Ok, vamos combinar!

Todo natal é a mesma coisa de forma diferente. Família de sangue reunida por uma noite e um almoço, esquecendo, por tais horas, a família por opção, daquelas pessoas que conhecemos e escolhemos durante a vida.

E família é tudo igual, só muda o endereço, dizem os saudosistas. E com razão, sempre tem aquela tia dondoca casada com o tio boêmio, e são nesses momentos de família reunida que entendemos o motivo conjugal para o tio beber.

Sempre tem aquele primo “pegador” das baladas perdidas, que conta vantagem de tudo que faz, quantas mulheres pegou na última semana, enfim, o verdadeiro (pelo menos para ele) artilheiro do amor.

Opiniões acerca do novo namoradinho da prima, que a família não percebeu ainda que ela já saiu dos dezoito, vão existir só para deixar a coitada da menina envergonhada diante da parentada que pouco vê durante o ano.

Tem sempre as fofocas, os mal-me-disse entre os familiares, sempre querendo apontar o dedo para quem acham que está na merda, só porque resolveu escolher propósitos de vida diferente.

Essa disputa pelo poder, pelos louros de ter o filho mais bem sucedido, ou de chegar de carro novo sem tirar os plásticos nos bancos só pra mostrar a novidade para aquele seu primo. Essas picuinhas no 25 do doze enchem o saco, não só do São Nicolau.

Mas até aí entende-se, pois dentro da família de sangue todos querem dar seus pitacos na vida do outro. Acham-se no direito disso, sem conhecer de fato o que se passa do outro lado, ainda mais dentro daquelas famílias que se reúnem geralmente naquela quantidade de pessoas, no máximo, três vezes ao ano (páscoa, natal e mais alguma outra)

Mas há o lado positivo dessa reunião: e se chama vó. Esta é a personagem principal de qualquer natal. É ela que faz questão e cozinhar, de fazer o pudim de sobremesa, de ver a algazarra dos netos e bisnetos.

O natal é feito para as avós e avôs. Esquecemos o resto da família, esquecemos rusgas e briguinhas infantis entre os pertencentes do clã. O natal gira em torno do que os mais velhos desejam, que querem ver todos ali, e há de se respeitar isso. Ainda mais que nunca se sabe se aquele será o último natal que eles passarão conosco.

E o bordão natalino mais comum de se falar não é a piadinha tosca do pavê: o mais repetitivo é o tal “vamos combinar” que um diz para o outro durante esse encontro no final do ano.

Vamos combinar um almoço que nunca é marcado porque sempre a vida é uma correria.  Vamos combinar uma viagem que nunca é agendada porque o chefe não vai liberar. Vamos combinar de tomar um chopp na Vila Madalena. Vamos combinar de ir ao estádio, somos Corinthianos, maloqueiros e sofredores!

Vamos combinar de se ver mais no próximo ano. E isso nunca é feito. As mesmas promessas de organizar melhor a vida são ditas, e quase sempre, nunca cumpridas.

“Vamos combinar” é uma forma de dividir a responsabilidade com o outro que a família sanguínea está cada dia mais distante.  “Vamos combinar” serve para falar que a culpa não é só minha de ver seu familiar apenas em eventos que não enchem os dedos de uma única mão.

“Vamos combinar” é deixar no vazio, em aberto, um dia o qual farei algo pela família. Ao invés do “vamos combinar”, por que não se aproveita o evento natalino e já agendem um dia para fazer tal coisa?  Troquem o vamos combinar por está combinado!

“Vamos combinar” é torturante, às vezes falso, é também desgastante, porém, depois de tantos vamos combinar que foram escutados e ditos na vida, já se cria uma expectativa que aquilo não vai ser cumprido, só estão falando por falar, jogando palavras ao vento, talvez pela falta de assunto ou falta de familiaridade com a própria família.

Enquanto isso, a família por escolha, àquela dos seus amigos que dividem a mesa de bar com certa frequência, dividem o sofá de casa jogando xbox enquanto as respectivas ficam na cozinha fofocando, àqueles que te ligam para assistir o jogo lá no bar ou se auto-convidar telefonando  “estou chegando com uma caixinha de cerveja, quer mais alguma coisa?”, àqueles que falam “vamos num carro só, estou passando aí em 15 minutos”, a família dos amigos que por três ou quatro eventos no ano são esquecidas no natal, apenas recebem um torpedo coletivo ou, no máximo, um telefonema de 4 minutos.

Mas, por serem tão amigos, os amigos relevam, não se apequenam por serem preteridos porque sabem que o mesmo está acontecendo na casa da tia fofoqueira, aonde você está acontecendo as festividades deste ano, agendada há exatos 365 dias.

Porém, mesmo não estando com amigos que te conhecem mais que a própria família, há de se pescar coisas engraçadas e positivas durante o natal. A cara do sobrinho contando dos presentes deixados pelo Papai Noel, a cara de “que bosta” daquele primo que ganhou um jogo de Lenços Presidente da tia-avó, a cara de tanto faz do tio boêmio que ganhou mais um par de meias bege, a roupa brega da tia, etc.

É importante acabar com essa papagaiada socialmente correta dos tradicionais dizeres do vamos combinar, e só depois disso que  vamos combinar, efetivamente, que vamos excluir esse vamos combinar natalino das nossas promessas.

E depois disso tudo, ao encontrar um amigo no elevador: “Hey, topa uma cervejinha no final de semana?”

Vamos combinar!

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