Paraíso das vaquinhas envenenadas

15/08/2011

vaquinhas envenenadas

No Direito Processual Penal existe a Teoria dos Frutos da Árvore Envenenada que, resumidamente, é a proibição da utilização de provas obtidas por meios ilícitos. Muito comum, principalmente, em escutas ilegais, onde o acusado pode até assumir a autoria de um crime mas, se tal prova foi obtida de forma irregular, esta deverá ser excluída dos autos, não podendo nem influenciar a decisão do magistrado.

A teoria acima reflete filosoficamente a questão central maquiavélica, aquela dos “fins justificam os meios”. Será que é justo utilizar meios não tão claros para fazer uma boa ação?  Será que ser Robin Hood é correto? Será que aceitar dinheiro de origem duvidosa para ajudar o desenvolvimento econômico é justo? Será que os fins justificam os meios?

Fiz essa pequena introdução para criar um paralelo dessa teoria com outras situações do cotidiano e que, após um grande amigo me encaminhar uma notícia da evasão de divisas na Alemanha para a Suíça, e somando-se os meses que morei em Genebra, resultaram num decepcionante coeficiente da ética do governo helvético (assim como de todos os paraísos fiscais).

Tax Heavens, fundos de investimento offshore, entre outras atividades, são lícitas em virtude, principalmente, da soberania de um Estado em determinar a alíquota de seus tributos. No entanto o ponto de discussão deste post é a transparência, os valores éticos para atrair um investidor internacional e, bem mais vertical, conhecer a origem desse dinheiro.

“Dinheiro não aceita desaforo”, governos suíços, monegascos e bahamitas dizem há décadas. É muito fácil abrir uma conta na Suíça, principal paraíso fiscal do mundo. A secular neutralidade helvética (já criticada neste blog) esconde métodos pouco éticos que contribuíram, vejam só, para o desenvolvimento de todo o país, ativar seu poder econômico, ser referência global em algumas áreas industriais.

Basta ver os recentes bloqueios de contas de ditadores árabes, exaltando o poder de fiscalização do governo suíço. É vergonhoso noticiar que tais contas foram bloqueadas, por que ninguém questionou a abertura delas?  Por que o país alpino permitiu que ditadores abrissem suas contas? Soma-se outros infinitos exemplos, como a ‘descoberta’ de contas traficantes, políticos corruptos, sonegadores e tantos outros indivíduos que, em operações fraudulentas, transformam laranjas em ouro.

Mas os paraísos fiscais não sabem, coitadinhos, ou fingem não saber!  Basta ver a quantidade de moradores e empresas registradas em Mônaco. Fisicamente dois corpos não ocupam o mesmo lugar, mas naquele minúsculo principado eles dão um jeitinho para mais alguém depositar seu dinheiro, afinal, dinheiro, seja limpo ou sujo, não aceita desaforo!

E assim, misturando o limpo e o sujo, paraísos fiscais recebem dinheiro que será utilizado, e muito, no desenvolvimento socioeconômico do próprio país. Será um lugar seguro, agradável, terá escolas públicas de qualidade, terá uma infra-estrutura excepcional, ruas pavimentadas, limpas, o sistema de saúde equipado, o salário mínimo será alto, enfim, são construídos paraísos!

Para descobrir parte do milagre que faz a Suíça ter três cidades entre as dez melhores do mundo para se viver, basta olhar para debaixo do tapete. Permitir a entrada de dinheiro ilegal, oriundo do crime, é uma forma de contribuir para a droga destruir mais famílias em todo o mundo, é uma forma de contribuir com novos assassinatos na América Latina, é uma forma de contribuir com mais massacres no continente africano, é uma forma de contribuir com mais trabalho escravo na Ásia, é uma forma de contribuir com mais tráfico sexual, é uma forma de contribuir com mais fome, miséria, é uma forma de contribuir com a destruição do planeta.

As famosas vaquinhas da Suíça foram envenenadas! E delas são produzidos os famosos chocolates e queijos. Tais vaquinhas comeram um capim podre, e agora produzem leite podre que resultarão em chocolates e queijos podres. Afinal, é muita competência o transporte público de Genebra, ilimitado, pontual e de altíssima qualidade custar aproximadamente 120 reais por mês. Afinal, é muita competência do governo ter uma das menores taxas de crime do mundo. Afinal, é muita competência do governo ter um salário mínimo de quase R$6.000,00 (Seis Mil Reais de salário mínimo). Helvéticos, qual a razão de tanta superioridade em comparação ao resto do mundo? Por que vocês são tão melhores??

Simples resposta: porque eles utilizam o dinheiro dos outros países, paraísos fiscais utilizam parte de dinheiro público roubado pelo Maluf e tantos outros em todo o mundo, utilizam dinheiro dos traficantes mexicanos, utilizam dinheiro dos ditadores sanguinários, utilizam dinheiro de empresários sonegadores, utilizam dinheiro de 50 empresas num mesmo endereço (de fachada).  Dinheiro esse que deveria estar nas economias de origem, e esse foi o acordo que a Alemanha conseguiu com a Suíça, para tentar reaver dinheiro que atravessou a fronteira e que agora, em tempos de crise, faz muita falta.

Você acha que os milionários pilotos de Formula 1 adoram morar num apartamento alugado de 80 metros em Mônaco. Você acha que eles realmente moram ali ou deixam ali um simples endereço para comprovar residência e justificar sua conta bancária, mas optam por morar confortavelmente numa mansão na Espanha, ou no Algarve?

É lícito o que eles fazem?  É.  Mas pergunto se é ético. Tem até dinheiro de famílias nazistas em contas na Suíça! É orgulhoso viver num país que se apoia em um sistema obscuro? Ora, a Suíça não participa da Comunidade Europeia por quê?  Se fizesse parte da zona (e hoje, uma puta zona) do Euro, ela deveria abrir as contas, mostrar quem tem dinheiro lá.  Você acha que eles querem isso?  Claro que não, tanto que o governo suíço está cagando nas calças de medo de tal CD room com a informação de milhares de contas bancárias que foi roubado, e tal acordo com os germânicos só saiu se a Alemanha não utilizar tais informações.

A crise global vai escancarar, desmascarar, muita gente, muito governo, muitas culturas e muitas condutas. É na hora ruim que cada um começa seu instinto de sobrevivência, e a tendência será tais paraísos fiscais sofrerem com a retirada de grandes valores, será a diminuição de fundos offshore, aumento da fiscalização, etc. Na verdade, a tendência é o dinheiro ilegal voltar para sua origem, e muito curioso será descobrir como tais governos se comportarão quando o dinheiro sujo parar de entrar. Será que vão continuar com 6 mil reais de salário mínimo?

É esperar, e ver, e cada um refletir: os fins justificam os meios? Eu não me sentia bem quando comecei a perceber como funciona tal sistema suíço. Eu não me sinto bem em usufruir de um sistema funcional, de uma boa infra-estrutura, de um bom salário, sabendo que tal sistema foi muito ajudado por dinheiro sujo de tantos outros países, muitos enfrentando pobreza, miséria e guerras. Seja pouco ou seja muito, bloqueios de contas, ações da justiça internacional, interpol, outras investigações que encontram remessas ilegais, contas ilegais e, o mais absurdo de todos, essa tentativa de acordo com medo de divulgar o nome de pessoas com dinheiro na Suíça comprovam que paraísos fiscais, na verdade, são esgotos contaminados, que produzem frutos envenenados.

Se começou errado, não importando se as próximas ações sejam certas, será sempre errado.

Marcio Vieira


Gruyères, Suíça

15/11/2010

Interessante essa coisa de comprar produtos made in tal lugar e nem imaginar como são, realmente, esses lugares. Pra mim, um fanático por queijos, quando comprava alguns pedacinhos de queijos importados no Pão de Açúcar em São Paulo, eu nem parava para pensar no caminho que o queijo fez até eu colocá-lo no meu carrinho, no supermercado.

Algumas semanas atrás visitei Gruyères, no cantão de Friburgo. É uma metrópole enorme com uma população gigantesca (1.800 habitantes, segundo o wikipedia), que vive de turismo e, obviamente, da produção do queijo gruyère.

Agora, imagine numa bucólica cidadezinha com menos de 2 mil habitantes, no meio do nada, ter diversos extraterrestres. Sim, enquanto Brasil recebe a visita de Bilú, nesse belíssimo fim de mundo há um dos museus mais incríveis: HR Giger Museum, do escultor e designer suíço Hans Rudolf Giger, que criou as formas dos extraterrestres dos filmes Alien.

Algumas fotos de um lugar imperdível na Suíça:

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Multilinguismo

07/11/2010

Um futuro multilinguístico

Um dos grandes desafios do brasileiro é a dificuldade inicial para raciocinar rápido e falar outros idiomas quando se viaja para o exterior, ou quando recepciona um estrangeiro. Mesmo tendo conhecimentos de outras línguas, o processamento das informações é devagar, se comparado com pessoas de outros países.

A razão para isso é a soma de alguns fatores, como o baixo interesse dos governos em investir em um bom ensino de línguas estrangeiras que se associa à uma característica geopolítica quase única no mundo: a unificação de um idioma oficial num território tão grande.

Se no mundo há cerca de seis mil idiomas, o Brasil é um dos poucos países que unificou um só idioma dentro de um território gigantesco, dando condições para todos os habitantes compreenderem quase que perfeitamente o português. É óbvio que os sotaques regionais são grandes, mas isso não impede a comunicação entre os indivíduos.

Pela dimensão territorial e a suposição de uma desnecessidade, é secular o descaso político acerca de estudos de línguas, visto que são poucos brasileiros que acabam utilizando outros idiomas no cotidiano. No Brasil acabaram enfatizando outras matérias no ensino fundamental, como matemática e biologia.

Força-se no Brasil, então, a cultura de estudar em escolas particulares específicas para ensino de línguas estrangeiras, visto que a qualidade do ensino, seja em colégios públicos como em particulares (excluindo-se colégios de alto padrão) é insatisfatória, deixando alunos sem uma preparação adequada.

E, mesmo investindo em cursos particulares, há um travamento natural quando o brasileiro viaja, principalmente para Europa, porque ele não tem o ouvido e a mente treinados para escutar distintas línguas ao mesmo tempo, causando quase um curto circuito na cabeça do cidadão.

Bem diferente está o continente europeu visto que, desde os primeiros anos do ensino fundamental, as línguas são priorizadas muito em virtude da pequena dimensão de seus países e de uma rica diversidade de culturas, culminando no desenvolvimento do multilinguismo.

Multilinguismo é a facilidade de aprender e de se comunicar em diversos idiomas ao mesmo tempo. Ainda crianças, eles treinam tais mentes para uma compreensão mais rápida e eficiente. Assim não precisam fazer o que todo brasileiro faz, que é mentalizar em português o que quer dizer, traduzir para o idioma que conhece, e só depois falar.

Os europeus, desde cedo, pulam as etapas de mentalização e tradução. Eles integram tudo à fala de forma natural, instantânea e dinâmica. E nos países com índices de desenvolvimento humano mais altos, o multilinguismo é ainda mais eficiente.

Na Suíça, por exemplo, além de ter um IDH elevadíssimo, o país conta com quatro idiomas oficiais (em parênteses a porcentagem da população tem como língua materna): Alemão (63%), Francês (21%), Italiano (7%) e Romanche (0,5%), e o restante é falado por imigrantes, dando destaque ao idioma Português (3,5%) e Espanhol (2,5%).

Soma-se, na formação básica (mesmo em escolas públicas) de um jovem suíço, o Inglês às três principais línguas oficiais do país, fazendo um estudante de 17 anos estar apto para entrar em qualquer universidade do mundo onde o curso será ministrado em tais línguas.

Com essa miscigenação linguística, os suíços desenvolveram uma mente veloz para compreender os diversos idiomas falados por todo o país, onde o pluralismo de línguas é evidente e está em amplo crescimento, já que o país atrai imigrantes de todas as partes do mundo.

Há outros casos no mundo com cidades internacionalizadas como Londres, Hong Kong e Nova Iorque que acabaram fortalecendo o Inglês. No entanto, quando não há uma ligação cultural à língua britânica, outras cidades internacionalizadas, como Genebra, têm seus habitantes desenvolvido uma mente multilinguística, escutando-se num vagão de trem, por exemplo, pelo menos quatro ou cinco línguas simultaneamente.

A cidade de São Paulo, inclusive, está num forte processo de multilinguismo, tanto que é comum escutar ao menos três diferentes idiomas numa simples caminhada por algumas quadras nas avenidas Paulista, Faria Lima ou Berrini.

Os próximos passos dessa multiculturalidade são evidentes. Alguns lugares desenvolveram novas línguas globalizadas, como o “Spanglish”, falado por jovens de origem hispânica, principalmente na Califórnia. Tal “idioma”  mistura Inglês e Espanhol dentro de uma mesma frase.

Já que o Esperanto não se desenvolveu, o Inglês ocupará cada vez mais espaço no cérebro de cada um. No entanto, mais oportunidades comerciais e acadêmicas terão àqueles que investirem em idiomas e treinarem a mente  para respostas rápidas e em uma quantidade maior de línguas.

Fronteiras estão ruindo, e é preciso aplicar um velho ditado: “quem não se comunica, se estrumbica.”

Marcio Vieira


Balança comercial favorável

28/10/2010

Inspirado no balanço do último trimestre da Vale publicado nesta semana, resolvi fazer o meu balanço, oras. Não são cifrões que acumulei nesses dois meses que acabo de completar, mas há sim um grande lucro, um saldo extremamente positivo.

Por mais desprendida que seja a pessoa, todos têm uma corrente, uma corda, amarrando os pés à sua origem ou passado recente. Ela faz a ligação com a memória, é a ligação com bons momentos de alegria, e também de tristeza, e que te liga para fazer reflexões sobre as decisões tomadas.

Mudar de vida não é fácil, mas também não é nenhum bicho de sete cabeças. Sempre disse, aos que me chamavam de corajoso, que “corajosos são os que passam a vida inteira fazendo as mesmas coisas, mesmo trabalho, mesma casa, e que não arriscam sabores e sensações novas com medo de uma possível derrota ou decepção”.

Essa coragem de passar a vida inteira trabalhando com dúvidas sobre o que escolheu, sob estresse, se desgastando, para no final dela (nem sempre) somar patrimônios e algumas viagens quando aposentado, sinceramente, estou fora.

Falo, também, em tom de brincadeira (mas com uma verdade implícita), que a sociedade inverteu a ordem da vida. Aposentado tem que ser quando é jovem, quando tem saúde, para correr, vibrar, sonhar, viajar, dormir em barraca e em rodoviária. Aposentado tem que ser jovem para vivenciar, transpirar realizações e frustrações. Deve-se aproveitar a vida quanto há saúde para mergulhar fundo e escalar arranha-céus. Depois, no final quando velho, perceberá que qualquer trabalho, qualquer emprego, é o suficiente para se satisfazer, pois sua bagagem, sua experiência, ninguém e nenhuma doença irá apagar.

Por isso brinco, digo que sou bon vivant, pois deve-se aproveitar a vida quando se tem, propriamente, a vida. Deve-se dar o valor ao suor em algo que realmente significa para você. Um amigo espanhol, Juan, me disse algo que nunca esquecerei: “Não tenho medo de ser pobre, afinal, nunca fui rico.”

É por isso que incentivo pessoas à mudança, incentivo em viajar, incentivo em mudar de profissão, casa, cidade, etc. Se não der certo, não esquente a cabeça, afinal, você seguiu seus sonhos, que é algo que poucos fazem, acredite. A dificuldade fortalece.

E, sob essa perspectiva, decidi uma mudança para a Suíça. Não conhecia ninguém na cidade, no país, não falo o idioma, não tinha conhecidos nem casa para ficar. Decidi porque é aqui que estão alguns antigos sonhos, os quais resolvi tirar da gaveta e arriscar: ter a oportunidade de estudar e trabalhar dentro de organizações que defendem causas humanitárias, ambientais, e que defendem um mundo internacionalista, sem fronteiras separando ricos dos pobres, brancos dos negros, etnias, religiões, opções sexuais, etc.

Não escolhi um país, escolhi um objetivo. Se fosse o Camboja, Belize ou Somália o país com tais organizações, iria dar um jeito de ir pra lá porque é isso que quero tentar.

Se vou conseguir ou não é outra questão longe ainda de uma resposta pois dois meses não são nada. Se vou aguentar morar num quarto sem janela que só o relógio me orienta saber se é dia ou noite, se vou aguentar a saudade dos sobrinhos, da família, dos amigos, se vou aguentar o frio da Europa e frieza dos europeus, se vou aguentar minha alimentação de sobrevivência, etc. e tal, isso tudo ainda não sei.  Mas vim pra tentar.

O relógio, por enquanto, caminha em marcha lenta, onde a falta de atividades estimula reflexões. Alguns dias me pego com nuvens pensativas rondando minha cabeça, mas que em nenhum momento causaram arrependimento das minhas decisões.

Assim, nos gráficos deste bimestre, minha balança comercial apresenta um superavit enriquecedor, de altíssimo lucro. A minha Bolsa de Mercados e Futuros registra recorde em valorização de títulos futuros, pois sei que toda essa experiência e os muitos sacrifícios passados serão benéficos para mim lá na frente. Mas, se der qualquer problema nessa trajetória, se uma crise mundial estourar, eu tenho uma boa bagagem que ninguém me tira.

Com 28 anos eu não tenho um puto no bolso, mas posso contar, ao menos, histórias para os meus sobrinhos. São escolhas, não sei se fiz as certas ou erradas, mas escolhi com a melhor das intenções.

Àqueles que focam dinheiro em primeiro lugar, para depois viver, eis um conselho: não relacionem sonhos com dinheiro. Eles não percorrem a mesma estrada. Dinheiro traz satisfação, felicidade é muito além disso.

Não incentivo rasgarem seus ternos, seus diplomas e venderem seus carros. O que incentivo é dar importância ao que realmente desejam na vida. Para todo o resto, dá-se um jeito.

Tempere sua vida sem esquentar a cabeça.

Marcio Vieira


Omelete de Gruyère

29/09/2010

Vacas poderosas

Se na Índia as vaquinhas são sagradas, na Suíça, então, são muito mais que isso: boa parte da fama e faturamento do país se deve ao leite dessas adoráveis ruminantes.

As vacas são tão importantes, mas tão importantes, que o governo suíço diminuiu a velocidade dos trens-bala para não estressá-las. Houve, há tempos, um estudo mostrando que barulhos em excesso atrapalham na qualidade do leite e, para os helvéticos não perderem a reputação conquistada, frearam as locomotivas.

O paraíso fiscal é, também, a terra de chocolates de diversas qualidades e sabores, como Lindt, Frey e Toblerone, além da Nestlé. Do lado “salgado” da vida suíça, o prazer é o mesmo: queijos e mais queijos de ótima qualidade, como Emmental e Gruyère.

E a vantagem disso é aproveitar ótimos produtos à preços excelentes, bem baratos mesmo. No café da manhã, como um sanduíche de banana amassada com nutella e vou para aula.

Omelete chique

Hoje fiz uma excentricidade, me senti rico: como aqui a mussarela é praticamente o mesmo preço dos queijos finos, então eu parto para cima dos chiques. Acontece que estava com vontade de comer omelete e, na falta de queijos de pobre (olha o ego!), o Gruyère foi para frigideira.

Ficou bom, mas não igual à pizza do domingo, que “turbinei” a simples margherita da promoção com Gouda e o falecido Gruyère. Saudades da quatro queijos paulistana, mas nem tanta.

E assim começo a conhecer os produtos “Made in Switzerland”. Os produtos suíços são de extrema qualidade, porém, sempre há o lado B, as coisas do povão, que é minha atual condição. Mas aqui o povão vive muito bem, tudo graças ao Migros e o Denner.

Há o Coop, também, mas achei os preços caros.  Migros e Denner são mercados pequenos, enxutos, com tudo que alguém precisa para viver bem. O problema é que o dono do Migros ou não bebe cerveja, ou não gosta, sei lá. Só sei que não vende bebidas alcoólicas.

Foi assim que conheci o Denner. Denner é gente boa, gosta de uma cana, é menor, mais esculachado, bagunçado, e com algumas coisas realmente baratas, além de uma variedade incrível de cerveja. Ontem fui lá e comprei uma tal de Rastella, uma versão bem tosca (e mais barata) da Nutella.

Mas o produto que mais intrigou é o Sabão em Pó Calgon (na propaganda fala-se “Cagón”). Fiquei imaginando o agradável aroma de cagón na sua camiseta. O perfume do campo de cagón me fez lembrar na hora das vaquinhas suíças… Ainda bem que não há sabão cagón no Brasil, acho que, com esse nome, não seria bem recebido nos trópicos.

O perfume irresistível de Calgon


Aplicando “Arte da Guerra” na cozinha

01/09/2010

(Manual de sobrevivência do viajante – Alimentação)

Manolo e Antônia proporam 400 francos por mês a mais no aluguel e as geladeiras e a despensa estariam liberadas para eu comer o que quiser.

Não é uma simples despensa: eles devem esperar alguma guerra, invasão alienígena, 2012, sei lá o que mais pois é muita comida que eles guardam aqui.

Lógico que a fome deles é um pouco maior que a minha. Quer dizer, bem maior, mas não titubiei em agradecer tal oferta, mas vou recusar.  Primeiro porque não tenho essa grana para gastar com comida. E depois vem a questão da necessidade e estética: não preciso comer tanto e não quero virar um gordinho simpático.

Já estou quase careca, se ficar gordo, aí só a loteria me salvaria para arrumar mulher!

Antonia é um amor de pessoa, muito do bem, toda sorridente, mas falei para ela que vou tentar me manter sozinho para ver quanto gastarei por dia, então fui ao mercado com a ideia de não gastar mais de 20 francos e sobreviver 5 dias, até hoje.

Gastei 16. Meta cumprida: comprei 1,5 de leite, manteiga, 3 latas de atum, macarrão (aquele que fica lá embaixo na gôndola, dificil de pegar, sempre é o mais barato), uma caixa de nuggets de peixe, molho de tomate, maionese e pão. Tudo do preço mais barato, óbvio.

Luxo: uma latinha de champignon (da marca mais barata).

Ótimo, agora é viver assim: de manhã são 3 goles de leite, 2 fatias de pão com manteiga. Vou para faculdade com 3 sanduíches de patê de atum, e a noite faço um macarrão e nuggets no forno.

Ficou um clima um pouco chato na hora de trazer a comida pois na casa, ao que me parece, sou o primeiro a decidir pela própria comida. Mas nada que uma conversa, outros assuntos não resolvam, e Manolo e Antonia são pessoas bem legais, então aqui vem o manual de guerrilha do viajante.

Veja meu espaço na geladeira. É minúsculo, o freezer horizontal está lotado, outra geladeira abarrotada, só sobrou, mesmo, tal espaço. Nem na porta tenho.

Mas nada de reclamar, vamos aplicar “Arte da Guerra” e outros livros de estratégia para melhorar minha condição, mas sem criar atritos com meus flatmates.

A tática é simples, usada já em muitas guerras pelo mundo: se algum combatente seu morreu, não deixe o inimigo saber. Seu soldado morto é muito útil ainda pois, além de atrair a atenção do adversário, ele poderá servir de barricada, escudo!

A zona vermelha na foto é minha área inicial. O leite é meu soldado morto: já está quase no osso, mas não vou jogá-lo no lixo antes de aumentar meu território, então mostro a necessidade por mais espaço, e assim conquistei a área azul.

É simples, é silenciosa e intimida/sensibiliza o inimigo.

Tal tática pode ser usada em vários assuntos, até em escritórios: Se você for para uma reunião com o chefe, nunca vá só com caderninho e caneta. Leve mais alguma pasta. Se você for na copa beber um café, nunca vá de mãos abanando: leve uma pasta.

Se a reunião for externa, for de conciliação (estresse entre advogados!!), nunca vá em menor número: leve um estagiário, amigo que resgatou no boteco, etc, enfia na mão dele algumas pastas, fala para ele ir com cara de sério.

Sim, o seu estagiário e o bêbado do seu amigo, nesses casos, são as mesmas coisas que os soldados mortos e a caixa de leite vazia: não servem para nada além de fazer número!! hahah 🙂

Essas coisas aumentam seu espaço físico, faz o adversário perder tempo/atenção, então você pode concentrar suas forças só para atacar, já que o inimigo vai se defender no primeiro momento.

Au Revoir!


A Guarapiranga do futuro! Quando?

29/08/2010

(Genebra, Suíça) – 3 dias não são suficientes para conhecer um bairro, o que dirá de uma cidade. Mas é inevitável, nos primeiros dias, as comparações quando se está vendo novidades.

Inevitável, também, é não pensar na Guarapiranga quando se vê a cidade de Genebra, na Suíça. Calma! Não estou aqui para humilhar a represa paulistana. Tentarei, ao menos, motivar discussões e brainstorms entre todos que querem a Guarapiranga viva.

Antes de mais nada, conheço a represa de São Paulo muito bem desde quando praticava esportes à vela e posso dizer: ela é linda! Muitos, milhares, pensam que a represa é um esgoto aberto, como são os rios que cortam a cidade.  Mas não, ela está longe de ter a água podre das marginais, no entanto, infelizmente, está distante de ter águas limpas. Ela precisa que cuidem e a respeitem, só isso.

O potencial que a Guarapiranga tem para ser um excelente local para prática de esportes náuticos e lazer para toda população paulista é imensa: São Paulo tem o décimo maior PIB entre todas as cidades do mundo, dinheiro não falta. O que falta é vontade política e uma consciência coletiva para, quem sabe, ela ficar assim:

No momento que tirei essa foto do Lago Genebra limpo, lindo, pensei: São Paulo poderia ter um espaço semelhante, basta um gramadão, uma calçada, cestos de lixo, bancos, árvores.  Basta poucos funcionários para limpeza e conservação.

A atual prefeitura paulistana está investindo, mas é muito pouco e com muita lentidão pois ainda sobrevivem motéis e casas noturnas, restaurantes, etc. que escondem entradas dos poucos espaços de lazer da represa. Todo o comércio e propriedade privada que rodeia a represa deve sair, afinal, interesse coletivo sempre prevalece diante do interesse privado!

Faltam espaços de lazer em São Paulo, e os poucos espaços estão com superlotação nos finais de semana: é estresse para procurar uma porcaria de vaga na rua (com flanelinha pedinte, óbvio), é estresse para correr, e mais ainda para pedalar, achar um pedaço de grama para sentar, descansar.

São Paulo precisa, urgentemente, descentralizar o uso do Parque do Ibirapuera e Villa-Lobos e investir em outros locais, assim evitará grandes deslocamentos de pessoas, que é o principal problema da cidade.

Não basta o trânsito diário dos dias de trabalho, é necessário ainda passar nervoso aos sábados e domingos!  Até quando?