Síndrome do Pavão

Pavão! Um bicho engraçado, bonitão, todo penoso, reluzente, imponente, mas tudo isso quando está com as asas abertas para se mostrar para acasalamento. Abrem-se, então, as asas numa disputa matrimonial e aquele que aparentar ser o bonitão tirará a sorte grande.

Tem um monte de pavão na sociedade. Cada dia mais, a maioria circula na classe média. Muita gente se importa mais com a imagem do que com o que é, e o custo da imagem pode ser caro para quem não tem condição de bancar aparência, ou melhor, o status.

Busquei no Aurélio o significado dessa palavrinha: 1. Situação, estado ou condição de alguém ou algo, esp. perante a opinião das pessoas ou em função do grupo ou categoria em que é classificado. 2. O grau de distinção ou prestígio, ou situação hierárquica de um indivíduo perante demais membros do seu grupo social.

Status é, possivelmente, a palavra central que desencadeia os maiores problemas que o ser humano acha que tem. É tão forte que é capaz de inverter o fluxo natural dos pensamentos: ao invés de ser de dentro para fora, o indivíduo só se preocupa com que vem de fora.

É dar mais atenção à reputação, ao que se enxerga, e isso pode causar muitos danos pois é por causa de priorizar o status que muita gente já se endividou, já quebrou a cara, a cabeça, o coração, e continua fazendo isso sem imaginar que faz, investindo em demonstrar, ao invés de investir em ser.

Só que este, parece, ser um caminho sem volta, visto que cada dia que passa estamos mais expostos ao mundo: é no celular, no Facebook, Twitter, Linkedin, escrever baboseiras em blogs como este, etc., tudo isso faz você estar cada vez mais conectado com pessoas e, nessas horas, ter boa aparência é importante.  Eu escrevi importante, não fundamental.

O que você aparenta pode fazer com que você entre num grupo de indivíduos que se assemelham com seu perfil, mas o que você realmente É determinará o tempo que você permanecerá em tal grupo.

Se o colorido das suas penas de pavão é tão importante, você vai se endividar para ter um carro mais novo (sendo que o velho satisfazia suas necessidades de deslocamento), você vai comprar um celular mega tecnológico (para entrar no Facebook e publicar fotos do Instagram, não mais que isso), entre outras atitudes pouco racionais.

É por isso que tem tanta superficialidade no Brasil, e muitas marcas internacionais exploram da ingenuidade egocêntrica dos brasileiros que supervalorizam produtos que vêm de fora, inflacionando o mercado. É assim com carros, roupas de grife, mercado de alto luxo, no geral.

Resumindo, enquanto tiver trouxa portadores da Síndrome de Pavão que pagam o que for, incluindo ágio, para ter só por questão de aparência e status, o Brasil continuará a ser um dos países mais caros do mundo em bens de consumo, e tal reputação tem efeito dominó: começa lá na Classe A+ que influencia A, esta influencia a B+, que mostra para a B, B- e assim por diante.

A diferença é que a Classe A+ paga à vista pelo consumo, enquanto a média vai se enfiar em dívidas para, muitas vezes, influenciada pela futilidade da maioria da elite social, para ter o mesmo produto sinônimo de status. Indo pro final desse dominó, lá na Classe C, o mais pobre vai comprar a versão falsificada daquilo ou, mais grave ainda, roubar.

E cada vez mais, infelizmente, a Classe A+ tem demonstrado muita futilidade, soberba, ignorância e preconceito, então é preciso tomar uma dose extra de atenção sobre tais “tendências” de consumo.

É preciso saber separar na vida o que é importante daquilo que é fundamental, e muita gente coloca a imagem como fundamental. Não é fundamental, e em se tratando de um país com uma educação limitadíssima, os estragos sociais dessa mudança de valores são catastróficos, onde existe exemplos de pessoas que colocam mais de 50% do valor do imóvel que reside em um automóvel que, por sinal, está no Brasil a maior margem lucro das montadoras de carros do mundo.

Tem famílias de classe média que gastam mais de 150 mil reais para dois automóveis e vivem num apartamento que vale 300 mil. Na Europa e EUA, por exemplo, o gasto em automóvel raramente passa de 10% do valor do imóvel. As prioridades estão distorcidas, definitivamente, por causa de dar atenção à reputação.

Tudo isso fez do Brasil o líder de juros em cartão de crédito e paraíso para banqueiros. Cada dia esticam mais o tempo para se pagar e isso aumenta o risco de inadimplência, então a medida é aumentar o juros, consequentemente o preço final do produto e, quando se trata de produto que o exuberante Pavão gosta de se exibir, o lado emocional atrapalha a razão.

Se as pessoas começarem a buscar dentro de si o que se precisa para ser feliz, perceberão que muito do que têm e muito do que fizeram na vida foi influenciado pelo ambiente externo, o que se viu, e às vezes todo aquele esforço era desnecessário porque não era tão importante. Grandes esforços são necessários na vida, e deve-se escolher realmente no que vale a pena se endividar momentaneamente, e quais sacrifícios são válidos.

Não precisa ser um pavão todo plumoso para demonstrar ser alguém. Aparência tem prazo de validade.

Marcio Vieira

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