Lições coreanas ao Brasil

06/08/2012

Estão na metade os Jogos Olímpicos de Londres, mas já dá para antecipar algumas conclusões. E o que mais destaca aos olhos é o desempenho da Coreia do Sul, disputando com os principais países as melhores posições no quadro de medalhas, e cabe, aqui, uma pequena comparação com o desempenho brasileiro.

A Coreia do Sul é um pequeno país de 100 mil km(o equivalente à Santa Catarina, 40% do estado de São Paulo, ou, ainda, 1,5% do território brasileiro), e possui 49 milhões de habitantes, enquanto o Brasil tem seus 8.500.000 Km2 com quase 200 milhões de habitantes.

O ponto de partida desta comparação entre as duas nações tem quase seis décadas, e os rumos que cada país fez a partir de então. Em 1953, a Guerra da Coreia (1950-53) terminara com cerca de 3 milhões de mortos, uma terra completamente devastada separada entre dois países com regimes políticos completamente distintos.

Por aqui, há 60 anos, era a segunda passagem de Getúlio Vargas na presidência do Brasil, e iniciava, neste período, o Plano de Metas (intitulado como 50 anos em 5), acelerando e economia brasileira que, se por um lado desencadeou um enorme endividamento, do outro foi o início de um dos maiores crescimentos econômicos registrados no mundo durante as décadas de 50, 60 e 70.

Enfim, o Brasil se apresentava como eternizada expressão “nação do futuro”, enquanto a Coreia do Sul só via um caminho para ser reconstruída: investir na educação. E foi o que os asitáticos fizeram, e muito bem feito.

A única forma de produzir riqueza à uma nação é investir maciçamente em educação. O Brasil, rico em recursos naturais, sempre extraiu suas riquezas do solo, sem demonstrar interesse em formar uma educação de qualidade, o que, com o passar das décadas, os resultados em medalhas numa olimpíadas transparecem a política social que cada país conquistou: segundo a ONU, é a Coreia do Sul o país com maior carga de estudos até os 25 anos de idade no mundo.

Os frutos desse investimento estão em todas as principais áreas que formam uma cadeia industrial grande e sustentável, as quais cito apenas duas, resumidamente:

1. Setor automotivo: a Coreia do Sul tem como principais marcas a Kia Motors e Hyundai (mesmo grupo econômico), além da SsangYoung, da Samsung Motors (Grupo Renault) e Daewoo (Grupo Chevrolet) que produziram, juntas, aproximadamente 8 milhões de veículos em 2011. Pergunto: qual marca genuinamente brasileira de veículos há? Existiu a Gurgel até o início dos anos 90 e, depois disso, a maior marca brasileira é a Troller (hoje pertencente à Ford) que produziu ano passado cerca de 1.300 veículos, o que equivale à 0,015% do que a Coreia do Sul fez no mesmo período. Repito: 0,015%

A indústria de automóveis brasileira está, há anos, nas mãos de grandes grupos internacionais que, além de produzir carros com péssima segurança e qualidade no Brasil, têm, neste mercado, seu maior lucro mundial. Só em 2011, remeteram às matrizes europeias, americanas e japonesas mais de cinco bilhões de dólares obtidos no Brasil. Ou seja, continua a riqueza sendo extraída no Brasil e aplicada no exterior.

2. Outro setor, de tecnologia: enquanto o Brasil tem as medianas Itautec e Positivo para informática, e CCE para televisores como principais marcas brasileiras, todas com baixo índice de nacionalização dos componentes, sobrevivendo, praticamente, como montadoras de produtos eletrônicos, os sul-coreanos têm Samsung,  que tem um faturamento anual equivalente ao PIB da Argentina, além de outra gigante global do setor, a LG, empresas, inclusive, com mais de dez mil funcionários só nas fábricas e escritórios que possuem no Brasil.

Esses dois exemplos, automotivo e tecnológico, foram construídos do zero, porque o governo coreano se propôs a criar riquezas a partir da capacitação de seus habitantes. É demorado, é preciso ter paciência pois são pelo menos 25 anos, o tempo de uma geração acadêmica, o período mínimo para o investimento profissional colher seus primeiros frutos.

Basta lembrar os primeiros carros importados da Coreia do Sul, a partir da abertura das importações (199o). Além do preconceito por vir da Coreia do Sul, eram produtos de qualidade duvidosa, mas bem superiores às carroças de Collor. Porém, vinte anos depois, novos profissionais, com mais ensino e mais qualificados que os primeiros, desenvolveram a indústria coreana, tanto que hoje são carros de ótima qualidade por preços competitivos, precisando, inclusive, o governo brasileiro criar mecanismos tributários emergenciais de proteção à indústria brasileira para controlar as importações com a desculpa de proteger o caríssimo trabalhador brasileiro.

Na esfera esportiva, viajaram para Londres 258 atletas brasileiros enquanto a Coreia do Sul enviou 245 atletas, praticamente o mesmo número, só que a competência técnica do sul coreano é infinitamente superior à do brasileiro que se mostra no quadro de medalhas. Isso se deve à um investimento de cinquenta anos em educação, algo que o Brasil não fez pois ficou limitado à extrair recursos ao invés de produzir novas riquezas.

Enquanto os coreanos investem no ser humano para, a partir daí, ele ter qualificações para crescer social e economicamente, o Brasil continua enxergando na contra-mão ao dizer que investe no esporte para tirar pessoas da marginalidade. Com este pensamento engessado do governo brasileiro há décadas, o Brasil sempre remediará uma situação e nunca vai combater a causa do problema. O barco está furado, e o governo brasileiro tira água com a caneca ao invés de consertar o furo, assim se pode resumir.

Atletas brasileiros brotam, surgem ao acaso e as medalhas olímpicas mascaram o descaso social existente. Culturalmente falando, o atleta brasileiro está muito despreparado. Psicologicamente, o precipício é ainda maior porque os atletas brasileiros não sabem lidar com pressão, onde a própria população brasileira encara a derrota como fracasso. Outras nações recuperam o ser humano na derrota, motivando o atleta para o próximo desafio.

A Coreia do Sul entrou na sua terceira geração acadêmica altamente capacitada, o pequeno país asiático vai continuar crescendo, construindo novas tecnologias rentáveis, qualificando seres humanos para nas mais diversificadas profissões, inclusive a de atleta, enquanto resta ao Brasil torcer para cair do céu novos Pelés, Scheidts e Cielos, para cegar mais a população, fingindo que o país é um celeiro de craques.

Marcio Vieira


A ganância contra o povo

19/04/2012

Corinthians é o time que mais arrecada em jogos. Embora sua média de público não esteja muito acima dos rivais, o que destaca é o valor do ingresso que é o mais caro do Brasil.

Arrecadar 1.6 milhão de reais, como no último jogo, é um rendimento considerável que ajuda os cofres do alvinegro. No entanto, há de se destacar alguns pontos deficitários que, em três jogos de Copa Libertadores no Pacaembu, não foi resolvida: a taxa de ocupação.

No jogo contra o Deportivo Táchira, da Venezuela, o público total foi de 29 mil espectadores, num estádio que abriga quarenta mil torcedores. Ou seja, foram 72% de ocupação, muito aquém dos números de times medianos do futebol europeu, o que dirá dos gigantes do velho continente.

O principal fator de mais de dez mil lugares vazios no estádio é o custo do ingresso. Quase que a totalidade desses ingressos está nos setores das cadeiras, em que o Corinthians cobra valores astronômicos. Assim, o Corinthians deixa de arrecadar CENTENAS de milhões de reais por… ganância.

Ganância?!? Sim. Incompetência e falta de inteligência são perfeitamente somáveis à ganância dos administradores do clube.

O Corinthians não encontrou ainda a curva de consumo do seu torcedor em todas as áreas: não sabe cobrar o valor pelo uniforme que dê um lucro sustentável, assim como não sabe cobrar pelo ingresso, que deixa o estádio cada dia mais vazio. O aumento abusivo no preço dos ingressos afasta a grande maioria, deixando o evento elitizado. Uma completa contradição, quando se trata do “time do povo”.

Povo rico, esse, que não aparece no estádio. São pessoas que preferem o conforto da poltrona e o pay-per-view, que não tem o costume de ir ao Pacaembu, deixar carro longe sob a guarda de um flanelinha que cobra quinze reais, que não se dispõe a andar um quilômetro até o estádio desviando de barraquinhas de sanduíches de pernil, espetinhos de churrasco ou vendedores de cerveja.

Todo clube tem sua torcida de almofadinhas, e o Corinthians, contrariando a imensa maioria dos brasileiros que acha que é o clube dos desdentados e favelados, é o time que mais tem torcedores, proporcionalmente, às classes A e B em todo o Brasil.

Porém, àqueles que costumavam sentar na cadeira coberta do Pacaembu não estão mais lá: ou hoje vão para o bar assistir pela TV, ou mudaram de setor do estádio e foram para as cadeiras descobertas (Setor Laranja). Em efeito dominó, os que assistiam na Laranja mudaram de área também porque não aguentam pagar o preço atual, assim superlotaram a sempre lotada arquibancada, o “setor popular”.

Setor popular este que cobra 35 reais por jogo, e que não tem nada de popular no perfil dos ocupantes. Se fizerem uma pesquisa em frente ao portão principal do Pacaembu, aposto que mais de 50% já têm ou está cursando ensino superior. Aposto ainda que pelo menos dois terços da ocupação da arquibancada tem torcedores com rendimentos mensais acima dos mil reais mensais.

Esqueceram que aqui é o Brasil. E clubes como o Corinthians aproveitam a paixão e fidelidade de milhares de torcedores para que tais comprometam sensivelmente a renda familiar, direcionando o valor para ver o time no estádio.

Não apenas o desrespeito à massa corintiana, há ainda uma falta de inteligência tremenda da diretoria do Corinthians não otimizar o potencial que o Estádio do Pacaembu tem em fazer dele um verdadeiro inferno para os adversários, com uma multidão enlouquecida gritando o nome Corinthians.

Foram, no jogo de ontem, 28% a menos de vozes, de gritos, de impulso que dá energia ao Corinthians. Foram pelo menos quinhentos mil reais a menos de arrecadação ao clube.  E o que a diretoria faz para mudar?  Nada!

Tive a oportunidade, ano passado, de assistir um jogo na tribuna. Sabe aquelas cadeiras pretas separando da amarela? Então, para quem não sabe, a tribuna é onde, praticamente, ninguém compra ingresso.

São ex-jogadores, familiares de jogadores, filhos de diretores ou outros componentes da direção, empregados, etc. São pessoas que pegam seus ingressos no Parque São Jorge, gratuitamente, e vão para o estádio, entram num portão com um segurança de terno e gravata, e, no intervalo do jogo, vão para os comes e bebes naquele salão que é um viaduto de quem vê pela rua.  Tudo de graça, salvo raríssimas (e põe raríssimas mesmo) exceções que pagam os 300, 400 reais de ingresso para ter esse tipo de serviço.

E o mais absurdo do jogo de ontem é a falta de comunicação com a direção da equipe adversária. Já eliminado, o Deportivo Táchira não tinha expectativa positiva nenhuma no jogo, assim, não foram nem uma dúzia para apoiar o time venezuelano.

Ora, Direção do Corinthians, vocês não poderiam entrar em contato com o adversário, e oferecer aos tais torcedores as cadeiras pretas e os quitutes, cafezinho e sanduíche de metro, como anfitriões do espetáculo?

Pior que isso foi o pensamento engessado da Policia Militar em fazer aquele cordão de isolamento bizarro no Tobogã, diminuindo a capacidade deste setor, sendo que seria impossível qualquer tipo de ataque de sacolas cheias de urina. Enfiam mais uns trezentos corintianos naquele canto baixo do Tobogã para gritar pelo clube, que será de grande ajuda.

Resolvendo a questão dos doze torcedores do visitante, liberaria quase cinco mil lugares, àqueles destinados aos visitantes, para a torcida do Corinthians lotar um setor que poderia ter o mesmo preço da arquibancada, já que ambos os setores tem como conforto o cimento duro.

Ora, por 35 reais (preço aproximado do Fiel Torcedor), multiplicado por cinco mil, somariam R$ 175.000,00 à renda. Porém, mais que o valor no caixa do clube, seriam outras cinco mil vozes no jogo, que fazem diferença.

O Corinthians tem a obrigação de colocar pelo menos 90% da carga máxima de torcedores no estádio para jogos da Libertadores. E não é culpa da torcida não lotar o estádio, e sim é a ganância e mesquinharia da direção do clube, achando que o Pacaembu tem estrutura que valem a cobrança de ingressos acima dos cem reais. Ora, o Corinthians tem torcedores ricos, muito ricos, só que a maioria deles não vai se enfiar num estádio que não tem estacionamento, que não dá dignidade ao torcedor.

Daqui a pouco, o cachorro morde o próprio rabo. Basta ver a média fraquíssima de torcedores do time nos jogos do campeonato estadual. A torcida não tem condições de pagar esse absurdo de ingresso, sendo que há todo um ritual dos torcedores: são cervejas (3 reais por lata), são churrasquinhos, sanduíches de porta de estádio, ônibus, etc., que encarecem o custo de ir para o jogo. É praticamente impossível, somando os valores, um torcedor gastar menos de cinquenta reais num jogo.

Multiplique isso por, na média, seis jogos por mês.  São trezentos reais para os torcedores de arquibancada ficar no sol e na chuva pelo time. Hoje, embora cante com a mesma força e vibre com a mesma energia, quem está lá não é o povo histórico que carrega esse time há um século. Hoje é a classe média (da média baixa à média alta) que ocupa esses lugares, deixando socioeconomicamente povo em casa.

A gestão do clube é deficitária e a cada dia que passa se distancia dos torcedores. São camisas custando 199 reais, algo que estimula a pirataria, que encontra um campo vasto para vender as “réplicas” por 20, 30 reais. Se a camisa original, no lançamento, custasse 80, 90 reais, será que os produtos piratas sobreviveriam? Aposto que não sobreviveriam porque haveria um esforço do torcedor em pagar, duas ou três vezes mais, pelo produto original. Mas hoje, a diferença chega a dez vezes mais caro, distanciando o torcedor do clube.

O mesmo se trata com ingressos. Se há dez mil lugares vazios, que vendam esses ingressos horas antes do jogo por dez reais. É um investimento importante e necessário, que fortalece muito os jogadores. Competente seriam se colocassem ingresso por preços mais justos, lotando o estádio em respeito ao próprio Corinthians.

Cobrar mais de cem reais num ingresso é um absurdo, em se tratando de Corinthians. Soma-se tal exploração aos quinze reais do flanelinha, os vinte reais das cervejas, o sanduíche, etc., impossibilitando para a maioria dos Brasileiros.

A diretoria do Corinthians está silenciando o principal jogador que o time teve, e sempre vai ter: a sua torcida.

Grandes marketeiros da República Popular do Corinthians… Aonde é Popular, mesmo?


Euro: sem vinhos para o bon vivant indignado

17/11/2011

Não deu, Euro. No começo a ideia parecia boa, uma moeda única para mais de uma dezena de países, para facilitar o comércio interno, para ser uma opção ao dólar em reservas cambiais, para equiparar economias e todas, juntas, se fortalecerem.

Em poucos anos, países como Espanha, Portugal e Grécia ficaram ricos. Propriedades inflacionaram, preços subiram, prestação de serviço cada vez mais cara. Era a chance dos imigrantes latinos e africanos conseguirem bons empregos lavando pratos e carregando cimento nas costas.

A maior burrice dos emergentes europeus foi não criar uma cadeia econômica sustentável, achando que o país sobreviveria com prestação de serviços, como o turismo. Um erro grotesco que inflacionou o consumo interno sem criar riqueza, achando que suas praias no Mediterrâneo são as maiores riquezas, afinal, o bon vivant europeu gosta de bons vinhos, boa gastronomia, clima ameno no inverno e farra no verão.

E vendo tudo isso, o pessoal do norte, o alemão que recebeu uma educação militar, rigorosa, apertava parafusos, pensava, trabalhava, suava e criava. Alemanha criou riqueza para depois consumir serviços. A Alemanha tem indústria: Automobilística, Farmacêutica, Ferramentaria, Química, entre outras que são a referência global, e todas essas possuem uma cadeia de produção enorme que gera milhões de empregos.  Quando o mundo falava que sustentabilidade é abraçar árvore, o alemão criava conceitos, uma nova indústria, um novo setor.

Enquanto Alemanha criava necessidades e soluções para o mundo, o sul achava que estava tudo bonito, afinal, o Euro é de todos, diziam, a riqueza é de todos!  Deixem os branquelos trabalharem que eu abro aqui meu vinho, só vou buscar meu primeiro emprego depois que terminar meu mestrado.

Mas a garrafa do vinho secou, bon vivant. Tirar Zapatero agora com 22% de desemprego na Espanha não resolve, são jovens gregos quebrando tudo nas ruas até mudarem de líder, são italianos revoltados com a putaria de Berlusconi, e o português é puxa-saco de espanhol, não sabe nem do que reclamar.  Não adianta falar que tem Ibiza, Algarve, Mikonos, Riviera, etc., querer ter vida de rico e confundir com o resto do país.

A boa vida na última década era uma maravilha. Ficaram ricos em poucos anos e sinto em dizer que a maioria vai perder tudo em menos tempo ainda. Não adianta botar a culpa nos poloneses, tchecos, só porque eles trabalham mais horas sem reclamar, aceitam limpar banheiro pela metade do seu salário.  Bon vivant gosta de reclamar, fazer greve sem apresentar soluções coerentes e contextualizadas. Lutar por justiça social!  Ora, isso é lindo, mas que tal arregaçar as mangas um pouco?

As pessoas se acostumam rápido com a riqueza, esquecem o que passou no passado, não enxergam que o milagre da riqueza era fictício, e agora querem ir para rua protestar, ocupar! Marchemos, Indignados! Marchar por o quê? Querem poder comprar uma pata negra no natal? Querem abrir um chardonnay ? Querem o quê, especificamente?  Vocês tiveram mais de dez anos para criar riquezas, mas só inflacionaram o que tinham antes, e agora que há concorrência no mercado de trabalho europeu e somado o crescimento da qualidade das indústrias na China, vocês se vêm sem esperança.

Não adianta ir para rua reclamar da igualdade de países, sendo que vocês foram os primeiros a gostar da farra do Euro.  Não tem mais vinho, e tão cedo não vai ter. A derrocada europeia só está começando.

A zona do Euro está em coma, vai morrer e precisa morrer para voltar ao que era antes. Quem aproveitou a oportunidade para construir riqueza, como holandeses e alemães, não vão sofrer tanto. Não adianta por culpa no chinês, no polaco ou no brasileiro que roubaram seus empregos. Afinal, vocês pouco se importavam com subempregos, achavam que limpar privada é coisa de imigrante.

A partir de agora iniciará um canibalismo na Europa. Crises aparecem primeiro naqueles mais fracos, e serão esses os primeiros a morrer.  Estima-se que 25 milhões de pessoas entrarão na condição de pobreza na Europa nos próximos anos. É muita gente que bebeu muito vinho e comeu muito queijo de frente para o mar e agora irão para a fila do restaurante popular.

O cachorro, sem comida, vai morder o próprio rabo. Resta torcer para que tal canibalismo não vire uma guerra explícita, não só de palavras. O que não me surpreenderia se ocorrer.

Marcio Vieira


Bomba-relógio ativada

08/08/2011

Era uma vez um loiro nórdico poliglota cristão e nacionalista que, por entender que o desemprego e a crise econômica estão relacionados com a imigração de pessoas de outras culturas, resolveu mostrar seu amor à pátria ao matar dezenas jovens simpatizantes do partido da situação.

Era uma vez um bloco econômico poderoso, criado para fazer frente ao dólar, que resolveu colocar numa mesma balança diversos países, antigos rivais, hoje “parceiros”, países completamente diferentes, de economias distintas, estruturas sociais e administrativas distintas, perfis, leis, culturas e padrões distintos.

Era uma vez jovens árabes, desiludidos, desempregados, indignados com ditaduras decanas de presidentes de mandavam e desmandavam em seus países como bem entendiam, e assim, numa insustentável fúria, resolvem liderar revoltas políticas, pagando com milhares de vidas a reestruturação de democracias.

Era uma vez o crescente número de grupos paramilitares no continente africano, onde cada dia as guerras tribais, ignoradas pelo mundo rico, começam a trazer consequências cada vez piores, com massacres, crimes contra humanidade, muito facilitado pelo comércio clandestino de armas produzidas e subsidiadas por indústrias daqueles países ricos.

Era uma vez minorias (mas são milhões de pessoas) acuadas com as guerras civis em tantos países árabes e africanos, começam a debandar, fugir para o país vizinho, só que muitos vizinhos enfrentavam os mesmos problemas, e outros, de forma mais desesperada, superlotam fronteiras e navios com o sonho de cruzar o mediterrâneo e serem aceitos como exilados para ter uma vida nova naqueles mesmos países que tentaram a partir de 1999, juntos mas diferentes, serem poderosos, mas hoje enfrentam uma enorme crise.

Era uma vez milhões de jovens europeus, acostumados a ter o primeiro emprego depois dos 25 anos de idade, depois de concluir uma pós graduação e mestrado, e agora se vêm com pouquíssimas oportunidades de trabalho, se vêm desempregados, despreparados para encher laje ou limpar banheiro, algo que os imigrantes nunca recusaram, e agora vão para ruas protestar por emprego, protestar porque não têm no bolso a moeda que que nasceu com a missão de ser maior que o dólar, protestar contra a abertura para novos países do dito “poderoso bloco”, onde os mais extremos revoltados inflam ideias nacionalistas, racistas, num protecionismo sanguinário.

Era uma vez um país de cultura milenar, que se fechou por décadas, comeu capim, viveu o isolamento e misérias mas, de forma totalitária, condicionou um povo extremamente trabalhador e competitivo, e assim, com muita paciência, se preparou para ser a fábrica do mundo, antes ridicularizado por fazer calculadoras ching-ling e atualmente com pessoas altamente capacitadas, produtos de todas as qualidades, do lixo ao luxo, para atender qualquer tipo de consumidor interno ou em qualquer parte do mundo, atraindo centenas de fábricas, muitas daquele continente que tentou unir o diferente para ser o bloco global dominante e ter uma moeda poderosa, mas que agora se vê com uma cadeia industrial enfraquecida e com trabalhadores extremamente caros, insatisfeitos, com poucas oportunidades e que agora protestam sem oferecer nenhum tipo de solução.

Era uma vez um mundo completamente conectado, interligado, permitindo pessoas, antes distantes, conversar sobre tudo e todos instantaneamente, assim encontrar mentes e ideias similares, capazes tanto de construir como destruir, capazes de difundir pensamentos, muitos preconceituosos, protecionistas, nacionalistas, extremistas religiosos, raciais, homofóbicos, capazes de explodir, se explodir, atirar, matar, muito por causa de insatisfações com a crise, com o desemprego, com a recessão econômica achando que a lojinha do judeu, do islâmico, do indiano, do chinês ou seja lá de quem está “roubando” o emprego daquele que nasceu ali, filho de pessoas que nasceram ali, àqueles do tal sangue azul, que agora difundem  na internet ideologias contra a “invasão” e a mistura racial.

Era uma vez partidos políticos de extrema direita crescendo de forma preocupante naquele continente que tentou há pouco mais de uma década juntar economias diferentes, mas que de certa forma encontrou em cada país simpatizantes contrários a tal abertura social, pessoas que acham que proteger uma cultura é se fechando para as demais, pessoas antissociais, burgueses falidos e preconceituosos que não acompanharam o desenvolvimento global e agora colocam a culpa do desemprego por causa dos latinos, africanos, chineses, indianos, islâmicos e que tais imigrantes, de alguma forma, seja pela possibilidade de conseguir a dupla-nacionalidade em virtude de uma exploração de séculos destes mesmos burgueses de sangue azul, ou seja pela forma ilegal que se arriscaram atravessando fronteiras, mares, barreiras, línguas, para tentar oportunidades que pouco tiveram em suas terras natais, e agora disputam o mesmo emprego com tais europeus, muitos deles que procuram o primeiro emprego depois dos 25 anos de idade, muitos que não se sujeitam a limpar banheiros, muitos que protestam querendo 34 horas de trabalho/semana (sem redução salarial, óbvio), muitos que acham normal trabalhar apenas 1 ano para ter um ano de seguro-desemprego com 80% do salário, e assim mamar nas tetas de governos decadentes que não condicionaram o povo a ser competitivo num mundo interligado, sendo que são pessoas que sempre tiveram oportunidades, escolas gratuitas, inúmeros benefícios, mas que não desenvolveram garra para a sobrevivência, para a disputa de um emprego e, em tempos de crise, qualquer emprego, assim reclamam da tal “abertura”, exigindo, muitas vezes, mudanças racistas e radicais para expulsar os imigrantes.

Era uma vez um continente que viveu infinitas guerras em mais de dois milênios, e elas aconteceram porque estavam com algum tipo de crise econômica, impossibilitando um desenvolvimento harmonioso, impossibilitando o diálogo, e assim desenvolveram línguas próprias, culturas próprias que, em cabeças nacionalistas extremas, foram intolerantes ao diferente, e o maior exemplo foi o massacre a judeus num momento que a economia global patinava após a Crise de 29, achando que tais diferentes roubavam empregos e oportunidades daqueles “arianos superiores”, e essa histórica todos sabem como terminou.

Era uma vez um brasileiro paulista, 29 anos, filho de português e mineiro, misturado, formado, desempregado, às vezes depressivo, às vezes exaltado, hoje com remédio isso é controlado, que já viajou por mais de 20 países, morou em quatro deles, aprendeu a ser minoria, o inferiorizado, que lavou banheiro e foi garçom no continente decadente, que cortou lenha no país do dólar (nem tanto, agora) dominante, que foi até a fábrica do mundo negociar e conhecer a cultura milenar da paciência e competitividade, e que ficou descontente ao vivenciar, engravatado por meses, que a tal Organização das Nações Unidas não é tão unida e é pouco objetiva, enfim, esse paulista maluco que retornou à sua terra depois de outra experiência internacional acha que o filme, aquele com sangue, intolerância e destruição, pode se repetir naquele mesmo cenário de tantas outras guerras.

Esse mesmo paulista às vezes fala besteira, é imaginativo, porém é capaz de apostar uma empadinha de palmito que a intolerância, a crise econômica mundial, bolsas despencando, a perceptível falência de uma moeda, o aumento do desemprego, a insatisfação de jovens, o fortalecimento de redes de contatos de forma global, a facilidade do comércio de armas, a difusão de pensamentos racistas aceitos por muitos desses jovens insatisfeitos e despreparados, a crescente intolerância contra imigrantes e o extremismo religioso e nacionalista, ocorrida também no âmbito governamental, o descontrole emocional de minorias mais exaltadas, capazes de explodir e de se explodir, pessoas que depreciam a vida, enfim, todos esses pontos se somados resultarão numa previsível tragédia de grandes proporções.

Existe uma bomba relógio no mundo, principalmente na Europa, curiosamente o tal “berço da civilização”, em contagem regressiva que foi ativada pelo Homem, e cabe a esse mesmo ser vivo orgulhoso que pouco sabe viver em harmonia com a natureza e com seus semelhantes, resolver de forma racional, mudar o fluxo de ideologias e desenvolver uma consciência coletiva projetada para o futuro, aceitando recuar, reduzir, aceitando negociar, aceitando mudar alguma coisa em tais históricos princípios éticos, morais, religiosos, que hoje muito provam que estão errados.

É preciso mudar para construir outro tipo de história, quem sabe, para desativar essa nova bomba, prestes a explodir, e fazer esse mundo ser, realmente, suportável e sustentável.

Marcio Vieira


A preconceituosa burguesia

20/10/2010

Multidão, feliz, comprando

Gostaria de fazer algumas perguntas para todos acerca de um grupo determinado que chamarei aqui de “rico idiota”.  Tais ricos, que pregam o elitismo com prepotência, são milhões que se misturam entre as classes A e B do Brasil e expõe um preconceituoso entendimento das classes mais humildes, ou de pessoas vindas de regiões mais pobres, e à eles faço algumas perguntas para reflexão:

É tão ruim ver milhões de pobres subirem para classe média? É tão ruim ver outras dezenas de milhões de miseráveis subir para a classe C?

Mais, é tão ruim ver o zelador do seu prédio com uma televisão “das fininhas” igual à sua? É tão ruim saber que o faxineiro comprou uma scooter zero quilômetro?

“Ah, mas é financiada em 5, 10 anos”, dirão alguns! “Para a televisão ele fez carnê que terminará de ser pago na Copa do Mundo do Brasil. O carro, só em 2018, quando não custará nem metade do preço atual! “

Existem centenas de desculpas para cutucar a felicidade do pobre que nos últimos anos ganhou espaço, ganhou respeito e condições de não só ter o mesmo celular, mas também comprar a mesma televisão e até o mesmo carro de milhões de pessoas que estão na classe média.

Então, vem tais idiotas da burguesia justificar a facilidade de financiamento, dizer que o pobre vai “casar” com o carnê de prestações e só assim conseguiu entrar no mesmo mundo de consumo que tais pessoas já estavam. Pergunto: e daí? Se o crédito foi aceito, qual é o problema dele comprar? Está triste porque a piadinha deles consumirem um CCE acabou?

O problema é que muita gente se sente incomodada ao voar de Gol para o nordeste e ter que dividir o vôo com vários retirantes que visitarão suas famílias. Há ainda um enorme grupo que acha que avião é transporte de rico e pobre tem que se perpetuar dentro de ônibus pinga-pinga.

É problema seu que pobres quitarão o carro em 10 anos?

O mesmo pobre vai tirar o carro zero quilômetro não tem vergonha de dizer que o carro é financiado em 80 vezes. Mas o suposto rico estufa o peito, faz pose e esconde um carnê de três anos. E depois tais burgueses reclamam da quantidade de carros, do trânsito por causa que pobres estão comprando carro. Pessoas que não se olham primeiro no espelho são as primeiras a reclamar.

É muito constrangedor saber que o motoboy está na universidade? Que a menina que te serve café também está na universidade? “Ah, mas são as ‘universidades de esquina’ que rifam o ensino brasileiro“, tais ricos de pensamento responderão.

O fato é que existe um incômodo enorme, principalmente de tradicionais paulistas e sulistas, com o avanço e desenvolvimento de regiões mais pobres, como norte e nordeste.

Se alguma consumidora com sotaque nordestino entrar na Daslu ou Oscar Freire já pensarão, algumas paulistanas, que tal mulher vai deixar o salário inteiro para comprar uma simples carteira. “Que petulância! Onde já se viu um nordestino comprar na Oscar Freire?“, elas pensarão, desconhecendo o crescimento econômico do Nordeste.

Existe, implícita na sociedade brasileira, uma preocupante segregação racial e econômica, principalmente vindo dos eternos frequentadores da classe média, que não admitem novos integrantes que saíram da pobreza. E tais pessoas criticam programas sociais, rotulando alguns como “bolsa-vagabundo”.

Nordestinos, felizes, com suas novas motos

São pensamentos preconceituosos contra programas sociais às classes D e E, e contra as novas aquisições da classe C, como a primeira moto, primeiro carro, primeira viagem de avião, primeira faculdade e primeira casa que milhões de pobres estão adquirindo. Mexeram no queijo do rico (Para quem leu “quem mexeu no meu queijo?”), deixando transparecer em tempos de eleição toda sua insatisfação em ter que dividir o mesmo espaço.

E muita gente com esse pensamento hitleriano perde oportunidades de crescimento do próprio negócio por desconfiar do pobre e de sua condição financeira. O atual governo permitiu que os beneficiários de auxílios consumam, fazendo a economia regional de rincões crescer. Em outras palavras: o dinheiro gira.

Para mudar a vista, precisa mudar de pensamentos

Tais ultrapassados burgueses criticam até as eleições, dizendo que pobre não tem consciência do voto. Ora, o que eles querem, a volta do voto censitário?

A alta elite se dá o luxo de aumentar seus preços para selecionar seu público, deixando a classe média vulverável à invasão dos pobres em ascensão. Está na hora de jogar essa arrogância e prepotência fora, no lixo, e aceitar dividir lojas, bares, aviões, avenidas, hotéis, boates, praia com todos, só assim será possível desenvolver uma sociedade justa.

Para começar uma justiça social e acabar com a desigualdade tem que aceitar dividir o mesmo espaço, mas isso muita gente não está disposta a fazer, infelizmente.

Há, claro, muita gente que está nas classes A e B que não pactuam do mesmo pensamento discriminatório, e que estão dispostos a ajudar ou, na pior das hipóteses, não restringir o acesso e desenvolvimento das classes menos abastadas. Porém, há um grande e triste grupo de pessoas que receberam ótima educação, mas que têm atitudes preconceituosas, seja com uma simples e “inocente” piadinha, ou seja mesmo com tons mais incisivos contra programas de assistência social.

À estes elitistas, um conselho:  Não se preocupem tanto com a vida alheia e não se preocupem com o espaço que nunca foi só de vocês.

Don’t worry, be happy.

Marcio Vieira