de 0 à 10, me aprovei

29/12/2010

Na última década que passei

bastantes coisas realizei

poderia ter sido mais, eu sei

pensando no bem, é assim que agirei

vamos aos fatos, pois, que citarei

é difícil falar todos, então resumirei:

num almoxarifado, inocente, comecei

em grande empresa, cheguei,

vesti ternos, no Direito me graduei

numa trilha tradicional, anos caminhei

mas chegou um dia que balde eu chutei

porque todas as dúvidas que indaguei

me fizeram repensar, então meditei

em templos, casas espíritas, igrejas, perguntei

porém, todas as respostas que encontrei

só foram possíveis porque mochilei

novas sensações, cheiros, visões, procurei

e muito longe fui, muito longe irei

Chuí visitei; Oiapoque um dia conhecerei

ao velho mundo eu parti, morei,

voltei, retornei

só foi possível pois o carro que comprei

anos depois eu repassei

quando valores de vida eu mudei

porque uma vez doente eu fiquei

e de uma luz brilhante eu me beneficiei

pra melhorar, tantos cursos diferentes eu realizei

o vento eu estudei

as águas sempre gostei, e assim velejei

com a energia vinda da Índia, respirei

algumas línguas eu falei

outras línguas eu provei

era tudo novo, fascinante, pirei

jornais, na Inglaterra, entreguei

e o Atlântico Norte eu cruzei

por um semestre, Californiei

lá, lenhas eu cortei

mudas eu plantei

alguns telhados também consertei

o sol encostando no mar, presenciei

e meses mais tarde, à SP voltei

a morte veio, copiosamente chorei

perdi muito em pouco tempo, me despedacei

mas encontrei energia, e dos outros cuidei

dentro de mim, fragilizado fiquei,

então parei, estagnei, me tranquei

tratamento para me conhecer iniciei

e num ritmo lento, anestesiado, sedado, andei

porque raízes, antes soltas, na família eu finquei

mas em leituras e sonhos, desejei

e minha cabeça dos pés eu distanciei

que por tempos não me encontrei

numa mente acelerada, projetei

e até pela China eu me aventurei

a cara, o dinheiro, quebrei

e aos céus, novamente, aclamei

Por quê? Por quê? Questionei

mas as respostas, não esperei

agi, então pés e cabeça os grudei

e assim, aquele canudo, resgatei

sonhos quase mofados, da gaveta, eu tirei

algumas inscrições, cartas eu mandei

uma baita universidade me deu um ok

e a segunda despedida realizei

à família, aos amigos, outro até logo eu dei

e  só foi possível porque eu os conquistei

de alguma forma, sou meio maluco, zen, não sei

e olha que fumar eu nunca fumei

é legal ser assim, careta, sempre me orgulhei

é falta de vontade nessas coisas, nunca me interessei

mas uma cervejinha, essa eu sempre gostei

e ela sempre me ajudou, me socializei

e com brothers, ao redor de muitas mesas eu sentei

inúmeras, incontáveis risadas eu dei

algumas histórias contei

até roteiros de viagens eu elaborei

e assim, com os amigos, junto viajei

dentro das minhas possibilidades, imaginei

olha lá Arequipa, eu conheço, mas não pisei

com orgulho, minha mochila emprestei

do ar de tantos lugares que ela absorveu, me energizei

escutar causos daqueles que incentivei

é algo tão bom que mais cérebros abrirei

em futuras conversas de boteco que divagarei

degustando torresmo, ou churrasco, que tanto já cuidei

o churrasco sendo feito pelo vegetariano, piadas escutei

apelidos, Marcião, Marcito, também ganhei

e o tal Lobisomem em UK?

mas todos sabem que nunca me importei

e quanto às questões ambientais que preguei

não fui daqueles chatos, e brigas, ao menos, não causei

e assim, dos 18 aos 28 eu caminhei

tantas sensações incríveis experimentei

ir ao Pacaembu, onde muito gritei

shows de punk, em incontáveis mosh me joguei

muito beijei, transei, suei, cantei, sonhei

100 quilômetros por semana pedalei

em vários locais também já protestei

por causas e razões que sempre acreditei

fome, frio, solidão, medo, sede, calor, já passei

e cá estou, e muito ainda sobreviverei

e bilhetes de avião que rasguei?

Egito e Hawaii, me aguardem que ainda os visitarei

chãos de rodoviária, aeroportos que dormi e domirei

espero também, que em resorts descansarei

coisas e pessoas, tantas que amei

algumas vezes me enganei

relaxa, várias páginas já virei

pois é de cabeça como sempre mergulharei

afinal, de carrossel nunca gostei

são as montanhas-russas, entre altos e baixos, que andei

inconstantes sentimentos porque nunca relaxei

às vezes pouco aproveitei porque muito me cobrei

sempre querendo o melhor, dane-se se não agradei

e de tanto arriscar, muito também  me afundei

porém, histórias para os sobrinhos,  isso eu acumulei

e quando chegar aos espelhos será aonde me julgarei

não aqui, onde todos acertam e erram, então absterei

apontar dedos, nunca fiz e não apontarei

quem sou eu e qual é a missão? Não sei

em uma década, tal resposta não encontrei

no entanto, de 0 à 10 eu me aprovei

e não são notas, são anos que vivenciei

que hoje posso conjugar “eu Marciei”

e só eu, afinal, vidas de outrem não viverei

porque ser feliz é muito possível, is the way

e em 2011, à vocês, muitas conquistas desejarei

sejas leve, que com você, eu voarei.

Marcio Vieira

Anúncios

O verdadeiro homem-bomba

08/12/2010

Há cerca de um mês tentei entrar na ONU, aqui de Genebra, para assistir Julian Assange apresentar documentos comprometedores os quais os Estados Unidos violoram Direitos Humanos nas invasões ao Iraque e Afeganistão.

Muita gente na porta, burocracias, então fecharam apenas para jornalistas credenciados e um monte de diplomatas engravatados, tensos, afinal, não há raio-x para parar o fundador do Wikileaks, o verdadeiro homem-bomba que mudou definitivamente as relações diplomáticas entre Estados.

Algumas semanas depois, e nova chuva de documentos. Esta, uma chuva ácida, corrosiva, capaz de deixar nú os que não sabiam nem abaixar a cabeça: os líderes que sobem em palanques sorrindo, mas suas canetadas provaram o contrário.

Nos próximos meses, dezenas de livros acerca da nova diplomacia serão publicados, afinal, um novo marco zero foi estabelecido. A figura da sala fechada, a mesa redonda, e planos ultrassecretos foram dilacerados. Se antes as paredes tinham ouvidos, com as emblemáticas e até folclóricas figuras de corruptos e espiões, agora o Wikileaks implodiu tudo usando a maior arma existente: a palavra, associada à velocidade da internet.

Não se pode confiar em ninguém mais para guardar segredos e mensagens ‘top secret’, afinal, tudo está escancarado, e esse é o ponto de partida da primeira linha do novo manual da diplomacia a partir de agora: tudo é para todos, livre e aberto.

Mas, por séculos, a diplomacia insistiu em ações obscuras, então não precisaria de muito tempo para perceber que, quando se esconde, é porque estão fazendo algo de errado. Assim, bastava deixar as cobras soltas porque o instinto ganancioso causaria, cedo ou tarde, esse nó coletivo, um emaranhado de corrupção e sujeira.

Governantes, Chefes de Estado, Diplomatas, esta é a Era da Transparência, onde deve-se entender que vocês são apenas representantes, não donos. Não se deve procurar motivos para encobrir planos mirabolantes sobre a economia global, e nem venham com a desculpa de proteção ao terrorismo, afinal, o terror é uma dissidência da espionagem, criada por vocês, caros diplomatas.
Julian Assange, fundador do Wikileaks

Para os governos acostumados à invasão de computadores e dados pessoais e bancários de milhões de pessoas, o sabor do próprio veneno é um tanto quanto indigesto, onde a ganância, ao longo de décadas, imperou na formação e atuação dos líderes da política global. O preço do descrédito, da repulsa, será contabilizado agora, não antes das últimas tentativas de repremir a informação, já que multinacionais historicamente beneficiadas por governos de todo mundo, literalmente com rabo preso, tentarão bloquear o acesso às informações.

Assange colocou em xeque a figura do Estado e sua real importância. A confidencialidade estimula o belicismo, a apologia a guerra, consequentemente, a violência generalizada, impedindo concentrar os investimentos no desenvolvimento de uma civilização consciente, justa, moderna.

Já disse algumas vezes que “a maior prova da decadência do ser humano é o crescimento do mercado dos advogados, já que as pessoas não conseguem mais conversar, se entenderem de forma pacífica, e precisam buscar ‘meios legais’ para defesa de (supostos) direitos”, e o principal responsável por esse buraco é o Estado, que semeia a discórdia e corrupção.

A criatura dominou o criador, e Estados perderam o controle do barco chamado Terra, que está à deriva, e isso se deve à existência de almirantes que brigaram por séculos para por suas mãos no timão, utilizando os meios mais sujos e sanguinários existentes.

Wikileaks escancarou para bilhões de pessoas o quão podre, atrasada e burra é a Diplomacia Internacional, que ao invés de lutar por questões socioambientais relevantes, contabilizam prejuízos de trilhões por causa da “Indústria do Medo”, criada por eles mesmos.

Ao invés de tentar consertar os destroços do homem-bomba Julian Assange, tais líderes da geopolítica mundial deveriam compreender a derrota e começar do zero, com pessoas novas que não tem medo da transparência nas relações. Muito pelo contrário, deve-se usar a transparência como ferramenta para unir e desenvolver a sociedade.

E, Estados, não sejam infantis ao ponto de limitar os passos do Wikileaks. Outros seguidores, espalhados pelo mundo, vão continuar tirando máscaras dos vossos rostos. Não tenham medo, afinal, quem não deve, não teme. Não é?

Marcio Vieira


As duas torcidas brasileiras

06/12/2010

Terminado mais um campeonato brasileiro e, consequentemente, o ano calendário do futebol brasileiro, o qual Fluminense conquistou seu segundo título por méritos, principalmente, do competente treinador e de um excelente jogador: o argentino Conca.

Depois de 37 rodadas, apenas três equipes tinham condições de levantar a taça, e os tricolores do Rio de Janeiro, na frente, não deram margens ao azar, deixando Cruzeiro e Corinthians ficarem com o vice e terceiro lugar, respectivamente. As outras ficaram pra trás, muito pra trás.

Mas o motivo principal para eu tecer algumas linhas não é a glória fluminense, mas sim a alegria da imensa maioria no Brasil. Hoje amanheceram com sorrisos abertos mais de uma centena de milhões de pessoas motivadas principalmente não pela conquista, mas sim pelo insucesso do Sport Club Corinthians Paulista.

Fogos nas ruas, notícias destacadas em jornais, e chuva de mensagens em redes de relacionamento reforçaram, mais uma vez, uma tese que já defendi em conversas de botequim: O Brasil só tem duas torcidas, e ambas são reflexos do que o Corinthians faz ou deixa de fazer: Corinthianos e Anti-Corinthianos.

Já ouvi, e não foram poucas vezes, que a maior alegria de muitos no futebol é ver o fracasso Corinthiano. Tais pessoas dizem ser sãopaulinas, palmeirenses, colorados, gremistas, cruzeirenses, flamenguistas, vascaínos, santistas, atleticanos, etc., mas no fundo, no fundo, para tantos, salvo algumas exceções, tais clubes são secundários porque o que eles gostam mesmo é de ver a derrocada do Corinthians.

Foi assim no rebaixamento em 2007, foi assim nas várias tentativas dos paulistas na Libertadores e, ontem, novas festas e alegrias emanaram com o troféu erguido pelos jogadores do Fluminense.

É uma maneira triste e depressiva de expor sentimentos, quando se torce pelo fracasso do rival. Prova-se isso, ainda mais, com os incoerentes anti-corinthianos que zombam contundentemente o atacante Ronaldo, esquecendo-se que tal jogador foi determinante para todos comemorarem Copa do Mundo, proporcionando felicidade para vocês, brasileiros anti e pró Corinthians.

É ridícula a falta de respeito à um dos maiores jogadores da história do Brasil e do mundo. E isso acontece só porque ele joga no Corinthians. “Eu tenho raiva do Corinthians”, “eu odeio o Cúrintia”, são frases automáticas e corriqueiras faladas em todo o país, que extrapolam os limites de uma saudável consciência esportiva, do reconhecimento da superioridade e/ou inferioridade de rivais em uma competição.

As brincadeiras com derrotas são normais com todos, mas é impressionante, quando envolvem o Corinthians, o transparecimento de ódio, rancor e aversão ao clube alvinegro. À estes tristes indivíduos que buscam felicidade a partir do fracasso do oponente, juro tentar compreendê-los, mas é difícil.

Só o Corinthians, de fato, vai além do significado de ‘torcer’. São seguidores apaixonados que empurram com vozes, suor, sangue, coração e pulmão durante toda vida. Só o Corinthians tem fiéis, numa fidelidade clara ao clube, à história de lutas, mesmo sabendo que pertence à uma minoria, afinal são só trinta milhões contra 160 milhões pertencentes à outra torcida.

Aos rivais sempre insatisfeitos pelo espaço reservado ao Corinthians na mídia, entendam que a conta não está errada, afinal, o espaço Anti-Corinthians sempre foi maior porque precisa subdividí-lo em pequenas cotas temporais para divulgar alguma informação dos outros clubes.

Corinthians é sempre o mais comentado, quer vocês tenham mais títulos ou não. Recorda-se, também, que um dia após um título do São Paulo, o assunto mais falado não era tal título, mas sim a contratação de um jogador pelo Corinthians, no caso, o atacante Ronaldo.

Num singelo paralelo, anti-Corinthiano tem a mesma felicidade de, quando você está com uma mulher bonita, você se sente bem porque a mulher do seu amigo é feia. Oras, seja feliz pelo que você é ou faz, não por motivos externos.

Quer rivalizar, disputar, que seja para demonstrar sua superioridade, afinal, “o bom competidor deseja sempre que o seu oponente esteja na melhor forma”, assim sua vitória será mais doce pois sua força será determinante à glória, e não o insucesso do rival.

À maioria, os anti-Corinthians, peço um favor: contabilize as horas da vida de vocês as quais vocês pensam no Corinthians. Eu faço uma aposta que será, no mínimo, 5 vezes maior o tempo que os Corinthianos gastam para comentar seus clubes, afinal, não damos mais atenção do que realmente merecem.

Há uma diferença abismal entre dizer ‘eu te amo’ e ‘eu não te odeio’. Ontem, mais uma vez, isso ficou claro. Se sua felicidade é condicionada no momento que se diz “centenada” e “chupa gambá”, está provado que falta amor à sua vida.

Corinthians, amo-te!

Marcio Vieira