Contra o vento não vão mais caminhar

21/05/2012

Entre tchus, tchas, lê lês e lá lás,

Os poetas foram deixados para trás

Porque hoje são traseiros à mostrar

Para todo mundo, no mundo inteiro, apreciar

Mas não precisamos voltar muito para comparar

Bastam alguns anos, e questionar:

O que fizeram com a música popular?

Antes havia uma letra para pensar

Agora são sílabas aleatórias à cantar

Feitas de lê lê lês, tchererês e lá lá lás

De gente que não têm noção o mal que faz

Estão acabando com uma história que há de se orgulhar

Encaixando palavras, sem contexto, só para rimar

E quando não tem palavras, enfiam um outro tchá

Coitado do Jobim, da Elis, e tantos outros que estão à chorar

Mais coitado é o povo, ignorante, que estás à escutar

De pessoas que não tem nada de bom para influenciar

Palco e microfone, hoje, são só para rebolar

Enquanto antes, eram pensantes palavras para protestar

Oh, pátria de chuteiras, onde sua voz doce foi parar?

Por que tanta preguiça para compor e cantar?

Por que formar estrelas quem não sabem brilhar?

Oras, é mais fácil tchus e tchás para memorizar!

Vai vender mais, rapaz!

Deixem os verdadeiros poetas no bar, à lamentar!

Pra que letras grandiosas se o povo não sabe raciocinar?

É um Brasil comandado por pessoas que não querem educar

Gente ignorante, coitados, que não podem descobrir como votar

Que preferem ver as fotos nuas de atriz famosa para comentar

Do que discutir sobre a merda da educação que aqui está

Criam-se mais uma geração perdida com doses de tchus e tchás

É verdade também que antigamente tinha música ruim para se escutar

Mas havia espaço aberto para boa música tocar

Hoje, se quer ver gente boa, prepare o bolso para gastar

Elitizaram a verdadeira música popular

Enquanto a vulnerável maioria do povo, desamparada, está

Futuro sombrio nos aguarda, não há argumentos para discordar

Contra o vento e sem documentos, estes de hoje, não vão mais caminhar

Marcio Vieira

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Um joinha, por favor

22/11/2011

Eu sou um cara legal

Eu sou um cara consciente

Acompanho tudo, sou atual

Às vezes incoerente

.

Preciso de autoafirmação

Olhem as baladas que vou

Sou o rei da pegação

Tag me aonde estou

.

Eu também sei protestar

Belo Monte também me indignei

Apesar de nem saber aonde está

Nem sei pra quê, apenas assinei

.

Um joinha, por favor!

Gostem de mim, eu sou demais

Like me, com muito amor!

Não vou te bloquear, jamais

.

Poke me, quero ser querido!

Cutuque me, quero me sentir valorizado

Não importa que fora tenho poucos amigos

No Facebook, eu quero ser disputado

.

Amoooo, Love Ya, Adoooro, Curti!

Só vou malhar para na foto estar sarado

Preciso agradar o mundo virtual daqui

causar inveja, e ser muito comentado

.

Valeu, Facebook, por me aceitar

Tenho mais de mil amigos

embora, fora, são poucos à ligar

E querer sorrir, viajar, sair, viver comigo

.

Hoje meu sonho é mudar de nome

escrever no final “lotado”

mudam-se objetivos, continua a fome

não entendem o que é ironia, sou odiado

.

Não sei mais conversar olhando nos olhos

Impossível ficar 5 minutos sem no meu i-phone futricar

Vai que postou algo ruim, pode causar um imbróglio

Dane-se minha privacidade, vou compartilhar

.

Tudo isso é porque quero construir uma reputação

Só que isso não se constrói, meu caro, se preserva

Você não vai morrer com suposta rejeição

Volte a ser a boa pessoa que você era

.

Marcio Vieira


Pá Pá Pá entre Plim Plim

14/11/2011

 

Um grande batalhão

helicóptero, caveirão

Claquete… Ação

Na TV, no plantão

 

Os heróis ressurgiram

outro morro subiram

bandidos não reagiram

castelos descobriram

 

Agendaram data e hora

No script, sem demora

Para ninguém perder

E para ninguém prender

 

Hastearam a bandeira, filmou?

Será que o telespectador gostou?

Mas nenhum sangue jorrou

A prévia, horas antes, Galvão narrou

 

O caos vende, dá lucro

A pessoa se rende, compra o produto

Não a droga do morro, o ilegal

Mas aquele que passou no comercial

 

A população está indignada

com a mansão levantada

pelo custo da erva e do pó

pela lei de matar, sem dó

 

Leblon, Barra, Projac

Playboy fuma e cheira

Para o pobre sobra o crack

Todos usam, população inteira

 

A culpa é da polícia, uns dirão

A culpa é do governo, reforçarão

A culpa é da família, replicarão

Ou culpa é a falta de Deus, perdão

 

Não querem acabar com essa tragédia

Não é bom a bala perdida dar trégua

Fantástica televisão, há influência

Povo não questiona, muita audiência

 

Plim Plim e a lavagem começou

Pá Pá Pá, o choro se escutou

Uns ao vivo, no conforto da poltrona

Outros mortos, é de chumbo a azeitona

 

Tudo arquitetado, minuciosamente pensado

Tudo para agradar o eleitorado

No horário nobre, televisionado

Só com Tropa na TV morro é pacificado

 

Ipanema, Jardins, Pampulha, Morumbi

Moinhos do Vento, Boa Viagem, Copacabana

Batel, Barra, Lago Norte, Itaim Bibi

É daí que surgiu tudo, vem daí a grana

 

Sem medo para pedir droga, há nextel

Entrega rápida, até na claridade do céu

Aviãozinho empregado, nike no pé

Sobrevive quem não é X9 do Pajé

 

Domingo tem sol, futevolei, ver o mar

Final da tarde enrola um para queimar

Fantoches são Nem, ADA, CV e Beira-Mar

A indústria atrás do estúdio não serve só para gravar

 

Audiência, nunca serão, jamais serão

Nascimento é produto de eleição

Financiado por engravatados, empreiteiras

Acorde!, isso tudo não é brincadeira

 

Cuidado é pouco com a platinada

População pode estar viciada

Sensacionalismo, mente domesticada

Logo chega a Copa, corrupção justificada

 

Marcio Vieira


Filhos da liberdade

04/11/2011

Filhos da Liberdade, tão cultos

Papai lutou, e daquela história, ele nos contou.

Botinadas levou, feridas no coração, a repressão da opinião.

Papai apanhou, alguns exilados, outros com sacos eletrocutados,

não poderia discordar, era a truculência dos fardados.

 

O preço com tanto sangue fez o Brasil mudar,

O povo, finalmente, voltou à votar

Escolher quem quiser, seja lá quem são

A liberdade era um sonho da nação.

 

Papai sofreu, a inflação comia o dinheiro

Almoçar, agora não dá mais para o tempero

Planos infinitos, Cruzado, Cruzeiro

Além de votar errado naquele que foi o primeiro.

 

E dentro desse momento, papai nos concebeu

Eram filhos da esperança, filhos da liberdade

Depositando aquilo que ele nunca recebeu

A chance de opinar, de falar, a tal dignidade.

 

Com muito esforço, papai nos educou no Real,

para um dia, quem sabe, entrarmos na Federal

Difícil foi, não tem como negar,

mas agora os frutos querem gritar.

 

Vamos lutar, ò filhos da democracia!

Lutar por qualquer coisa, serve até a hipocrisia.

Papai nos contou como é lutar para vencer

Temos que ter motivos, e nossos rostos esconder.

 

Vamos reivindicar, vamos protestar

Somos os filhos da esperança

Exigimos no campus mais segurança

Vamos contrariar, nada de Polícia Militar.

 

É que papai falou que aquele coturno dói

Mas isso era em 70, 80, na Ditadura,

quando tinha motivos para a luta,

É com liberdade que uma sociedade se constrói.

 

Então, ò líderes da baderna, qual será nossa luta?

Não sabemos, não importa, faremos nossa conduta.

A liberdade que papai lutou não pode se alterar

Nem que o motivo seja ou não uma baseado para fumar.

 

Papai deve estar orgulhoso de nós acampados aqui!

Invadimos, quebramos tudo, na assembleia vamos votar

Somos o futuro do Brasil, a geração que um dia vai liderar

Não importa se a democracia não sabemos respeitar.

 

Mas a verdade é que papai está com vergonha.

Daquela liberdade que veio, no fim dos 80, numa cegonha.

Filhos que não souberam entender o que é lutar

Que não significa guerrear, mas sim acreditar.

 

Filho não reprimido virou playboy comunista

Rebeldes sem causa, ingratos por uma conquista

Banalizaram a vitória pela liberdade de pensamento

Em badernas travestidas de movimento.

 

Filhos da Liberdade não entendem o que é legalidade

Querer afrontar um sistema com tão pouca idade

Prematuros de Collor, seus 20 e poucos é tão pouco

Com revoltas sem sentido, vocês estão loucos.

 

Papai não sangrou em vão

Honrem agora liberdade de uma nação!

Lutem por injustiças, lutem contra a corrupção

Hoje coturnos e cacetetes não reprimem mais opinião!

 

Acordem, Filhos da Liberdade, cresçam!

Respeitem a democracia, à conheçam.

Polícia Militar é necessária em qualquer lugar

Não é culpa deles se a Guarda Universitária deixava fumar.

 

Tenho medo quando estiver na aposentadoria

Afinal, que geração é essa que será nossa voz um dia?

Filhos da Liberdade, tão carentes de motivos

Mimados, querem que a sociedade os dê ouvidos.

 

Marcio Vieira


Insurgentes saudados na terra dos tucanos

11/10/2010

Quando tocava a sirene e uma estrela vermelha subia no telão no fundo do palco, cerca de 50 mil pessoas que foram ao primeiro dia do Festival SWU, no interior de São Paulo, entraram em euforia. E não era para menos, afinal, era a primeira vez que o Rage Against the Machine se apresentava no Brasil.

A banda californiana com enorme engajamento sociopolítico voltou aos palcos no mundo todo para uma grande turnê, que incluiu pela primeira vez a América do Sul.

Todos os integrantes da banda, principalmente Zack de la Rocha de Tom Morello, atravessaram as últimas duas décadas defendendo diversas causas em todo mundo. Já perderam a conta de quantas vezes foram detidos por policiais de todo mundo, mas não se cansaram. Muito pelo contrário, a repressão deu energia para lutar mais.

A inspiração surge da raiva de um sistema desigual, lutam pelos imigrantes latinos, pelos negros, lutam pelos direitos trabalhistas, direitos indígenas, lutam contra a tirania, lutam contra uma elite dominante, lutam pela libertação de presos políticos, lutam contra repressão, lutam contra a miséria e lutam por terra.

Quando Zack dedicou a música “People of the Sun” para o MST – Movimento dos Sem Terra, a multidão foi à loucura por mais uma grande música da banda, que faz menção à luta de milhões de indígenas mexicanos (maioria deles vivem da agricultura) contra a tirania de espanhóis colonizadores e, posteriormente, ao Partido Revolucionário Institucional (que de revolucionário só tem o nome).

Lá também são mais de 500 anos de exploração e desigualdade, trazendo uma consequência muito semelhante: a miséria regionalizada. Se os governos brasileiros deixaram na miséria o interior do nordeste brasileiro, no México, esqueceram de cuidar e investir de Chiapas, um pobre estado no sul daquele país.

Para protestar, o sangue Maya foi mais forte que o Tupiniquim: movimentos separatistas e pró reforma agrária ganharam muita força e repercussão desde os anos 70, culminando, em 1994, na tomada de diversas cidades de Chiapas pelo Exército Zapatista de Liberação Nacional.

Até hoje há cidades autônomas no sul mexicano  que vivem da agricultura e turismo. Em 2005, no Fórum Mundial Social, tive a oportunidade de conhecer um grupo da cidade autônoma de Lucio Cabañas (nome dado em homenagem à um importante membro da Revolução Mexicana de 1910, que tinha como líderes Emiliano Zapata e Pancho Villa). Na palavra deles, o isolamento de interferência federal foi um grande avanço para o desenvolvimento agrário e econômico da região.

Zapatistas e a luta por justiça social

Movimentos favoráveis à reforma agrária são amplamente defendidos pela banda, e penso que eles tocaram no SWU por causa do anúncio de ser um evento em defesa da sustentabilidade (à procurar notícias de ações na área após os shows), mas diante da enorme incoerência do show de Itú, ficou na minha mente a pergunta:

– Com ingressos caríssimos, certamente a ampla maioria que foi ao show é de classes média e alta, as quais concentram a maioria dos votos do PSDB. Será que as pessoas que foram ao show da banda apoiam o MST?

Brasil é um país o qual, até hoje, tentam manipular notícias e informações para toda população, fazendo acreditar que Rocky Balboa e mocinho e Ivan Drago é mau, que vermelho é infernal, que estrela vermelha é símbolo satânico, que barba é coisa de revolucionário que vai tomar sua empresa, seu salário, etc.

E se aparecerem tais barbudos com  uma enxada na mão querendo plantar em terras improdutivas, a mídia vai dizer que são espertalhões querendo algo fácil. Sim, é inegável que nos últimos anos os líderes do MST praticaram algumas ações desastrosas e invasões irracionais, mas está longe, muito longe, de motivos para desmoralizar a causa.

A causa do MST é nobre, é para acabar com um domínio secular de poucas famílias sobre o território brasileiro que, de geração em geração, muitos perderam o interesse pelo cultivo em terras, mas não abrem mão de perdê-las para a Reforma Agrária. Esta reforma, por sinal, teve no governo Lula seu maior avanço, dando possibilidades de crescimento econômico para milhares de famílias no país.

Sim, há o lado podre da história, pessoas que entram no programa para repassar terras, pessoas que sonegam suas rendas para tentar conseguir uma terra de graça, laranjas, etc. São essas pessoas que viram notícia, mas são notícias, muitas delas, distorcidas pela mídia que generaliza, que vende uma imagem satânica das lutas sociais.

E é a causa da reforma agrária que a maravilhosa banda Rage Against the Machine levantou a bandeira. É a mesma causa que milhões de paulistas tucanos repudiam, mas que no show, milhares deles saudaram. Talvez nem pensaram na incoerência, se tentaram pensar, não conseguiram pois muitos dos que foram ao evento só enxergam um lado da moeda, aquela derivada da Veja e afins.

Outros símbolos de lutas sociais presentes no show, como a sirene da fábrica que acorda proletários, metalúrgicos, homens que vestem macacões sujos de graxa, trechos d’A Internacional, e a fatídica estrela vermelha no telão não foram, em sequer momento, temas de críticas dos eleitores do PSBD.

Aos menos informados, entendo que a banda não fez coro ao PT em tempo de eleição, que, assim como o PSDB, tem seus dois lados (o bom e o podre). A estrela vermelha socialista não é partidária, é ideológica. O Rage Against the Machine fez menção às causas sociais de um mundo de injustiças.

Aos que associam a imagem comunista do Hugo Chavez com problemas administrativos, censura, estatização, cortina de ferro, etc. e fazem duras críticas ao modelo venezuelano (e com razão), os mesmos endinheirados tucanos esquecem que, quando vão passear no Chile, tal país foi presidido por uma mulher com ideais socialistas, Michelle Bachelet, e é o país latinoamericano com melhor qualidade de vida. Ou seja, cuidado com generalizações.

Desde seu início, RATM é uma banda que protesta, que luta por oportunidades iguais à todos.  Assim como eles pediram que tirassem a barreira vip antes do show, motivo de interrupções ao longo da apresentação, porque eles não querem enxergar diferenças sociais/financeiras quando tocam, isso faz perder o sentido das lutas às quais eles entram, apanham e são presos.

Aos que foram ao show, parabéns. Que a semente que tal quarteto plantou em vossas cabeças produza e reflita as situações do mundo, e que tenhamos mais pessoas caminhando nesta marcha que direciona por um mundo mais justo.