Geração “Pular Anúncio em 5s”

30/10/2014

ponteiros

Não é fácil, mas aceito o desafio: eu tenho poucos segundos para tentar te convencer a ler as “n” palavras deste texto.  Para não assustá-lo com a divulgação de um número alto, melhor dizer que são apenas 13 parágrafos. É rápido, prometo que não vai doer.

Nos próximos 3 minutos de leitura, a missão de fazer você não olhar para o celular para ver se chegou nova mensagem do whatsapp torna tudo ainda mais complicado. 100% de atenção por meros três minutos é uma vitória não só para publicitários, como para qualquer ser humano, especialmente com a própria família. E lá se foi um tempo precioso tentando te sensibilizar para ler até o final.

Geneticamente anciosos. Somos filhos ou netos dos baby-boomers do pós Segunda Guerra, e sei lá qual explicação astrológica possamos dar, as Gerações X, Y e Z têm tudo, menos paciência. Se já estava claro antes, durante as eleições foi ratificado e não precisa de referendo, plebiscito e nem qualquer tipo de consulta da opinião pública para falar da nossa falta de paciência.

A quantidade estarrecedora de compartilhamentos de notícias falsas foi chocante. Seja lá qual a bandeira política hasteada, deveria haver, além de uma pesquisa mínima para verificar a credibilidade do site, uma paciência mínima para ler a matéria por completo e não apenas o título.

Outra contestação foi os inúmeros casos de divulgação de notícias de meses, até anos atrás, sem ao menos ler a data de quando aquilo foi publicado. Tais compartilhamentos, de sites mais conhecidos, são feitas só porque o contexto poderia polemizar com os dias atuais. Novamente só leram o título.

A falta de paciência de alguns causa uma explosão de raiva que extrapola limites, tanto que já é possível prever catástrofes. As 20h010, poucos minutos após a divulgação do resultado parcial (90%) das eleições, escrevi no Facebook para as pessoas refletirem sobre possíveis ataques contra nordestinos. E olha que não precisa ser nenhum Pai de Santo, era óbvio que isso iria acontecer.

Bingo. Uma enxurrada de mensagens discriminatórias contra nordestinos, pobres e pessoas assistidas pelo Governo Federal foi vista na internet. Pessoas que no cotidiano podem até não demonstrar tais reações xenófobas, mas que diante da provocação causada pela derrota incendiaram a internet com aquilo que estava reprimido, esperando o momento para descarregar.

Se foi um descarrego intempestivo, sinal claro de que tal preconceito estava o núcleo desse indivíduo. Isso é grave e precisa ser resolvido com terapia. Após tantos ataques em poucos minutos, dizer “Nordeste, seu lindo” é tentar tratar com um band-aid um ferimento causado por bazuca. A ferida na sociedade brasileira foi exposta, e ela é hemorrágica, cada dia sangra mais e há mais ódio.

A tendência é só piorar porque solidificamos com vigas enormes o que realmente somos: a Geração “Pular Anúncio em 5s”. Ninguém tem mais paciência com nada e com ninguém. Criamos um botão em todos os teclados sociais que batizei de “Acelerador da Vida”. Assistir uma propaganda de 30 segundos é tortura, então o Youtube e afins, com medo de perder seus preciosos espectadores, permitiu pular para evitar sofrimentos alheios.

A situação da nossa sociedade é tão grave que as agências de publicidade atualmente têm a missão de te fisgar em 5 segundos para você não apertar o maldito Acelerador da Vida.  E esse botão está em todos os lugares: se o seu prédio tem dois elevadores, você chama um elevador e não espera nem 2 segundos para chamar o outro. Quando o sinal verde é mostrado e o carro da frente não anda em 5 segundos, a sinfonia de buzina é tocada. E quando o semáforo fecha, todos já correm para pegar o celular para ver se chegou alguma mensagem.

Nem vou me aprofundar muito citando os mecanismos para furar todos os tipos filas, seja desrespeitando quem está à frente ou seja pagando para ser Vip de balada, Vip de Estacionamentos, Vip de Cia. Aérea para entrar primeiro no avião (e todos voarão juntos, catzo!!), Vip de pedágio, etc. O tempo, cada dia, custa mais. E agora estão mensurando (e cobrando!) o valor dos segundos, algo que você nunca pensou… por falta de tempo.

Somos seres apressados, minha dúvida é se tal pressa é sede de viver ou é vontade acelerar tudo para morrer mais rápido com doenças criadas nas últimas décadas em virtude desse estilo de vida. Investe-se fortunas para criar e conviver com necessidades que eram completamente desnecessárias há poucos anos.

Se a história da Terra de 4.5 bilhões de anos fosse resumida à um dia, a humanidade seria contada em seis minutos e nós, da Geração “Pular Anúncio”, os grandes responsáveis por destruir todo o ecossistema, causando danos irreversíveis à Terra, faríamos isso em exatos 5 segundos. Os mesmos 5 segundos que te torturam diariamente.

Marcio Vieira

PS: foram 790 palavras.

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Saia do automático

10/01/2014

cambioautomatico

Todo animal busca, por instinto, a facilidade. A lei do menos esforço, a fruta mais acessível para comer, o animal mais lento para caçar, a menor distância para percorrer, o trabalho mais fácil para realizar, o mais rápido para terminar, o menos desgastaste, enfim, o automático.

Conquistar pelos meios mais fáceis é digno, demonstra utilização da inteligência em otimizar o tempo. Mas será que o propósito da vida é mensurar, contabilizar, ou seja, terminar o dia sobrando tempo? Ao meu ver, o propósito é o “como aproveito o tempo”, visando a qualidade, e não quantidade.

Se eu parto de um princípio que somos seres em evolução constante, qual a vantagem de fazer o mais fácil? Conquistar o mais fácil é economizar tempo… e qualidade. Assim, aonde está a evolução?

Para evoluir é preciso mudar, e para realizar a transformação, entendo que há duas formas: a liberdade e o desconforto.

A liberdade serve para pensar e questionar o que está sendo feito em vida, para quem está vivendo, e qual é o modelo de vida que está seguindo. A liberdade de dizer “não”, ou “sim”, dependendo das circunstâncias, e estar ciente sobre os reflexos na sociedade de seus atos. Liberdade para ser quem gostaria de ser, independentemente do que se passa no mundo.

O desconforto, por sua vez, é a imposição da transformação. E o desconforto está em voltar alguns passos, mas com a cabeça de hoje.

Exercitar o desconforto é poder ter mais, no entanto, consumir menos. Exercitar o desconforto é utilizar outros meios de sobrevivência, outros meios de experiência, outros meios de existência, sabendo que há condições socioeconômicas para não participar daquilo.

Uma das maiores experiências da minha vida era enfrentar fila para almoçar no bandejão junto com mendigos, dependentes químicos, pessoas da mais baixa classe social. Eu fiz por desconforto, porque era um privilégio meu ter aquilo como opção, e não necessidade.

Poderia ter gasto dinheiro em restaurante ou em supermercado, mas eu queria, pelo menos uma vez por semana, enxergar um lado da vida que vidros blindados e escurecidos segregam nas ruas.

Uma vez tentei dormir na rua por opção, mas às 4 da manhã meu orgulho venceu e fui para meu carro chorar. Chorar porque tem gente que vive assim como necessidade, e não por experimentar a curiosidade do desconforto.

Não acho que todos devem fazer isso, estar entre os invisíveis, porque a zona do desconforto é completamente subjetiva e individual. O que é desconforto para mim, pode não ser para você. Não há certos, nem errados, mas penso que cada um deve realizar algum tipo de desconforto para evoluir na vida, enfim, sair do modo automático.

O desconforto está na forma de consumir, o que consumir, a quantidade do que consumir, o “por quê” consumir. Consumir bens, serviços, consumir cultura, informação, experiências, o consumo é infinito e livre, desde que esteja na legalidade, porém, isso deve ser mais discutido entre todos, afinal, pouca gente percebeu que inverteram a correnteza do rio: antes era o consumidor que criava a demanda, hoje são as grandes indústrias que criam necessidades.

Necessidades que não existiam passam a ser condicionadores da felicidade. Se você não comprar o celular X, o carro Y ou a roupa Z, você não gozará da felicidade.

Então, surge a frustração. E para acabar com a frustração, inventaram o financiamento. O financiamento, por sua vez, criou o endividamento. O endividamento, por fim, perpetua a vida em um sistema que engaiola o cidadão num ciclo o qual ele mal sabe que entrou e acaba tornando a vida automática do “nascer, estudar, trabalhar, prociar e morrer”.

Vida no automático leva ao automático, aos modelos sociais já existentes, sem novidade alguma. Se isso o satisfaz, abrace a causa e seja muito feliz! Porém, eu quero uma vida no manual, que leva ao desconhecido, ao desconforto e muitas interrogações.

Isso não significa uma apologia à pobreza, muito pelo contrário. Eu entendo que a sociedade vai definitivamente se evoluir quando for iniciada uma manifestação voluntária por uma vida em classe média, com o mínimo de desigualdade possível.  E para isso acontecer, é de responsabilidade dos mais abastados economicamente não inflacionarem o consumo, muito menos desenvolverem novas necessidades desnecessárias porque é isso que causa, nas classes mais baixas, o endividamento e, infelizmente, o crime.

Marcio Vieira


Cartão Vermelho, vermelho de vergonha

22/02/2013

vermelho

Morreu Kevin aos 14. Quando morre uma criança, um adolescente, morre também o futuro e os sonhos que jovens carregam nos olhos e no coração.

Adultos são pessoas chatas, mal-amadas, cheias de ressentimentos e moldadas pelo socialmente correto, coisas que as crianças não sabem ainda o que é, por isso os sonhos são mais belos e puros. Em resumo, com o passar dos anos é estragada a essência das pessoas.

Alguns desses adultos estragados, infelizmente, carregam ódio no coração por uma infinidade de justificativas: falta de educação, falta de emprego, problemas estruturais na família, desigualdade social, racial, etc etc etc.

E tais pessoas, em determinados momentos, viram selvagens truculentos. Estádio é o destino, ingresso é a carta de alforria para poder gritar, xingar, afinal, se pagam ingresso tem direito de xingar!  Isso já escutei da boca de renomados jornalistas esportivos.

A ignorância perdeu o controle…

Não, meu caro!! Se eu pago a lavagem do meu carro, não tenho direito de xingar o lavador. Se eu pago meu almoço, não tenho direito de xingar o cozinheiro, se eu assisto teatro, não tenho direito de xingar o ator,  se eu pago meu ingresso para o futebol, isso não dá direito de ofender outras pessoas, sejam jogadores ou juízes.

Futebol é um zoológico invertido em ficam na plateia os animais. E são animais selvagens.

Mas Kevin morreu, e vem torcidas rivais culpar o Corinthians, o time dos maloqueiros, desdentados e presidiários. Sim, Corinthians tem mais presidiários, mais desdentados e maloqueiros que todos os outros. Assim como tem mais advogados, médicos, policiais, padres incluindo os pedófilos, hare-khrisnas, cozinheiros, prostitutas, políticos corruptos, etc. Tem mais porque é maior, a conta é simples de fazer.

O Juventus da Moóca tem seus bandidos violentos e desdentados, mas infinitamente menos que o Corinthians, que o Flamengo ou Palmeiras. É proporcional a questão da violência no futebol porque é um problema social que transcende o estádio.

Ser humano é um animal domesticado assim como outros, como cães e gatos. Se for mal treinado, mal-amado e não for educado, só vai dar problema. A diferença é que os quadrúpedes domésticos, no máximo, mordem ou fazem xixi no sofá por rebeldia. O ser humano é pior, capaz de matar, apertar o gatilho, estourar o fogo de artifício na cabeça de um inocente.

O problema não é o torcedor maloqueiro do Corinthians, o problema está no brasileiro que não foi treinado, educado, capacitado para conviver com semelhantes. O problema é crônico e a primeira pedra desse efeito-dominó se chama “Educação”. Sem ela, dá merda, dá caos, dá tristeza.

Sem educação não se desenvolve uma economia, muito menos uma sociedade. E o Brasil é comprovadamente um país sem educação, afinal, suas riquezas não são produzidas, apenas extraídas há 500 anos, desde o pau-brasil, ouro, até o… Neymar!

É o povo errado no país certo, e assim as divindades equilibram o mundo.

A falta de educação no Brasil resulta, em larga escala, a existência de mendigos, pedintes, drogados, prostitutas, corruptos, ladrões, assassinos. Suíça também tem os seus bandidos, Coreia do Sul também tem seus mendigos, mas não é proporcional à diferença de habitantes com Brasil, e esse é o “X da questão”.

Suíça, Alemanha, Coreia do Sul e tantos outros “desproporcionalizaram” Violência x Habitantes porque investiram em educação, tiveram paciência, e com educação conseguiram gerar empregos, capacitaram pessoas para poder consumir e viver de forma mais justa, e assim diminuíram justificativas para violência. Eles produziram a riqueza, ao invés de extrair a riqueza.

Precisa uma morte em outro país para demonstrar que o torcedor brasileiro é primitivo?  E as centenas de vidas perdidas em brigas estúpidas entre torcidas rivais no Brasil?  O jovem boliviano não é mais importante que os Joãos e Josés que morreram no Brasil por causa do futebol. O jovem Kevin é, na verdade, a tradução dos precários valores morais, éticos e sociais que existem na “terra do futebol”.  Quanta contradição!

Enjaular 12 selvagens corinthianos na Bolívia não é a solução. Proibir a torcida do Corinthians de frequentar estádio não é a solução. Isso apenas remedia um problema e tapa apenas um dos furos do barco, que continua cheio de água e naufragando.

O problema vai além do Parque São Jorge e de Itaquera. É um problema nacional que, sendo assim, deveria o futebol brasileiro ser suspenso até que se crie condições minimamente humanas para convívio com semelhantes.  O Brasil merece cartão vermelho. Vermelho de vergonha.

É preciso ir atrás da causa de pessoas violentas existirem, assim, quem sabe daqui uns 30 anos, outros Kevins não terão seus sonhos interrompidos por rojões e poderão viver a infância como ela deve ser: pura e sonhadora.

Marcio Vieira


O Calheiros de cada um

07/02/2013

renancalheiros

Todo esse ânimo exaltado das pessoas indignadas (infelizmente só nas redes sociais) por causa da eleição de Renan Calheiros à Presidência do Senado me fez pensar um pouco mais, saindo da superficialidade do tema.

É muito fácil apontar o dedo para as outras pessoas, e é muito difícil cutucar a própria ferida. Por um único motivo:  cutucar ferida dói, limpar a sujeira debaixo do próprio tapete é trabalhoso, o que faz a maioria é deixar a vida passar rapidamente com essas coisas escondidas para ninguém ver. Para ninguém julgar.

Só quando a ferida sangra é que fica visível. Só quando a sujeira aparece todos enxergam. Quando o ladrão é pego, é preso. Quando o corrupto é desmascarado, pela sociedade é julgado.

– “Oh, os políticos mais corruptos do mundo afundam o próprio país”, chorarão uns.

E depois apontam à tais engravatados de Brasília o motivo do “Brasil não ir pra frente”. Sim, eles têm culpa no cartório, na delegacia, na justiça e na pqp, porém não tem culpa pela flacidez da bunda da população de tão acomodada que é. Deve-se tirar o cabresto porque o buraco é mais embaixo!

É muito fácil ser santo na vida, afinal, todos são até o dia que fizerem a merda besteira, correto?

Não, não é quando cai a auréola acima da cabeça que deixa de ser santo. Infelizmente deixa-se de ser anjo quando a casa cai e a coisa vem à tona. É quando você fica nu.

Cada um sabe o tamanho do Calheiros que tem dentro de si. Eu, por exemplo, refleti sobre meus e, num deles, o que considero mais grave, resolvi mudar de atitude: parar de dirigir após beber álcool.

Tenho sorte de nunca ter perdido alguém próximo, vítima de acidente por causa de bebida alcoólica (seja culpado ou vítima), e não consigo imaginar o tamanho da revolta que deve ser quando se perde alguém por culpa de motoristas alcoolizados. Já cheguei aos 30, e há pelo menos uns 4 anos não vejo graça nenhuma em ficar bêbado.

Sim, sou chato.

Eu nunca me arrisquei dirigindo com álcool no sangue em outro país. Medo de ser preso, de pagar caríssima fiança, medo de matar, medo de morrer.  Por que no Brasil tem que ser diferente? E quando dirigia depois de beber?

Eu voltava bem devagar pois, se desse merda, seria merdinha. Um parachoque, um amassado pequeno, sempre imaginei que não passaria disso. Ainda bem que nunca me envolvi em acidente depois de beber, pois esse é um assunto muito grave, muito mais que corrupção de covardes como Renan Calheiros, afinal, envolve a vida.

50km/h pode derrubar um ciclista que na queda pode morrer. 40km/h pode atropelar um pedestre e pode matá-lo. A merdinha seria comigo, não com os terceiros.

Dirigir bêbado é crime, e não quero desperdiçar minha vida nem das pessoas queridas do meu convívio.

Pensando no Paulo Maluf que cada um carrega, decidi parar de dirigir após beber. Se vou cumprir ou não, o tempo dirá, mas vou me esforçar para cada dia ser uma pessoa melhor, e eu sei que tenho muito ainda que melhorar.

Há outros tipos de Calheiros correndo no sangue de cada um, de não pedir nota fiscal em todos os estabelecimentos, de comprar produtos de origem duvidosa, de pedir “jeitinho” para o Contador na hora de declarar a renda, subornar fiscal, subornar policial, comprar droga, consumir droga, etc. São infinitos Calheiros e cada um sabe o peso disso.

Gandhi eternizou “seja em você a mudança que quer para o mundo”, e cabe a cada um refletir sobre seus atos. Apontar o dedo para o erro dos outros é muito fácil. Ficar indignado pelo desvio de centenas de milhões de reais também é muito fácil.

Mas e os seus próprios atos, conscientemente praticados de forma errada, desigual e até criminosa?  O que vai fazer?  Continuar do jeito que faz e, ainda assim, lutar e reivindicar por “Justiça Social”?

Incoerente, né?

A corrupção de cada um da população é o combustível que alimenta e justifica os crimes dos políticos.

Ninguém precisa apontar o dedo para mim, eu mesmo posso fazer isso pois só eu sei bem o tamanho dos Calheiros que carrego dentro da minha consciência, mas quero arrancar um por um por um único motivo: evolução.

Se eu não sou a mudança, e se eu não faço a mudança acontecer, e se eu não começar em mim o que quero para o mundo, qual sentido disso tudo?  Ou você pensa que o mundo precisa estar lindo, cheiroso, limpo justo e honesto para você começar a mudar os seus próprios hábitos?

Se você gasta tempo mostrando indignação por causa de outras pessoas, você tem tempo mais que suficiente para olhar para dentro de você.

 

Marcio Vieira


Não tem problema, pode me excluir

23/01/2013

a380

Segunda-feira passada entrei no meu Facebook para ver o que se passa lá, e com as pessoas de lá, então tomei um susto: aceitei o pedido de amizade número 700.

Caramba, 700 pessoas!  E daí comecei a refletir sobre isso. É muita gente, capaz até de lotar o Airbus a380 (aquele avião duplex) e ainda fazer overbooking!

Tem alguma coisa errada comigo, não é possível.  Meus aniversários, eu fico mega feliz quando vão 20, 30 pessoas. Fico contente quando umas cem pessoas do mesmo Face me parabenizam na mesma data.  Ok, mas para chegar em 700 faltam ainda 600!  Onde está toda essa gente na minha vida?

Então decidi investigar meus contatos na mais famosa rede social e percebi que tem muita gente que participou da minha vida em algum momento, mas hoje não participa mais.

Os motivos são dos mais variados, pessoal do colégio, da faculdade, dos trabalhos que exerci, da rua, bar, praia, viagem, jogo do Corinthians, galera do carro antigo, da comida vegetariana, da meditação indiana, da bicicleta noturna, do prédio que cresci, do punk rock, das cidades que morei, enfim, são pessoas que participaram da minha vida.

A vontade é sempre ter todas as pessoas por perto, mas é depois da necessidade do “encontro obrigatório”  que percebo que não importa quem vai, quem fica e quem vem. O que realmente vale é descobrir qual sentimento aquela pessoa produz em você.

Considero amigo gente que não vejo há quinze anos, mas não considerei mais gente que vi há poucos meses, mas que o “santo não bateu”. Paciência, não é culpa minha nem de ninguém, o sentimento, quando não é obrigatório, fica mais sincero.

Então fiz uma primeira seleção e em alguns minutos tirei 160 pessoas da minha rede social. Caracas, é muita gente! Muita gente com histórias de vida incríveis que não tive a oportunidade (ou vontade/interesse) de conhecer, muita gente que poderia acrescentar na minha vida pessoal, profissional, etc., mas que, neste exato momento, não fará falta.  Eu me viro sem, e tenho certeza absoluta que tais pessoas já se viram muito bem sem a minha presença.

Pode ser (tomara!) que volte a ser importante, ou não, sei lá, deixa rolar! Vida segue sempre, mas essa coisa de Facebook, Twitter, isso é algo paralelo ao que realmente importa, mas tem muita gente que se incomoda com esses números e faz de tudo para atingir os milhares, tem 2 perfis, etc.  Respeito a necessidade de cada um, mas a minha necessidade eu percebi agora está longe de ser isso.

Quantas pessoas te ligam? quantas pessoas você se sente bem? E, principalmente, com quantas há vontade de conversar? De vivenciar ao redor de uma mesa de bar, de um restaurante, praia, viagem?  Não importa se faz 2, 3 anos, se você se sente confortável de falar com a pessoa, é uma pessoa que vale a pena preservar na vida.

Vale a pena também preservar aquelas que você tem um feeling de que serão importantes em algum momento da vida, seja pessoal ou profissional, ou, apenas, para trocar algumas ideias e dicas.  Ou que a pessoa é bacana, gente fina! Mas que haja um “prazo de validade” nessa expectativa: que essas pessoas participem ou demonstrem querer participar!

Eu dei uma pequena “selecionada” para criar maior importância para quem fica, e semana que vem vou dar outra. E peço, sinceramente, sem mágoas ou rancor: Não tem problema, pode me excluir.  Se o sentimento tem um traço de indiferença, ok, isso é perfeitamente normal, mas o importante disso tudo é dar mais importância para quem é mais importante.

Ou fique tudo do jeito que está, carregue as milhares de pessoas na rede de contato se isso te faz seguro e feliz. Importante é ser feliz, não é mesmo? Mesma coisa pode ser feita pelos contatos carregados no telefone celular os quais você nunca mais vai ligar. Desapegue!

Qual o tamanho do avião que você carrega? E quantos são? Quantos realmente voam com você?

Afinal, ninguém aqui é um número.

Marcio Vieira


Síndrome do Pavão

13/08/2012

Pavão! Um bicho engraçado, bonitão, todo penoso, reluzente, imponente, mas tudo isso quando está com as asas abertas para se mostrar para acasalamento. Abrem-se, então, as asas numa disputa matrimonial e aquele que aparentar ser o bonitão tirará a sorte grande.

Tem um monte de pavão na sociedade. Cada dia mais, a maioria circula na classe média. Muita gente se importa mais com a imagem do que com o que é, e o custo da imagem pode ser caro para quem não tem condição de bancar aparência, ou melhor, o status.

Busquei no Aurélio o significado dessa palavrinha: 1. Situação, estado ou condição de alguém ou algo, esp. perante a opinião das pessoas ou em função do grupo ou categoria em que é classificado. 2. O grau de distinção ou prestígio, ou situação hierárquica de um indivíduo perante demais membros do seu grupo social.

Status é, possivelmente, a palavra central que desencadeia os maiores problemas que o ser humano acha que tem. É tão forte que é capaz de inverter o fluxo natural dos pensamentos: ao invés de ser de dentro para fora, o indivíduo só se preocupa com que vem de fora.

É dar mais atenção à reputação, ao que se enxerga, e isso pode causar muitos danos pois é por causa de priorizar o status que muita gente já se endividou, já quebrou a cara, a cabeça, o coração, e continua fazendo isso sem imaginar que faz, investindo em demonstrar, ao invés de investir em ser.

Só que este, parece, ser um caminho sem volta, visto que cada dia que passa estamos mais expostos ao mundo: é no celular, no Facebook, Twitter, Linkedin, escrever baboseiras em blogs como este, etc., tudo isso faz você estar cada vez mais conectado com pessoas e, nessas horas, ter boa aparência é importante.  Eu escrevi importante, não fundamental.

O que você aparenta pode fazer com que você entre num grupo de indivíduos que se assemelham com seu perfil, mas o que você realmente É determinará o tempo que você permanecerá em tal grupo.

Se o colorido das suas penas de pavão é tão importante, você vai se endividar para ter um carro mais novo (sendo que o velho satisfazia suas necessidades de deslocamento), você vai comprar um celular mega tecnológico (para entrar no Facebook e publicar fotos do Instagram, não mais que isso), entre outras atitudes pouco racionais.

É por isso que tem tanta superficialidade no Brasil, e muitas marcas internacionais exploram da ingenuidade egocêntrica dos brasileiros que supervalorizam produtos que vêm de fora, inflacionando o mercado. É assim com carros, roupas de grife, mercado de alto luxo, no geral.

Resumindo, enquanto tiver trouxa portadores da Síndrome de Pavão que pagam o que for, incluindo ágio, para ter só por questão de aparência e status, o Brasil continuará a ser um dos países mais caros do mundo em bens de consumo, e tal reputação tem efeito dominó: começa lá na Classe A+ que influencia A, esta influencia a B+, que mostra para a B, B- e assim por diante.

A diferença é que a Classe A+ paga à vista pelo consumo, enquanto a média vai se enfiar em dívidas para, muitas vezes, influenciada pela futilidade da maioria da elite social, para ter o mesmo produto sinônimo de status. Indo pro final desse dominó, lá na Classe C, o mais pobre vai comprar a versão falsificada daquilo ou, mais grave ainda, roubar.

E cada vez mais, infelizmente, a Classe A+ tem demonstrado muita futilidade, soberba, ignorância e preconceito, então é preciso tomar uma dose extra de atenção sobre tais “tendências” de consumo.

É preciso saber separar na vida o que é importante daquilo que é fundamental, e muita gente coloca a imagem como fundamental. Não é fundamental, e em se tratando de um país com uma educação limitadíssima, os estragos sociais dessa mudança de valores são catastróficos, onde existe exemplos de pessoas que colocam mais de 50% do valor do imóvel que reside em um automóvel que, por sinal, está no Brasil a maior margem lucro das montadoras de carros do mundo.

Tem famílias de classe média que gastam mais de 150 mil reais para dois automóveis e vivem num apartamento que vale 300 mil. Na Europa e EUA, por exemplo, o gasto em automóvel raramente passa de 10% do valor do imóvel. As prioridades estão distorcidas, definitivamente, por causa de dar atenção à reputação.

Tudo isso fez do Brasil o líder de juros em cartão de crédito e paraíso para banqueiros. Cada dia esticam mais o tempo para se pagar e isso aumenta o risco de inadimplência, então a medida é aumentar o juros, consequentemente o preço final do produto e, quando se trata de produto que o exuberante Pavão gosta de se exibir, o lado emocional atrapalha a razão.

Se as pessoas começarem a buscar dentro de si o que se precisa para ser feliz, perceberão que muito do que têm e muito do que fizeram na vida foi influenciado pelo ambiente externo, o que se viu, e às vezes todo aquele esforço era desnecessário porque não era tão importante. Grandes esforços são necessários na vida, e deve-se escolher realmente no que vale a pena se endividar momentaneamente, e quais sacrifícios são válidos.

Não precisa ser um pavão todo plumoso para demonstrar ser alguém. Aparência tem prazo de validade.

Marcio Vieira


Malditos kebabs!

23/04/2012

Ódio aos imigrantes

Irônica (e preconceituosa) sociedade, que batiza extremistas de turbante de terroristas e, ao mesmo tempo, outras pessoas, muitas de cabelos dourados, são denominadas, simplesmente, extremistas.

O branquelo de olho azul vai passar por exame psiquiátrico, afinal, não pode ser são o Sr. Breivik, culto, poliglota, que planeja, e mata, 77 pessoas. Porém, é terrorista um Mohamed qualquer, que não pode andar de mochila pela Europa sem ser revistado por policiais assustados, despreparados, pois toda a Europa vai pensar que tem uma bomba pronta para explodir.

E, se realmente tiver uma bomba, polícia nenhuma vai impedir dele se matar e levar algumas dezenas junto. Enquanto o muçulmano enrolado em panos transparece seu ódio ao querer defender sua própria religião, que é historicamente alvo de ataques preconceituosos, o bonitinho norueguês pode comprar armas pesadas sem a desconfiança da sociedade, afinal, no máximo, ele é um louco.  Terrorista é o barbudo de cara fechada.

Campanha do partido nacionalista Suíço, que quer expulsar as ovelhas negras (imigrantes) do país

Só que o nórdico extremista fez o que muitos, hoje milhões de europeus, pensam em fazer:  não a matança sanguinária, mas sim o controle da imigração. Basta ver os 18% de votos que a extrema direita recebeu nas eleições francesas no último domingo. É muita gente que não quer dividir espaço com negros, árabes e latinos. A minoria, em crise e época de sobrevivência, vira o alvo de ataques e campanhas políticas.

Mas em domingo de eleição, com cédula na mão, sai dali o que a Europa está pensando em anos de crise e desemprego. Concorrer com imigrantes na seleção de um emprego, só porque o desgraçado brasileiro ou argelino conseguiu um passaporte comunitário deve doer no orgulho do povo dominante, e como ninguém vai ver em quem se vota, Hitlers contemporâneos viram notícia.

A extrema Direita cresce

No entanto, ninguém assume. Quantos de vocês conhecem quem votou no Maluf e assumiu isso? É a mesma coisa na Europa: ninguém assume porque o voto é secreto, mas ontem, na França, mais de cinco milhões de pessoas votaram na Le Pen.

A extrema direita cresce, e assusta quase que proporcionalmente ao crescimento das taxas de desemprego.  Ultrapassada, não se produz mais na Europa porque o custo do trabalhador é altíssimo, então indústrias foram para China produzir.

O grande erro do europeu é achar que a cadeia econômica baseada na prestação de serviços, principalmente o turismo, sustentaria toda a economia. Espanha foi para o brejo por achar que ficou rica de uma hora para outra, sem ter uma cadeia industrial competitiva e abrangente.

Mas calma, Europa, ainda não é o fim do poço que justifique votos em desespero e ódio. Quando o mundo voar em avião Made in China sem medo, aí vocês estarão lascados. Por enquanto são computadores e outros eletrônicos, mas cabe lembrar que há menos de duas décadas era apenas àquelas calculadoras bizarras.

Encontro de terroristas?

E vocês da direita nacionalista europeia querendo apontar o dedo para o barbudo que clama por Alá, ou para o latino que esquenta a barriga no fogão sem reclamar?  Esperava mais inteligência, pois. O Alemão pagou uma multa chamada Hitler, e hoje tem uma indústria diversificada que atingiram a excelência na produção de bens de consumo. É a forma de proteger empregos na globalização, de lacunas em leis trabalhistas, salários mínimos injustos e concorrência desleal (subentenda China): qualificar a cadeia industrial e produzir com alta qualidade protege emprego, protege o país e protege economia, não dando margem para crises que desencadeiam teorias preconceituosas.

Pensa num carro bom, numa ferramenta boa, ou num remédio bom. Quando o mundo comprar na farmácia um remédio chinês, só aí a Alemanha vai quebrar. Mas isso não vai acontecer quando um país se renova e cria novas tecnologias e soluções.

Merkel aprendeu a conviver com Kebab

Não são os imigrantes que roubaram empregos na França. Foi o Japão, depois Coreia do Sul e, agora, a China, que se qualificaram para entregar um produto de melhor qualidade, feito há milhares de quilômetros de distância, por um preço competitivo.

A dinastria Le Pen quer tirar o kebab das ruas para proteger a baguete com queijo brie, assim como Hitler, que não perdoava e não comia guildene. Mas como o ódio se adapta facilmente, se estivesse vivo, Hitler também não comeria kebab e também exterminaria gays, africanos, latinos, tudo que for miscigenação que atrapalhasse seus planos nacionalistas.  Malditos Kebabs!

18% dos franceses se incomodam com imigrantes de pele mais escurecida. Assustador, o número. É muita gente querendo expulsar as minorias étnicas e religiosas, ao invés de, simplesmente, modernizar pensamentos e conviver com a mistura, encontrando inclusive oportunidades de negócio. Do contrário, novas guerras, não serão surpresa.

Malditos Kebabs!