O teu passado te condena?

Atualmente, de cada dez empresas, onze querem ser consideradas sustentáveis. A maioria delas porque entendem que precisam compensar suas pegadas para permitir uma exploração contínua de uma atividade, outras empresas, infelizmente, buscam a sustentabilidade para agregar valor ao seu produto e à sua marca.

Empresas sustentáveis são mais admiradas, assim como as empresas que valorizam seus colaboradores, que dão benefícios extras, empresas compromissadas com a Agenda do Trabalho Decente, empresas que incluem a sociedade do seu entorno em questões socioambientais, enfim, empresas que vão além da legislação reguladora acabam, por tais práticas, aumentando sua reputação no mercado e sendo escolhidas pelos consumidores na hora de adquirir um produto ou serviço.

Porém, uma questão importante para ser analisada é a relação da empresa com seu passivo. Considerando que a prática da sustentabilidade é mutável a cada dia com a inclusão de novas tecnologias limpas, com a inclusão de novos conceitos, novas leis trabalhistas, novas técnicas de exploração com menos impacto ambiental, novos parâmetros certificadores, etc., e o passivo acumulado de anos, décadas, às vezes séculos, quando foram utilizados procedimentos que hoje são inadequados, o que será feito com tal passivo?

A maioria esmagadora das empresas esconde essa preocupação, jogam para debaixo do tapete, perpetuando o esquecimento em uma gaveta empoeirada qualquer. Não tocam nesse tipo de assunto porque, por se tratar de uma questão muito vertical e aprofundada que poucas pessoas querem saber, tais empresas direcionam seus esforços na neutralização do impacto dos procedimentos atuais, visto que a cadeia de produção e consumo é atual, e não do passado.

Infelizmente é raríssimo encontrar nos departamentos de sustentabilidade ou que tratam de Direitos Humanos dessas empresas estudos que comparam as práticas e legislações do passado com as práticas e legislações do presente, com o intuito de identificar esse gap, às vezes de grandes proporções, que retratam um passivo de impactos que foi deixado de lado.

Não conheço nenhuma empresa que É sustentável, É verde ou É responsável socioambientalmente. No máximo, conheço empresas que ESTÃO sustentáveis e verdes. Existe uma profunda diferença entre o ser e o estar, um retrata desde o seu nascimento, outro retrata o momento, mas que na hora de divulgar em campanhas, muitas vezes milionárias, sobre as práticas socioambientais, utilizam-se o termo errado de ser, enganando o consumidor.

Entendo que, para ser considerado sustentável, para ser “amiga” da natureza e da sociedade, é preciso olhar para o passado. Concordo que é difícil pesquisar métodos em tempos de pouca tecnologia, baixos registros e poucos documentos ainda existentes, mas o termo sustentabilidade retrata a conscietização de uma situação dos impactos ao longo de toda uma existência.

É difícil mensurar as pegadas de gerações passadas mas, se o nome é o mesmo, se a empresa é a mesma, tais atividades fazem parte não só do passado, assim como do presente, visto que tudo está dentro da vida de tal empresa. Não se esquivar do passado e não ter vergonha dele é necessário para o desenvolvimento de um significado efetivamente mais próximo da sustentabilidade.

O atual momento do planeta e da sociedade reflete as ações do passado. Se novas leis e novos procedimentos são considerados vitais para o desenvolvimento socioambiental, muito se deve às práticas inadequadas e às consequências dessa exploração do passado. Portanto, ao invés de esquecer o passado, deve-se trazê-lo à tona para discutir, contabilizar, mensurar, enfim, auditar o passado para que tais empresas paguem pelo seu passado, fazendo sua compensação com a sociedade e com o meio ambiente conforme a atualização dos conceitos de Sustentabilidade.

Nesta linha de pensamento, forma-se uma ciranda, e nunca uma empresa será sustentável ou respeitará o trabalho decente. Direitos Humanos e Sustentabilidade são utópicos. É impossível atingir a plenitude dos Direitos Humanos e da Sustentabilidade, mas este assunto será tema de um próximo capítulo, aqui no Pegadas.

Marcio Vieira

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