Paraíso das vaquinhas envenenadas

15/08/2011

vaquinhas envenenadas

No Direito Processual Penal existe a Teoria dos Frutos da Árvore Envenenada que, resumidamente, é a proibição da utilização de provas obtidas por meios ilícitos. Muito comum, principalmente, em escutas ilegais, onde o acusado pode até assumir a autoria de um crime mas, se tal prova foi obtida de forma irregular, esta deverá ser excluída dos autos, não podendo nem influenciar a decisão do magistrado.

A teoria acima reflete filosoficamente a questão central maquiavélica, aquela dos “fins justificam os meios”. Será que é justo utilizar meios não tão claros para fazer uma boa ação?  Será que ser Robin Hood é correto? Será que aceitar dinheiro de origem duvidosa para ajudar o desenvolvimento econômico é justo? Será que os fins justificam os meios?

Fiz essa pequena introdução para criar um paralelo dessa teoria com outras situações do cotidiano e que, após um grande amigo me encaminhar uma notícia da evasão de divisas na Alemanha para a Suíça, e somando-se os meses que morei em Genebra, resultaram num decepcionante coeficiente da ética do governo helvético (assim como de todos os paraísos fiscais).

Tax Heavens, fundos de investimento offshore, entre outras atividades, são lícitas em virtude, principalmente, da soberania de um Estado em determinar a alíquota de seus tributos. No entanto o ponto de discussão deste post é a transparência, os valores éticos para atrair um investidor internacional e, bem mais vertical, conhecer a origem desse dinheiro.

“Dinheiro não aceita desaforo”, governos suíços, monegascos e bahamitas dizem há décadas. É muito fácil abrir uma conta na Suíça, principal paraíso fiscal do mundo. A secular neutralidade helvética (já criticada neste blog) esconde métodos pouco éticos que contribuíram, vejam só, para o desenvolvimento de todo o país, ativar seu poder econômico, ser referência global em algumas áreas industriais.

Basta ver os recentes bloqueios de contas de ditadores árabes, exaltando o poder de fiscalização do governo suíço. É vergonhoso noticiar que tais contas foram bloqueadas, por que ninguém questionou a abertura delas?  Por que o país alpino permitiu que ditadores abrissem suas contas? Soma-se outros infinitos exemplos, como a ‘descoberta’ de contas traficantes, políticos corruptos, sonegadores e tantos outros indivíduos que, em operações fraudulentas, transformam laranjas em ouro.

Mas os paraísos fiscais não sabem, coitadinhos, ou fingem não saber!  Basta ver a quantidade de moradores e empresas registradas em Mônaco. Fisicamente dois corpos não ocupam o mesmo lugar, mas naquele minúsculo principado eles dão um jeitinho para mais alguém depositar seu dinheiro, afinal, dinheiro, seja limpo ou sujo, não aceita desaforo!

E assim, misturando o limpo e o sujo, paraísos fiscais recebem dinheiro que será utilizado, e muito, no desenvolvimento socioeconômico do próprio país. Será um lugar seguro, agradável, terá escolas públicas de qualidade, terá uma infra-estrutura excepcional, ruas pavimentadas, limpas, o sistema de saúde equipado, o salário mínimo será alto, enfim, são construídos paraísos!

Para descobrir parte do milagre que faz a Suíça ter três cidades entre as dez melhores do mundo para se viver, basta olhar para debaixo do tapete. Permitir a entrada de dinheiro ilegal, oriundo do crime, é uma forma de contribuir para a droga destruir mais famílias em todo o mundo, é uma forma de contribuir com novos assassinatos na América Latina, é uma forma de contribuir com mais massacres no continente africano, é uma forma de contribuir com mais trabalho escravo na Ásia, é uma forma de contribuir com mais tráfico sexual, é uma forma de contribuir com mais fome, miséria, é uma forma de contribuir com a destruição do planeta.

As famosas vaquinhas da Suíça foram envenenadas! E delas são produzidos os famosos chocolates e queijos. Tais vaquinhas comeram um capim podre, e agora produzem leite podre que resultarão em chocolates e queijos podres. Afinal, é muita competência o transporte público de Genebra, ilimitado, pontual e de altíssima qualidade custar aproximadamente 120 reais por mês. Afinal, é muita competência do governo ter uma das menores taxas de crime do mundo. Afinal, é muita competência do governo ter um salário mínimo de quase R$6.000,00 (Seis Mil Reais de salário mínimo). Helvéticos, qual a razão de tanta superioridade em comparação ao resto do mundo? Por que vocês são tão melhores??

Simples resposta: porque eles utilizam o dinheiro dos outros países, paraísos fiscais utilizam parte de dinheiro público roubado pelo Maluf e tantos outros em todo o mundo, utilizam dinheiro dos traficantes mexicanos, utilizam dinheiro dos ditadores sanguinários, utilizam dinheiro de empresários sonegadores, utilizam dinheiro de 50 empresas num mesmo endereço (de fachada).  Dinheiro esse que deveria estar nas economias de origem, e esse foi o acordo que a Alemanha conseguiu com a Suíça, para tentar reaver dinheiro que atravessou a fronteira e que agora, em tempos de crise, faz muita falta.

Você acha que os milionários pilotos de Formula 1 adoram morar num apartamento alugado de 80 metros em Mônaco. Você acha que eles realmente moram ali ou deixam ali um simples endereço para comprovar residência e justificar sua conta bancária, mas optam por morar confortavelmente numa mansão na Espanha, ou no Algarve?

É lícito o que eles fazem?  É.  Mas pergunto se é ético. Tem até dinheiro de famílias nazistas em contas na Suíça! É orgulhoso viver num país que se apoia em um sistema obscuro? Ora, a Suíça não participa da Comunidade Europeia por quê?  Se fizesse parte da zona (e hoje, uma puta zona) do Euro, ela deveria abrir as contas, mostrar quem tem dinheiro lá.  Você acha que eles querem isso?  Claro que não, tanto que o governo suíço está cagando nas calças de medo de tal CD room com a informação de milhares de contas bancárias que foi roubado, e tal acordo com os germânicos só saiu se a Alemanha não utilizar tais informações.

A crise global vai escancarar, desmascarar, muita gente, muito governo, muitas culturas e muitas condutas. É na hora ruim que cada um começa seu instinto de sobrevivência, e a tendência será tais paraísos fiscais sofrerem com a retirada de grandes valores, será a diminuição de fundos offshore, aumento da fiscalização, etc. Na verdade, a tendência é o dinheiro ilegal voltar para sua origem, e muito curioso será descobrir como tais governos se comportarão quando o dinheiro sujo parar de entrar. Será que vão continuar com 6 mil reais de salário mínimo?

É esperar, e ver, e cada um refletir: os fins justificam os meios? Eu não me sentia bem quando comecei a perceber como funciona tal sistema suíço. Eu não me sinto bem em usufruir de um sistema funcional, de uma boa infra-estrutura, de um bom salário, sabendo que tal sistema foi muito ajudado por dinheiro sujo de tantos outros países, muitos enfrentando pobreza, miséria e guerras. Seja pouco ou seja muito, bloqueios de contas, ações da justiça internacional, interpol, outras investigações que encontram remessas ilegais, contas ilegais e, o mais absurdo de todos, essa tentativa de acordo com medo de divulgar o nome de pessoas com dinheiro na Suíça comprovam que paraísos fiscais, na verdade, são esgotos contaminados, que produzem frutos envenenados.

Se começou errado, não importando se as próximas ações sejam certas, será sempre errado.

Marcio Vieira


Gruyères, Suíça

15/11/2010

Interessante essa coisa de comprar produtos made in tal lugar e nem imaginar como são, realmente, esses lugares. Pra mim, um fanático por queijos, quando comprava alguns pedacinhos de queijos importados no Pão de Açúcar em São Paulo, eu nem parava para pensar no caminho que o queijo fez até eu colocá-lo no meu carrinho, no supermercado.

Algumas semanas atrás visitei Gruyères, no cantão de Friburgo. É uma metrópole enorme com uma população gigantesca (1.800 habitantes, segundo o wikipedia), que vive de turismo e, obviamente, da produção do queijo gruyère.

Agora, imagine numa bucólica cidadezinha com menos de 2 mil habitantes, no meio do nada, ter diversos extraterrestres. Sim, enquanto Brasil recebe a visita de Bilú, nesse belíssimo fim de mundo há um dos museus mais incríveis: HR Giger Museum, do escultor e designer suíço Hans Rudolf Giger, que criou as formas dos extraterrestres dos filmes Alien.

Algumas fotos de um lugar imperdível na Suíça:

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Multilinguismo

07/11/2010

Um futuro multilinguístico

Um dos grandes desafios do brasileiro é a dificuldade inicial para raciocinar rápido e falar outros idiomas quando se viaja para o exterior, ou quando recepciona um estrangeiro. Mesmo tendo conhecimentos de outras línguas, o processamento das informações é devagar, se comparado com pessoas de outros países.

A razão para isso é a soma de alguns fatores, como o baixo interesse dos governos em investir em um bom ensino de línguas estrangeiras que se associa à uma característica geopolítica quase única no mundo: a unificação de um idioma oficial num território tão grande.

Se no mundo há cerca de seis mil idiomas, o Brasil é um dos poucos países que unificou um só idioma dentro de um território gigantesco, dando condições para todos os habitantes compreenderem quase que perfeitamente o português. É óbvio que os sotaques regionais são grandes, mas isso não impede a comunicação entre os indivíduos.

Pela dimensão territorial e a suposição de uma desnecessidade, é secular o descaso político acerca de estudos de línguas, visto que são poucos brasileiros que acabam utilizando outros idiomas no cotidiano. No Brasil acabaram enfatizando outras matérias no ensino fundamental, como matemática e biologia.

Força-se no Brasil, então, a cultura de estudar em escolas particulares específicas para ensino de línguas estrangeiras, visto que a qualidade do ensino, seja em colégios públicos como em particulares (excluindo-se colégios de alto padrão) é insatisfatória, deixando alunos sem uma preparação adequada.

E, mesmo investindo em cursos particulares, há um travamento natural quando o brasileiro viaja, principalmente para Europa, porque ele não tem o ouvido e a mente treinados para escutar distintas línguas ao mesmo tempo, causando quase um curto circuito na cabeça do cidadão.

Bem diferente está o continente europeu visto que, desde os primeiros anos do ensino fundamental, as línguas são priorizadas muito em virtude da pequena dimensão de seus países e de uma rica diversidade de culturas, culminando no desenvolvimento do multilinguismo.

Multilinguismo é a facilidade de aprender e de se comunicar em diversos idiomas ao mesmo tempo. Ainda crianças, eles treinam tais mentes para uma compreensão mais rápida e eficiente. Assim não precisam fazer o que todo brasileiro faz, que é mentalizar em português o que quer dizer, traduzir para o idioma que conhece, e só depois falar.

Os europeus, desde cedo, pulam as etapas de mentalização e tradução. Eles integram tudo à fala de forma natural, instantânea e dinâmica. E nos países com índices de desenvolvimento humano mais altos, o multilinguismo é ainda mais eficiente.

Na Suíça, por exemplo, além de ter um IDH elevadíssimo, o país conta com quatro idiomas oficiais (em parênteses a porcentagem da população tem como língua materna): Alemão (63%), Francês (21%), Italiano (7%) e Romanche (0,5%), e o restante é falado por imigrantes, dando destaque ao idioma Português (3,5%) e Espanhol (2,5%).

Soma-se, na formação básica (mesmo em escolas públicas) de um jovem suíço, o Inglês às três principais línguas oficiais do país, fazendo um estudante de 17 anos estar apto para entrar em qualquer universidade do mundo onde o curso será ministrado em tais línguas.

Com essa miscigenação linguística, os suíços desenvolveram uma mente veloz para compreender os diversos idiomas falados por todo o país, onde o pluralismo de línguas é evidente e está em amplo crescimento, já que o país atrai imigrantes de todas as partes do mundo.

Há outros casos no mundo com cidades internacionalizadas como Londres, Hong Kong e Nova Iorque que acabaram fortalecendo o Inglês. No entanto, quando não há uma ligação cultural à língua britânica, outras cidades internacionalizadas, como Genebra, têm seus habitantes desenvolvido uma mente multilinguística, escutando-se num vagão de trem, por exemplo, pelo menos quatro ou cinco línguas simultaneamente.

A cidade de São Paulo, inclusive, está num forte processo de multilinguismo, tanto que é comum escutar ao menos três diferentes idiomas numa simples caminhada por algumas quadras nas avenidas Paulista, Faria Lima ou Berrini.

Os próximos passos dessa multiculturalidade são evidentes. Alguns lugares desenvolveram novas línguas globalizadas, como o “Spanglish”, falado por jovens de origem hispânica, principalmente na Califórnia. Tal “idioma”  mistura Inglês e Espanhol dentro de uma mesma frase.

Já que o Esperanto não se desenvolveu, o Inglês ocupará cada vez mais espaço no cérebro de cada um. No entanto, mais oportunidades comerciais e acadêmicas terão àqueles que investirem em idiomas e treinarem a mente  para respostas rápidas e em uma quantidade maior de línguas.

Fronteiras estão ruindo, e é preciso aplicar um velho ditado: “quem não se comunica, se estrumbica.”

Marcio Vieira


Balança comercial favorável

28/10/2010

Inspirado no balanço do último trimestre da Vale publicado nesta semana, resolvi fazer o meu balanço, oras. Não são cifrões que acumulei nesses dois meses que acabo de completar, mas há sim um grande lucro, um saldo extremamente positivo.

Por mais desprendida que seja a pessoa, todos têm uma corrente, uma corda, amarrando os pés à sua origem ou passado recente. Ela faz a ligação com a memória, é a ligação com bons momentos de alegria, e também de tristeza, e que te liga para fazer reflexões sobre as decisões tomadas.

Mudar de vida não é fácil, mas também não é nenhum bicho de sete cabeças. Sempre disse, aos que me chamavam de corajoso, que “corajosos são os que passam a vida inteira fazendo as mesmas coisas, mesmo trabalho, mesma casa, e que não arriscam sabores e sensações novas com medo de uma possível derrota ou decepção”.

Essa coragem de passar a vida inteira trabalhando com dúvidas sobre o que escolheu, sob estresse, se desgastando, para no final dela (nem sempre) somar patrimônios e algumas viagens quando aposentado, sinceramente, estou fora.

Falo, também, em tom de brincadeira (mas com uma verdade implícita), que a sociedade inverteu a ordem da vida. Aposentado tem que ser quando é jovem, quando tem saúde, para correr, vibrar, sonhar, viajar, dormir em barraca e em rodoviária. Aposentado tem que ser jovem para vivenciar, transpirar realizações e frustrações. Deve-se aproveitar a vida quanto há saúde para mergulhar fundo e escalar arranha-céus. Depois, no final quando velho, perceberá que qualquer trabalho, qualquer emprego, é o suficiente para se satisfazer, pois sua bagagem, sua experiência, ninguém e nenhuma doença irá apagar.

Por isso brinco, digo que sou bon vivant, pois deve-se aproveitar a vida quando se tem, propriamente, a vida. Deve-se dar o valor ao suor em algo que realmente significa para você. Um amigo espanhol, Juan, me disse algo que nunca esquecerei: “Não tenho medo de ser pobre, afinal, nunca fui rico.”

É por isso que incentivo pessoas à mudança, incentivo em viajar, incentivo em mudar de profissão, casa, cidade, etc. Se não der certo, não esquente a cabeça, afinal, você seguiu seus sonhos, que é algo que poucos fazem, acredite. A dificuldade fortalece.

E, sob essa perspectiva, decidi uma mudança para a Suíça. Não conhecia ninguém na cidade, no país, não falo o idioma, não tinha conhecidos nem casa para ficar. Decidi porque é aqui que estão alguns antigos sonhos, os quais resolvi tirar da gaveta e arriscar: ter a oportunidade de estudar e trabalhar dentro de organizações que defendem causas humanitárias, ambientais, e que defendem um mundo internacionalista, sem fronteiras separando ricos dos pobres, brancos dos negros, etnias, religiões, opções sexuais, etc.

Não escolhi um país, escolhi um objetivo. Se fosse o Camboja, Belize ou Somália o país com tais organizações, iria dar um jeito de ir pra lá porque é isso que quero tentar.

Se vou conseguir ou não é outra questão longe ainda de uma resposta pois dois meses não são nada. Se vou aguentar morar num quarto sem janela que só o relógio me orienta saber se é dia ou noite, se vou aguentar a saudade dos sobrinhos, da família, dos amigos, se vou aguentar o frio da Europa e frieza dos europeus, se vou aguentar minha alimentação de sobrevivência, etc. e tal, isso tudo ainda não sei.  Mas vim pra tentar.

O relógio, por enquanto, caminha em marcha lenta, onde a falta de atividades estimula reflexões. Alguns dias me pego com nuvens pensativas rondando minha cabeça, mas que em nenhum momento causaram arrependimento das minhas decisões.

Assim, nos gráficos deste bimestre, minha balança comercial apresenta um superavit enriquecedor, de altíssimo lucro. A minha Bolsa de Mercados e Futuros registra recorde em valorização de títulos futuros, pois sei que toda essa experiência e os muitos sacrifícios passados serão benéficos para mim lá na frente. Mas, se der qualquer problema nessa trajetória, se uma crise mundial estourar, eu tenho uma boa bagagem que ninguém me tira.

Com 28 anos eu não tenho um puto no bolso, mas posso contar, ao menos, histórias para os meus sobrinhos. São escolhas, não sei se fiz as certas ou erradas, mas escolhi com a melhor das intenções.

Àqueles que focam dinheiro em primeiro lugar, para depois viver, eis um conselho: não relacionem sonhos com dinheiro. Eles não percorrem a mesma estrada. Dinheiro traz satisfação, felicidade é muito além disso.

Não incentivo rasgarem seus ternos, seus diplomas e venderem seus carros. O que incentivo é dar importância ao que realmente desejam na vida. Para todo o resto, dá-se um jeito.

Tempere sua vida sem esquentar a cabeça.

Marcio Vieira


Verde não é transparente

25/10/2010

"Não sejamos neutros", Elie Wiesel

Semana passada tive a oportunidade de assistir uma palestra de Elie Wiesel, Nobel da Paz em 1986. A palestra na Universidade de Genebra contava também com José Manuel Durão Barroso, ex-presidente de Portugal, e ambos falaram sobre Direitos Humanos.

O ponto que mais me chamou atenção foi a crítica que o escritor romeno fez à tradicional neutralidade da Suíça com relação às guerras, invasões, e destruições que marcaram toda Europa no último século.

Ele disse que, quando o objetivo é a paz e o desenvolvimento por uma igualdade social, não se deve ficar calado ao ver mortes, ao ver crimes, ao ver desrespeito às leis e desrespeito ao próprio ser humano.

Logo após o evento, criei um paralelo com a decisão do Partido Verde no segundo turno das eleições presidenciais, que divulgou sua independência em relação aos presidenciáveis.

20 milhões querem mudança

Marina Silva conquistou quase vinte milhões de eleitores, cerca de 1/5 do total. É muita gente que acredita numa terceira via diante dessa incoerente polarização partidária que vive o Brasil nos últimos anos. É muita gente que acredita que o Brasil pode avançar mais com pessoas engajadas e atualizadas. É muita gente que está de saco cheio de tantos escândalos e corrupções.

A impunidade desestimula eleitores, e a obrigatoriedade do voto dá mais forças ao continuísmo da sujeira que se formou em Planaltos, Palácios e Poderes.

Mensalões do PT e DEM, compra de votos para reeleição, dinheiro na cueca, propinas em privatizações, hidrelétrica mal projetada, pedágios, empresa do filho do presidente, absolvição de Renan Calheiros, os 40 petistas, Sudam/Sudene, etc etc etc…

Foram dezesseis anos de incontáveis escândalos que resultaram em nada: Genuíno, Palocci, Eduardo Jorge, Zé Dirceu, Renan Calheiros, e outras dezenas de políticos continuam saboreando suas pizzas, enquanto a população, apática, pouco reclama.

E são em momentos de crise que realmente transparece a índole de cada indivíduo. A debandada de alguns ex-petistas como Marina Silva e Eloísa Helena mostrou que caráter não se compra. Mercadante, se mantivesse sua posição de sair do PT quando estourou a crise no partido, estaria nesse seleto rol de honestos, mas sua covardia e seus escusos interesses mostraram que também faz parte da velha corja de políticos.

Dois ciclos de oito anos repletos de corrupção se passaram, e cá estamos, faltando poucas semanas para decidir qual fantoche será empossado. Se a luz verde diante de tanta lama não foi suficiente para este ano, sua decisão de independência foi aquém das expectativas.

Calar-se  é, de certa forma, abaixar a cabeça para a gravidade de ter dois partidos com comprovadas administrações corruptas que tomarão conta de centenas de bilhões de reais nos próximos anos.  E nisso, a lúcida mente de Plínio de Arruda Sampaio foi mais convicta que o Partido Verde ao dizer que vai anular o voto. É a forma que ele encontrou de mostrar toda sua insatisfação e raiva com o atual sistema político brasileiro.

Ao invés de pregar uma apática independência, Marina Silva poderia ter sido mais incisiva e mais agressiva. Ultrapassam vinte milhões de votos (PV e PSOL somados) àqueles que querem uma mudança significativa.

A neutralidade do PV foi semelhante à secular neutralidade suíça que Elie Wiesel criticou. Não se pode ficar quieto, independente, dentro de um mundo de injustiças e corrupções. É preciso protestar de forma contundente e ser mais agressivo ao expressar sua insatisfação.

Há uma enorme diferença entre dizer “não” e ficar calado. Verdes, se realmente desejam ficar maduros dentro da política nacional, não sejam incolores ou transparentes.

Marcio Vieira


Senhores zuriquenses

25/10/2010

Em uma rapidíssima viagem para Zurique (que será tema de um futuro post), registrei o que achei mais interessante.

Assim como idosos que têm preferência em filas e acentos, existem carros clássicos (em perfeito estado de conservação) que deveriam ser isentos ao pagamento de estacionamento. Questão de respeito ao passado.


Entre os Invisíveis

18/10/2010

Por mais laranja que seja seu uniforme, é um invisível

Nas últimas semanas tive experiências bem impactantes para mim, onde fiquei próximo das pessoas invisíveis.  Invisíveis são muitos, milhões em todo mundo. São garis, entregadores de jornal, lavadores de banheiros e pratos, e tantas outras pessoas excluídas, de alguma forma, da sociedade.

Fiz, num sábado, limpeza de escritórios. Sabe aquele lixo que deixou no cesto debaixo de sua mesa? Sabe aquele clip que você deixou cair mas não pegou do chão? Sabe aquela xícara de café suja que ficou na copa? Sabe o cesto de lixo que acumula no banheiro? Sabe o que acontece com tudo isso?

São os invisíveis em ação que trabalham enquanto outros descansam,  na madrugada antes de você entrar ou quando você já saiu do trabalho. São aqueles que fazem o serviço no silêncio, não escutam elogios por fazer um serviço bem feito mas, quando o contrário acontece, a crítica chega com extrema velocidade. Você já ouviu algum cliente de restaurante elogiar o prato extremamente limpo?  Não, pois é a “obrigação” de alguém que está lá atrás, nos fundos de uma cozinha.

E você já ouviu algum empregado de gravata elogiar a limpeza do vidro espelhado do escritório o qual trabalha, ou ainda retirar as centenas de bitucas o cinzeiro que fica na porta do prédio? Você já ouviu alguém dizer “obrigado” para o gari que limpa a sarjeta das ruas? Pois bem, esses são alguns exemplos de pessoas que são tratadas como objetos, robôs, as quais nunca perguntaram sobre seus sentimentos e ressentimentos.

Quando entregava jornal, em 2005.

Minha primeira experiência entre os invisíveis foi na Inglaterra, quando entregava jornais no centro de Birmingham. No começo foi bem difícil tomar ciência da minha própria inexistência para milhares de pessoas. Todos os dias as pessoas se esquivavam, não olhavam nos meus olhos, fingiam pressa e, na maioria dos casos, só enxergavam o jornal, focando a visão em uma única direção semelhante aos antolhos usados em cavalos. O entregador, o ser humano e sentimentos que estão ali são de menos.

A falta de um simples “bom dia” para quem fica horas em pé com braço esticado, sorrindo, oferencendo um gratuito jornal, é um soco no queixo da honra do “coitado” que está ali. É querer demais desejar que tal pessoa receba um “bom dia” ou um “obrigado” olhando nos olhos? Mas nos dias que eu recebia um “obrigado” ou uma sincera troca de olhares de uma fração de segundo, todo aquele momento era guardado, dando energia para as milhares de recusas e desrespeito durante todo o dia de trabalho.

A partir de então, por mais que seja um “lixo” a mais no carro, nunca deixei de recusar folhetos em semáforos, e sempre agradeci olhando nos olhos do entregador. Pode ser mais um papel de um consumo desordenado, mas do outro lado do vidro do seu carro há uma pessoa, e dentro dela há sentimentos iguais aos seus. Mas, voltando às experiências desta semana, além limpar escritórios, almoçei por diversas oportunidades num restaurante gratuito para mendigos, desempregados, e outras pessoas sem poder aquisitivo algum. Logo quando se entra é perceptível o clima mais pesado, um ar de tristeza, melancolia, frustração e decepção que se espalha entre todos. Pobres famintos, imigrantes ilegais, viciados em drogas, desempregados, loucos e aqueles que não querem nada na vida aproveitam um simples almoço. À tarde vão para outro posto fazer um lanche, e a noite em outro.

Assim vão vivendo, ou melhor, sobrevivendo. Mendigos que toda sociedade sonha que desapareçam (tem até os que desejam a morte deles), que não sujam ou atrapalhem quando dormem em calçadas ou praças de qualquer cidade do mundo. Muitos deles já perderam o respeito que tinham pela própria vida, não conseguem mais distinguir alguns sentimentos e vivem apenas como animais, como cães de rua, apenas com os sentidos de fome, frio e sede.

Já fiz diversos trabalhos voluntários, há muita gente que atua em maravilhosas causas sociais, mas tenho certeza que a maioria absoluta não sabe o real sentimento de estar do outro lado da moeda. Moeda essa que eles não têm (ou não sabem usar), moeda que divide em classes bilhões de indivíduos. Lá, mesma mesa e comida dividíamos por alguns instantes, que tais momentos me fizeram refletir muito sobre uma injusta sociedade. Me fez pensar o quanto sou privilegiado no mundo, mas me fez mais: abrir o corpo para sentimentos e sensações novas que recomendo à todos.

Sim, fui pra tal restaurante porque estou desempregado e preciso economizar dinheiro num dos países mais caros do mundo. Fui para lá porque, momentaneamente, sou um deles, mas tenho a sorte de não ter aquelas refeições gratuitas como último recurso para viver. No encontro de invisíveis, por algum momento, fiz parte deles.

Pessoas às margens da sociedade, mas que são, assim como eu e você, pessoas merecedoras de respeito e cordialidade. Um sorriso, um “obrigado”, um “bom dia”, por mais que você não seja obrigado, não dói nada na hora de dizer. Mas, para quem recebe, é estimulante, capaz de mudar não só o dia, mas quem sabe, o futuro.

Uma sugestão: que tal deixar, propositalmente, em sua mesa do escritório, um recado e uma lembrança para a pessoa que limpar na madrugada, mais ou menos assim: “Moça da limpeza, não te conheço, mas este sonho de valsa é uma forma simples de agradecimento por limpar minha mesa e meu cesto de lixo todos os dias.”

Marcio Vieira