João Grilo também vota

14/10/2014

joaogrilo

A paciência, ela já foi embora faz tempo. E a próxima etapa é perder o respeito, e é exatamente isso que está acontecendo nos últimos meses por causa das eleições, principalmente porque o peso do voto é igual, independe da classe social, origem, cor… o que infelizmente causa uma ira em muita gente.

O Fla-Flu eleitoral continua, e ambos os lados estão munidos da mais poderosa arma: a tecnologia. Esta que permite eu, você e todo mundo escrever, ler, ouvir, de praticamente todos os cantos do mundo.

Alguns lugares continuam inatingíveis. É que os programas assistenciais iniciaram há pouco tempo, e famílias que passaram décadas sem eletricidade, só agora conseguiram crédito para financiar a primeira geladeira e a primeira televisão. O computador, para poder conversar conosco e discutirmos sobre o “Bolsa-Esmola” ou o “Bolsa-Vagabundo”, a maioria ainda não têm.

– Mas aonde está a meritocracia?, muitos me questionam, ao mesmo tempo que abrem a geladeira duplex de alumínio escovado para pegar uma Stella Artois trincando de gelada. Após degustar a cerveja belga, abrem algum dispositivo, o Macbook, o Ipad, o Iphone ou qualquer outro objeto de desejo com o logotipo da maça mordida para publicar aberrações, como esta:

nordestinos

Qual a necessidade de tamanho preconceito? Qual a dificuldade em ler sobre o quanto o nordeste se desenvolveu nos últimos dez anos? Deve ser muito sacrificante tentar se informar sobre como era e como está a vida do nordestino, sobre as escolas técnicas que foram criadas na região, que permitiram o nordestino em não precisar vir para “Sumpaulo” tentar a vida.

O incrível é que são pessoas que vão para Europa e Estados Unidos com frequência, e em algum momento dentro dessas viagens podem ter sofrido algum tipo de desrespeito e preconceito por ser o latino, mas mesmo assim descontam sua “superioridade” contra os nordestinos, eternamente prejulgados como um bando de pessoas como Chicó e João Grilo, retirantes motorizados por jegues.

É preciso se informar antes de rechear de fezes a sua coxinha. Seu ódio não me convence! Eu fico muito feliz ao saber que João Grilo também vota e, ao menos nisso, somos iguais.

O acesso as redes sociais permite uma burguesia desinformada ofender milhões de pessoas. O perigoso é que, quanto mais inverdades são ditas exaustivamente por mais e mais pessoas, outros começam a acreditar. Pergunto ao paulista doente:  é ciúme por ser preterido pelas necessidades dos mais pobres, toda essa sua raiva?

Se o seu voto é decidido pelas cretinices publicadas e pelo repúdio aos nordestinos, ou pelo repúdio à programas assistenciais, seja feliz dentro de sua redoma de vidros blindados, e depois me conte como foi o êxtase de comprar uma Prada em Miami. Certamente você gozou horrores.

Enquanto isso, tem gente que só quer dignidade. O Bolsa Família fomentou a microeconomia (algo que você nunca precisou conhecer), permitindo que uma pequena quantia circulasse nas camadas mais pobres da população. O resultado disso foi que o mercadinho do Zé começou a vender mais Dolly, daí o Zé comprou parcelado nas Casas Bahia um freezer maior e contratou um entregador, que no começo ia de bicicleta, mas agora ele conseguiu financiar uma Honda Biz, e não está nem aí se são 70 meses para pagar.

É impossível uma família viver unicamente com Bolsa Família. Já que existe uma preguiça para pesquisar sobre os assistidos dos programas, recomendo muito a ler qualquer artigo ou livro de Muhammad Yunus, vencedor Nobel de Economia, que fala justamente sobre o Microcrédito e os efeitos dele em toda economia, atingindo inclusive você.

Agora, se o seu voto é influenciado pela corrupção e má gestão, o ideal é separar o fanatismo eleitoral que causa cegueira para refletir sobre a falta de credibilidade dos candidatos, já que não há  transparência em nenhum dos dois lados sobreviventes, afinal, Privataria Tucana, Mensalão Mineiro, Metrô Paulista, Helicóptero do Pó não são dignos de confiança.

Ambos não me representam. Essa briga ideológica na internet é deprimente, já que as atuais alianças políticas de ambos os partidos provam que não há, de nenhum lado, coerência. No fundo, a luta não é para nos representar: a disputa sempre será pelo poder.

Sobre os programas assistenciais, iniciado com FHC e muito melhorado com Lula, irão continuar porque é um dinheiro que não prejudica em nada a qualidade do asfalto para sua SUV blindada, nem fará você se misturar com as pessoas que moram da ponte pra lá, ou pessoas do lado de lá do cordão do trio elétrico.

Sua pulserinha Vip “Dazelite”, seja azul ou vermelha, está assegurada, e você continuará com sua cerveja importada. A falta de água não parece preocupação para vocês, afinal, existe desodorante que segura a onda por 48horas! Meu único receio é faltar Dolly.

Marcio Vieira

 


O Gigante e o bastardo

06/10/2014

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Um dia após as eleições, as manifestações de Junho de 2013 me demonstraram apenas uma coisa: formamos uma sociedade alienada e preguiçosa, em que aqueles que têm a possibilidade de ajudar a transformar o país, limitam-se à apenas rechear o mundo cibernético com mais baboseiras.

Ano passado fui em 2 manifestações. A primeira tomei gás de pimenta na cara e, na segunda, aquela que tomou proporções gigantescas, virou uma micareta com um bando de pessoas vagando por horas pela cidade, e pararam na frente do Palácio do Governo para cantar o hino e ir embora superficialmente contente. Perdeu o sentido, a coxinhização do protesto, o que me aborreceu profundamente.

Foi provado que o brasileiro não sabe protestar e, pior ainda, cansa rápido e esquece. Na Copa do Mundo, 99% dos que manifestaram um ano antes cantaram o hino à plenos pulmões, dando razão à corrupção e o superfaturamento de obras, muitas das quais persistem inacabadas.

O atual governo, até hoje, não apresentou os resultados financeiros obtidos no famigerado evento, e este boleto vai chegar para todos nós. O mesmo que aconteceu com países mal preparados para o tamanho do rojão, como Portugal, Grécia, Africa do Sul, que sediaram eventos esportivos populistas e só depois perceberam que o buraco criado gerou enorme crise.

O Gigante que tinha acordado, tão aclamado e reverenciado nas redes sociais, não passa de um bobalhão. Somos bobos, ignorantes e, pior ainda, arrogantes por supervalorizarmos um ínfimo esforço ilusório achando que em 20 dias de manifestações poderia mudar alguma coisa no país.

Não, meu caro. O esforço deve ser constante. Antes de tudo, é necessário mudar o conceito de patriotismo criado aqui. Do jeito que demonstra, o Brasil é e sempre será desigual, desumano e desunido, jogando no lixo a grande oportunidade que teve para discutir política em alto nível.

Enquanto isso, do outro lado do mundo, um filho bastardo prova que é possível enfrentar o governo. Hong Kong luta contra um pai adotivo desde 1998, este que nunca aceitou a liberdade do filho: O autoritário governo chinês quer controlar as eleições em Hong Kong com apenas os candidatos escolhidos pelo Partido Comunista.

Os estudantes de Hong Kong, então, ocuparam a cidade, assim como os brasileiros fizeram ano passado. A grande diferença é a clareza dos objetivos. Enquanto Hong Kong luta pela manutenção da liberdade e democracia, o Brasileiro que se manifestou estava mais preocupado com a selfie no meio da multidão.

Não, nem o Gigante, nem ninguém, acordou. Junho de 2013 foi apenas uma revolta anárquica (longe, bem longe das palavras de Bakunin). Foi a revolta dos “Saco-cheio”, dos indignados, de um povo alienado que não sabe o que realmente quer na vida porque o Estado não educou para pensar.

Então o brasileiro incorporou o discurso ufanista de Galvão Bueno e sua trupe global, e acreditamos que somos fodas, afinal, temos 5 estrelas no futebol e somos os vencedores do desafio de verão no biribol, ou qualquer evento transmitido direto das areias de Copacabana.

A realidade é que estamos bem longe de sermos fodas. Tomamos diariamente 7 a 1 na educação de vizinhos, como Chile, outro 7 a 1 em crescimento industrial do México. Tomamos 7 a 1 em desenvolvimento humano da Colômbia. Isso apenas para ficar no nosso continente, porque se atravessarmos os grandes mares, a humilhação será maior.

Tomamos goleadas diariamente, perdemos competitividade internacional, despencamos no ranking de universidades, e ficamos calados. Calados porque a geração Y brasileira não sofreu com ditadura, não sofreu com inflação ou outros problemas de gerações passadas, então se acomodou quando o assunto é questionar e pressionar os governantes. Vivemos num país em que a educação naufragou nos últimos 20 anos.

Nenhum candidato, nos debates, apresentou projetos realmente convincentes para melhorar a educação, que é o pilar central para qualquer desenvolvimento socioeconômico. É com educação que se gera empregos, é com educação que diminui a criminalidade, etc. É com educação que se gera riquezas, como faz a Coreia do Sul, já citada neste blog.

É vexatória a representatividade política oferecida, porém, é completamente proporcional ao nosso anseio por mudança: que é zero.

Enquanto isso, o filho bastardo da China nos prova que não precisa ser gigante para lutar. Hong Kong, um pequeno território, está peitando um Dragão Chinês, apresentando ideias claras, objetivas que, principalmente, unem todas as crenças políticas dos oprimidos.

Aqui ninguém percebe que esse Fla-Flu político de vermelhos e azuis estagnou o país, e o ego não permite enxergar que ficamos para trás.

Marcio Vieira


Raios, não é a Dilma!

21/06/2013

Congresso

Com tantas manifestações de opiniões das mais variadas vertentes, vou transmitir a minha também.

O Brasil é composto por três poderes (Executivo, Judiciário e Legislativo) em três esferas (Federal, Estadual e Municipal). Ok, todo mundo sabe isso, ou deveria saber.

Para mim, o grande vilão, se é que se pode chamar assim (para não escrever merecidos palavrões) é o Poder Legislativo, e vou tentar explicar:

A quantidade de deputados e vereadores no Brasil é desproporcional com outras nações.

Só para dar um exemplo: os Estados Unidos (com 50 Estados) tem 529 Deputados Federais para uma população aproximada de 320 milhões de pessoas, o que dá uma média (conta burra, eu sei) de 1 deputado para cada 610 mil habitantes. No Brasil (com quase metade das unidades federativas em relação aos EUA), são 513 deputados para uma população de  200 milhões, o que resulta num número 1 deputado para cada 380 mil habitantes.

Se os EUA forem o exemplo a ser seguido, para chegar em 1 deputado para cada 600 mil habitantes, deveriam ter 333 deputados federais no Brasil, ou seja, uma redução de 35% no número de representantes, algo que se aplicaria também às casas legislativas estaduais e municipais.

A Constituição Federal limita o número mínimo e máximo de vereadores, deputados estudais e federais, portanto, é possível sim reduzir o número desses representantes, o que daria fôlego financeiro para resolver outros problemas.

Com tanto cargo, o Poder Legislativo é literalmente a casa da mãe Joana, estimulando o maior cabide de empregos do país. Só para se ter uma ideia, cada Deputado Federal pode contratar 25 assessores.  Pra que tanta gente?

No que isso resulta: troca de favores. O candidato eleito fica amarrado aos investidores de suas campanhas, tendo que agraciá-los com milhares de cargos de confiança (os não-concursados), isso sem contar as obscuras licitações.

O fato é que há muita gente para “representar” o povo, sendo que as recentes manifestações são claras: não há eficiência em tal representação visto que estão todos indignados, revoltados, com o descaso com a sociedade.

Essa quantidade absurda de cargos estimula outro grave e vergonhoso problema do Brasil: oportunidade para “Candidatos Fantoche”. Sim, são aqueles pseudo-famosos que iniciam a vida política numa lucrativa troca: o famosinho oferece sua “notoriedade”, enquanto o Partido Político explorará o tráfico de influência em votações no plenário, além dos generosos salários dos cargos de confiança.

Assim, Dep. Tiririca, Dep. Popó, Vereador Marquito, Agnaldo Timóteo, e outras aberrações políticas assumem cargos no Legislativo sem qualquer conhecimento e pior: sem qualquer motivação social para querer desenvolver o país.

Se tivermos um Poder Legislativo mais enxuto, além da diminuição dos gastos em salários, ocorrerão outros impactos fundamentais: haverá maior peso nas decisões dos parlamentares e, o primordial para hoje: as pautas serão mais rápidas, decisões mais rápidas, aprovações de reformas mais rápidas, etc.

Raios, não é a Dilma! (nem Lula, nem FHC). É o Poder Legislativo que ferra o país. O Executivo tem enormes responsabilidades, é outro lugar inchado com muita gente que não deveria estar lá, mas ele não é o maior problema para a situação catastrófica que o Brasil.

Está no Legislativo o maior buraco negro da política. Está lá o maior número de traidores de ideologias sociais, onde adoram pular de galho, mudar de partido por interesses financeiros e, por mesquinharia política, travam todo o sistema deixando de aprovar as reformas necessárias.

E se tudo fica travado, qual é o primeiro que tem o c* na reta?  O Presidente. É contra ele que a população vai se revoltar de início, mal sabendo que o Poder Executivo não decide nada sozinho. Relembre, são 3 poderes em “mãos” distintas.

Isso aqui não é uma Ditadura!!! E espero que não se transforme, apesar da intenção de muitos que estiveram nas passeatas pregando discursos de extrema direita que incluía até Golpe de Estado.

O presidente é eleito por maioria de votos. É um claro exemplo de respeito à democracia, observando o interesse da maioria da população. Diferentemente do Legislativo, com tantas regras de eleição ultrapassadas e protecionistas.

Eu sou muito favorável na redução do número de parlamentares nas três esferas em pelo menos 25%. Sou completamente favorável em cortar todos os auxílios que os parlamentares desfrutam. Sou a favor de todos os parlamentares serem obrigados a bater cartão e cumprirem metas. Não cumprindo, que seja demitido, assumindo o não-eleito com maior votação.

Sou favorável também em proibir candidatos muito votados possam eleger outros da mesma legenda que tiveram poucos votos. Enéas fez muito isso, Tiririca fez, Clodovil e tantos outros, dando cargos políticos para pessoas com pouquíssimos votos. Oras, com poucos votos, fica claro que o eleito não tem representatividade com o povo.

O país está em crise, e é preciso cortar gastos. Dinheiro há, e há muito, o que falta é direcionar para as necessidades, e devendo cortar gastos com tanto político que não tem nenhum compromisso com o desenvolvimento do país.

É assim em qualquer momento de crise em empresas ou na própria casa de cada um.  Se a coisa vai mal, diminuir gastos é fundamental. Corte de empregos nas empresas infelizmente é natural e, quando atinge a própria casa, corta a tv por assinatura, deixa de ir ao cinema, deixa de comprar pizza às 4as., cortando assim o supérfluo.

Pelo que eles fazem hoje, considero uns 200 deputados federais, no mínimo, supérfluos à sociedade.

É preciso limpar, mas respeitando a democracia e o pluripartidarismo que temos hoje.


E depois de protestar?

21/06/2013

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Tem gente que chegou agora é quer sentar na janela. Calma, não é bem assim, pessoal. A janela está livre, assim como o corredor também está cheio de lugar vazio: tem espaço para todo mundo.

Todos são legítimos para protestar, é um direito constitucional, então, quem quiser, que o exerça! Do it Yourself!

Ocorre que tem muita gente gritando para “parceiros de marcha” abaixarem suas bandeiras. Abaixar por quê? Quem é maior ou quem é menor que quem?

Já fui em trocentos protestos, de microscópicos com uns 20, 30 manifestantes, até os mais recentes, com 300 mil pessoas. E quase sempre vi, ao menos, uma bandeira do PSTU, só pra citar um exemplo. A CUT sempre está presente reivindicando o que eles acham justo.  Tem muito mimimi contra tais bandeiras de gente que chegou agora. Vão com calma.

Não se pode ofender, criticar, ou mandar alguém abaixar a bandeira partidária só porque você não concorda. Deve ser respeitada as diferenças, afinal, cada um tem suas prioridades, opções, valores e crenças. A intolerância às diferenças tem nome: Fascismo!

Se é certo ou é errado, quem sou eu para ofender a atitude dele. Minha opinião não determina os passos de ninguém afinal, isso aqui é uma democracia.

O que não pode é classificar tais opções da sociedade como doença, como o Dep. Feliciano faz em clara perseguição aos homossexuais. Hitler perseguiu judeus, Europeus escravizaram e negociavam negros africanos como se fossem animais, e o que tal deputado faz é exatamente a mesma coisa: impor próprias convicções, restringindo a liberdade de outros.

As atuais manifestações demonstram uma clara insatisfação e, aprofundando na questão, percebe-se um enorme vazio de milhares de pessoas que estão as ruas sem saber o que querem realmente. Saber o que quer é dificil em diversas situações (principalmente depois de cultivar novelas, big brother e tantas merdas no cérebro), então que comecem excluindo aquilo que não desejam.

Milhões de brasileiros são responsáveis pela instalação de um certo caos, e é de se comemorar! Se não há ideias claras, e com tanta gente dividindo a mesma marcha por inúmeros motivos,  causar incômodo nos governos é a primeira etapa.

Parar cidades!  Tirar novela do ar para transmitir protesto!  Parabéns! Agora faça desse espaço conquistado um hábito: discutir política, defender causas, se interessar por assuntos que interferem na sua própria vida, e que condicionam seu próprio futuro.

Tais manifestações causaram reuniões extraordinárias de prefeitos, governadores, ministros e diversos outros políticos, com algumas dessas reuniões tendo a participação de representantes das manifestações, e isso transparece o maior problema da história do Brasil: A falência de um sistema político arcaico e inchado que não é capaz representar o povo.

Representar o povo não significa atender minhas necessidades. Representar o povo é, antes de tudo, ouvir o povo, algo que não acontecia porque o povo não falava.

Graças aos protestos, as orelhas de todos os políticos estão levantadas. Agora, para todos esses que estão nas ruas, é tempo de se interessar por política e discutir propostas, dando sempre liberdade de escolha para isso aqui não virar uma ditadura.

Você está preparado?


O boy do iphone

14/06/2013

egitocelular

Muita gente, sempre via redes sociais, está criticando as manifestações contra aumento do transporte público por ser um movimento com muita gente da classe média, muitos com carros, sendo pessoas que usam pouco ônibus e metrô.

Expressar opinião é de direito de cada um, há de se respeitar. Por exemplo, eu sinto vontade de vomitar quando alguém compartilha textos do Arnaldo Jabor. Tem gente que gosta, o importante que a internet dá espaço para todo mundo.

Para quem não sabe, a Primavera Árabe foi iniciada por estudantes, boa parte da classe média, que utilizaram o Facebook, Twitter e outras ferramentas da nova sociedade para reunir pessoas com uma mesma opinião, de derrubar regimes ditatoriais.

A classe média está indo para as ruas do Brasil, e por um motivo que deveria orgulhar os almofadinhas: de alguma forma, eles estão dando a cara à tapa para representar os mais pobres, os que dependem de um transporte público eficiente.

Quem está levando bala de borracha tem Facebook. Quem se engasga com gás pimenta está no Twitter. E qual o problema?  Se o boy do I-phone faz mais que você para tentar mudar o país, parabéns à ele!  Que apareçam mais gente com seus smartphones para compartilhar e reunir mais insatisfeitos.

A luta não é por 20 centavos. A luta é por viver dignamente. A luta é contra a dificuldade de viver em São Paulo, seja você rico ou pobre. Dignidade não tem classe social, não está na roupa do Brás ou do Iguatemi. Dignidade está dentro de cada um para agir e reagir da forma como quiser.

É de se comemorar que as pessoas privilegiadas de São Paulo, com acesso à informação e à tecnologia, resolveram botar a pele em risco. Perceberam que ser somente Ativistas de Pantufas não gera solução, e finalmente a revolta deixou as mesas de bar e foi para as ruas.

Se há gente que discorda dos protestos, o espaço para opinar é de todos. Se há críticos às manifestações, utilizem as mesmas redes sociais para se juntarem debaixo do Masp ou no Ibirapuera para não atrapalhar o trânsito. E melhor será se utilizarem o eficiente e confortável sistema de transporte público para chegar em tais lugares.

Porém causar incômodo é necessário para transparecer a insatisfação contra os representantes da sociedade. Caos não é sinônimo para violência ou depredação. Parar as já caóticas avenidas paulistanas é fundamental, do contrário, sua petição online vai ficar no fundo da gaveta do prefeito e do governador.

Está afim de esperar?

Esperar um dia que Haddad, Alckimin, ou qualquer outro representante irá refletir, meditar e, voluntariamente, decidir abaixar os impostos? Abaixar os preços das passagens de ônibus e metrô?   Que mundo você vive?

Deve-se ir às ruas, e dane-se se há um i-phone no bolso ou uma prestação das lojas marabraz. O que importa é transparecer o que se acredita, fazer valer a própria voz.

Protestar não é uma ação. É reação! Passe Livre é uma forma de reagir àquilo que está sendo feito, ou melhor, ao que não está sendo feito.

Marcio Vieira


Dividindo o Yakult

21/03/2013

yakult

Andei refletindo sobre um tema após ir nas passeatas promovidas contra Marco Feliciano. Muitos protestam, mas poucos vão. Já participei de outros movimentos, mas sempre saio com dois sentimentos: um de “dever cumprido” e outro de “desânimo”.

Dever cumprido pois saí, apresentei minha indignação, atravessei a cidade para me juntar com outras pessoas que tiveram a mesma atitude. O Desânimo acompanha porque, com tanta barulheira na internet, a expectativa é sempre maior, de ver mais gente, de ver mais efeito, de ver mais resultado.

Confesso que poderia ir milhares de vezes mais, participar mais. Nunca será o suficiente quando tem tanta coisa errada que precisa de mudança imediata.

Infelizmente o brasileiro não cultivou a “cultura do protesto”. Muita gente não sabe que protestar é a forma mais contundente de demonstrar cidadania. Mostrar-se presente. Atuante. Transparecer que há uma opinião contrária, enfim, dizer nas ruas um sonoro “Não!”

Isso invejo muito dos nossos vizinhos. Argentinos batem suas panelas, lotam as ruas. No Chile, também vão, e muito, para as ruas. Uma das últimas manifestações dos chilenos foi para protestar contra a qualidade do ensino!  Oras, não é falta de professores, não é falta de carteiras, materiais escolares, escolas pichadas, falta de transporte escolar, etc. Eles protestaram contra a qualidade daquilo que se ensina! Daquilo que se aprende!

Protesto é feito para querer mudar algo que caminha de forma errada. Protestos são realizados para querer um futuro diferente daquilo que é pré-anunciado, daquilo que é projetado.

É preciso ir para as ruas, faz bem se sentir cidadão nessas horas. Mostrar que está preocupado com o que está sendo feito, sem apatia.  Se o brasileiro se acostumar a usar essa arma que tem, muita coisa vai ser mudada e, mais ainda, muita coisa vai ser evitada.

Governo corrupto é igual aquele amigo fdp que pede um gole de Yakult. Já é pouco, e assim querem pegar metade. É de se revoltar! Mostre, então, a revolta!

Mas o que não entendem é que quem está no poder é o reflexo do que está no povo. São apenas maus representantes de um povo composto de maus cidadãos. E ser mau cidadão não é culpa de escola, não é culpa de falta de saúde, falta de trabalho, falta de transporte.  Para diagnosticar um mau cidadão, basta um espelho.

O silêncio transmite indiferença. Achar que “ativismo de pantufas” em casa funcionará e o Brasil melhorará, sinto muito em desaponta-lo. Tem muita gente na rua que precisa ser encorajada, e isso depende de passos e decisões de cada indivíduo.

É preciso bater panelas, é preciso gritar, é preciso se indignar para, num primeiro momento, ter a oportunidade de discutir uma situação. Do contrário, tudo isso não passará de uma conversa de bar, de um “post” no Facebook.

E não fique com medo se serão só 10 pessoas, se só serão 1.000. Ao invés de enxergar esse número externo, enxergue e valorize os 100% de você na causa que for abraçar.


Quem se cala, não peca

19/03/2013

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Passaram-se duas semanas da posse do Deputado Marco Feliciano na Comissão dos Direitos Humanos da Câmara dos Deputados. Duas semanas é muito tempo para ficar em silêncio.

Não das minorias, que muitas foram às ruas, revoltadas com a nomeação ridícula de alguém que mostra completo desconhecimento com a “pasta” que vai cuidar.

O silêncio é decepcionante quando vem que quem menos se espera. Uma mulher não pode ficar em silêncio. Uma mãe. Uma mulher filha de imigrante. Uma mulher que lutou por espaço em um ambiente masculino. Uma mulher que lutou contra ditadura não pode ficar calada. Uma mulher Presidente da República não pode fingir que o problema não é dela.

Dilma Rousseff é minoria, também. Todos, os que demonstram opinião, fazem parte da minoria em algum tema, e quem se sente minoria transpira indignação pela nomeação do Pastor Feliciano, que já explicitou inúmeras vezes preconceito contra quem deveria proteger.

Aonde está a indignação da Dilma? Ou da oposição ao governo, aonde está tal indignação?

Mas o silêncio da presidente é justificado pelo medo. Medo de segurar uma bandeira, medo de escolher um lado. Medo de perder eleitores. E não foi só ela que ficou calada. A grande maioria dos políticos ficou calada. Todos têm opiniões, mas quando o assunto é religião, quem se cala, não peca.

Foi assim nas últimas eleições presidenciais quando o assunto foi aborto. Dilma quase “escorregou” ao defender o aborto em casos específicos, mas teve que engolir sua opinião para não perder votos dos cristãos. E o José Serra, no seu costumeiro desespero, tentou aproveitar a situação para ganhar aqueles votos religiosos. Em vão.

Fernando Henrique Cardoso perdeu, para Jânio Quadros, uma eleição praticamente ganha a prefeitura de São Paulo por causa do mesmo tema: crença religiosa. Se tem, qualquer que seja, ou se não tem crença, não interessa! Se é gay, se é bissexual, não interessa para ninguém! A pessoa deve ser eleita por motivos além de escolhas de vida individualizada.

Religião nunca deveria ter influência na política, seja ela qual for e do tamanho que for. Deveria ser proibido partidos políticos sustentados, em boa parte, por Igrejas. Fica claro que tais partidos vão defender primeiro seus interesses específicos antes de representar a coletividade.

E este caminho, o de Cristãos no poder, demonstra ser um caminho sem volta. O problema não é um cristão (seja católico ou evangélico) estar no poder, a preocupação está em saber analisar as necessidades de um povo que vai além de uma crença e, ainda mais podendo ser contrária ao que a religião prega, como a questão do casamento entre pessoas do mesmo sexo, a adoção de crianças por tais casais, a questão de liberar o aborto, a discriminação aos negros, aos retirantes, aos imigrantes ilegais, respeitar e ouvir as mais infinitas diversidades, etc.

Acreditar que Deus, seja ele em qual forma, é quem direciona uma nação, é de uma cegueira monumental. É primordial respeitar as diferenças, quando existentes, e a política surgiu como forma “civilizada” de diálogo entre as diferenças, onde deve-se presumir que a coletividade sobrepõe ao individual.

Crença ou a falta dela, por milhões de devotos que possam existir, é uma questão individual que não pode ter tanto espaço na política como é dado no Brasil no atual momento, a ponto das lideranças, seja a Presidente Dilma, seja os aliados do governo, ou seja da oposição, terem medo de manifestar repúdio à infeliz indicação e eleição do Dep. Marco Feliciano.

Marcio Vieira