Ativistas de pantufas

Ela não fala, mas todos escutam. Ela não tem vida, mas pensa. Ela não apanha, mas agride. Ela ainda está na adolescência, era da rebeldia, era dos conflitos e questionamentos expelidos instintivamente. Uma jovem que já é tão poderosa quanto qualquer outra. Ela é a Internet.

A cada dia, a tendência é ela ficar mais ácida, mais rápida, mais venenosa, mais prazerosa, maior, mais forte para atingir cada vez mais pessoas. E cada vez mais pessoas atingem a Internet onde a maioria transparece suas ideias, suas frustrações, suas virtudes com alcance inimaginável que faz imaginar quem do outro lado vê o que você faz.

O Sr. Anonymous agora tem rosto, ou melhor, tem seu próprio avatar. Agora novas respostas são ditas e novas perguntas são feitas. Perdeu-se a restrição da informação, o controle remoto da televisão está com inveja do teclado do computador.  Nada pode deter essa garota que nem chegou aos vinte.

Assim como nada pode deter milhões, quiçá em pouco tempo bilhões de pensamentos, bilhões de mentes e vozes intercaladas que, em tempos de crise, seu ferrão fere mais que qualquer chumbo ponteagudo. É a insatisfação de uma multidão porque não se pode mais esconder a fome, não se pode esconder a crise, a corrupção, não se pode esconder o desemprego, os atos do Sr. Anonymous travestido de engravatado político agora caminha na corda bamba, e qualquer deslize, já era.

E o mais forte dessa menina chamada Internet é que ela pode trabalhar na rua, na praia, no escritório, hoje até acima dos 30 mil pés, em todos os lugares possíveis, inclusive sem sair da própria casa.

Coturnos dos punks foram trocados por pantufas de qualquer pessoa, o cyberativismo cresce, amadurece, enfurece e, cada dia mais, alista novos integrantes e novos simpatizantes, seja lá qual for sua causa: a pobreza, os animais, a corrupção, a religião, a liberdade sexual, a fome, a sonegação, a desigualdade, as florestas, as águas, o calor que derrete, a poluição que contamina, a doença que mata e a paz que morre.

Calçando pantufas, textos e vídeos são espalhados no apertar de alguns botões. Opiniões são registradas, convocações são feitas, vozes são escutadas, mentes são abertas, ideologias discutidas, isso tudo de forma livre e voluntária. Essa garota Internet é liberal, às vezes promíscua, tamanha sua libertinagem, sua acessibilidade. Essa menina-mulher Internet é facinha, “libera para todo mundo”, sem restrições.

E os usuários dela se reúnem, não importa o quão distantes uns dos outros estão, eles se reúnem como quiserem. E assim são criados grupos de ativismo, grupos que lutam por melhorias e justiça, ou por badernas e caos, afinal centenas de milhões de opiniões são digeridas ao mesmo tempo e inevitável é não serem conflitantes, mas todas pedem por mudanças.

De pantufas, reunidos, protestando, iniciam movimentos, se juntam para engrossar a voz, para fortalecer a porrada, para fomentar a opinião. E só por causa dessa adolescente tanta coisa mudou e, mais ainda, tanta coisa vai mudar. Ela encoraja, ela estimula, incentiva por lutas necessárias. Ela nos convida a conhecer mentes parecidas e, assim, para os mais inquietos, direciona para as ruas.

Inicia-se com pantufas para depois utilizar faixas, caminhadas, manifestações, por vezes até pedras pela defesa da voz, da liberdade de expressar a insatisfação contra batalhões anti-choque, gás e balas de borracha.

O povo tem voz, cada dia mais e mais, querendo participar, querendo questionar o que fazem com o mundo, que é de todos. É hora de participar por aquilo que se crê, por aquilo que quer, porém, não basta calçar pantufas, melhor será se aglomerações de insatisfeitos forem feitas, não para os ativistas, mas sim para aqueles que não conheceram essa menina.

Aos que sofrem, mas não tem voz, aos que sofrem, mas não sabem reclamar e não conhecem os próprios direitos. Mendigos nas ruas precisam ver protestos. Favelados precisam ver protestos. Estuprados pela sociedade precisam ver para, quem sabe, decidir melhor numa próxima eleição.

É preciso agradecer muito essa garota chamada Internet.

Marcio Vieira

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2 Responses to Ativistas de pantufas

  1. […] à informação e à tecnologia, resolveram botar a pele em risco. Perceberam que ser somente Ativistas de Pantufas não gera solução, e finalmente a revolta deixou as mesas de bar e foi para as […]

  2. […] à informação e à tecnologia, resolveram botar a pele em risco. Perceberam que ser somente Ativistas de Pantufas não gera solução, e finalmente a revolta deixou as mesas de bar e foi para as […]

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