Comanda para o Inferno

comanda

Muito se falou e muito se comentou sobre a tragédia ocorrida em Santa Maria. Em 99% dos casos de graves acidentes, nunca um fator isolado é capaz de provocar tantas mortes, e o ocorrido na Boate Kiss segue a regra de muitas falhas, erros e crimes que, somados, mataram mais de duas centenas de pessoas. É muita gente.

Não vou nem tocar no assunto de serem jovens, cheios de futuro na vida, etc e tal, não vou citar a corrupção de diversos órgãos de fiscalização, muito menos acrescentar o coro de que os responsáveis devem pagar civil e criminalmente. Essas pessoas que trabalhavam na famigerada boate estão fodidas (com o perdão, mas nem tanto, da palavra).

Essa gente toda já morreu, e deve-se respeitar as famílias, principalmente não mostrando imagens dos mortos. Agora, é preciso aprender com a tragédia e levantar possíveis soluções para isso nunca mais acontecer.

Resolvi escrever este texto para tentar apresentar uma simples sugestão de mudança da “cultura brasileira” em boates, bares e afins, e o assunto central será a Comanda do cliente.

Quando morava em Genebra, Suíça, trabalhei numa casa noturna como bartender e às vezes ficava na entrada, e ali aprendi muita coisa. O lugar era um inferninho de dois andares, cabiam umas 200-250 pessoas, e só tinha uma porta, e pequena, igual à Kiss. Mas o principal estava no fluxo/escoamento das pessoas: era muito rápido, todos iam embora sem fazer grandes filas.  O motivo disso é a ausência de comanda.

No Brasil todo lugar te dão comanda, e no final, resta ir para o caixa e pagar o que consumiu (e muitas vezes discutir erros ou malandragens da casa).  A grande maioria na Europa não têm comanda, nos Estados Unidos também não, em Hong Kong, idem (digo dos lugares que conheci). Sempre que for querer alguma bebida, paga-se na hora sem deixar acumular, sem “conta”, sem “comanda”, etc.

Dá mais trabalho? Depende. Demora-se um pouco mais para beber, mas o lado positivo é que você nunca terá conflitos/erro do garçom para falar o que consumiu ou o que deixou de consumir e o principal: quer sair, sai e ninguém vai encher seu saco exigindo um cartão ou papel carimbado “PAGO”.

Segurança nenhum vai te segurar, e esse é o erro no Brasil.  Aqui, um brutamonte engravatado, muitas vezes impaciente e truculento, estufa o peito e exige tal papel. Em outros países, não! Afinal, tudo que você consumiu, você pagou na hora de consumir! Muito mais fácil, muito mais honesto!

E por causa desses seguranças, segundo relatos de testemunhas, demorou o escoamento das pessoas. Não culpo totalmente os seguranças, pois é responsabilidade deles verificar a porrinha do cartãozinho “PAGO”, mas culpo a falta de raciocínio em perceber o caos que aquelas portas fechadas causaram.

O controle de saída cozinhou muitas pessoas, a comanda transformou em inferno a casa noturna. Poderia, não digo totalmente, ter diminuído drasticamente o número de mortos na tragédia gaúcha se um outro sistema de cobrança fosse estabelecido, deixando as pessoas livres para saírem a hora que bem entendessem, de preferência com portas escancaradas.

Marcio Vieira

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