O Rolê, parte 2: O Estado e seus Zumbis

15/01/2014

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No texto anterior apresentei minha opinião sobre os reflexos que um consumo doentio pode causar em toda sociedade, principalmente nas classes mais pobres. Tudo está interligado, o que você gosta, consome pode sim interferir na vida de pessoas que você mal conhece.

Agora, queria falar sobre o movimento do Rolezinho, propriamente dito.

A primeira pergunta: o que ele é? É uma manifestação? É uma baderna? É um tumulto? É uma revolução? É um arrastão? É um bando em crime organizado? É uma revolta social?

Cada um tem sua opinião, mas para mim, sinceramente, o Rolezinho é algo totalmente desnecessário.

Sim, juntar 2 mil pessoas para entrar em qualquer estabelecimento no mundo causará confusão na certa.  Qual o motivo de entrar 2 mil pessoas ao mesmo tempo num local que não foi projetado para esse fluxo de pessoas? É necessário? De repente, 2 mil pessoas têm a mesma vontade de comprar um óculos? De repente, 2 mil pessoas têm a mesma vontade de comprar um boné novo?  Que coincidência!

A estrutura de todo shopping center não foi feita para receber 2, 4, 5 mil pessoas em poucos minutos. As portas não comportam, os corredores das lojas não foram projetados para essa quantidade de pessoas ao mesmo tempo. As lojas não suportam tamanho fluxo de pessoas, não há vendedores, não há espaço, não há estoque para tantos consumidores, então, pra que fazer esse tipo de “protesto” sem sentido?

Por acaso, quando estão sozinhos, algum integrante sofreu discriminação em alguma loja quando tentou comprar algum bem? Algum “rolezeiro” sofreu preconceito por não ser atendido? Se sim, fez a denúncia contra o Shopping? Fez a denúncia contra a Loja? Escreveu no Reclame Aqui? Ligou para a Polícia?

Então, qual o motivo de querer entrar todos juntos num local particular onde o escoamento de pessoas não suporta?  Para mim, com todo respeito, é dar margem para problemas. Precisa disso?

Se 2 mil pessoas resolverem entrar no McDonalds para pedir casquinha de chocolate, vai dar problema. Se 2 mil pessoas resolverem entrar na Saraiva querendo algum livro, vai dar problema. Se 2 mil pessoas resolverem fazer qualquer coisa juntos, certamente, no mínimo, causará filas.

Vocês são consumidores, têm livre acesso, têm todo direito de se reunir, mas qual o verdadeiro propósito dessa forma de “passeio”? Causar stress aos funcionários do shopping? Causar stress aos atendentes das lojas?

Um dos melhores exercícios é praticar a empatia, ou seja, se colocar no lugar da outra pessoa.  Imagine você, vendedor da Loja X, de repente, em poucos instantes, você vê 10 pessoas à sua frente querendo ser atendido.  10 pessoas já será dificil atender.  Agora imagine que entrem 200 pessoas na sua loja ao mesmo tempo, o que você vai pensar? Como você vai reagir?

Enfim, o Rolezinho, para mim, é desnecessário, e só mostra o quanto a juventude está com valores sociais distorcidos e não sabe o significado das palavras Direito, Dever e Respeito. Não acho correto causar um stress à toa para depois se vitimizar.

Até mês passado, algum indivíduo que participa do Rolezinho foi, por exemplo, proibido de entrar no Iguatemi? Algum segurança proibiu a entrada? Possivelmente pode ter acontecido, mas o lugar para buscar retratação não é na porta causando o caos. Existe todo um sistema judiciário que tem a obrigação de atender qualquer indivíduo.

Para mim, provocar terceiros para que violem os Direitos Humanos não é a forma correta de discutir o tema da desigualdade social. Não é no shopping com 5 mil pessoas. É nas ruas, em local público.

Os Rolezeiros são vítimas de um sistema de educação pública que está falido, que trata o futuro com desrespeito, com aprovações automáticas, que não estimula o raciocínio, não estimula o questionamento, não estimula a cultura e, por isso, talvez eu esteja errado em questionar o movimento deles porque a origem do problema é muito mais profunda: eles, Rolezeiros, têm dificuldade para pensar porque não foram educados para isso.

E a culpa disso é totalmente do Estado, que acreditou que, mantendo jovens ignorantes seria a forma de controlar a sociedade.  Pelo contrário, manter jovens ignorantes só vão torna-los animais soltos, pequenos zumbis, mortos-vivos excluídos da sociedade que atormentam por atormentar, numa rebeldia desproporcional onde a causa do problema não é remediada, dando atenção apenas às consequências.

A culpa é do Estado, que acredita que a truculência policial é a forma de garantir a segurança. A culpa é do Estado, que remunera mal policiais, que capacita de forma errada quem tem a responsabilidade de trazer a calma e harmonia. A culpa é do Estado, que remunera mal professores, justo os que deveriam receber os maiores salários no mundo.

A culpa é do Estado ou a culpa é de quem dá um voto de confiança para tais representantes? É um círculo vicioso: O Estado investe na ignorância do povo e na obrigatoriedade do voto, o povo não entende, o povo não reclama, e uma massa de ignorância é intimida para as próximas eleições.

E como animais, o instinto desses jovens transborda: o atual deles é a raiva, uma raiva por sofrer preconceito, por não ter oportunidade, por ver um mundo desigual, por não ver esperança, expectativa e futuro, por acreditar que um Audi e um Rolex são objetos de inclusão social.

Não, Rolezeiros, a inclusão social não é com o carro importado ou um bolso cheio de garoupa. A inclusão se dá com educação. Antes de ir ao shopping protestar por querer consumir, proteste primeiro por uma educação mais digna, mais responsável com o futuro.

Aliás, esse é um protesto universal para todas as classes sociais abraçarem a causa. Só assim conseguiremos visualizar um futuro mais promissor.

Marcio Vieira

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Saia do automático

10/01/2014

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Todo animal busca, por instinto, a facilidade. A lei do menos esforço, a fruta mais acessível para comer, o animal mais lento para caçar, a menor distância para percorrer, o trabalho mais fácil para realizar, o mais rápido para terminar, o menos desgastaste, enfim, o automático.

Conquistar pelos meios mais fáceis é digno, demonstra utilização da inteligência em otimizar o tempo. Mas será que o propósito da vida é mensurar, contabilizar, ou seja, terminar o dia sobrando tempo? Ao meu ver, o propósito é o “como aproveito o tempo”, visando a qualidade, e não quantidade.

Se eu parto de um princípio que somos seres em evolução constante, qual a vantagem de fazer o mais fácil? Conquistar o mais fácil é economizar tempo… e qualidade. Assim, aonde está a evolução?

Para evoluir é preciso mudar, e para realizar a transformação, entendo que há duas formas: a liberdade e o desconforto.

A liberdade serve para pensar e questionar o que está sendo feito em vida, para quem está vivendo, e qual é o modelo de vida que está seguindo. A liberdade de dizer “não”, ou “sim”, dependendo das circunstâncias, e estar ciente sobre os reflexos na sociedade de seus atos. Liberdade para ser quem gostaria de ser, independentemente do que se passa no mundo.

O desconforto, por sua vez, é a imposição da transformação. E o desconforto está em voltar alguns passos, mas com a cabeça de hoje.

Exercitar o desconforto é poder ter mais, no entanto, consumir menos. Exercitar o desconforto é utilizar outros meios de sobrevivência, outros meios de experiência, outros meios de existência, sabendo que há condições socioeconômicas para não participar daquilo.

Uma das maiores experiências da minha vida era enfrentar fila para almoçar no bandejão junto com mendigos, dependentes químicos, pessoas da mais baixa classe social. Eu fiz por desconforto, porque era um privilégio meu ter aquilo como opção, e não necessidade.

Poderia ter gasto dinheiro em restaurante ou em supermercado, mas eu queria, pelo menos uma vez por semana, enxergar um lado da vida que vidros blindados e escurecidos segregam nas ruas.

Uma vez tentei dormir na rua por opção, mas às 4 da manhã meu orgulho venceu e fui para meu carro chorar. Chorar porque tem gente que vive assim como necessidade, e não por experimentar a curiosidade do desconforto.

Não acho que todos devem fazer isso, estar entre os invisíveis, porque a zona do desconforto é completamente subjetiva e individual. O que é desconforto para mim, pode não ser para você. Não há certos, nem errados, mas penso que cada um deve realizar algum tipo de desconforto para evoluir na vida, enfim, sair do modo automático.

O desconforto está na forma de consumir, o que consumir, a quantidade do que consumir, o “por quê” consumir. Consumir bens, serviços, consumir cultura, informação, experiências, o consumo é infinito e livre, desde que esteja na legalidade, porém, isso deve ser mais discutido entre todos, afinal, pouca gente percebeu que inverteram a correnteza do rio: antes era o consumidor que criava a demanda, hoje são as grandes indústrias que criam necessidades.

Necessidades que não existiam passam a ser condicionadores da felicidade. Se você não comprar o celular X, o carro Y ou a roupa Z, você não gozará da felicidade.

Então, surge a frustração. E para acabar com a frustração, inventaram o financiamento. O financiamento, por sua vez, criou o endividamento. O endividamento, por fim, perpetua a vida em um sistema que engaiola o cidadão num ciclo o qual ele mal sabe que entrou e acaba tornando a vida automática do “nascer, estudar, trabalhar, prociar e morrer”.

Vida no automático leva ao automático, aos modelos sociais já existentes, sem novidade alguma. Se isso o satisfaz, abrace a causa e seja muito feliz! Porém, eu quero uma vida no manual, que leva ao desconhecido, ao desconforto e muitas interrogações.

Isso não significa uma apologia à pobreza, muito pelo contrário. Eu entendo que a sociedade vai definitivamente se evoluir quando for iniciada uma manifestação voluntária por uma vida em classe média, com o mínimo de desigualdade possível.  E para isso acontecer, é de responsabilidade dos mais abastados economicamente não inflacionarem o consumo, muito menos desenvolverem novas necessidades desnecessárias porque é isso que causa, nas classes mais baixas, o endividamento e, infelizmente, o crime.

Marcio Vieira


Síndrome do Pavão

13/08/2012

Pavão! Um bicho engraçado, bonitão, todo penoso, reluzente, imponente, mas tudo isso quando está com as asas abertas para se mostrar para acasalamento. Abrem-se, então, as asas numa disputa matrimonial e aquele que aparentar ser o bonitão tirará a sorte grande.

Tem um monte de pavão na sociedade. Cada dia mais, a maioria circula na classe média. Muita gente se importa mais com a imagem do que com o que é, e o custo da imagem pode ser caro para quem não tem condição de bancar aparência, ou melhor, o status.

Busquei no Aurélio o significado dessa palavrinha: 1. Situação, estado ou condição de alguém ou algo, esp. perante a opinião das pessoas ou em função do grupo ou categoria em que é classificado. 2. O grau de distinção ou prestígio, ou situação hierárquica de um indivíduo perante demais membros do seu grupo social.

Status é, possivelmente, a palavra central que desencadeia os maiores problemas que o ser humano acha que tem. É tão forte que é capaz de inverter o fluxo natural dos pensamentos: ao invés de ser de dentro para fora, o indivíduo só se preocupa com que vem de fora.

É dar mais atenção à reputação, ao que se enxerga, e isso pode causar muitos danos pois é por causa de priorizar o status que muita gente já se endividou, já quebrou a cara, a cabeça, o coração, e continua fazendo isso sem imaginar que faz, investindo em demonstrar, ao invés de investir em ser.

Só que este, parece, ser um caminho sem volta, visto que cada dia que passa estamos mais expostos ao mundo: é no celular, no Facebook, Twitter, Linkedin, escrever baboseiras em blogs como este, etc., tudo isso faz você estar cada vez mais conectado com pessoas e, nessas horas, ter boa aparência é importante.  Eu escrevi importante, não fundamental.

O que você aparenta pode fazer com que você entre num grupo de indivíduos que se assemelham com seu perfil, mas o que você realmente É determinará o tempo que você permanecerá em tal grupo.

Se o colorido das suas penas de pavão é tão importante, você vai se endividar para ter um carro mais novo (sendo que o velho satisfazia suas necessidades de deslocamento), você vai comprar um celular mega tecnológico (para entrar no Facebook e publicar fotos do Instagram, não mais que isso), entre outras atitudes pouco racionais.

É por isso que tem tanta superficialidade no Brasil, e muitas marcas internacionais exploram da ingenuidade egocêntrica dos brasileiros que supervalorizam produtos que vêm de fora, inflacionando o mercado. É assim com carros, roupas de grife, mercado de alto luxo, no geral.

Resumindo, enquanto tiver trouxa portadores da Síndrome de Pavão que pagam o que for, incluindo ágio, para ter só por questão de aparência e status, o Brasil continuará a ser um dos países mais caros do mundo em bens de consumo, e tal reputação tem efeito dominó: começa lá na Classe A+ que influencia A, esta influencia a B+, que mostra para a B, B- e assim por diante.

A diferença é que a Classe A+ paga à vista pelo consumo, enquanto a média vai se enfiar em dívidas para, muitas vezes, influenciada pela futilidade da maioria da elite social, para ter o mesmo produto sinônimo de status. Indo pro final desse dominó, lá na Classe C, o mais pobre vai comprar a versão falsificada daquilo ou, mais grave ainda, roubar.

E cada vez mais, infelizmente, a Classe A+ tem demonstrado muita futilidade, soberba, ignorância e preconceito, então é preciso tomar uma dose extra de atenção sobre tais “tendências” de consumo.

É preciso saber separar na vida o que é importante daquilo que é fundamental, e muita gente coloca a imagem como fundamental. Não é fundamental, e em se tratando de um país com uma educação limitadíssima, os estragos sociais dessa mudança de valores são catastróficos, onde existe exemplos de pessoas que colocam mais de 50% do valor do imóvel que reside em um automóvel que, por sinal, está no Brasil a maior margem lucro das montadoras de carros do mundo.

Tem famílias de classe média que gastam mais de 150 mil reais para dois automóveis e vivem num apartamento que vale 300 mil. Na Europa e EUA, por exemplo, o gasto em automóvel raramente passa de 10% do valor do imóvel. As prioridades estão distorcidas, definitivamente, por causa de dar atenção à reputação.

Tudo isso fez do Brasil o líder de juros em cartão de crédito e paraíso para banqueiros. Cada dia esticam mais o tempo para se pagar e isso aumenta o risco de inadimplência, então a medida é aumentar o juros, consequentemente o preço final do produto e, quando se trata de produto que o exuberante Pavão gosta de se exibir, o lado emocional atrapalha a razão.

Se as pessoas começarem a buscar dentro de si o que se precisa para ser feliz, perceberão que muito do que têm e muito do que fizeram na vida foi influenciado pelo ambiente externo, o que se viu, e às vezes todo aquele esforço era desnecessário porque não era tão importante. Grandes esforços são necessários na vida, e deve-se escolher realmente no que vale a pena se endividar momentaneamente, e quais sacrifícios são válidos.

Não precisa ser um pavão todo plumoso para demonstrar ser alguém. Aparência tem prazo de validade.

Marcio Vieira


A Mostarda Atômica

13/06/2012

A Super Mostarda Atômica!!

Poderia ser um desconhecido vilão de algum superherói de uma história em quadrinhos qualquer publicada no outono de 1941 que, agora, volta num filme 3D para aterrorizar com jatos de mostarda nucleares uma metrópole estadunidense. Passaria despercebida a Mostarda Atômica? Quem poderá detê-la? Quem salvará pobres gordinhos indefesos da junk food society?

Mas não, Mostarda Atômica não causa problema para ninguém, embora seja parente da Doce Loucura, além de ser vizinho do Plano Perfeito. Me belisca, caramba! Todos estes vivem em certa harmonia nas prateleiras das farmácias tupiniquins.

Quem em sã consciência batizou uma cor de esmalte de Ventinho Bom? Ventinho, desde quando, tem cor? E que tipo de drogas consumiram aqueles que, depois de exaustivas reuniões, decidiram dar o nome para outra cor de esmalte de Pirlimpimpim. Pirlimpimpim!?!? Não é à toa que Pirlimpimpim fica ao lado do Duende, tanto na prateleira, como no site do fabricante.

Uma ingênua ida à farmácia para comprar remédios de gripe se tornou em diversão pura!  Marketeiros dos esmaltes, realmente, se superam. Porém, pensando não tão distante, recentemente comprei um produto de limpeza multi-uso com a incrível fragância “Chuva de Alegria”.  Comprei mais para saber que raios de cheiro tem uma chuva de alegria. E tão contraditório, aqui mesmo na República do Kassabestão, quando qualquer chuva causa uma desgraça assustadora no trânsito da pauliceia.

Mas se for com Chuva de Alegria, as pessoas ficaram felizes, ora!  Ainda mais se as mulheres utilizarem a incrível cor de esmalte Divirta-se! Cacete, Divirta-se prejudica a imagem da mulher, vão achar que a guria é “facinha”. Não, não, para mulheres mais suscetíveis, existe a cor Deixa Beijar!

Alguém sabe se existe algum curso para identificação das cores de esmaltes? Olha que essa será uma grande vantagem na hora do cabra analisar sua parceira para acasalamento. Vai ficar mais fácil associar o nome da cor do esmalte com a personalidade da fulana.

Porém, cuidado com os marketeiros desses produtos de consumo rápido. Tem muito produto que engana o consumidor! Eu, por exemplo, usava, até pouco tempo, shampoo para cabelos rebeldes. A rebeldia deles era tamanha que foram todos embora, catzo!  Antes, tinha tentado gordurosos para eles emagrecerem e ficarem saudáveis, tentei para quebradiços, também para ralos, porque estavam acumulando no ralo. Fui até de shampoo para cabelos danificados, e nada de resolver meu problema!!

Eu me arrependo de não ter experimentado o shampoo para cabelos blindados!  Blindados, meu Deus!!! Pra quem vai para guerra nas baladas, shampoo para cabelos blindados é o que há de melhor!! Só o shampoo para cabelo normal eu nunca tentei. Afinal, com tanta opção, só compra shampoo para cabelos normais quem tem autoestima suficientemente elevada.

Em resumo, o batismo de novas fragâncias, novas cores, novos sabores, etc., estão deixando cada vez mais confuso o consumidor. É igual pedir pizza: hoje o cardápio tem tantos sabores que você acaba pedindo a pizza “tanto faz”. Enfiaram pizza de hot-dog no cardápio, e tem louco que se arrisca a comer esse troço!

Com tanta esculhambação dos últimos anos, bateu uma saudade do Henry Ford, que dizia: “você pode escolher a cor do carro, desde que seja preto”.


A preconceituosa burguesia

20/10/2010

Multidão, feliz, comprando

Gostaria de fazer algumas perguntas para todos acerca de um grupo determinado que chamarei aqui de “rico idiota”.  Tais ricos, que pregam o elitismo com prepotência, são milhões que se misturam entre as classes A e B do Brasil e expõe um preconceituoso entendimento das classes mais humildes, ou de pessoas vindas de regiões mais pobres, e à eles faço algumas perguntas para reflexão:

É tão ruim ver milhões de pobres subirem para classe média? É tão ruim ver outras dezenas de milhões de miseráveis subir para a classe C?

Mais, é tão ruim ver o zelador do seu prédio com uma televisão “das fininhas” igual à sua? É tão ruim saber que o faxineiro comprou uma scooter zero quilômetro?

“Ah, mas é financiada em 5, 10 anos”, dirão alguns! “Para a televisão ele fez carnê que terminará de ser pago na Copa do Mundo do Brasil. O carro, só em 2018, quando não custará nem metade do preço atual! “

Existem centenas de desculpas para cutucar a felicidade do pobre que nos últimos anos ganhou espaço, ganhou respeito e condições de não só ter o mesmo celular, mas também comprar a mesma televisão e até o mesmo carro de milhões de pessoas que estão na classe média.

Então, vem tais idiotas da burguesia justificar a facilidade de financiamento, dizer que o pobre vai “casar” com o carnê de prestações e só assim conseguiu entrar no mesmo mundo de consumo que tais pessoas já estavam. Pergunto: e daí? Se o crédito foi aceito, qual é o problema dele comprar? Está triste porque a piadinha deles consumirem um CCE acabou?

O problema é que muita gente se sente incomodada ao voar de Gol para o nordeste e ter que dividir o vôo com vários retirantes que visitarão suas famílias. Há ainda um enorme grupo que acha que avião é transporte de rico e pobre tem que se perpetuar dentro de ônibus pinga-pinga.

É problema seu que pobres quitarão o carro em 10 anos?

O mesmo pobre vai tirar o carro zero quilômetro não tem vergonha de dizer que o carro é financiado em 80 vezes. Mas o suposto rico estufa o peito, faz pose e esconde um carnê de três anos. E depois tais burgueses reclamam da quantidade de carros, do trânsito por causa que pobres estão comprando carro. Pessoas que não se olham primeiro no espelho são as primeiras a reclamar.

É muito constrangedor saber que o motoboy está na universidade? Que a menina que te serve café também está na universidade? “Ah, mas são as ‘universidades de esquina’ que rifam o ensino brasileiro“, tais ricos de pensamento responderão.

O fato é que existe um incômodo enorme, principalmente de tradicionais paulistas e sulistas, com o avanço e desenvolvimento de regiões mais pobres, como norte e nordeste.

Se alguma consumidora com sotaque nordestino entrar na Daslu ou Oscar Freire já pensarão, algumas paulistanas, que tal mulher vai deixar o salário inteiro para comprar uma simples carteira. “Que petulância! Onde já se viu um nordestino comprar na Oscar Freire?“, elas pensarão, desconhecendo o crescimento econômico do Nordeste.

Existe, implícita na sociedade brasileira, uma preocupante segregação racial e econômica, principalmente vindo dos eternos frequentadores da classe média, que não admitem novos integrantes que saíram da pobreza. E tais pessoas criticam programas sociais, rotulando alguns como “bolsa-vagabundo”.

Nordestinos, felizes, com suas novas motos

São pensamentos preconceituosos contra programas sociais às classes D e E, e contra as novas aquisições da classe C, como a primeira moto, primeiro carro, primeira viagem de avião, primeira faculdade e primeira casa que milhões de pobres estão adquirindo. Mexeram no queijo do rico (Para quem leu “quem mexeu no meu queijo?”), deixando transparecer em tempos de eleição toda sua insatisfação em ter que dividir o mesmo espaço.

E muita gente com esse pensamento hitleriano perde oportunidades de crescimento do próprio negócio por desconfiar do pobre e de sua condição financeira. O atual governo permitiu que os beneficiários de auxílios consumam, fazendo a economia regional de rincões crescer. Em outras palavras: o dinheiro gira.

Para mudar a vista, precisa mudar de pensamentos

Tais ultrapassados burgueses criticam até as eleições, dizendo que pobre não tem consciência do voto. Ora, o que eles querem, a volta do voto censitário?

A alta elite se dá o luxo de aumentar seus preços para selecionar seu público, deixando a classe média vulverável à invasão dos pobres em ascensão. Está na hora de jogar essa arrogância e prepotência fora, no lixo, e aceitar dividir lojas, bares, aviões, avenidas, hotéis, boates, praia com todos, só assim será possível desenvolver uma sociedade justa.

Para começar uma justiça social e acabar com a desigualdade tem que aceitar dividir o mesmo espaço, mas isso muita gente não está disposta a fazer, infelizmente.

Há, claro, muita gente que está nas classes A e B que não pactuam do mesmo pensamento discriminatório, e que estão dispostos a ajudar ou, na pior das hipóteses, não restringir o acesso e desenvolvimento das classes menos abastadas. Porém, há um grande e triste grupo de pessoas que receberam ótima educação, mas que têm atitudes preconceituosas, seja com uma simples e “inocente” piadinha, ou seja mesmo com tons mais incisivos contra programas de assistência social.

À estes elitistas, um conselho:  Não se preocupem tanto com a vida alheia e não se preocupem com o espaço que nunca foi só de vocês.

Don’t worry, be happy.

Marcio Vieira