O Rolê, parte 2: O Estado e seus Zumbis

15/01/2014

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No texto anterior apresentei minha opinião sobre os reflexos que um consumo doentio pode causar em toda sociedade, principalmente nas classes mais pobres. Tudo está interligado, o que você gosta, consome pode sim interferir na vida de pessoas que você mal conhece.

Agora, queria falar sobre o movimento do Rolezinho, propriamente dito.

A primeira pergunta: o que ele é? É uma manifestação? É uma baderna? É um tumulto? É uma revolução? É um arrastão? É um bando em crime organizado? É uma revolta social?

Cada um tem sua opinião, mas para mim, sinceramente, o Rolezinho é algo totalmente desnecessário.

Sim, juntar 2 mil pessoas para entrar em qualquer estabelecimento no mundo causará confusão na certa.  Qual o motivo de entrar 2 mil pessoas ao mesmo tempo num local que não foi projetado para esse fluxo de pessoas? É necessário? De repente, 2 mil pessoas têm a mesma vontade de comprar um óculos? De repente, 2 mil pessoas têm a mesma vontade de comprar um boné novo?  Que coincidência!

A estrutura de todo shopping center não foi feita para receber 2, 4, 5 mil pessoas em poucos minutos. As portas não comportam, os corredores das lojas não foram projetados para essa quantidade de pessoas ao mesmo tempo. As lojas não suportam tamanho fluxo de pessoas, não há vendedores, não há espaço, não há estoque para tantos consumidores, então, pra que fazer esse tipo de “protesto” sem sentido?

Por acaso, quando estão sozinhos, algum integrante sofreu discriminação em alguma loja quando tentou comprar algum bem? Algum “rolezeiro” sofreu preconceito por não ser atendido? Se sim, fez a denúncia contra o Shopping? Fez a denúncia contra a Loja? Escreveu no Reclame Aqui? Ligou para a Polícia?

Então, qual o motivo de querer entrar todos juntos num local particular onde o escoamento de pessoas não suporta?  Para mim, com todo respeito, é dar margem para problemas. Precisa disso?

Se 2 mil pessoas resolverem entrar no McDonalds para pedir casquinha de chocolate, vai dar problema. Se 2 mil pessoas resolverem entrar na Saraiva querendo algum livro, vai dar problema. Se 2 mil pessoas resolverem fazer qualquer coisa juntos, certamente, no mínimo, causará filas.

Vocês são consumidores, têm livre acesso, têm todo direito de se reunir, mas qual o verdadeiro propósito dessa forma de “passeio”? Causar stress aos funcionários do shopping? Causar stress aos atendentes das lojas?

Um dos melhores exercícios é praticar a empatia, ou seja, se colocar no lugar da outra pessoa.  Imagine você, vendedor da Loja X, de repente, em poucos instantes, você vê 10 pessoas à sua frente querendo ser atendido.  10 pessoas já será dificil atender.  Agora imagine que entrem 200 pessoas na sua loja ao mesmo tempo, o que você vai pensar? Como você vai reagir?

Enfim, o Rolezinho, para mim, é desnecessário, e só mostra o quanto a juventude está com valores sociais distorcidos e não sabe o significado das palavras Direito, Dever e Respeito. Não acho correto causar um stress à toa para depois se vitimizar.

Até mês passado, algum indivíduo que participa do Rolezinho foi, por exemplo, proibido de entrar no Iguatemi? Algum segurança proibiu a entrada? Possivelmente pode ter acontecido, mas o lugar para buscar retratação não é na porta causando o caos. Existe todo um sistema judiciário que tem a obrigação de atender qualquer indivíduo.

Para mim, provocar terceiros para que violem os Direitos Humanos não é a forma correta de discutir o tema da desigualdade social. Não é no shopping com 5 mil pessoas. É nas ruas, em local público.

Os Rolezeiros são vítimas de um sistema de educação pública que está falido, que trata o futuro com desrespeito, com aprovações automáticas, que não estimula o raciocínio, não estimula o questionamento, não estimula a cultura e, por isso, talvez eu esteja errado em questionar o movimento deles porque a origem do problema é muito mais profunda: eles, Rolezeiros, têm dificuldade para pensar porque não foram educados para isso.

E a culpa disso é totalmente do Estado, que acreditou que, mantendo jovens ignorantes seria a forma de controlar a sociedade.  Pelo contrário, manter jovens ignorantes só vão torna-los animais soltos, pequenos zumbis, mortos-vivos excluídos da sociedade que atormentam por atormentar, numa rebeldia desproporcional onde a causa do problema não é remediada, dando atenção apenas às consequências.

A culpa é do Estado, que acredita que a truculência policial é a forma de garantir a segurança. A culpa é do Estado, que remunera mal policiais, que capacita de forma errada quem tem a responsabilidade de trazer a calma e harmonia. A culpa é do Estado, que remunera mal professores, justo os que deveriam receber os maiores salários no mundo.

A culpa é do Estado ou a culpa é de quem dá um voto de confiança para tais representantes? É um círculo vicioso: O Estado investe na ignorância do povo e na obrigatoriedade do voto, o povo não entende, o povo não reclama, e uma massa de ignorância é intimida para as próximas eleições.

E como animais, o instinto desses jovens transborda: o atual deles é a raiva, uma raiva por sofrer preconceito, por não ter oportunidade, por ver um mundo desigual, por não ver esperança, expectativa e futuro, por acreditar que um Audi e um Rolex são objetos de inclusão social.

Não, Rolezeiros, a inclusão social não é com o carro importado ou um bolso cheio de garoupa. A inclusão se dá com educação. Antes de ir ao shopping protestar por querer consumir, proteste primeiro por uma educação mais digna, mais responsável com o futuro.

Aliás, esse é um protesto universal para todas as classes sociais abraçarem a causa. Só assim conseguiremos visualizar um futuro mais promissor.

Marcio Vieira


Elitizar soluções

29/07/2013

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Como forma de responder (novamente de forma errada) aos protestos, a Prefeitura de São Paulo ampliará a área de restrição ao automóvel (o famoso rodízio de carros), agregando novos bairros ao famigerado “Centro Expandido”.

A justificativa sempre é a mesma: melhorar a circulação, diminuindo o trânsito da caótica cidade, porém, há várias questões que devem ser analisadas antes de tomar qualquer medida restritiva ao cidadão.

O rodízio de carros em São Paulo, há tempos, deixou de ser a razão para diminuição dos gases poluentes na cidade, esta, por sinal, era a primeira desculpa pela imposição do sistema. Hoje o problema é lento deslocamento, em uma cidade que deixa de faturar, por causa do trânsito catastrófico, mais de 20 bilhões de reais todos os anos.

Ao impor o rodízio, a cidade não compensou o cidadão com transporte público eficiente e/ou barato, o que resultou em novos gastos para boa parte da população para adquirir um segundo automóvel. E a medida gerou impactos sucessivos como, por exemplo, inflacionar o valor dos imóveis com duas ou mais vagas de garagem.

Uma vaga de garagem adicional em imóveis residenciais pode ultrapassar 50 mil reais em diversos bairros da capital, o que ajudou a contribuir, também, na especulação imobiliária promovida por grandes construtoras que oferecem lançamentos, na sua grande maioria, com um mínimo de duas vagas por unidade.

O resultado é trágico para o trânsito: são emplacados diariamente em São Paulo 1.000 novos veículos, que farão parte à uma frota que já ultrapassou a barreira dos 6 milhões.  É um número insustentável para a cidade, e as soluções para restringir o carro são completamente ineficazes e desastrosas.

Como na maioria das decisões políticas, a cidade de São Paulo elitiza a solução para um problema de âmbito geral, que forçará os residentes de bairros de alto padrão (na Zona Sul, por exemplo, Av. Berrini, Brooklin e Campo Belo entrarão na “zona do rodízio”) adquirirem um outro carro, visto que a maioria dos habitantes de tais regiões têm fôlego financeiro para comprar um carro que, no caso, pode já ser até o terceiro carro da família.

O efeito-dominó dessa decisão proibitiva é gigantesco: a disputa por vagas nas ruas secundárias às grandes avenidas prejudicará, e muito, o fluxo. Aliás, é o fluxo, o escoamento, a principal finalidade de uma rua/avenida. Ruas não são locais para se estacionar. No entanto, prefeituras (novamente elas) enxergam oportunidade com Carão Zona Azul, além dos oportunistas flanelinhas, nunca coibidos da exploração ilegal de algo público.

12 Vagas?!?

Morador preocupado com rodízio

E quem sofre? Não será o morador do Campo Belo. Muito menos os engravatados da Berrini.  Quem sofre, como sempre, é o povo. O dependente de transporte público.

Quem não é dependente de transporte público arruma uma solução rapidamente. Negocia novos horários na empresa ou entra numa concessionária qualquer e com 10 reais por dia é capaz de sair de carro zero km. O segundo carro.

O rodízio de carros em São Paulo não foi, e nunca será, a melhor medida para combater o trânsito porque se trata de uma medida superficial e elitista.

Diversas cidades no mundo pactuam com o mesmo problema paulistano, porém, há várias formas de se combater a crescente individualização do deslocamento urbano sem estimular aquisição de um novo veículo.

Hong Kong, por exemplo, exige que o cidadão que desejar comprar um automóvel tenha, comprovadamente, uma garagem para não deixar o carro na rua. Seja com contrato anual com estacionamentos ou no próprio imóvel do cidadão. Pode até ter dinheiro para uma Ferrari, mas se não tiver garagem, não vai comprar. Simples assim.

Inúmeras cidades têm tributação diferenciada para o contribuinte que adquirir um segundo automóvel. Aumento de 20, 30 chegando até 50% no valor do IPVA para o segundo carro.  Assim, a conta é mais justa socialmente: cidadão que tem mais, paga mais.

O IPVA é um tributo estadual, então cabe ao Governo e a Prefeitura se entenderem para praticar tal ação restritiva à elitização do trânsito.

O prejudicado, da forma com que tratam a questão da mobilidade urbana, sempre será quem vive na periferia, longe do “Centro Expandido”. Tal sistema é completamente injusto àquele que mora na Estrada do M’Boi Mirim (ou qualquer outra região periférica) que perde 4 horas do dia no trânsito paulistano.

Deve-se estimular a consciência coletiva de toda população, com programas incentivos fiscais para adoção de novos horários para jornada de trabalho, além de evitar um grave erro que é cometido em São Paulo:  o deslocamento (e especulação imobiliária) de centros econômicos. É muito fácil comprar um enorme galpão industrial e construir diversas torres residenciais e comerciais, mas deve-se estudar o impacto no trânsito local e, principalmente, rever a necessidade de empreendimentos desse porte.

Hoje sou terminantemente contra o rodízio de carros em São Paulo como solução ao trânsito. Mais contra ainda ao aumento do Centro Expandido porque são medidas pouco estimulantes à troca do automóvel pelo transporte público. Hoje, quem tem dinheiro, comprará um segundo carro. E quem não tem, financiará, ainda mais com IPI e outros incoerentes incentivos fiscais.

O trânsito caótico continuará o mesmo. Quer dizer, com 1.000 novos carros todos os dias, só vai piorar.

O Movimento Passe Livre é uma pequena luz para discutir uma forma de restabelecer uma ordem social e economicamente justa. Se incentivar que transporte público, embora hoje completamente trágico, seja gratuito (ou, ao menos, que seja realmente barato), haverá demanda por mais ônibus e mais trem.

E é com demanda que se muda prioridades.

Marcio Vieira


O boy do iphone

14/06/2013

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Muita gente, sempre via redes sociais, está criticando as manifestações contra aumento do transporte público por ser um movimento com muita gente da classe média, muitos com carros, sendo pessoas que usam pouco ônibus e metrô.

Expressar opinião é de direito de cada um, há de se respeitar. Por exemplo, eu sinto vontade de vomitar quando alguém compartilha textos do Arnaldo Jabor. Tem gente que gosta, o importante que a internet dá espaço para todo mundo.

Para quem não sabe, a Primavera Árabe foi iniciada por estudantes, boa parte da classe média, que utilizaram o Facebook, Twitter e outras ferramentas da nova sociedade para reunir pessoas com uma mesma opinião, de derrubar regimes ditatoriais.

A classe média está indo para as ruas do Brasil, e por um motivo que deveria orgulhar os almofadinhas: de alguma forma, eles estão dando a cara à tapa para representar os mais pobres, os que dependem de um transporte público eficiente.

Quem está levando bala de borracha tem Facebook. Quem se engasga com gás pimenta está no Twitter. E qual o problema?  Se o boy do I-phone faz mais que você para tentar mudar o país, parabéns à ele!  Que apareçam mais gente com seus smartphones para compartilhar e reunir mais insatisfeitos.

A luta não é por 20 centavos. A luta é por viver dignamente. A luta é contra a dificuldade de viver em São Paulo, seja você rico ou pobre. Dignidade não tem classe social, não está na roupa do Brás ou do Iguatemi. Dignidade está dentro de cada um para agir e reagir da forma como quiser.

É de se comemorar que as pessoas privilegiadas de São Paulo, com acesso à informação e à tecnologia, resolveram botar a pele em risco. Perceberam que ser somente Ativistas de Pantufas não gera solução, e finalmente a revolta deixou as mesas de bar e foi para as ruas.

Se há gente que discorda dos protestos, o espaço para opinar é de todos. Se há críticos às manifestações, utilizem as mesmas redes sociais para se juntarem debaixo do Masp ou no Ibirapuera para não atrapalhar o trânsito. E melhor será se utilizarem o eficiente e confortável sistema de transporte público para chegar em tais lugares.

Porém causar incômodo é necessário para transparecer a insatisfação contra os representantes da sociedade. Caos não é sinônimo para violência ou depredação. Parar as já caóticas avenidas paulistanas é fundamental, do contrário, sua petição online vai ficar no fundo da gaveta do prefeito e do governador.

Está afim de esperar?

Esperar um dia que Haddad, Alckimin, ou qualquer outro representante irá refletir, meditar e, voluntariamente, decidir abaixar os impostos? Abaixar os preços das passagens de ônibus e metrô?   Que mundo você vive?

Deve-se ir às ruas, e dane-se se há um i-phone no bolso ou uma prestação das lojas marabraz. O que importa é transparecer o que se acredita, fazer valer a própria voz.

Protestar não é uma ação. É reação! Passe Livre é uma forma de reagir àquilo que está sendo feito, ou melhor, ao que não está sendo feito.

Marcio Vieira


Vermelha de Raiva

10/10/2012

Seu jornal com termos preconceituosos, “antipetista”, ao invés de simplesmente PSDB e PT

Você que for este texto, sinto muito em lhe dizer, mas ele não é endereçado para você. Não me leve a mal, mas é que você não precisa perder seu precioso tempo lendo algo que provavelmente você não vai concordar, então é melhor parar por aqui.

Afinal, você que acessa diariamente redes sociais, tanto pelo seu laptop como pelo telefone celular, você que assina revistas semanais de péssima qualidade, e que tem em sua confortável estação de trabalho climatizada às margens de uma vistosa avenida paulistana, sinto muito, mas esse texto não é para você.

Este texto vai para quem acorda pelo menos duas horas antes de você, que está no mínimo duas vezes mais distante da famigerada avenida. Este texto vai para quem é responsável pelo mágica que limpou sua mesa e que você não faz ideia qual rosto e qual nome possui, pois faz isso na madrugada.

Este texto também vai para as pessoas que, quando trabalham mesmo horário que o seu, não tem livre acesso as mesmas informações que você recebe. É que o trabalho dessas pessoas, normalmente, não são em frente de um computador, muito menos tem cadeira giratória regulável. O trabalho delas é vestindo macacão sujo de graxa ou com um uniforme da terceirizada.

Serve esta mensagem para aquela senhora que pede licença para retirar os papéis do seu cesto de lixo debaixo da sua mesa. Serve para aquele rapaz que você vê todos os dias ao lado da catraca aonde você passa o crachá, mas nunca falou nada mais aprofundado que um “Hoje é Coringão!”

Este texto serve para aquele cara que passa a madrugada escutando radinho de pilha para esquecer a solidão, e abrindo portão da garagem do seu prédio. Ou para o entregador de pizza, fazendo hora extra depois de 8 horas arriscando a vida para facilitar sua vida e entregar suas coisas com mais rapidez.

E tantas outras pessoas que, embora hoje tenham mais de 70 milhões de brasileiros conectados na internet, a imensa maioria entra bem a noite, quando chega do trabalho, ou quando chega da aula daquela faculdade mixuruca que você tanto reclama da existência, raramente vão ter saco para procurar algo mais conceituado para se informar na internet.

São pessoas criadas no ritmo vida loka, tá ligado? E que, apesar de tudo, estão suaves, bem diferente de você, que adora reclamar da merda do trânsito, mas que necessita sentir-se vivo nas redes sociais, e para isso vale tudo, até comentar repetitivamente sobre o tempo.

Você que tem acesso à este blog e, mesmo com avisos insistiu em continuar a leitura, precisa entender uma coisa fundamental das eleições: você é minoria.

Você que vai em rodízio de comida japonesa é minoria, você que leva 1 hora de trânsito para chegar ao trabalho, é minoria também. Você que tem a possibilidade de viajar de avião com frequência, de ir em baladas, de comprar iphone e outros produtos da maçã mordida, é minoria.

Você que reclama que está lotado o Parque do Ibirapuera aos domingos de sol, você é minoria. Pois a maioria está feliz, lá, e está cagando para seu nojinho com o pobre. Você que reclama de rodovias congestionadas, você é minoria, pois a maioria vai ficar sem viajar, e vai curtir o Shopping Interlagos ou Center Norte lotado, pegar uma fila de 15 minutos no McDonald’s e, depois disso, sorrir.

E o espantoso de tudo é que o centro rico e poderoso de São Paulo não consegue entender que suas necessidades não menores, afinal, sua vida em Moema, Pinheiros e Jardins é sempre uma maravilha, apesar do pedinte no farol e do medo de assalto.

A maioria mora longe de você, nos arredores, basta ver os mapas coloridos publicados após a eleição. É a periferia, mano! Amontoados, vivem espremidos, mas que na hora de votar, o peso dele é igual ao seu, e daí não vale reclamar.

E não adianta reclamar em conversas nos bares de happy hour ou, principalmente, com comentários preconceituosos no twitter e facebook. Expor a opinião é algo livre na sociedade, mas recomendo valorizar sua própria inteligência, afinal, quem foi pra Miami e Paris foi você, que deveria compreender que você é o historicamente privilegiado.

Só que acontece que você é a minoria que acha lindo incendiarem uma favela em pontos nobres, afinal, não é você que nasceu nela, e que das pessoas dela, o máximo que você sente é ignorância e medo.

É preciso entender que a maioria está cansada de uma política elitista, com seus eleitores, incrédulos, xenófobos, preconceituosos com pobre, com preto, com nordestino, com favelado, que vão votar por quem acredita que, no mínimo, darão mais dignidade.

Pobre quer espaço pra respirar. Fique tranquilo que ele não vai entrar na balada da Vila Olímpia. Fique tranquilo que ele não quer conhecer o Shopping JK. O Pobre, a maioria, só quer espaço para viver, e está cansado de políticos que ignoram a periferia, vermelha de raiva.

Eu sou do mesmo lugar de você, leitor. Eu sou da minoria, porém, eu tenho a consciência que São Paulo precisa priorizar a maioria, que está no subúrbio, na periferia. Dane-se se serão anos ruins para o lado azul. Meus problemas não passam de um asfalto esburacado, de uma calçada suja, da falta de um semáforo.

O problema da maioria é ter medo de enchente, de incêndio, de ter ônibus perto (lotado ou não, o importante é ter), de ter escola pública perto, etc.

Afinal, qual o tamanho da sua prioridade?

Marcio Vieira


O Dia Mad Max

07/03/2012

Busquei a sinopse do filme: “Em um futuro não muito distante (o filme começa com a frase: a few years from now) e pós apocalíptico, o deserto australiano vive dias de caos onde gangues de disputam o poder e aterrorizam a população por um pouco de gasolina”.

Impossível não associar o dia de hoje com o filme feito em 1979, estrelado por Mel Gibson.

O Dia de Mad Max mostra o desespero paulistano por alguns litros de gasolina. O caos se formou, sete milhões de veículos lutam para chegar em seus trabalhos salvos.

A gangue caminhoneira aterroriza a principal capital brasileira. Postos inflacionam o preço, se aproveitam do medo formado pela busca pelo deslocamento.

A gangue caminhoneira aproveita a falta de consciência coletiva do paulistano, que não aceita dividir um ônibus, dividir uma carona, pedalar, caminhar, enfim, buscar alternativas para melhorar o convívio na cidade.

Cidadãos comprometidos com o trabalho que pagam 300 reais por mês de estacionamento, ou que pagam 15 reais a primeira hora (ou ainda mais) para colocar seus carros num lugar “protegido”.

Cidadãos que perdem 20% do valor do automóvel no primeiro ano de uso, que gastam 300 reais para andar mil quilômetros (fora os gastos de manutenção) que gastam entre 3 e 10% do valor do carro por ano em seguro, ou seja, depreciam em uns 25% seu “patrimônio de rodas de liga-leve”.

Contribuintes que pagam regularmente seus impostos, que gastam meia hora para achar uma vaga para estacionar o carro na rua, pois hoje as prefeituras esqueceram que a prioridade da rua é o fluxo contínuo, e não a possibilidade de estacionar, prejudicando o trânsito.

Habitantes que reclamam da ciclofaixa permanente, que tirou a possibilidade de estacionar suas latas de insul-film, ou que não respeitam a placa “Rota de Ciclista”

Caminhoneiros, os malvados, são a corja da sociedade proletária. Afundam São Paulo no caos! Se organizam em sindicatos com barbudos e cruzam os braços. Abusados, vocês!

São Paulo é cidade para andar de carro!  Ônibus é coisa de pobre, preto, ou, pior ainda, pobre preto. Eu ganho meus dez mil reais por mês e vou financiar meu i30. Eu ganho 5 mil reais por mês e pago meu Fox. Eu ganho 3 mil e pago meu Uninho. Eu ganho mil reais por mês e pago as prestações do meu Gol Caixinha!!

E, mais que isso, eu vou andar SOZINHO!  O carro é meu!  Eu faço o que quiser! Eu buzino! Deixe as sardinhas enlatadas no transporte coletivo!  Não vou dar carona para o vizinho, eu não converso com ele, então ele não é bem-vindo no meu possante.

Esses ciclistas idiotas não aprendem que bicicleta é só no Domingo, e apenas para andar aonde tem cone.  Meu carro não divide espaço com uma bicicleta. Eu fecho! Deixo apenas a linha da sarjeta para eles! Meu carro de 50 mil reais com DVD é mais importante que a bicicleta do eco-chato.

Carros de 100 mil reais pra cima, então, são deuses supremos! Não se misturam com a gentalha, diz Dona Florinda a bordo do seu Land Rover.

Vamos, Mad Max, sobreviver pelo líquido sagrado: a Gasolina!

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Brincadeiras à parte, não desejando o sofrimento de ninguém, mas é importante tomar ciência de algumas coisas:

Corredores de ônibus tem fluxo de 30 mil pessoas por hora, enquanto cada faixa para carros tem, em média, fluxo de 2 mil por hora. Se pensar que mais de 80% dos carros em SP estão com APENAS 1 pessoa, calcula-se menos de 2.500 pessoas por hora em cada faixa de rolagem para carros.

Numa avenida com duas faixas para carros e apenas uma para ônibus (exemplos: Avs. Santo Amaro, Nove de Julho, Rebouças, Ibirapuera…), deslocam-se 35 mil pessoas por hora.

Por que não dobrar a faixa de ônibus, deixando apenas uma para carros? Assim seriam 60 mil pessoas por hora, diminuindo o tempo parado no trânsito. Metrô tem fluxo de quase 40 mil pessoas por hora.

Mas ocorre que o morador de Moema não vai entrar no ônibus para ir para a Faria Lima, muito menos gastar 15 minutos e ir de bicicleta.

Prédios comerciais acham mais lucrativo ter TRÊS vagas a mais de carro do que montar, no mesmo espaço, um vestiários e colocar ganchos para pendurar bicicleta.

Homens de negócio não pedalam. Multinacionais têm que fornecer CARRO para seus líderes em sinônimo de status e importância dentro da empresa.

Vamos, sociedade brasileira, estimular que quanto maior e mais caro seu carro, maior é sua influência na sociedade! Se a empresa me deu um Corolla, é porque eu sou fodinha. Se a empresa me der um BMW, eu serei fodão!

Vamos, paulistas, mostrar que carro é sinônimo de poder. Vamos financiar, pagar 30% de juros ao ano para preencher uma das vagas do seu prédio com varanda gourmet.

Vamos, pauliceia, a gasolina é o sangue que bombeia para encher nosso ego. Gasolina Podium é a Absolut das vodkas, deixem a vodka Balalaika para o dono do paliozinho.

Vamos, sociedade motorizada, promover o caos. Com felicidade vamos promover trânsito na saída da garagem dos nossos condomínios-clube. Vamos para a padaria de carro!  Vamos para a academia de carro!

Vamos esperar construir o metrô para enfim deixar o carro na garagem. Vamos esperar o ônibus ficar menos lotado para enfim eu ter meu bilhete único.

Brasileiro é um bicho estranho: fora do país dá uma de “Povo” e anda de bicicleta em Amsterdam, de metrô em Nova York e de ônibus em Londres, mas quando volta, dá uma de “Gente Diferenciada”

O fluxo de investimento está completamente invertido. É preciso criar a demanda, primeiro, para existir o investimento público. Governo nenhum, no mundo, antecipa, faz projeções sócio-administrativas. Vocês acham que Paris sempre foi bonitinha?

É preciso acabar com corrupção. É preciso acabar com burocracia que atravanca o desenvolvimento. É preciso diminuir os gastos públicos com funcionários fantasmas, ou com gabinetes populosos de políticos ineficientes.

É preciso diminuir o número de deputados e vereadores. Mais de 500 neguinhos eleitos em Brasília que não resolvem porra nenhuma. É preciso fazer essa cambada ter cartão de ponto e ganhar por hora trabalhada, desempenho, cortar auxílios bizarros que afrontam a inteligência do eleitorado. É preciso um monte de coisa que só o voto não resolve. É preciso promover um certo caos para revindicar melhorias.

E o caos do Dia de Mad Max é um dia para refletir: o que VOCÊ, contribuinte, cidadão, faz para melhorar o convívio na sua cidade?

O que VOCÊ pode mudar em SEUS hábitos para ter maior qualidade de vida?

Será mesmo, esse desespero todo por combustível, uma necessidade?

Precisamos SURTAR para ter gasolina?

Precisamos de 7 milhões de veículos apenas na cidade de São Paulo?

Precisamos ter mais de um carro dentro da família?

Precisamos ir num carro vazio para o trabalho?

Precisamos inflacionar os preços de estacionamentos?

Precisamos gerar 5 BILHÕES de dólares de lucro em 2011 para as montadoras no Brasil enviarem para suas matrizes espalhadas pelo mundo?

Precisamos dessa vida estressada por causa de individualismo?

Precisamos resolver um problema coletivo resolvendo, com a compra de um carro (ou até segundo carro para rodízio), pensando numa solução individualizada?

Precisamos nos matar no trânsito, xingar, reclamar, buzinar tanto? Seu carro também contribui para o trânsito existir! PENSE!

Precisamos chegar ao ponto de viver como Mad Max?

Marcio Vieira


Canibais do Tempo

02/03/2012

Ilha de Páscoa é conhecida pelos enigmáticos Moais espalhados pela ilha, conhecida também por ser um dos pontos mais isolados do planeta, metade do caminho da América do Sul para a polinésia.

Menos conhecido pela maioria é o motivo da decadência da sociedade de Rapa Nui, tão inteligente para construir centenas de esculturas (imensa maioria, diga-se de passagem, destruída pelos espanhóis), mas que ao mesmo tempo sucumbiu dentro de si.

A ilhota chilena é exemplo corriqueiro para a “Turma da Sustentabilidade” em palestras, apresentações ou papo de bar. Um povo tão avançado foi destruído, principalmente, por eles mesmos, quando começaram a notar que a falta de comida acontecia porque não havia planejamento, sem respeitar agricultura ou pesca consciente.

Surgiram, então, os primeiros conflitos. Pequenas guerras na pequena ilha para comer o pouco de alimento que tinha até que chegou ao limite da sobrevivência: viraram canibais.  Canibalismo matou uma das mais místicas sociedades da história, de inteligência ímpar, ambição idem, esta que, infelizmente, se transformou em ganância, e aí a coisa degringolou.

Algumas dezenas de séculos depois, numa grande cidade que se orgulha em estufar o peito, com certa arrogância, de ser a “locomotiva do Brasil”, sem perceber que são canibais contemporâneos.

Paulistas, imigrantes e retirantes se juntam para lutar pela sobrevivência. O monstro, antes domesticado, tomou conta da cidade. Um monstro invisível que não cansa, não descansa. Um monstro chamado Tempo.

Tempo que hoje faz paulistas saírem 5 da manhã de carro para conseguir uma vaga e dormir no carro até às 8h. Tempo que faz outros paulistas entrarem no trabalho às 10h e sair às 20 para fugir do trânsito. Tempo que criou novas categorias de trabalho, como Motoboys, que existem, que se arriscam, por entregas em menos… Tempo.

Paulistas loucos, ignorantes, que não aceitam diminuir seu consumo besta, desnecessário e doentio. Paulistas ricos e arrogantes que planejam a agenda da semana pela placa do próprio carro, isso quando não compram o “carro do rodízio”.

Paulistas, tão inteligentes para formar uma das cidades mais ricas do mundo, mas tão burros que não percebem que estão se matando. A ganância da Ilha de Páscoa e de São Paulo é a mesma, são cachorros cegos e famintos que não perceberam que estão mordendo o próprio rabo.

Um canibal motorista na Avenida mais importante do país matou uma ciclista, mais uma, e não será a última. Canibais que se matam no trânsito com latas velozes, caras, sinônimos de poder e status. Canibais que se matam porque se acham no direito de reclamar do trânsito, mas não percebem que mais de 85% dos carros na cidade, que andam com APENAS 1 ocupante, e que são os responsáveis pelo trânsito.

Trânsito doentio que suga energia, que faz milhões de paulistas reclamarem, que faz milhões de paulistas perguntarem a razão de continuar vivendo assim, que faz milhões de paulistas sonharem com a vida na praia ou no campo, mas que não tiram a mão do volante nem para ir na padaria.

Paulistas doentes que criam seu futuro (seus filhos) com os mesmos medos, dando celular para um guri de 5 anos, ou deixar ele trancado em casa jogando PlayStation, enquanto os velhos engravatados se fecham dentro de carros solitários.

Paulistas medrosos e orgulhosos. Simultaneamente são assassinos e vítimas. Matam quem quer viver. Matam quem quer usar uma bicicleta como veículo, matam porque a “sociedade burguesa antiquada” exige uma merda de terno e gravata para te respeitar, atrapalhando você ir de bicicleta numa cidade que faz 34 graus.

Quem quer ser diferente, se fode. Morre. Prédios comerciais lotados de vagas para seus engravatados, enquanto não tem um mísero vestiário para o ciclista poder tomar um banho e se trocar. Paulistas que se matam quando o motoboy ganha 5 reais por entrega durante o dia e trabalha a noite, por gorjeta, entregando pizza.

O Tempo mata o paulista, e não adianta vir reclamar do governo, com o Papa ou com a puta que pariu. Quem criou a falta de tempo foi o próprio paulista.

Quem criou o monstro chamado Tempo, foram nós, os Paulistas. E o monstro Tempo já procriou e tem filhos: Stress, Caos, Medo, Doença, Raiva…

Mas não se preocupe, Paulista, domingo você ficará mofando no sofá e esquecerá da semana que passou. Na segunda-feira, você relembrará. É questão de tempo.

Marcio Vieira


Consciência da coexistência

17/08/2011

Caos, por quê?

Trânsito ruim? Filas no supermercado, no banco, na balada? Situação chata, né? Dá raiva, dá vontade de explodir tudo? Calma, você coexiste!

Quando fazia alguns cursos de respiração (que, aliás, recomendo para todo mundo) da Fundação Arte de Viver, num dos dias peguei um trânsito extremamente complicado, tudo parado, era um caos. Nesse dia, provavelmente, já estava dentro do processo de reflexões que o curso estimula e enxerguei algo que antes nunca tinha enxergado ao ouvir tantas buzinas: a coexistência.

Eu poderia fazer parte da orquestra urbana que estressa qualquer pessoa, eu estava atrasado, o trânsito me prejudicava, mas refleti algo que nunca tinha parado para pensar: eu, dentro daquele carro, naquele trânsito, contribuia para o trânsito existir. Quantos de nós, moradores de grandes centros urbanos, já ficou puto da vida com o trânsito? Vocês já perceberam que vocês também são causadores do trânsito?

Naquele dia, olhei para o lado direito e tinha um ônibus, não tão cheio, com pessoas cansadas voltando de seus trabalhos, e daí olhei para o resto do meu carro, vazio, com lugar para mais quatro pessoas. Aumentei o campo de percepção, analisei cada carro ao redor, de cada dez automóveis, apenas 1 ou 2 tinha mais de uma pessoa no carro, sendo que a maioria esmagadora dos carros cabem 5 pessoas.

Desde então, nunca mais buzinei para reclamar do trânsito, eu não me sentia no direito de reclamar de algo que eu contribuia para existir. Reclamo quando vejo caixas fechado, locais com poucos atendentes, causando filas desnecessárias. Mas, nas ruas, nunca mais reclamei. Quem tem direito de reclamar do trânsito são os usuários de transporte público, deficitário, sujo, inoperante, desconfortável, atrasado, etc.

Quem também tem direito de reclamar do trânsito é o ciclista, que não tem pista exclusiva, que não polui, que sofre com a ignorância e desrespeito de grande parte dos motoristas, que no espaço de um  carro pode trafegar, com segurança, seis bicicletas, e foi depois disso, também, que colei um adesivo na minha bicicleta de “um carro a menos”. Muito, não tudo (por preguiça), posso fazer de bicicleta, posso tirar um carro das ruas, e tudo isso foi feito após minha expansão da consciência acerca das causas e efeitos das minhas atitudes.

Então, antes de reclamar do trânsito, antes de buzinar, pense: você contribui para o trânsito? São Paulo é um caos em muitos aspectos, mas são seus habitantes os grandes responsáveis por isso. São seus habitantes que inflacionaram os preços dos imóveis perto de metrô, são seus habitantes que pouco reclamam do transporte público inoperante, são seus habitantes que preferem resolver um problema coletivo com uma atitude individual, adquirindo um carro novo, um segundo carro, etc.

Sim, concordo que 99% das pessoas preferem ficar sentado dentro de seus carros por 1 hora do que em pé, no ônibus, pela mesma hora. Cada um age conforme sua própria consciência, assim, aceite o caos pelo qual você contribui, ou plante uma semente utópica, ideológica e pense olhando para fora da caixa.

Ora, por que não fazer uma atitude coletiva?  Seja uma carona, rodízio entre vizinhos, pedale, seja uma caminhada maior (vá de tênis, leve o sapato numa mochila, e caminhe!), seja um dia da semana, pelo menos, ir de transporte público e não apenas alterar seu horário de trabalho por causa da placa do carro.

Você não tem que adaptar seus horários conforme o rodízio da placa do carro. Você não precisa inventar cursos (muitas vezes são úteis) para “fugir” do rodízio. Esse dia semanal é para você fazer um sacrifício pela sociedade, pelo coletivo porque simplesmente coexistimos.

Enfim, estimular a consciência é importante pra caramba, principalmente para ver a causa de um problema, e não apenas constatar a existência de um problema. Não estamos sozinhos, tenha consciência da coexistência.

Marcio Vieira


Fair Play, não no Brasil

04/11/2010

Na 33a. rodada do Campeonato Brasileiro, o pênalti marcado contra o Cruzeiro na derrota frente ao São Paulo foi um dos mais grosseiros erros da arbitragem brasileira nos últimos anos.

Errar, dependendo da dificuldade do lance, é aceitável, mas o que me deixou mais indignado foi, nas entrevistas após o jogo, tanto o atacante Ricardo Oliveira (que sofreu suposta falta) como o goleiro Rogério Ceni, autor do gol, disseram que o lance ocorreu fora da área.

“Vendo de longe, eu achei que foi falta, mas fora da área”, disse Rogério e, “não foi pênalti”, admitiu Ricardo Oliveira aos microfones. Oras, se o lance escancarou tanto um erro, maior erro ainda foi o rompimento ao que chamam dentro das quatro linhas de Fair Play.

Em sua simples tradução, Jogo Justo (ou Limpo) não se limita apenas às jogadas violentas e carrinhos criminosos, ou combate ao racismo e trabalho infantil, campanhas essas levadas por jogadores de futebol de boa parte do mundo. O jogo limpo é, também, ser ético para incentivar toda uma sociedade a ser ética.

E ética foi algo que não existiu em nenhum jogador do São Paulo em relação ao lance, nem mesmo seu maior ídolo, Rogério Ceni. Decepcionante aos amantes do futebol que um atleta raro como ele, que articula bem as palavras e que demonstra liderança, tenha pactuado com o erro da arbitragem, sabendo que o lance não ocorreu dentro da área.

Não é utópico, não é no mundo fantasioso que atletas que seriam beneficiados pela marcação avisam a arbitragem sobre o erro, renunciando a possibilidade do gol, e da vitória.

Na Inglaterra o Flair Play é levado muito à sério. Há inúmeros casos de jogadores que discordaram de alguma marcação ao próprio favor. E quando ocorre o contrário, toda a sociedade, inclusive torcedores do próprio time, criticam o “atleta-ator”, como aconteceu com Eduardo da Silva, ex-Arsenal, que foi à Corte da FIFA por causa de simular um pênalti.

Jogadores “cai-cai” perdem cada vez mais espaço no futebol europeu, pois além de não demonstrar o Jogo Limpo, acabam manchando a imagem do próprio clube que, inevitavelmente, tem seu nome associado ao jogador-ator.

Por outro lado, quando um jogador pára um lance propositalmente ou discorda da marcação, é ovacionado por ambas as torcidas. E são jogadores assim que faltam dentro do futebol brasileiro, comprovado mais uma vez na última quarta-feira, e perpetuando a “Lei de Gerson”.

São por essas e por outras que grandes clubes europeus se preocupam com a índole dos jogadores brasileiros que lhes interessam, onde a teoria maquiavélica dos fins justificarem os meios não é bem quista no velho continente.

Rogério Ceni, no alto de sua suposta sabedoria, poderia ter garantido sua estátua no futebol brasileiro ao recusar o pênalti ou chutar a cobrança na lateral. Faltam Martins Luther Kings de chuteiras para estimularem uma justa consciência coletiva dentro do campo e também nas ruas.

E tais atletas esquecem nessas horas que eles são as referências para milhões de jovens num Brasil com raras oportunidades. Rogério e Ricardo Oliveira, infelizmente, mostraram que precisa ser malandro pra vencer.

E não culpo só o São Paulo ou Rogério. Já aconteceram tantos outros lances semelhantes no Brasil e nenhum deles fez diferente, ninguém foi justo, independentemente do escudo que defendem.

A FIFA prega o Flair Play porque sabe que o futebol está completamente inserido na sociedade, fazendo do esporte uma das principais ferramentas no desenvolvimento de valores sociais.

Uma pena que as cinco estrelas do Brasil não condizem com a posição do país dentro da ética e moral no futebol. Nesses quesitos o Brasil não está nem na terceira divisão, está na várzea.

Marcio Vieira


Insurgentes saudados na terra dos tucanos

11/10/2010

Quando tocava a sirene e uma estrela vermelha subia no telão no fundo do palco, cerca de 50 mil pessoas que foram ao primeiro dia do Festival SWU, no interior de São Paulo, entraram em euforia. E não era para menos, afinal, era a primeira vez que o Rage Against the Machine se apresentava no Brasil.

A banda californiana com enorme engajamento sociopolítico voltou aos palcos no mundo todo para uma grande turnê, que incluiu pela primeira vez a América do Sul.

Todos os integrantes da banda, principalmente Zack de la Rocha de Tom Morello, atravessaram as últimas duas décadas defendendo diversas causas em todo mundo. Já perderam a conta de quantas vezes foram detidos por policiais de todo mundo, mas não se cansaram. Muito pelo contrário, a repressão deu energia para lutar mais.

A inspiração surge da raiva de um sistema desigual, lutam pelos imigrantes latinos, pelos negros, lutam pelos direitos trabalhistas, direitos indígenas, lutam contra a tirania, lutam contra uma elite dominante, lutam pela libertação de presos políticos, lutam contra repressão, lutam contra a miséria e lutam por terra.

Quando Zack dedicou a música “People of the Sun” para o MST – Movimento dos Sem Terra, a multidão foi à loucura por mais uma grande música da banda, que faz menção à luta de milhões de indígenas mexicanos (maioria deles vivem da agricultura) contra a tirania de espanhóis colonizadores e, posteriormente, ao Partido Revolucionário Institucional (que de revolucionário só tem o nome).

Lá também são mais de 500 anos de exploração e desigualdade, trazendo uma consequência muito semelhante: a miséria regionalizada. Se os governos brasileiros deixaram na miséria o interior do nordeste brasileiro, no México, esqueceram de cuidar e investir de Chiapas, um pobre estado no sul daquele país.

Para protestar, o sangue Maya foi mais forte que o Tupiniquim: movimentos separatistas e pró reforma agrária ganharam muita força e repercussão desde os anos 70, culminando, em 1994, na tomada de diversas cidades de Chiapas pelo Exército Zapatista de Liberação Nacional.

Até hoje há cidades autônomas no sul mexicano  que vivem da agricultura e turismo. Em 2005, no Fórum Mundial Social, tive a oportunidade de conhecer um grupo da cidade autônoma de Lucio Cabañas (nome dado em homenagem à um importante membro da Revolução Mexicana de 1910, que tinha como líderes Emiliano Zapata e Pancho Villa). Na palavra deles, o isolamento de interferência federal foi um grande avanço para o desenvolvimento agrário e econômico da região.

Zapatistas e a luta por justiça social

Movimentos favoráveis à reforma agrária são amplamente defendidos pela banda, e penso que eles tocaram no SWU por causa do anúncio de ser um evento em defesa da sustentabilidade (à procurar notícias de ações na área após os shows), mas diante da enorme incoerência do show de Itú, ficou na minha mente a pergunta:

– Com ingressos caríssimos, certamente a ampla maioria que foi ao show é de classes média e alta, as quais concentram a maioria dos votos do PSDB. Será que as pessoas que foram ao show da banda apoiam o MST?

Brasil é um país o qual, até hoje, tentam manipular notícias e informações para toda população, fazendo acreditar que Rocky Balboa e mocinho e Ivan Drago é mau, que vermelho é infernal, que estrela vermelha é símbolo satânico, que barba é coisa de revolucionário que vai tomar sua empresa, seu salário, etc.

E se aparecerem tais barbudos com  uma enxada na mão querendo plantar em terras improdutivas, a mídia vai dizer que são espertalhões querendo algo fácil. Sim, é inegável que nos últimos anos os líderes do MST praticaram algumas ações desastrosas e invasões irracionais, mas está longe, muito longe, de motivos para desmoralizar a causa.

A causa do MST é nobre, é para acabar com um domínio secular de poucas famílias sobre o território brasileiro que, de geração em geração, muitos perderam o interesse pelo cultivo em terras, mas não abrem mão de perdê-las para a Reforma Agrária. Esta reforma, por sinal, teve no governo Lula seu maior avanço, dando possibilidades de crescimento econômico para milhares de famílias no país.

Sim, há o lado podre da história, pessoas que entram no programa para repassar terras, pessoas que sonegam suas rendas para tentar conseguir uma terra de graça, laranjas, etc. São essas pessoas que viram notícia, mas são notícias, muitas delas, distorcidas pela mídia que generaliza, que vende uma imagem satânica das lutas sociais.

E é a causa da reforma agrária que a maravilhosa banda Rage Against the Machine levantou a bandeira. É a mesma causa que milhões de paulistas tucanos repudiam, mas que no show, milhares deles saudaram. Talvez nem pensaram na incoerência, se tentaram pensar, não conseguiram pois muitos dos que foram ao evento só enxergam um lado da moeda, aquela derivada da Veja e afins.

Outros símbolos de lutas sociais presentes no show, como a sirene da fábrica que acorda proletários, metalúrgicos, homens que vestem macacões sujos de graxa, trechos d’A Internacional, e a fatídica estrela vermelha no telão não foram, em sequer momento, temas de críticas dos eleitores do PSBD.

Aos menos informados, entendo que a banda não fez coro ao PT em tempo de eleição, que, assim como o PSDB, tem seus dois lados (o bom e o podre). A estrela vermelha socialista não é partidária, é ideológica. O Rage Against the Machine fez menção às causas sociais de um mundo de injustiças.

Aos que associam a imagem comunista do Hugo Chavez com problemas administrativos, censura, estatização, cortina de ferro, etc. e fazem duras críticas ao modelo venezuelano (e com razão), os mesmos endinheirados tucanos esquecem que, quando vão passear no Chile, tal país foi presidido por uma mulher com ideais socialistas, Michelle Bachelet, e é o país latinoamericano com melhor qualidade de vida. Ou seja, cuidado com generalizações.

Desde seu início, RATM é uma banda que protesta, que luta por oportunidades iguais à todos.  Assim como eles pediram que tirassem a barreira vip antes do show, motivo de interrupções ao longo da apresentação, porque eles não querem enxergar diferenças sociais/financeiras quando tocam, isso faz perder o sentido das lutas às quais eles entram, apanham e são presos.

Aos que foram ao show, parabéns. Que a semente que tal quarteto plantou em vossas cabeças produza e reflita as situações do mundo, e que tenhamos mais pessoas caminhando nesta marcha que direciona por um mundo mais justo.


Um carro a menos

21/09/2010

Dia Mundial Sem Carro, você fez sua parte? (Não fez, não deu. Se quiser mudar a data, não vale deixar para o final de semana!)

Eu, no caso, não tenho carro, então tudo facilita, ainda mais dentro de uma cidade que todos os meios de transporte estão completamente integrados, mas não é só isso. Este é apenas o resultado de décadas e décadas inserindo a bicicleta na sociedade.

Em Genebra, bicicletas têm seu espaço

Mas e São Paulo, dá pra mudar? Uma cidade com quase sete milhões de automóveis (e 800 novos carros emplacados por dia) é um desafio um tanto quanto complicado, mas não impossível.  A questão principal, vejo, é a mudança de atitude da população.

E tudo começa, ao meu ver, da aceitação da sociedade (postos de trabalho, comércio, etc.) que as pessoas utilizem roupas menos formais. Brasil é um país tropical, quente, e é totalmente incoerente o uso de ternos, gravatas, dentre outras roupas pesadas de origem europeia. Se na Europa já é perceptível a diminuição de tamanha formalidade, por que o Brasil insiste?

Se a sociedade começar a se acostumar com roupas mais leves, e disponibilizar boas guardarias e vestiários para ciclistas, o uso de bicicletas poderá ser uma solução para enfrentar as ruas.

Em São Paulo morre-se mais de doenças causadas por problemas cardíacos decorrentes de sedentarismo e má alimentação do que em acidentes de bicicleta. Ou seja, gastos hospitalares seriam amenizados, ainda, se o número de ciclistas aumentar, aumentará a consciência e atenção dos motoristas.

Bicicleta Fantasma, mais uma vítima.

Quando morava em São Paulo, por diversas vezes saí em horários de rush para confirmar que a bicicleta vai mais rápido. Entre outras saídas, fazia um percurso de 12 quilômetros até chegar na Av. Paulista x Av. Consolação para o encontro com o grupo Bicicletada (www.bicicletada.org). Percurso esse feito em 45-55 minutos. De carro, leva-se mais de uma hora.

Outros testes foram feitos comprovando a maior velocidade da bicicleta frente aos outros meios de transporte. Ora, por que então só utilizá-la aos finais de semana?

Ainda, por que o governo federal concedeu isenção de IPI para automóveis e motos, e não para bicicletas. Por que bicicleta dá prejuízo. Imagine toda a cadeia de produção que leva um automóvel, e ainda perpetuar a utilização de combustíveis.

Agora pense se um determinado grupo (18-40 anos) iniciar o uso de bicicletas como principal veículo, quantos milhares de automóveis deixarão de ser utilizados? Quanto diminuirá a arrecadação fiscal?

O comércio/indústria segue a forma de consumo da população: se continuar o fomento ao consumo desenfreado, desequilibrado e irracional, o estresse e problemas de saúde acompanharão tal curva de crescimento.

12 Vagas?!?

Está provado que o rodízio de veículos em São Paulo atingiu, por determinado momento, somente as clásses B e C, mas hoje, com as facilidades de financiamento e compra de automóveis, ficou ineficaz a restrição, de nada serve porque compram-se novos carros para não ficar à pé.

Por mais que tenhamos ambições na vida de conquistar e comprar mais e melhor, cabe à todos pensar de forma coletiva. Se não quiser pedalar, convoque vizinhos e conhecidos, dividam um carro, promovam a carona, mas evite usar sozinho um carro, sendo que cabem outras quatro pessoas.

Não se resolve um problema coletivo tomando uma medida individualizada.