssimos que devem ser explorados porque o corpo é feito de diversos lados.

Como um albatroz

Como um albatroz, voando no alto, que, de repente, mergulha no mar: ele mergulhou para pescar, comer, sobreviver. Ele desce, se molha, se arrisca, pois sabe que precisa se alimentar para ter forças de voar mais alto e mais longe.

Pode não ter sucesso nas “pescarias”, mas ele sabe voar, aprendeu a mergulhar dentro de sentimentos e dificuldades. Se aparecer uma tempestade ou um lindo pôr-do-sol, não terá tanto medo em fazer uma mudança no plano de vôo. Restringir a vida aos planos pode, também, atrapalhar sonhos.

Tudo isso para dizer: “felicidade é um caminho, e não um destino”. E estou muito feliz em caminhar, quer dizer, em voar!