Mais gerúndio, por favor

28/12/2013

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Ano acabando, ano começando. Olhar pra frente, olhar para trás. Lembrar, planejar.

Final de ano é a época de fazer um balanço de tudo que aconteceu, o que não aconteceu, o que não era para acontecer, o que deveria ter acontecido e o principal: o que está acontecendo.

Está acontecendo a vida, e ela é divina. E um dos planos que tenho para 2014 é viver no gerúndio. Tem gente que odeia o gerundismo, principalmente àquele vindo de operadores de telemarketing, mas o Gerúndio é sensacional porque ele é uma ação contínua no presente, e ano que vem quero muito gerúndio!

Quero mais vivendo, aprendendo, ensinando, realizando, sonhando, criando, lendo, ouvindo, falando, entendendo, respeitando, viajando, desenvolvendo, melhorando, transformando!

Evoluindo! Ter a consciência que há muito ainda para descobrir, aperfeiçoar e melhorar.

Amando! Porque é o amor um sentimento tão nobre, tão forte, que deve ser espalhado de forma universal, sem olhar. Amar quem gosta é fácil, agora amar quem é diferente, amar quem não gosta, este é o desafio.

E que mais verbos sejam conjugados na terminação +NDO, afinal, são as ações do Presente que lembraremos no Futuro no momento que elas forem o Passado.

O Momento presente é inevitável! O que está acontecendo agora é inevitável, já que foi o passado que nos fez chegar até aqui, e passado, também, não se evita.  Aliás, passado deve ser feito para sorrir, independentemente de quais sentimentos tal passado provocou.

E é exatamente isso que recomendo para todo mundo: dar mais atenção ao que está acontecendo.  Dar mais atenção ao momento de agora pois esse momento é lindo e único.

O presente não vai se repetir. A folha que caiu árvore, não cairá mais. Nascerão outras no seu lugar. O ar que respirou, não será mais respirado, aquele oxigênio virou gás carbônico porque tudo se transforma no agora.

Meu 2014 será no gerúndio, atentando-se ao momento que ocorre, que se sente,  que se quer, que se vive.

É o Presente que me transforma, que te transforma, que nos transforma.  E o momento Presente foi dado, como presente, para nós, e devemos ser gratos. Agora é aproveitar a oportunidade.

Não ficar preso ao passado, nem criar expectativas demais sobre o futuro porque o futuro, sempre!, é o resultado das incríveis experiências do presente.

Costumo dizer que sou a minha própria cobaia, é assim que caminho, e é assim que faço minhas pegadas no chão, porém, o chão também me marca.

Mais cuidado com as ações contínuas, mais carinho aos momentos. Que 2014 tenha mais gerúndio, por favor.

Marcio Vieira


Mulher de Fusca

23/07/2013

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Em tempos de administrar um carro antigo, minhas atenções triplicaram nas ruas para ver outros antigos. E se tem alguma coisa que me tira de sintonia, instantaneamente, é ver uma mulher dirigindo um Fusca.

Não esses modelos novos, cheios de tecnologia que custam uma fortuna.  Fusca mesmo, o original, verdadeiro e único: o Fusquinha. E comecei a imaginar como são tais mulheres, o que elas fazem, o que elas pensam…

Mulher que dirige Fusca antigo atingiu um nível superior na evolução da espécie humana. Ela demonstra segurança, bom gosto, educação e peculiar sofisticação. Se falar francês, então, é um verdadeiro xeque-mate em qualquer homem.

Mulheres são sensoriais, e todas transmitem com gestos parte de suas personalidades, mas a mulher que dirige Fusca e fala francês é de uma inteligência ímpar que, ao entrar no mundo masculino do automóvel, foi sutil e elegante ao escolher o que há de mais charmoso: o Fusca.

girlfusca1Ele não é rápido, não é seguro, muito menos econômico. Mas é gracioso! Tem áurea! Ele quebra, nele se passa calor, mas seus parachoques e calotas cromadas fazem o carro brilhar, e que mulher não gosta de brilhar?  Pois então, sábias estas que dirigem Fusca.

Mas é um brilho diferente e único. Mulheres que dirigem Fusca e falam francês não buscam destaque: buscam “Ser” ao invés de “Estar” e, sem intenção, acabam dando um tapa de luva de pelica no consumismo feminino e na ambição desenfreada que só causa ansiedade.

Mulher que dirige Fusca e fala francês possui valores próprios, sólidos e impenetráveis, e que não adianta você, pobre homem, tentar mudar.  Deve-se apreciar. Elas são raras.

Mulher que dirige Fusca e fala francês é culta. Comentará de bons livros e das melhores uvas. De queijos e viagens, mas também vai ter aquele toque especial de descobrir pechinchas e oportunidades, assim como apreciará convites para comer ceviche no centro da cidade ou andar de bicicleta num domingo qualquer.

Ao abastecer o pequeno besouro, além de receber merecidos elogios pelo carro, trocará figurinhas, dicas com o frentista que tem (ou teve) também um Fusca.  Empatia aguçada tem as mulheres que dirigem Fusca e falam francês. Conversa de tudo e com todos, tratando o porteiro do prédio ao presidente da empresa da mesma forma atenciosa e simpática.

É como água, de fácil adaptação. Entra no botequim para pedir um pão com queijo-minas com a mesma discrição e humildade ao entrar numa reunião de negócios. Espalhafatosa, isso, elas não são.

No entanto, ela não vai te chamar para ir num pagode, muito menos sertanejo. Nada contra esses estilos de música, mas é que mulher que dirige Fusca e fala francês gosta de música boa, rapaz! Se você gosta de barulheiras, traga algo diferente que certamente ela terá curiosidade em querer escutar e, mais ainda, terá uma sinceridade incrível de opinar sobre aquilo que escutou.

Porque mulher que dirige Fusca e fala francês tem sede, insaciável, de aprender. A feira dos imigrantes bolivianos à meditação indiana, assim como a Sala São Paulo e qualquer importante exposição, ela vai querer estar lá.

DSC_0443Essas mulheres que dirigem Fuscas e falam francês são custosas, mas o investimento compensa. Esqueça Los Angeles, esqueça Miami. A viagem com ela será para Estocolmo com uma esticada até Moscou, mas não será surpresa se ela vier com a ideia de mochilar na Patagônia ou alimentar gorilas no Quênia.

Porém, serão muitas as vezes que a balada será no supermercado para preparar algo bom e barato, e assistir um filme. Mulheres que dirigem Fusca e falam francês dão muito valor ao dinheiro que tem, guardam para gastar bem. Elas sabem qual vinho está com bom preço mas, entre legumes e produtos de limpeza nas sacolinhas do supermercado, sempre terá também aquele pedacinho de queijo Maasdam.

Surpreender é o que a mulher que dirige Fusca e fala francês sabe mais fazer, mas ela não faz isso artificialmente. É algo da personalidade que transparece em tudo que faz. É precisa, cirúrgica e sutil nas escolhas e no jeito de levar à vida, e o resto da sociedade tem que entender a superioridade delas, aceitar e, se for inteligente, apreciar o que elas são.

São cheias de personalidade, as mulheres que dirigem Fusca e falam francês. São seguras até para dizer, de forma pura e objetiva, que estão inseguras por alguma coisa ao requisitar um colo.

E gostam de participar da vida de seus carros que, obviamente, tem nome e assim são tratados. Em pouco tempo aprenderão o que é um carburador e como deixa-lo regulado. Saberão guardar aquela lixa de unha para limpar o platinado e terão uma delicada caixa de ferramentas, que raramente serão utilizadas porque essas mulheres sabem conservar seus Fuscas de forma exemplar.

girlbeetleConservar, aliás, é palavra-chave na vida das mulheres que dirigem Fusca e falam francês. Querem (e conseguem!) ter tudo e todos em sintonia, porque o tempo, para elas, é fundamental. O tempo determinará escolhas, já que essas mulheres que dirigem Fusca e falam francês têm coisas e opções incríveis para aproveitar tal tempo.

Elas demorarão 10 minutinhos a mais por causa do Fusca. Mas são sábias porque esses dez minutos, na verdade, elas estão ganhando. Em viver e apreciar cada momento que o Fusca proporcionou.

O Fusca, ou qualquer outro carro antigo que esteja nas mãos de uma mulher, o que para as pessoas próximas foi um ato de rebelião, de nadar contra a correnteza da mesmice, foi a forma encontrada de expressar o Poder de Escolha, principalmente às mulheres, historicamente reprimidas.

A escolha Fusca está longe de ser porque é o  mais caro ou o mais luxuoso. Mulheres que dirigem Fusca e falam francês não estão preocupadas com o que os outros vão pensar, pois só querem, mesmo, é realizar aquilo que sempre desejaram, mas que a sociedade, por muitas vezes, empurrou para ser mais uma dentre milhares.

E ser só mais uma, as mulheres que dirigem Fusca e falam francês, é algo que elas nunca serão.

Ainda bem.

Marcio Vieira


A Mostarda Atômica

13/06/2012

A Super Mostarda Atômica!!

Poderia ser um desconhecido vilão de algum superherói de uma história em quadrinhos qualquer publicada no outono de 1941 que, agora, volta num filme 3D para aterrorizar com jatos de mostarda nucleares uma metrópole estadunidense. Passaria despercebida a Mostarda Atômica? Quem poderá detê-la? Quem salvará pobres gordinhos indefesos da junk food society?

Mas não, Mostarda Atômica não causa problema para ninguém, embora seja parente da Doce Loucura, além de ser vizinho do Plano Perfeito. Me belisca, caramba! Todos estes vivem em certa harmonia nas prateleiras das farmácias tupiniquins.

Quem em sã consciência batizou uma cor de esmalte de Ventinho Bom? Ventinho, desde quando, tem cor? E que tipo de drogas consumiram aqueles que, depois de exaustivas reuniões, decidiram dar o nome para outra cor de esmalte de Pirlimpimpim. Pirlimpimpim!?!? Não é à toa que Pirlimpimpim fica ao lado do Duende, tanto na prateleira, como no site do fabricante.

Uma ingênua ida à farmácia para comprar remédios de gripe se tornou em diversão pura!  Marketeiros dos esmaltes, realmente, se superam. Porém, pensando não tão distante, recentemente comprei um produto de limpeza multi-uso com a incrível fragância “Chuva de Alegria”.  Comprei mais para saber que raios de cheiro tem uma chuva de alegria. E tão contraditório, aqui mesmo na República do Kassabestão, quando qualquer chuva causa uma desgraça assustadora no trânsito da pauliceia.

Mas se for com Chuva de Alegria, as pessoas ficaram felizes, ora!  Ainda mais se as mulheres utilizarem a incrível cor de esmalte Divirta-se! Cacete, Divirta-se prejudica a imagem da mulher, vão achar que a guria é “facinha”. Não, não, para mulheres mais suscetíveis, existe a cor Deixa Beijar!

Alguém sabe se existe algum curso para identificação das cores de esmaltes? Olha que essa será uma grande vantagem na hora do cabra analisar sua parceira para acasalamento. Vai ficar mais fácil associar o nome da cor do esmalte com a personalidade da fulana.

Porém, cuidado com os marketeiros desses produtos de consumo rápido. Tem muito produto que engana o consumidor! Eu, por exemplo, usava, até pouco tempo, shampoo para cabelos rebeldes. A rebeldia deles era tamanha que foram todos embora, catzo!  Antes, tinha tentado gordurosos para eles emagrecerem e ficarem saudáveis, tentei para quebradiços, também para ralos, porque estavam acumulando no ralo. Fui até de shampoo para cabelos danificados, e nada de resolver meu problema!!

Eu me arrependo de não ter experimentado o shampoo para cabelos blindados!  Blindados, meu Deus!!! Pra quem vai para guerra nas baladas, shampoo para cabelos blindados é o que há de melhor!! Só o shampoo para cabelo normal eu nunca tentei. Afinal, com tanta opção, só compra shampoo para cabelos normais quem tem autoestima suficientemente elevada.

Em resumo, o batismo de novas fragâncias, novas cores, novos sabores, etc., estão deixando cada vez mais confuso o consumidor. É igual pedir pizza: hoje o cardápio tem tantos sabores que você acaba pedindo a pizza “tanto faz”. Enfiaram pizza de hot-dog no cardápio, e tem louco que se arrisca a comer esse troço!

Com tanta esculhambação dos últimos anos, bateu uma saudade do Henry Ford, que dizia: “você pode escolher a cor do carro, desde que seja preto”.


Novos tempos na Boca

14/05/2012

– Dimiui a velocidade, Vagner. É na próxima rua à direita, ande uns 50 metros e pare. – Disse Alberto.

– Tem certeza que é tranquilo? Lugar tenso, esse!

– Desliga o farol, cacete. E sem buzinar.

– Foi mal. Estou me cagando, porra.

– Relaxa, é rápido e a gente cai fora. O Nego Lau é aquele ali que já vem na nossa direção, junto com dois seguranças. Um eu reconheço, é o Negueba. O outro não sei quem é.  Não desliga o carro. Se der zica a gente sai rasgando.

Laurindo, 32, cresceu rapidamente nos últimos meses. Antes de se tornar o respeitado Nego Lau por toda favela, apenas era um intermediador de pequenos papelotes de droga para jovens da classe média. Visionário, trocou as drogas por sacolas plásticas logo no início das novas leis de circulação e distribuição de sacolas plásticas, montando com eficiência uma rede de infiltrados nas principais redes de supermercados do país, e parcerias no tráfico com outros estados, principalmente o Rio de Janeiro.

– E aí, Nego Lau, beleza? Eu sou o Alberto, que já vim comprar com você algumas vezes.

– Suave. Esse branquelo aí, quem é? – Perguntou Nego Lau.

– É o Vagnão. Tá na família. É ele que quer comprar hoje. – Respondeu Alberto.

– Nego Lau, tu tu tudo bem com você?

– Suave. Vai querer de qual, branquelo?

– Vo vo vo… que que querer… qual que vo vo você tem?

– Porra, é gago essa porra? Tira a piroca da boca, cabaço. – Atravessa, na conversa, o segundo segurança do Nego Lau, o Ratão.

– Foi mal. Ele tá nervoso, pessoal. – Respondeu Alberto, defendendo o amigo Vagner.

Vagnão, qual você quer: da brasileira, francesa ou americana? – Continuou.

– Não sei. É a primeira vez que compro. Qual você acha melhor? – Vagner falou baixinho para Alberto.

– Nego Lau, qual tá num esquema firmeza hoje?

– Parceiro, pro novato aí, melhor começar com uma nacional, tipo Extra. Sabe como é, a vizinhança num nota muito, o lixeiro nem percebe, zelador, porteiro, ninguém vê. É só ficar na miúda que não vai ter problema.

– E a do Pão?  Você tem? – Pergunta Alberto para o Nego Lau.

– Do Pão é publico A, coisa mais seleta, tá ligado. Tem uns playba que vem comprar da Pão, umas peruas que se acham ricas emergentes só por pilotar  Tucson, tá ligado, essas aí só querem se mostrar.  Mas depende de quanto você quer que nóis arruma.

– A francesa também é bacana, né? Descobri só nesses dias o que significa aquele símbolo.  Um “C”!! Acredita, Alberto? Achava que era um monstrinho de chapéu. – Comentou Vagner.

– Hoje não tenho Carrefa, mas se quiser descolo pra amanhã.

– Tão rápido?

– Tenho uns truta infiltrado, é esquema profissa. Ontem chegou pra mim do Wal Mart. Tá no preço.

– Quantas vo…você vende? Que…quero umas cem pr pra esse mês. – Disse Vagner, que não consegue esconder o nervosismo com a negociação com o traficante.

– Vagnão, fica sussa. Nego Lau é da paz. Só não atravessar no trabalho dele.

– Isso aí, Parsa. Sem fuder nóis, firmeza? – Responde o segurança Negueba ao que Alberto disse.

– Ow cabaço, cem sacos é muito pra você. Depois você não se segura prus Polícia e ferra todo meu movimento. Essa parada de tráfico da sustentabilidade é o futuro para os traficantes, e não vou rodar justo agora que tá na moda ecologia, garrafa verde, sacola verde, grama verde, plantinha verde, tá ligado. Pega umas trinta só e depois nóis troca ideia mês que vem. Trinta por dez real, demorô? – Sugeriu Nego Lau.

– Tá bom o preço, Vagnão. Vai por mim que é coisa boa.

– Se virá bom cliente, tem até Santa Luzia. Coisa de magnata. Tá ligado onde é a fita?

– Nos Jardins, sacola bacana essa. Quanto tá saindo?

– Levando essas do Extra, só posso te passar duas agora. Tem muita procura pelos bacanas. As dondoca pira nessa sacola. É dois real cada, da simples. Essas madames tremem pra vir aqui na quebrada, e quem vem buscar é tudo motorista, ou marido corno, tudo dirigindo Beême, Land Rover. Nóis vende pra todo mundo, tá ligado.

– Vou querer duas, por favor. Mais as trinta do Extra.

– Também vou querer duas do Santa Luzia, Nego Lau. – Pede Alberto.

– Peraí que a gente busca.

– Negueba, vai buscar a mercadoria. Faz um pacote pros chegado aqui, é primeira compra do branquelo.

– Pode deixar, chefe!

E entrou num beco, rapidamente, Negueba, deixando Nego Lau apenas com o Ratão de segurança.

– Beto, meu velho!! Animal a sacola da Santa Luzia! O Nego Lau é o cara! Vai ter churrasco no prédio de uns amigos, vou chegar com a cerveja numa dessa. A galera vai pagar um pau enorme! – O entusiasmado Vagner comenta com o amigo.

– Não te disse que o cara é sangue bom. Mas fica na quieto por enquanto, Vagner. Tráfico de sacolinha de supermercado é crime pesado, e não quero escutar lição de moral que eu financio o tráfico de sacolinha. – Alberto faz um alerta à Vagner

Três minutos depois, volta o Negueba com um pacote, entregando-o para o seu chefe.

– Aí rapaziada, tá aqui a mercadoria. Quando quiser mais, é só colar. – Nego Lau entrega as sacolas plásticas para a Alberto, que cumprimenta o traficante.

– Valeu Nego Lau. – Agradece Vagner.

– Fica suave, e qualquer treta, nunca vi vocês.


Boteco que se chama boteco não é boteco

08/05/2012

A primeira regra na vida de qualquer ser humano, na forma adulta, é entender que “Boteco que se chama Boteco não é boteco.”

Boteco é uma palavra tão grandiosa que, correto também está escrever buteco, com “u” mesmo. Porém, há cerca de uma década e meia começaram a elitizar uma das palavras mais populares da língua portuguesa, transformando-a em locais onde a nobreza quer ser espartana, onde colocam seus i-phones sobre a mesa de madeira da Bohemia, onde penduram na cadeira bolsas que custam ao menos quatro dígitos antes da vírgula e discutem sobre a diferença de preços do Brasil com relação aos outlets estadunidenses.

Botecos que se chamam botecos são obrigados a ter picanha no aquecedor francês, uma boa variedade de queijos alpinos e frutos do mar dourados, sem esquecer, obviamente, daquele chopp cremoso com metade do copo só de espuma custando a bagatela de 6 reais.

Botecos que se chamam botecos têm como objetivo fazer os mais abastados, aos sábados, comerem feijoada de 59 reais por pessoa no buffet, incluindo a farofa e a laranja dividindo o mesmo prato. É para aquelas moças bonitas cobertas por uma malha de lã de carneiros poliglotas do norte da Escócia tirarem a foto e publicar no Facebook, sob o seguinte título: “Nesse friozinho, delícia de Feijoada!”

Para ir em botecos que se chamam botecos, deve-se colocar àquela camisa pólo com vários bordados e um número gigante, e o homem que não usar a meia soquete escondida no sapatenis bege desbotado pagará um mico gigantesco, que não adianta nem ter coragem para conversar com a guria que enfiou a calça jeans para dentro da bota de montaria.  Ah, e jogue fora essa corrente prateada! Já passou a moda de penduricalhos gritantes, rapaz! É chique ser minimalistamente arrumado, benhê!

Quando te convidarem para ir no boteco que tem boteco no nome, prepare o bolso. Tanto que hoje faz parte inserir no convite aos botecos que se chamam botecos, informar que tem cerveja de garrafa, assim há botecos que se chamam boteco para quase todas as classes, à todos poderem beber sem peso na consciência de rasgar dinheiro.

E para o outono-inverno, convidar as amigas para uma sopinha no boteco que tem boteco no nome faz parte da programação. É obrigatório, afinal, suportar 15 graus positivos, um friozinho e tanto, para postar no Face, mostrando o cachecol mais peludo que o Garfield. São só vinte reais o manobrista, fora o trânsito nos arredores, mas com aquele aquecedor de botijão ao lado da mesinha de madeira, fica tudo muito charmoso, ideal para planejar a ida à Campos para um vinhozinho.

É preciso tirar do armário aquelas blusas de frio, oras!  São investidos centenas, milhares de reais para dois meses de friozinho. É necessário mostrar como ser fino no boteco que se chama boteco do Itaim Bibi ou Vila Madalena. Aliás, todo boteco que se chama boteco tem, no complemento do nome,  santos e santas. Se for o Boteco Santa Fulana, prepare pela facada no bolso!

Enquanto isso, no buteco que se chama Lanches Odair, Bar do Almir ou no Restaurante Vila Joaniza, eles não querem se chamar de buteco, mas sabe que são. As mesas de plástico, a parede repleta de Velho Barreiro e o cardápio de uma folha só, bem diferente daquele de couro do Boteco Santo Luxo, já demonstra tudo.

Buteco tem um piso qualquer, de preferência de cor escura, muito diferente do quadriculado Boteco Santa Requinte, o qual duvido que o garçom tira a bandeja de torresmo e pede para você escolher, ou que faça X-Salada ou X-Churrasco com Vinagrete. Buteco faz qualquer coisa das seis da manhã à meia-noite, e a feijoada custa R$14,90.

Marcio Vieira


É só um centavo

27/04/2012

– CPF na nota?

– Hoje não, é pouca coisa.

– 12,99. Dinheiro ou cartão?

– Dinheiro.

– Seu troco: dois reais.

– Faltou um centavo.

– Desculpe, não tenho. É um centavo só.

– Mas eu quero meu troco certo.

– Tome cinco centavos, então.

– Mas eu não tenho quatro centavos para te devolver.

– Não precisa.

– Você não tem nenhuma moeda de um centavo?

– Faz anos que não vejo uma dessa.

– E por que vocês pedem 99 centavos se nunca tem troco?

– Todo lugar cobra esses valores com final em 99.

– Mas ninguém recebe o troco exato.

– O Seu Joaquim tem no caixa ali da padaria em frente um monte de moeda de um centavo que foi guardando durante os anos. Ele troca uma dessas por moedas de cinco centavos. Ele ganha 500% em cima. Baita investimento.

– Mas é só um centavo.

– Então por que você está me cobrando?

– Porque é meu troco de direito.

– Mas é só um centavo, não é?

– É, mas agora eu quero os cinco que você ia me dar.

– Você me devolve quatro centavos?

– Não tenho.

– Concorda que eu serei mais prejudicado que você? Você só vai perder um e, eu, serão quatro centavos de prejuízo!

– Então porque você me ofereceu cinco centavos?

– Porque são apenas cinco centavos. E essa moeda eu consigo pedir no banco.

– E por que você não pede algumas moedas de um centavo?

– Porque acho que não existe, caramba!

– Acha, ou tem certeza que não existe?

– Não sei, nunca pedi.

– Então por que você cobra os produtos terminando com 99 centavos?

– Porque o preço fica mais bonitinho, chama a atenção do freguês.

– Mas você disse que não existe o um centavo.

– Também não existe essa fração que postos de gasolina cobram. O litro custa 2,699. Vai pedir para eles quebrarem em dez partes a moeda de um centavo.

– Mas você acabou de me dizer que não existe mais moeda de um centavo para eu dividir.

– Existe sim, o Seu Joaquim tem um monte, acabei de te falar.

– Mas não vou pagar cinco centavos por uma moeda de um centavo.

– É irrelevante um centavo.

– Concordo. Mas por que não matam de vez essa moeda?

– Ela já está morta, só não enterraram.

– Mas tem um monte de gente ganhando esses centavos de troco sem a população perceber.

– Brasileiro não dá valor para moedinhas.

– Então você vai arredondar o valor?

– Não.

– Por quê?

– Senão eu não consigo vender, é uma forma de enganar a mente humana, li numa reportagem um troço desse que falavam.

– E você quer me enganar?

– Não, te ofereci cinco centavos, caramba.

– Mas só porque eu pedi o meu troco. E se eu não pedisse o um centavo?

– Eu não te daria, oras.

– Então você me enganaria. Enriquecimento ilícito! Estelionato! Vou te dedar para o governo!

– É… mas você também engana o governo. Você não pediu o CPF na nota.

– Mas custou 12,99. Não compensa o tempo digitando CPF, é merreca que vou acumular, nunca soube de ninguém que ganhou esses prêmios que falam que existe.

– E não é merreca o um centavo de troco?

– É, mas é meu.

– E por que você não dá o seu CPF pra mim?

– Eu não, dizem que o fisco interliga as contas, e depois o leão vem atrás de você e crau.

– Mas é dinheiro seu, oras, que, aliás, você me “ajuda” quando não pede CPF na nota, assim meu contador consegue montar o balancete.

– Então você está me enganando de novo?

– Não. Perguntei se você queria o CPF na nota.

– Se eu não quiser a nota, você me dá esses quatro centavos da diferença.

– Pode ser

– Pode ou será?

– Será.

– Acertados?

– Mas estamos nos enganando, e enganando o Brasil. Não é correto pagar 12,95 por um produto de 12,99 para te deixar na informalidade.

– Ah, o Brasil nos engana com essa moeda de um centavo que não existe mais. E deixa ainda os postos de gasolina cobrarem 2,799 o litro, uma terceira casa dos centavos que não existe!

– Você já pediu no banco e foi recusado?

– É perda de tempo. Nunca pedi.

– E como sabe que não existe mais? O Seu Joaquim tem, oras.

– Mas ele é um português pão duro que guarda essa porcaria há anos.

– O muquirana fez 500%.

– Mas são só cinco centavos de lucro.

– Tem razão.

– Então você não quer mais os cinco centavos?

– Não, não mais, mas devolve o dinheiro porque vou pagar no cartão de débito, e quero CPF na nota.

– Ok.

– Vou querer também esta trufa aqui. Quanto custa?

– 1,99.


A maior invenção da humanidade

25/04/2012

Até ontem eu considerava o vaso sanitário como a maior invenção da humanidade. A privada é incrível, basta apertar um botão e, num passe de mágica, fazer sumir, literalmente, toda merda que acumulamos. Destaco também a invenção do elevador e do lacinho lateral que amarra a parte de baixo dos bikinis como as grandes invenções. Até ontem…

Até ontem, quando dez Davis enfrentaram onze Golias numa arena com cem mil pessoas na expectativa de ver o tão costumeiro massacre dos anfitriões. O cara que inventou o futebol é um grandíssimo filho da puta! (Em tempo: grandíssimo filho da puta é um elogio supremo, dado à poucos, no meu humilde e contraditório vocabulário)

Como pode o futebol permitir que os gigantes, do possível melhor time da história, amargar a derrota dentro de casa?  Como pode o Barcelona, o ápice do futebol arte, ser eliminado?  Que incrível é o futebol, que permite a injustiça, e muitos comemorar sua existência!!

O espetáculo ontem, não foi ver o futebol-pimball de toques rápidos e envolventes do esquadrão de Guardiola. O espetáculo foi ver que gigantes são, porque não, humanos. Ontem ficou comprovado, embora milhares ainda teimam, que Messi é terráqueo.

A arte sempre será arte. Não vi Hungria de Puskas sucumbir, não presenciei a Laranja Mecânica, e não vi o selecionado tupiniquim de Telê Santana, mas vi o time do Barcelona jogar. O palco é de todos, no futebol, dando espaço para injustiças serem justas.

Essa é a graça do esporte bretão de 150 anos. Essa é a paixão que justifica um pequeno clube paulistano chamado Juventus se vestir em cores da rival Torino. Essa é a paixão que permite ter um River Plate no nordeste, um Santos no México, um Corinthians no Brasil.

Futebol deveria ser uma palavra feminina, pois tanta beleza, tanta paixão, provocação, amor, raiva, choros, sorrisos, só grandes mulheres inflam tais sentimentos no coração dos homens, pobres e cegos apaixonados seres limitados. É por isso que muitas mulheres (as pequenas) insistem em rivalizar com o futebol, em crises de ciúme por ter a atenção dividida por causa de uma bola.

Injustificável sentimento de uma paixão não correspondida. O futebol é sacana, engana e, quando acha que a previsibilidade atuará, que o Barcelona goleará, vem os Deuses da bola e mudam o curso da história.

Até ateus acreditam na divindade futebolística. Foram eles que desviaram o chute do melhor do mundo no pênalti perdido! Malditos que não permitem a eternidade da arte!

Mas como toda arte, o futebol também é subjetivo, de interpretações múltiplas, e a arte de ontem foi um time sem zagueiros (um expulso e outro machucado, logo no início do jogo) eliminar o time das goleadas e da beleza plástica. Se Michelangelo fez arte a partir de uma não bela Gioconda, o Chelsea pode construir uma obra prima, não bela, na terra de Gaudí. O mundo não é feito apenas de Gisele Bündchen. Pelo contrário. Ainda bem!

O Anti-jogo é arte, Arte da Guerra que Sun Tzu explicou. Cada um luta com as armas que possui. Encenar é arte, e Drogba pode fingir suas dores num grande palco. É o máximo que alguns Davis poderiam fazer, pois se lutassem de igual para igual, o time londrino seria engolido pelo Barcelona.

Cruel, o futebol, que permite gols em contra-ataques. Apaixonante futebol, que encobre a razão e a superioridade num toque sutil de Ramires. Futebol que alimenta as minorias, os pequenos Davis, na esperança do impossível, do imprevisível e do injusto, acontecer. E às vezes ele acontece, e a graça está nisso: se a injustiça for frequente, o futebol deixará de existir.

É por isso que existirão dias de Paysandú no La Bombonera, de Chelsea no Camp Nou ou do Uruguai no Maracanã.

Há dias que eu odeio amar o futebol, e outros dias que amo odiar o futebol. Mais raros são os dias, como ontem, em que amo amar o futebol, a maior invenção da humanidade.


Ok, vamos combinar!

27/12/2011

Todo natal é a mesma coisa de forma diferente. Família de sangue reunida por uma noite e um almoço, esquecendo, por tais horas, a família por opção, daquelas pessoas que conhecemos e escolhemos durante a vida.

E família é tudo igual, só muda o endereço, dizem os saudosistas. E com razão, sempre tem aquela tia dondoca casada com o tio boêmio, e são nesses momentos de família reunida que entendemos o motivo conjugal para o tio beber.

Sempre tem aquele primo “pegador” das baladas perdidas, que conta vantagem de tudo que faz, quantas mulheres pegou na última semana, enfim, o verdadeiro (pelo menos para ele) artilheiro do amor.

Opiniões acerca do novo namoradinho da prima, que a família não percebeu ainda que ela já saiu dos dezoito, vão existir só para deixar a coitada da menina envergonhada diante da parentada que pouco vê durante o ano.

Tem sempre as fofocas, os mal-me-disse entre os familiares, sempre querendo apontar o dedo para quem acham que está na merda, só porque resolveu escolher propósitos de vida diferente.

Essa disputa pelo poder, pelos louros de ter o filho mais bem sucedido, ou de chegar de carro novo sem tirar os plásticos nos bancos só pra mostrar a novidade para aquele seu primo. Essas picuinhas no 25 do doze enchem o saco, não só do São Nicolau.

Mas até aí entende-se, pois dentro da família de sangue todos querem dar seus pitacos na vida do outro. Acham-se no direito disso, sem conhecer de fato o que se passa do outro lado, ainda mais dentro daquelas famílias que se reúnem geralmente naquela quantidade de pessoas, no máximo, três vezes ao ano (páscoa, natal e mais alguma outra)

Mas há o lado positivo dessa reunião: e se chama vó. Esta é a personagem principal de qualquer natal. É ela que faz questão e cozinhar, de fazer o pudim de sobremesa, de ver a algazarra dos netos e bisnetos.

O natal é feito para as avós e avôs. Esquecemos o resto da família, esquecemos rusgas e briguinhas infantis entre os pertencentes do clã. O natal gira em torno do que os mais velhos desejam, que querem ver todos ali, e há de se respeitar isso. Ainda mais que nunca se sabe se aquele será o último natal que eles passarão conosco.

E o bordão natalino mais comum de se falar não é a piadinha tosca do pavê: o mais repetitivo é o tal “vamos combinar” que um diz para o outro durante esse encontro no final do ano.

Vamos combinar um almoço que nunca é marcado porque sempre a vida é uma correria.  Vamos combinar uma viagem que nunca é agendada porque o chefe não vai liberar. Vamos combinar de tomar um chopp na Vila Madalena. Vamos combinar de ir ao estádio, somos Corinthianos, maloqueiros e sofredores!

Vamos combinar de se ver mais no próximo ano. E isso nunca é feito. As mesmas promessas de organizar melhor a vida são ditas, e quase sempre, nunca cumpridas.

“Vamos combinar” é uma forma de dividir a responsabilidade com o outro que a família sanguínea está cada dia mais distante.  “Vamos combinar” serve para falar que a culpa não é só minha de ver seu familiar apenas em eventos que não enchem os dedos de uma única mão.

“Vamos combinar” é deixar no vazio, em aberto, um dia o qual farei algo pela família. Ao invés do “vamos combinar”, por que não se aproveita o evento natalino e já agendem um dia para fazer tal coisa?  Troquem o vamos combinar por está combinado!

“Vamos combinar” é torturante, às vezes falso, é também desgastante, porém, depois de tantos vamos combinar que foram escutados e ditos na vida, já se cria uma expectativa que aquilo não vai ser cumprido, só estão falando por falar, jogando palavras ao vento, talvez pela falta de assunto ou falta de familiaridade com a própria família.

Enquanto isso, a família por escolha, àquela dos seus amigos que dividem a mesa de bar com certa frequência, dividem o sofá de casa jogando xbox enquanto as respectivas ficam na cozinha fofocando, àqueles que te ligam para assistir o jogo lá no bar ou se auto-convidar telefonando  “estou chegando com uma caixinha de cerveja, quer mais alguma coisa?”, àqueles que falam “vamos num carro só, estou passando aí em 15 minutos”, a família dos amigos que por três ou quatro eventos no ano são esquecidas no natal, apenas recebem um torpedo coletivo ou, no máximo, um telefonema de 4 minutos.

Mas, por serem tão amigos, os amigos relevam, não se apequenam por serem preteridos porque sabem que o mesmo está acontecendo na casa da tia fofoqueira, aonde você está acontecendo as festividades deste ano, agendada há exatos 365 dias.

Porém, mesmo não estando com amigos que te conhecem mais que a própria família, há de se pescar coisas engraçadas e positivas durante o natal. A cara do sobrinho contando dos presentes deixados pelo Papai Noel, a cara de “que bosta” daquele primo que ganhou um jogo de Lenços Presidente da tia-avó, a cara de tanto faz do tio boêmio que ganhou mais um par de meias bege, a roupa brega da tia, etc.

É importante acabar com essa papagaiada socialmente correta dos tradicionais dizeres do vamos combinar, e só depois disso que  vamos combinar, efetivamente, que vamos excluir esse vamos combinar natalino das nossas promessas.

E depois disso tudo, ao encontrar um amigo no elevador: “Hey, topa uma cervejinha no final de semana?”

Vamos combinar!


E não diga que não avisei

19/12/2011

Ah, eles envelheceram antes da hora. Idade não envelhece, o que envelhece é a convicção. Curiosidade não envelhece, rigidez envelhece. Aceitação não envelhece, soberba envelhece. Superioridade envelhece.

O excesso de confiança envelhece e a reação de muitos é contra-atacar. Não se pode mais contar suas próprias histórias que sempre alguém virá com uma tragédia maior. E não se pode mais dividir suas conquistas porque sempre alguém vai falar que fez mais, inferiorizando o que você fez.

Hoje em dia, seja num happy hour com amigos ou numa macarronada dominical com a família, o leão que rugir mais alto com suas tragédias vencerá a batalha. Hoje amigos são rivais nas narrativas, e é questão de força desmerecer a luta daquele que bebe cerveja ao seu lado e dizer que você se ferrou mais na vida que ele, um nobre sortudo.

Afinal, ninguém enfrentou os problemas que você enfrentou! São tragédias imensuráveis, tristezas e guerras homéricas. O seu chefe é o mais carcamano do mundo, seu vizinho é o mais irritante, seu trânsito é pior que de todos, sua agenda é a mais cheia, seus problemas os mais injustos, seu tempo o mais escasso, e suas desculpas as mais justificadas.

Velhos de pensamento convictos que são injustiçados pelos divinos, mártires da vida moderna que precisam da complacência boêmia, divagando sobre a decadente vida cheia de causos negativos.

Todo essa linha de pensamentos é comum em gente idosa, não velha. Mas aí é perfeitamente compreensível: aumenta-se as dores, aumenta-se o número de remédios, aumenta o medo, a insegurança sobre tornar-se dependente dos filhos e enfermeiros, etc.

Idosos têm mais motivos para contar suas tragédias que as pessoas com pensamentos envelhecidos precocemente. Porém, para muitos, o reumatismo do Seu Aristides é coisa pequena se comparada à ressaca da balada de ontem ou a enrabada que o chefe deu na reunião.

E a chuva que peguei ontem, tudo alagado! E o masoquismo para achar a vaga no estacionamento do shopping, que stress que passei!! E minha roupa toda suada e amassada, dentro do superlotado metrô que pego todos os dias!

Meu Deus é injusto comigo! Só comigo! Vocês que brindam agora comigo estão com a vida mansa, não têm noção do que é sofrimento e dificuldade., sejam solidários com minha dor que é maior que a sua! Vocês que brindam comigo são pessoas que não reconhecem minhas condições desfavoráveis.

Minha gripe é pior que sua cirurgia. A calçada que piso é mais esburacada que a sua. A roupa que comprei é mais bonita que a sua, você é burro de ter gasto o dobro do preço. Lá no centro isso é uma pechincha!

Pessoas precocemente velhas sempre têm dicas melhores, recomendações melhores, experiências melhores, conquistas maiores, desafios maiores, sofrimentos piores, enfim, eles são sempre mais. Ah, e tem egos maiores também.

Eu falei que ia dar merda! E não diga que não te avisei! Eu sei mais que você, amador. Eu sou melhor que você, eu sou mais quando você quer ser mais, e sou menos quando o menos é mais glorioso.

Enquanto isso o Seu Aristides ri desses jovens egos inflados e pensa com seus velhos botões: “ah, esses meninos pouco sabem da vida”, diferentemente do que o Seu Nélio, seu rival de dominó nas manhãs de domingo, que prefere reclamar dessa chatice juvenil com o famoso “depois não digam que eu avisei.” Eles podem.


9 Segundos

12/12/2011

Saí, vi e contei: 9 segundos. Tempo que para mim, confesso, é irrelevante, mas para tanta gente parece ser crucial, questão de vida ou morte.

Quando saí do vagão do metrô (Estação Pinheiros), uma multidão saía correndo igual largada da São Silvestre pelo prêmio de ser o primeiro a entrar na escada rolante.

Mas não é só a chegada na escada o que importa. Tais competidores querem mais: subir ensandecidamente as escadas rolantes para receber os louros da vitória que, nesta altura, não sei o que é.

Imagino que deve ter alguma premiação lá em cima para os primeiros. Alguma champagne os espera, uma gostosona entregando aquele cheque gigante e a chance de agradecer ao vivo os patrocinadores e mandar um alô para suas famílias.

Enquanto isso, piso no primeiro degrau da escada rolante, estagnado do lado direito para não atrapalhar nenhum competidor e conto os nove segundos que me separaram daquele que entrou comigo ao mesmo tempo na escada rolante, mas que preferiu a adrenalizante subida pela esquerda.

Por outro lado, pela recusa da competição subterrânea, minha vida toda ficará 9 segundos atrasada. As atividades durante o dia estarão 9 segundos atrasada porque eu não quis subir rapidamente a eficiente escada.

Nove segundos em cada escada rolante, acho que já perdi algo em torno de 2 horas da minha vida. Tempo para fazer tanta coisa, não? Duas horas que não voltarão mais por causa de uma estressante correria.

Creio (e torço) que no fim da minha vida serão mais umas 3 horas a menos na vida. Não estou triste, estou é aliviado. Poderia acelerar minha vida, mas optei em respirar com calma e observar tanta gente diferente, tantos semblantes, tantas mentes que devem pensar no que o patrão vai falar por causa desses nove segundos, que a fila no próximo trem será maior, que o elevador estará menos lotado, que vai passar o crachá nove segundos antes ou que vai chegar em casa nove segundos antes.

Enquanto vou subindo, perdendo, mas aprendendo, por mais nove segundos.