Geração “Pular Anúncio em 5s”

30/10/2014

ponteiros

Não é fácil, mas aceito o desafio: eu tenho poucos segundos para tentar te convencer a ler as “n” palavras deste texto.  Para não assustá-lo com a divulgação de um número alto, melhor dizer que são apenas 13 parágrafos. É rápido, prometo que não vai doer.

Nos próximos 3 minutos de leitura, a missão de fazer você não olhar para o celular para ver se chegou nova mensagem do whatsapp torna tudo ainda mais complicado. 100% de atenção por meros três minutos é uma vitória não só para publicitários, como para qualquer ser humano, especialmente com a própria família. E lá se foi um tempo precioso tentando te sensibilizar para ler até o final.

Geneticamente anciosos. Somos filhos ou netos dos baby-boomers do pós Segunda Guerra, e sei lá qual explicação astrológica possamos dar, as Gerações X, Y e Z têm tudo, menos paciência. Se já estava claro antes, durante as eleições foi ratificado e não precisa de referendo, plebiscito e nem qualquer tipo de consulta da opinião pública para falar da nossa falta de paciência.

A quantidade estarrecedora de compartilhamentos de notícias falsas foi chocante. Seja lá qual a bandeira política hasteada, deveria haver, além de uma pesquisa mínima para verificar a credibilidade do site, uma paciência mínima para ler a matéria por completo e não apenas o título.

Outra contestação foi os inúmeros casos de divulgação de notícias de meses, até anos atrás, sem ao menos ler a data de quando aquilo foi publicado. Tais compartilhamentos, de sites mais conhecidos, são feitas só porque o contexto poderia polemizar com os dias atuais. Novamente só leram o título.

A falta de paciência de alguns causa uma explosão de raiva que extrapola limites, tanto que já é possível prever catástrofes. As 20h010, poucos minutos após a divulgação do resultado parcial (90%) das eleições, escrevi no Facebook para as pessoas refletirem sobre possíveis ataques contra nordestinos. E olha que não precisa ser nenhum Pai de Santo, era óbvio que isso iria acontecer.

Bingo. Uma enxurrada de mensagens discriminatórias contra nordestinos, pobres e pessoas assistidas pelo Governo Federal foi vista na internet. Pessoas que no cotidiano podem até não demonstrar tais reações xenófobas, mas que diante da provocação causada pela derrota incendiaram a internet com aquilo que estava reprimido, esperando o momento para descarregar.

Se foi um descarrego intempestivo, sinal claro de que tal preconceito estava o núcleo desse indivíduo. Isso é grave e precisa ser resolvido com terapia. Após tantos ataques em poucos minutos, dizer “Nordeste, seu lindo” é tentar tratar com um band-aid um ferimento causado por bazuca. A ferida na sociedade brasileira foi exposta, e ela é hemorrágica, cada dia sangra mais e há mais ódio.

A tendência é só piorar porque solidificamos com vigas enormes o que realmente somos: a Geração “Pular Anúncio em 5s”. Ninguém tem mais paciência com nada e com ninguém. Criamos um botão em todos os teclados sociais que batizei de “Acelerador da Vida”. Assistir uma propaganda de 30 segundos é tortura, então o Youtube e afins, com medo de perder seus preciosos espectadores, permitiu pular para evitar sofrimentos alheios.

A situação da nossa sociedade é tão grave que as agências de publicidade atualmente têm a missão de te fisgar em 5 segundos para você não apertar o maldito Acelerador da Vida.  E esse botão está em todos os lugares: se o seu prédio tem dois elevadores, você chama um elevador e não espera nem 2 segundos para chamar o outro. Quando o sinal verde é mostrado e o carro da frente não anda em 5 segundos, a sinfonia de buzina é tocada. E quando o semáforo fecha, todos já correm para pegar o celular para ver se chegou alguma mensagem.

Nem vou me aprofundar muito citando os mecanismos para furar todos os tipos filas, seja desrespeitando quem está à frente ou seja pagando para ser Vip de balada, Vip de Estacionamentos, Vip de Cia. Aérea para entrar primeiro no avião (e todos voarão juntos, catzo!!), Vip de pedágio, etc. O tempo, cada dia, custa mais. E agora estão mensurando (e cobrando!) o valor dos segundos, algo que você nunca pensou… por falta de tempo.

Somos seres apressados, minha dúvida é se tal pressa é sede de viver ou é vontade acelerar tudo para morrer mais rápido com doenças criadas nas últimas décadas em virtude desse estilo de vida. Investe-se fortunas para criar e conviver com necessidades que eram completamente desnecessárias há poucos anos.

Se a história da Terra de 4.5 bilhões de anos fosse resumida à um dia, a humanidade seria contada em seis minutos e nós, da Geração “Pular Anúncio”, os grandes responsáveis por destruir todo o ecossistema, causando danos irreversíveis à Terra, faríamos isso em exatos 5 segundos. Os mesmos 5 segundos que te torturam diariamente.

Marcio Vieira

PS: foram 790 palavras.


Saia do automático

10/01/2014

cambioautomatico

Todo animal busca, por instinto, a facilidade. A lei do menos esforço, a fruta mais acessível para comer, o animal mais lento para caçar, a menor distância para percorrer, o trabalho mais fácil para realizar, o mais rápido para terminar, o menos desgastaste, enfim, o automático.

Conquistar pelos meios mais fáceis é digno, demonstra utilização da inteligência em otimizar o tempo. Mas será que o propósito da vida é mensurar, contabilizar, ou seja, terminar o dia sobrando tempo? Ao meu ver, o propósito é o “como aproveito o tempo”, visando a qualidade, e não quantidade.

Se eu parto de um princípio que somos seres em evolução constante, qual a vantagem de fazer o mais fácil? Conquistar o mais fácil é economizar tempo… e qualidade. Assim, aonde está a evolução?

Para evoluir é preciso mudar, e para realizar a transformação, entendo que há duas formas: a liberdade e o desconforto.

A liberdade serve para pensar e questionar o que está sendo feito em vida, para quem está vivendo, e qual é o modelo de vida que está seguindo. A liberdade de dizer “não”, ou “sim”, dependendo das circunstâncias, e estar ciente sobre os reflexos na sociedade de seus atos. Liberdade para ser quem gostaria de ser, independentemente do que se passa no mundo.

O desconforto, por sua vez, é a imposição da transformação. E o desconforto está em voltar alguns passos, mas com a cabeça de hoje.

Exercitar o desconforto é poder ter mais, no entanto, consumir menos. Exercitar o desconforto é utilizar outros meios de sobrevivência, outros meios de experiência, outros meios de existência, sabendo que há condições socioeconômicas para não participar daquilo.

Uma das maiores experiências da minha vida era enfrentar fila para almoçar no bandejão junto com mendigos, dependentes químicos, pessoas da mais baixa classe social. Eu fiz por desconforto, porque era um privilégio meu ter aquilo como opção, e não necessidade.

Poderia ter gasto dinheiro em restaurante ou em supermercado, mas eu queria, pelo menos uma vez por semana, enxergar um lado da vida que vidros blindados e escurecidos segregam nas ruas.

Uma vez tentei dormir na rua por opção, mas às 4 da manhã meu orgulho venceu e fui para meu carro chorar. Chorar porque tem gente que vive assim como necessidade, e não por experimentar a curiosidade do desconforto.

Não acho que todos devem fazer isso, estar entre os invisíveis, porque a zona do desconforto é completamente subjetiva e individual. O que é desconforto para mim, pode não ser para você. Não há certos, nem errados, mas penso que cada um deve realizar algum tipo de desconforto para evoluir na vida, enfim, sair do modo automático.

O desconforto está na forma de consumir, o que consumir, a quantidade do que consumir, o “por quê” consumir. Consumir bens, serviços, consumir cultura, informação, experiências, o consumo é infinito e livre, desde que esteja na legalidade, porém, isso deve ser mais discutido entre todos, afinal, pouca gente percebeu que inverteram a correnteza do rio: antes era o consumidor que criava a demanda, hoje são as grandes indústrias que criam necessidades.

Necessidades que não existiam passam a ser condicionadores da felicidade. Se você não comprar o celular X, o carro Y ou a roupa Z, você não gozará da felicidade.

Então, surge a frustração. E para acabar com a frustração, inventaram o financiamento. O financiamento, por sua vez, criou o endividamento. O endividamento, por fim, perpetua a vida em um sistema que engaiola o cidadão num ciclo o qual ele mal sabe que entrou e acaba tornando a vida automática do “nascer, estudar, trabalhar, prociar e morrer”.

Vida no automático leva ao automático, aos modelos sociais já existentes, sem novidade alguma. Se isso o satisfaz, abrace a causa e seja muito feliz! Porém, eu quero uma vida no manual, que leva ao desconhecido, ao desconforto e muitas interrogações.

Isso não significa uma apologia à pobreza, muito pelo contrário. Eu entendo que a sociedade vai definitivamente se evoluir quando for iniciada uma manifestação voluntária por uma vida em classe média, com o mínimo de desigualdade possível.  E para isso acontecer, é de responsabilidade dos mais abastados economicamente não inflacionarem o consumo, muito menos desenvolverem novas necessidades desnecessárias porque é isso que causa, nas classes mais baixas, o endividamento e, infelizmente, o crime.

Marcio Vieira


Cartão Vermelho, vermelho de vergonha

22/02/2013

vermelho

Morreu Kevin aos 14. Quando morre uma criança, um adolescente, morre também o futuro e os sonhos que jovens carregam nos olhos e no coração.

Adultos são pessoas chatas, mal-amadas, cheias de ressentimentos e moldadas pelo socialmente correto, coisas que as crianças não sabem ainda o que é, por isso os sonhos são mais belos e puros. Em resumo, com o passar dos anos é estragada a essência das pessoas.

Alguns desses adultos estragados, infelizmente, carregam ódio no coração por uma infinidade de justificativas: falta de educação, falta de emprego, problemas estruturais na família, desigualdade social, racial, etc etc etc.

E tais pessoas, em determinados momentos, viram selvagens truculentos. Estádio é o destino, ingresso é a carta de alforria para poder gritar, xingar, afinal, se pagam ingresso tem direito de xingar!  Isso já escutei da boca de renomados jornalistas esportivos.

A ignorância perdeu o controle…

Não, meu caro!! Se eu pago a lavagem do meu carro, não tenho direito de xingar o lavador. Se eu pago meu almoço, não tenho direito de xingar o cozinheiro, se eu assisto teatro, não tenho direito de xingar o ator,  se eu pago meu ingresso para o futebol, isso não dá direito de ofender outras pessoas, sejam jogadores ou juízes.

Futebol é um zoológico invertido em ficam na plateia os animais. E são animais selvagens.

Mas Kevin morreu, e vem torcidas rivais culpar o Corinthians, o time dos maloqueiros, desdentados e presidiários. Sim, Corinthians tem mais presidiários, mais desdentados e maloqueiros que todos os outros. Assim como tem mais advogados, médicos, policiais, padres incluindo os pedófilos, hare-khrisnas, cozinheiros, prostitutas, políticos corruptos, etc. Tem mais porque é maior, a conta é simples de fazer.

O Juventus da Moóca tem seus bandidos violentos e desdentados, mas infinitamente menos que o Corinthians, que o Flamengo ou Palmeiras. É proporcional a questão da violência no futebol porque é um problema social que transcende o estádio.

Ser humano é um animal domesticado assim como outros, como cães e gatos. Se for mal treinado, mal-amado e não for educado, só vai dar problema. A diferença é que os quadrúpedes domésticos, no máximo, mordem ou fazem xixi no sofá por rebeldia. O ser humano é pior, capaz de matar, apertar o gatilho, estourar o fogo de artifício na cabeça de um inocente.

O problema não é o torcedor maloqueiro do Corinthians, o problema está no brasileiro que não foi treinado, educado, capacitado para conviver com semelhantes. O problema é crônico e a primeira pedra desse efeito-dominó se chama “Educação”. Sem ela, dá merda, dá caos, dá tristeza.

Sem educação não se desenvolve uma economia, muito menos uma sociedade. E o Brasil é comprovadamente um país sem educação, afinal, suas riquezas não são produzidas, apenas extraídas há 500 anos, desde o pau-brasil, ouro, até o… Neymar!

É o povo errado no país certo, e assim as divindades equilibram o mundo.

A falta de educação no Brasil resulta, em larga escala, a existência de mendigos, pedintes, drogados, prostitutas, corruptos, ladrões, assassinos. Suíça também tem os seus bandidos, Coreia do Sul também tem seus mendigos, mas não é proporcional à diferença de habitantes com Brasil, e esse é o “X da questão”.

Suíça, Alemanha, Coreia do Sul e tantos outros “desproporcionalizaram” Violência x Habitantes porque investiram em educação, tiveram paciência, e com educação conseguiram gerar empregos, capacitaram pessoas para poder consumir e viver de forma mais justa, e assim diminuíram justificativas para violência. Eles produziram a riqueza, ao invés de extrair a riqueza.

Precisa uma morte em outro país para demonstrar que o torcedor brasileiro é primitivo?  E as centenas de vidas perdidas em brigas estúpidas entre torcidas rivais no Brasil?  O jovem boliviano não é mais importante que os Joãos e Josés que morreram no Brasil por causa do futebol. O jovem Kevin é, na verdade, a tradução dos precários valores morais, éticos e sociais que existem na “terra do futebol”.  Quanta contradição!

Enjaular 12 selvagens corinthianos na Bolívia não é a solução. Proibir a torcida do Corinthians de frequentar estádio não é a solução. Isso apenas remedia um problema e tapa apenas um dos furos do barco, que continua cheio de água e naufragando.

O problema vai além do Parque São Jorge e de Itaquera. É um problema nacional que, sendo assim, deveria o futebol brasileiro ser suspenso até que se crie condições minimamente humanas para convívio com semelhantes.  O Brasil merece cartão vermelho. Vermelho de vergonha.

É preciso ir atrás da causa de pessoas violentas existirem, assim, quem sabe daqui uns 30 anos, outros Kevins não terão seus sonhos interrompidos por rojões e poderão viver a infância como ela deve ser: pura e sonhadora.

Marcio Vieira


O Calheiros de cada um

07/02/2013

renancalheiros

Todo esse ânimo exaltado das pessoas indignadas (infelizmente só nas redes sociais) por causa da eleição de Renan Calheiros à Presidência do Senado me fez pensar um pouco mais, saindo da superficialidade do tema.

É muito fácil apontar o dedo para as outras pessoas, e é muito difícil cutucar a própria ferida. Por um único motivo:  cutucar ferida dói, limpar a sujeira debaixo do próprio tapete é trabalhoso, o que faz a maioria é deixar a vida passar rapidamente com essas coisas escondidas para ninguém ver. Para ninguém julgar.

Só quando a ferida sangra é que fica visível. Só quando a sujeira aparece todos enxergam. Quando o ladrão é pego, é preso. Quando o corrupto é desmascarado, pela sociedade é julgado.

– “Oh, os políticos mais corruptos do mundo afundam o próprio país”, chorarão uns.

E depois apontam à tais engravatados de Brasília o motivo do “Brasil não ir pra frente”. Sim, eles têm culpa no cartório, na delegacia, na justiça e na pqp, porém não tem culpa pela flacidez da bunda da população de tão acomodada que é. Deve-se tirar o cabresto porque o buraco é mais embaixo!

É muito fácil ser santo na vida, afinal, todos são até o dia que fizerem a merda besteira, correto?

Não, não é quando cai a auréola acima da cabeça que deixa de ser santo. Infelizmente deixa-se de ser anjo quando a casa cai e a coisa vem à tona. É quando você fica nu.

Cada um sabe o tamanho do Calheiros que tem dentro de si. Eu, por exemplo, refleti sobre meus e, num deles, o que considero mais grave, resolvi mudar de atitude: parar de dirigir após beber álcool.

Tenho sorte de nunca ter perdido alguém próximo, vítima de acidente por causa de bebida alcoólica (seja culpado ou vítima), e não consigo imaginar o tamanho da revolta que deve ser quando se perde alguém por culpa de motoristas alcoolizados. Já cheguei aos 30, e há pelo menos uns 4 anos não vejo graça nenhuma em ficar bêbado.

Sim, sou chato.

Eu nunca me arrisquei dirigindo com álcool no sangue em outro país. Medo de ser preso, de pagar caríssima fiança, medo de matar, medo de morrer.  Por que no Brasil tem que ser diferente? E quando dirigia depois de beber?

Eu voltava bem devagar pois, se desse merda, seria merdinha. Um parachoque, um amassado pequeno, sempre imaginei que não passaria disso. Ainda bem que nunca me envolvi em acidente depois de beber, pois esse é um assunto muito grave, muito mais que corrupção de covardes como Renan Calheiros, afinal, envolve a vida.

50km/h pode derrubar um ciclista que na queda pode morrer. 40km/h pode atropelar um pedestre e pode matá-lo. A merdinha seria comigo, não com os terceiros.

Dirigir bêbado é crime, e não quero desperdiçar minha vida nem das pessoas queridas do meu convívio.

Pensando no Paulo Maluf que cada um carrega, decidi parar de dirigir após beber. Se vou cumprir ou não, o tempo dirá, mas vou me esforçar para cada dia ser uma pessoa melhor, e eu sei que tenho muito ainda que melhorar.

Há outros tipos de Calheiros correndo no sangue de cada um, de não pedir nota fiscal em todos os estabelecimentos, de comprar produtos de origem duvidosa, de pedir “jeitinho” para o Contador na hora de declarar a renda, subornar fiscal, subornar policial, comprar droga, consumir droga, etc. São infinitos Calheiros e cada um sabe o peso disso.

Gandhi eternizou “seja em você a mudança que quer para o mundo”, e cabe a cada um refletir sobre seus atos. Apontar o dedo para o erro dos outros é muito fácil. Ficar indignado pelo desvio de centenas de milhões de reais também é muito fácil.

Mas e os seus próprios atos, conscientemente praticados de forma errada, desigual e até criminosa?  O que vai fazer?  Continuar do jeito que faz e, ainda assim, lutar e reivindicar por “Justiça Social”?

Incoerente, né?

A corrupção de cada um da população é o combustível que alimenta e justifica os crimes dos políticos.

Ninguém precisa apontar o dedo para mim, eu mesmo posso fazer isso pois só eu sei bem o tamanho dos Calheiros que carrego dentro da minha consciência, mas quero arrancar um por um por um único motivo: evolução.

Se eu não sou a mudança, e se eu não faço a mudança acontecer, e se eu não começar em mim o que quero para o mundo, qual sentido disso tudo?  Ou você pensa que o mundo precisa estar lindo, cheiroso, limpo justo e honesto para você começar a mudar os seus próprios hábitos?

Se você gasta tempo mostrando indignação por causa de outras pessoas, você tem tempo mais que suficiente para olhar para dentro de você.

 

Marcio Vieira


Não tem problema, pode me excluir

23/01/2013

a380

Segunda-feira passada entrei no meu Facebook para ver o que se passa lá, e com as pessoas de lá, então tomei um susto: aceitei o pedido de amizade número 700.

Caramba, 700 pessoas!  E daí comecei a refletir sobre isso. É muita gente, capaz até de lotar o Airbus a380 (aquele avião duplex) e ainda fazer overbooking!

Tem alguma coisa errada comigo, não é possível.  Meus aniversários, eu fico mega feliz quando vão 20, 30 pessoas. Fico contente quando umas cem pessoas do mesmo Face me parabenizam na mesma data.  Ok, mas para chegar em 700 faltam ainda 600!  Onde está toda essa gente na minha vida?

Então decidi investigar meus contatos na mais famosa rede social e percebi que tem muita gente que participou da minha vida em algum momento, mas hoje não participa mais.

Os motivos são dos mais variados, pessoal do colégio, da faculdade, dos trabalhos que exerci, da rua, bar, praia, viagem, jogo do Corinthians, galera do carro antigo, da comida vegetariana, da meditação indiana, da bicicleta noturna, do prédio que cresci, do punk rock, das cidades que morei, enfim, são pessoas que participaram da minha vida.

A vontade é sempre ter todas as pessoas por perto, mas é depois da necessidade do “encontro obrigatório”  que percebo que não importa quem vai, quem fica e quem vem. O que realmente vale é descobrir qual sentimento aquela pessoa produz em você.

Considero amigo gente que não vejo há quinze anos, mas não considerei mais gente que vi há poucos meses, mas que o “santo não bateu”. Paciência, não é culpa minha nem de ninguém, o sentimento, quando não é obrigatório, fica mais sincero.

Então fiz uma primeira seleção e em alguns minutos tirei 160 pessoas da minha rede social. Caracas, é muita gente! Muita gente com histórias de vida incríveis que não tive a oportunidade (ou vontade/interesse) de conhecer, muita gente que poderia acrescentar na minha vida pessoal, profissional, etc., mas que, neste exato momento, não fará falta.  Eu me viro sem, e tenho certeza absoluta que tais pessoas já se viram muito bem sem a minha presença.

Pode ser (tomara!) que volte a ser importante, ou não, sei lá, deixa rolar! Vida segue sempre, mas essa coisa de Facebook, Twitter, isso é algo paralelo ao que realmente importa, mas tem muita gente que se incomoda com esses números e faz de tudo para atingir os milhares, tem 2 perfis, etc.  Respeito a necessidade de cada um, mas a minha necessidade eu percebi agora está longe de ser isso.

Quantas pessoas te ligam? quantas pessoas você se sente bem? E, principalmente, com quantas há vontade de conversar? De vivenciar ao redor de uma mesa de bar, de um restaurante, praia, viagem?  Não importa se faz 2, 3 anos, se você se sente confortável de falar com a pessoa, é uma pessoa que vale a pena preservar na vida.

Vale a pena também preservar aquelas que você tem um feeling de que serão importantes em algum momento da vida, seja pessoal ou profissional, ou, apenas, para trocar algumas ideias e dicas.  Ou que a pessoa é bacana, gente fina! Mas que haja um “prazo de validade” nessa expectativa: que essas pessoas participem ou demonstrem querer participar!

Eu dei uma pequena “selecionada” para criar maior importância para quem fica, e semana que vem vou dar outra. E peço, sinceramente, sem mágoas ou rancor: Não tem problema, pode me excluir.  Se o sentimento tem um traço de indiferença, ok, isso é perfeitamente normal, mas o importante disso tudo é dar mais importância para quem é mais importante.

Ou fique tudo do jeito que está, carregue as milhares de pessoas na rede de contato se isso te faz seguro e feliz. Importante é ser feliz, não é mesmo? Mesma coisa pode ser feita pelos contatos carregados no telefone celular os quais você nunca mais vai ligar. Desapegue!

Qual o tamanho do avião que você carrega? E quantos são? Quantos realmente voam com você?

Afinal, ninguém aqui é um número.

Marcio Vieira


Síndrome do Pavão

13/08/2012

Pavão! Um bicho engraçado, bonitão, todo penoso, reluzente, imponente, mas tudo isso quando está com as asas abertas para se mostrar para acasalamento. Abrem-se, então, as asas numa disputa matrimonial e aquele que aparentar ser o bonitão tirará a sorte grande.

Tem um monte de pavão na sociedade. Cada dia mais, a maioria circula na classe média. Muita gente se importa mais com a imagem do que com o que é, e o custo da imagem pode ser caro para quem não tem condição de bancar aparência, ou melhor, o status.

Busquei no Aurélio o significado dessa palavrinha: 1. Situação, estado ou condição de alguém ou algo, esp. perante a opinião das pessoas ou em função do grupo ou categoria em que é classificado. 2. O grau de distinção ou prestígio, ou situação hierárquica de um indivíduo perante demais membros do seu grupo social.

Status é, possivelmente, a palavra central que desencadeia os maiores problemas que o ser humano acha que tem. É tão forte que é capaz de inverter o fluxo natural dos pensamentos: ao invés de ser de dentro para fora, o indivíduo só se preocupa com que vem de fora.

É dar mais atenção à reputação, ao que se enxerga, e isso pode causar muitos danos pois é por causa de priorizar o status que muita gente já se endividou, já quebrou a cara, a cabeça, o coração, e continua fazendo isso sem imaginar que faz, investindo em demonstrar, ao invés de investir em ser.

Só que este, parece, ser um caminho sem volta, visto que cada dia que passa estamos mais expostos ao mundo: é no celular, no Facebook, Twitter, Linkedin, escrever baboseiras em blogs como este, etc., tudo isso faz você estar cada vez mais conectado com pessoas e, nessas horas, ter boa aparência é importante.  Eu escrevi importante, não fundamental.

O que você aparenta pode fazer com que você entre num grupo de indivíduos que se assemelham com seu perfil, mas o que você realmente É determinará o tempo que você permanecerá em tal grupo.

Se o colorido das suas penas de pavão é tão importante, você vai se endividar para ter um carro mais novo (sendo que o velho satisfazia suas necessidades de deslocamento), você vai comprar um celular mega tecnológico (para entrar no Facebook e publicar fotos do Instagram, não mais que isso), entre outras atitudes pouco racionais.

É por isso que tem tanta superficialidade no Brasil, e muitas marcas internacionais exploram da ingenuidade egocêntrica dos brasileiros que supervalorizam produtos que vêm de fora, inflacionando o mercado. É assim com carros, roupas de grife, mercado de alto luxo, no geral.

Resumindo, enquanto tiver trouxa portadores da Síndrome de Pavão que pagam o que for, incluindo ágio, para ter só por questão de aparência e status, o Brasil continuará a ser um dos países mais caros do mundo em bens de consumo, e tal reputação tem efeito dominó: começa lá na Classe A+ que influencia A, esta influencia a B+, que mostra para a B, B- e assim por diante.

A diferença é que a Classe A+ paga à vista pelo consumo, enquanto a média vai se enfiar em dívidas para, muitas vezes, influenciada pela futilidade da maioria da elite social, para ter o mesmo produto sinônimo de status. Indo pro final desse dominó, lá na Classe C, o mais pobre vai comprar a versão falsificada daquilo ou, mais grave ainda, roubar.

E cada vez mais, infelizmente, a Classe A+ tem demonstrado muita futilidade, soberba, ignorância e preconceito, então é preciso tomar uma dose extra de atenção sobre tais “tendências” de consumo.

É preciso saber separar na vida o que é importante daquilo que é fundamental, e muita gente coloca a imagem como fundamental. Não é fundamental, e em se tratando de um país com uma educação limitadíssima, os estragos sociais dessa mudança de valores são catastróficos, onde existe exemplos de pessoas que colocam mais de 50% do valor do imóvel que reside em um automóvel que, por sinal, está no Brasil a maior margem lucro das montadoras de carros do mundo.

Tem famílias de classe média que gastam mais de 150 mil reais para dois automóveis e vivem num apartamento que vale 300 mil. Na Europa e EUA, por exemplo, o gasto em automóvel raramente passa de 10% do valor do imóvel. As prioridades estão distorcidas, definitivamente, por causa de dar atenção à reputação.

Tudo isso fez do Brasil o líder de juros em cartão de crédito e paraíso para banqueiros. Cada dia esticam mais o tempo para se pagar e isso aumenta o risco de inadimplência, então a medida é aumentar o juros, consequentemente o preço final do produto e, quando se trata de produto que o exuberante Pavão gosta de se exibir, o lado emocional atrapalha a razão.

Se as pessoas começarem a buscar dentro de si o que se precisa para ser feliz, perceberão que muito do que têm e muito do que fizeram na vida foi influenciado pelo ambiente externo, o que se viu, e às vezes todo aquele esforço era desnecessário porque não era tão importante. Grandes esforços são necessários na vida, e deve-se escolher realmente no que vale a pena se endividar momentaneamente, e quais sacrifícios são válidos.

Não precisa ser um pavão todo plumoso para demonstrar ser alguém. Aparência tem prazo de validade.

Marcio Vieira


Malditos kebabs!

23/04/2012

Ódio aos imigrantes

Irônica (e preconceituosa) sociedade, que batiza extremistas de turbante de terroristas e, ao mesmo tempo, outras pessoas, muitas de cabelos dourados, são denominadas, simplesmente, extremistas.

O branquelo de olho azul vai passar por exame psiquiátrico, afinal, não pode ser são o Sr. Breivik, culto, poliglota, que planeja, e mata, 77 pessoas. Porém, é terrorista um Mohamed qualquer, que não pode andar de mochila pela Europa sem ser revistado por policiais assustados, despreparados, pois toda a Europa vai pensar que tem uma bomba pronta para explodir.

E, se realmente tiver uma bomba, polícia nenhuma vai impedir dele se matar e levar algumas dezenas junto. Enquanto o muçulmano enrolado em panos transparece seu ódio ao querer defender sua própria religião, que é historicamente alvo de ataques preconceituosos, o bonitinho norueguês pode comprar armas pesadas sem a desconfiança da sociedade, afinal, no máximo, ele é um louco.  Terrorista é o barbudo de cara fechada.

Campanha do partido nacionalista Suíço, que quer expulsar as ovelhas negras (imigrantes) do país

Só que o nórdico extremista fez o que muitos, hoje milhões de europeus, pensam em fazer:  não a matança sanguinária, mas sim o controle da imigração. Basta ver os 18% de votos que a extrema direita recebeu nas eleições francesas no último domingo. É muita gente que não quer dividir espaço com negros, árabes e latinos. A minoria, em crise e época de sobrevivência, vira o alvo de ataques e campanhas políticas.

Mas em domingo de eleição, com cédula na mão, sai dali o que a Europa está pensando em anos de crise e desemprego. Concorrer com imigrantes na seleção de um emprego, só porque o desgraçado brasileiro ou argelino conseguiu um passaporte comunitário deve doer no orgulho do povo dominante, e como ninguém vai ver em quem se vota, Hitlers contemporâneos viram notícia.

A extrema Direita cresce

No entanto, ninguém assume. Quantos de vocês conhecem quem votou no Maluf e assumiu isso? É a mesma coisa na Europa: ninguém assume porque o voto é secreto, mas ontem, na França, mais de cinco milhões de pessoas votaram na Le Pen.

A extrema direita cresce, e assusta quase que proporcionalmente ao crescimento das taxas de desemprego.  Ultrapassada, não se produz mais na Europa porque o custo do trabalhador é altíssimo, então indústrias foram para China produzir.

O grande erro do europeu é achar que a cadeia econômica baseada na prestação de serviços, principalmente o turismo, sustentaria toda a economia. Espanha foi para o brejo por achar que ficou rica de uma hora para outra, sem ter uma cadeia industrial competitiva e abrangente.

Mas calma, Europa, ainda não é o fim do poço que justifique votos em desespero e ódio. Quando o mundo voar em avião Made in China sem medo, aí vocês estarão lascados. Por enquanto são computadores e outros eletrônicos, mas cabe lembrar que há menos de duas décadas era apenas àquelas calculadoras bizarras.

Encontro de terroristas?

E vocês da direita nacionalista europeia querendo apontar o dedo para o barbudo que clama por Alá, ou para o latino que esquenta a barriga no fogão sem reclamar?  Esperava mais inteligência, pois. O Alemão pagou uma multa chamada Hitler, e hoje tem uma indústria diversificada que atingiram a excelência na produção de bens de consumo. É a forma de proteger empregos na globalização, de lacunas em leis trabalhistas, salários mínimos injustos e concorrência desleal (subentenda China): qualificar a cadeia industrial e produzir com alta qualidade protege emprego, protege o país e protege economia, não dando margem para crises que desencadeiam teorias preconceituosas.

Pensa num carro bom, numa ferramenta boa, ou num remédio bom. Quando o mundo comprar na farmácia um remédio chinês, só aí a Alemanha vai quebrar. Mas isso não vai acontecer quando um país se renova e cria novas tecnologias e soluções.

Merkel aprendeu a conviver com Kebab

Não são os imigrantes que roubaram empregos na França. Foi o Japão, depois Coreia do Sul e, agora, a China, que se qualificaram para entregar um produto de melhor qualidade, feito há milhares de quilômetros de distância, por um preço competitivo.

A dinastria Le Pen quer tirar o kebab das ruas para proteger a baguete com queijo brie, assim como Hitler, que não perdoava e não comia guildene. Mas como o ódio se adapta facilmente, se estivesse vivo, Hitler também não comeria kebab e também exterminaria gays, africanos, latinos, tudo que for miscigenação que atrapalhasse seus planos nacionalistas.  Malditos Kebabs!

18% dos franceses se incomodam com imigrantes de pele mais escurecida. Assustador, o número. É muita gente querendo expulsar as minorias étnicas e religiosas, ao invés de, simplesmente, modernizar pensamentos e conviver com a mistura, encontrando inclusive oportunidades de negócio. Do contrário, novas guerras, não serão surpresa.

Malditos Kebabs!


A ganância contra o povo

19/04/2012

Corinthians é o time que mais arrecada em jogos. Embora sua média de público não esteja muito acima dos rivais, o que destaca é o valor do ingresso que é o mais caro do Brasil.

Arrecadar 1.6 milhão de reais, como no último jogo, é um rendimento considerável que ajuda os cofres do alvinegro. No entanto, há de se destacar alguns pontos deficitários que, em três jogos de Copa Libertadores no Pacaembu, não foi resolvida: a taxa de ocupação.

No jogo contra o Deportivo Táchira, da Venezuela, o público total foi de 29 mil espectadores, num estádio que abriga quarenta mil torcedores. Ou seja, foram 72% de ocupação, muito aquém dos números de times medianos do futebol europeu, o que dirá dos gigantes do velho continente.

O principal fator de mais de dez mil lugares vazios no estádio é o custo do ingresso. Quase que a totalidade desses ingressos está nos setores das cadeiras, em que o Corinthians cobra valores astronômicos. Assim, o Corinthians deixa de arrecadar CENTENAS de milhões de reais por… ganância.

Ganância?!? Sim. Incompetência e falta de inteligência são perfeitamente somáveis à ganância dos administradores do clube.

O Corinthians não encontrou ainda a curva de consumo do seu torcedor em todas as áreas: não sabe cobrar o valor pelo uniforme que dê um lucro sustentável, assim como não sabe cobrar pelo ingresso, que deixa o estádio cada dia mais vazio. O aumento abusivo no preço dos ingressos afasta a grande maioria, deixando o evento elitizado. Uma completa contradição, quando se trata do “time do povo”.

Povo rico, esse, que não aparece no estádio. São pessoas que preferem o conforto da poltrona e o pay-per-view, que não tem o costume de ir ao Pacaembu, deixar carro longe sob a guarda de um flanelinha que cobra quinze reais, que não se dispõe a andar um quilômetro até o estádio desviando de barraquinhas de sanduíches de pernil, espetinhos de churrasco ou vendedores de cerveja.

Todo clube tem sua torcida de almofadinhas, e o Corinthians, contrariando a imensa maioria dos brasileiros que acha que é o clube dos desdentados e favelados, é o time que mais tem torcedores, proporcionalmente, às classes A e B em todo o Brasil.

Porém, àqueles que costumavam sentar na cadeira coberta do Pacaembu não estão mais lá: ou hoje vão para o bar assistir pela TV, ou mudaram de setor do estádio e foram para as cadeiras descobertas (Setor Laranja). Em efeito dominó, os que assistiam na Laranja mudaram de área também porque não aguentam pagar o preço atual, assim superlotaram a sempre lotada arquibancada, o “setor popular”.

Setor popular este que cobra 35 reais por jogo, e que não tem nada de popular no perfil dos ocupantes. Se fizerem uma pesquisa em frente ao portão principal do Pacaembu, aposto que mais de 50% já têm ou está cursando ensino superior. Aposto ainda que pelo menos dois terços da ocupação da arquibancada tem torcedores com rendimentos mensais acima dos mil reais mensais.

Esqueceram que aqui é o Brasil. E clubes como o Corinthians aproveitam a paixão e fidelidade de milhares de torcedores para que tais comprometam sensivelmente a renda familiar, direcionando o valor para ver o time no estádio.

Não apenas o desrespeito à massa corintiana, há ainda uma falta de inteligência tremenda da diretoria do Corinthians não otimizar o potencial que o Estádio do Pacaembu tem em fazer dele um verdadeiro inferno para os adversários, com uma multidão enlouquecida gritando o nome Corinthians.

Foram, no jogo de ontem, 28% a menos de vozes, de gritos, de impulso que dá energia ao Corinthians. Foram pelo menos quinhentos mil reais a menos de arrecadação ao clube.  E o que a diretoria faz para mudar?  Nada!

Tive a oportunidade, ano passado, de assistir um jogo na tribuna. Sabe aquelas cadeiras pretas separando da amarela? Então, para quem não sabe, a tribuna é onde, praticamente, ninguém compra ingresso.

São ex-jogadores, familiares de jogadores, filhos de diretores ou outros componentes da direção, empregados, etc. São pessoas que pegam seus ingressos no Parque São Jorge, gratuitamente, e vão para o estádio, entram num portão com um segurança de terno e gravata, e, no intervalo do jogo, vão para os comes e bebes naquele salão que é um viaduto de quem vê pela rua.  Tudo de graça, salvo raríssimas (e põe raríssimas mesmo) exceções que pagam os 300, 400 reais de ingresso para ter esse tipo de serviço.

E o mais absurdo do jogo de ontem é a falta de comunicação com a direção da equipe adversária. Já eliminado, o Deportivo Táchira não tinha expectativa positiva nenhuma no jogo, assim, não foram nem uma dúzia para apoiar o time venezuelano.

Ora, Direção do Corinthians, vocês não poderiam entrar em contato com o adversário, e oferecer aos tais torcedores as cadeiras pretas e os quitutes, cafezinho e sanduíche de metro, como anfitriões do espetáculo?

Pior que isso foi o pensamento engessado da Policia Militar em fazer aquele cordão de isolamento bizarro no Tobogã, diminuindo a capacidade deste setor, sendo que seria impossível qualquer tipo de ataque de sacolas cheias de urina. Enfiam mais uns trezentos corintianos naquele canto baixo do Tobogã para gritar pelo clube, que será de grande ajuda.

Resolvendo a questão dos doze torcedores do visitante, liberaria quase cinco mil lugares, àqueles destinados aos visitantes, para a torcida do Corinthians lotar um setor que poderia ter o mesmo preço da arquibancada, já que ambos os setores tem como conforto o cimento duro.

Ora, por 35 reais (preço aproximado do Fiel Torcedor), multiplicado por cinco mil, somariam R$ 175.000,00 à renda. Porém, mais que o valor no caixa do clube, seriam outras cinco mil vozes no jogo, que fazem diferença.

O Corinthians tem a obrigação de colocar pelo menos 90% da carga máxima de torcedores no estádio para jogos da Libertadores. E não é culpa da torcida não lotar o estádio, e sim é a ganância e mesquinharia da direção do clube, achando que o Pacaembu tem estrutura que valem a cobrança de ingressos acima dos cem reais. Ora, o Corinthians tem torcedores ricos, muito ricos, só que a maioria deles não vai se enfiar num estádio que não tem estacionamento, que não dá dignidade ao torcedor.

Daqui a pouco, o cachorro morde o próprio rabo. Basta ver a média fraquíssima de torcedores do time nos jogos do campeonato estadual. A torcida não tem condições de pagar esse absurdo de ingresso, sendo que há todo um ritual dos torcedores: são cervejas (3 reais por lata), são churrasquinhos, sanduíches de porta de estádio, ônibus, etc., que encarecem o custo de ir para o jogo. É praticamente impossível, somando os valores, um torcedor gastar menos de cinquenta reais num jogo.

Multiplique isso por, na média, seis jogos por mês.  São trezentos reais para os torcedores de arquibancada ficar no sol e na chuva pelo time. Hoje, embora cante com a mesma força e vibre com a mesma energia, quem está lá não é o povo histórico que carrega esse time há um século. Hoje é a classe média (da média baixa à média alta) que ocupa esses lugares, deixando socioeconomicamente povo em casa.

A gestão do clube é deficitária e a cada dia que passa se distancia dos torcedores. São camisas custando 199 reais, algo que estimula a pirataria, que encontra um campo vasto para vender as “réplicas” por 20, 30 reais. Se a camisa original, no lançamento, custasse 80, 90 reais, será que os produtos piratas sobreviveriam? Aposto que não sobreviveriam porque haveria um esforço do torcedor em pagar, duas ou três vezes mais, pelo produto original. Mas hoje, a diferença chega a dez vezes mais caro, distanciando o torcedor do clube.

O mesmo se trata com ingressos. Se há dez mil lugares vazios, que vendam esses ingressos horas antes do jogo por dez reais. É um investimento importante e necessário, que fortalece muito os jogadores. Competente seriam se colocassem ingresso por preços mais justos, lotando o estádio em respeito ao próprio Corinthians.

Cobrar mais de cem reais num ingresso é um absurdo, em se tratando de Corinthians. Soma-se tal exploração aos quinze reais do flanelinha, os vinte reais das cervejas, o sanduíche, etc., impossibilitando para a maioria dos Brasileiros.

A diretoria do Corinthians está silenciando o principal jogador que o time teve, e sempre vai ter: a sua torcida.

Grandes marketeiros da República Popular do Corinthians… Aonde é Popular, mesmo?


O Dia Mad Max

07/03/2012

Busquei a sinopse do filme: “Em um futuro não muito distante (o filme começa com a frase: a few years from now) e pós apocalíptico, o deserto australiano vive dias de caos onde gangues de disputam o poder e aterrorizam a população por um pouco de gasolina”.

Impossível não associar o dia de hoje com o filme feito em 1979, estrelado por Mel Gibson.

O Dia de Mad Max mostra o desespero paulistano por alguns litros de gasolina. O caos se formou, sete milhões de veículos lutam para chegar em seus trabalhos salvos.

A gangue caminhoneira aterroriza a principal capital brasileira. Postos inflacionam o preço, se aproveitam do medo formado pela busca pelo deslocamento.

A gangue caminhoneira aproveita a falta de consciência coletiva do paulistano, que não aceita dividir um ônibus, dividir uma carona, pedalar, caminhar, enfim, buscar alternativas para melhorar o convívio na cidade.

Cidadãos comprometidos com o trabalho que pagam 300 reais por mês de estacionamento, ou que pagam 15 reais a primeira hora (ou ainda mais) para colocar seus carros num lugar “protegido”.

Cidadãos que perdem 20% do valor do automóvel no primeiro ano de uso, que gastam 300 reais para andar mil quilômetros (fora os gastos de manutenção) que gastam entre 3 e 10% do valor do carro por ano em seguro, ou seja, depreciam em uns 25% seu “patrimônio de rodas de liga-leve”.

Contribuintes que pagam regularmente seus impostos, que gastam meia hora para achar uma vaga para estacionar o carro na rua, pois hoje as prefeituras esqueceram que a prioridade da rua é o fluxo contínuo, e não a possibilidade de estacionar, prejudicando o trânsito.

Habitantes que reclamam da ciclofaixa permanente, que tirou a possibilidade de estacionar suas latas de insul-film, ou que não respeitam a placa “Rota de Ciclista”

Caminhoneiros, os malvados, são a corja da sociedade proletária. Afundam São Paulo no caos! Se organizam em sindicatos com barbudos e cruzam os braços. Abusados, vocês!

São Paulo é cidade para andar de carro!  Ônibus é coisa de pobre, preto, ou, pior ainda, pobre preto. Eu ganho meus dez mil reais por mês e vou financiar meu i30. Eu ganho 5 mil reais por mês e pago meu Fox. Eu ganho 3 mil e pago meu Uninho. Eu ganho mil reais por mês e pago as prestações do meu Gol Caixinha!!

E, mais que isso, eu vou andar SOZINHO!  O carro é meu!  Eu faço o que quiser! Eu buzino! Deixe as sardinhas enlatadas no transporte coletivo!  Não vou dar carona para o vizinho, eu não converso com ele, então ele não é bem-vindo no meu possante.

Esses ciclistas idiotas não aprendem que bicicleta é só no Domingo, e apenas para andar aonde tem cone.  Meu carro não divide espaço com uma bicicleta. Eu fecho! Deixo apenas a linha da sarjeta para eles! Meu carro de 50 mil reais com DVD é mais importante que a bicicleta do eco-chato.

Carros de 100 mil reais pra cima, então, são deuses supremos! Não se misturam com a gentalha, diz Dona Florinda a bordo do seu Land Rover.

Vamos, Mad Max, sobreviver pelo líquido sagrado: a Gasolina!

“”””””””””””””””

Brincadeiras à parte, não desejando o sofrimento de ninguém, mas é importante tomar ciência de algumas coisas:

Corredores de ônibus tem fluxo de 30 mil pessoas por hora, enquanto cada faixa para carros tem, em média, fluxo de 2 mil por hora. Se pensar que mais de 80% dos carros em SP estão com APENAS 1 pessoa, calcula-se menos de 2.500 pessoas por hora em cada faixa de rolagem para carros.

Numa avenida com duas faixas para carros e apenas uma para ônibus (exemplos: Avs. Santo Amaro, Nove de Julho, Rebouças, Ibirapuera…), deslocam-se 35 mil pessoas por hora.

Por que não dobrar a faixa de ônibus, deixando apenas uma para carros? Assim seriam 60 mil pessoas por hora, diminuindo o tempo parado no trânsito. Metrô tem fluxo de quase 40 mil pessoas por hora.

Mas ocorre que o morador de Moema não vai entrar no ônibus para ir para a Faria Lima, muito menos gastar 15 minutos e ir de bicicleta.

Prédios comerciais acham mais lucrativo ter TRÊS vagas a mais de carro do que montar, no mesmo espaço, um vestiários e colocar ganchos para pendurar bicicleta.

Homens de negócio não pedalam. Multinacionais têm que fornecer CARRO para seus líderes em sinônimo de status e importância dentro da empresa.

Vamos, sociedade brasileira, estimular que quanto maior e mais caro seu carro, maior é sua influência na sociedade! Se a empresa me deu um Corolla, é porque eu sou fodinha. Se a empresa me der um BMW, eu serei fodão!

Vamos, paulistas, mostrar que carro é sinônimo de poder. Vamos financiar, pagar 30% de juros ao ano para preencher uma das vagas do seu prédio com varanda gourmet.

Vamos, pauliceia, a gasolina é o sangue que bombeia para encher nosso ego. Gasolina Podium é a Absolut das vodkas, deixem a vodka Balalaika para o dono do paliozinho.

Vamos, sociedade motorizada, promover o caos. Com felicidade vamos promover trânsito na saída da garagem dos nossos condomínios-clube. Vamos para a padaria de carro!  Vamos para a academia de carro!

Vamos esperar construir o metrô para enfim deixar o carro na garagem. Vamos esperar o ônibus ficar menos lotado para enfim eu ter meu bilhete único.

Brasileiro é um bicho estranho: fora do país dá uma de “Povo” e anda de bicicleta em Amsterdam, de metrô em Nova York e de ônibus em Londres, mas quando volta, dá uma de “Gente Diferenciada”

O fluxo de investimento está completamente invertido. É preciso criar a demanda, primeiro, para existir o investimento público. Governo nenhum, no mundo, antecipa, faz projeções sócio-administrativas. Vocês acham que Paris sempre foi bonitinha?

É preciso acabar com corrupção. É preciso acabar com burocracia que atravanca o desenvolvimento. É preciso diminuir os gastos públicos com funcionários fantasmas, ou com gabinetes populosos de políticos ineficientes.

É preciso diminuir o número de deputados e vereadores. Mais de 500 neguinhos eleitos em Brasília que não resolvem porra nenhuma. É preciso fazer essa cambada ter cartão de ponto e ganhar por hora trabalhada, desempenho, cortar auxílios bizarros que afrontam a inteligência do eleitorado. É preciso um monte de coisa que só o voto não resolve. É preciso promover um certo caos para revindicar melhorias.

E o caos do Dia de Mad Max é um dia para refletir: o que VOCÊ, contribuinte, cidadão, faz para melhorar o convívio na sua cidade?

O que VOCÊ pode mudar em SEUS hábitos para ter maior qualidade de vida?

Será mesmo, esse desespero todo por combustível, uma necessidade?

Precisamos SURTAR para ter gasolina?

Precisamos de 7 milhões de veículos apenas na cidade de São Paulo?

Precisamos ter mais de um carro dentro da família?

Precisamos ir num carro vazio para o trabalho?

Precisamos inflacionar os preços de estacionamentos?

Precisamos gerar 5 BILHÕES de dólares de lucro em 2011 para as montadoras no Brasil enviarem para suas matrizes espalhadas pelo mundo?

Precisamos dessa vida estressada por causa de individualismo?

Precisamos resolver um problema coletivo resolvendo, com a compra de um carro (ou até segundo carro para rodízio), pensando numa solução individualizada?

Precisamos nos matar no trânsito, xingar, reclamar, buzinar tanto? Seu carro também contribui para o trânsito existir! PENSE!

Precisamos chegar ao ponto de viver como Mad Max?

Marcio Vieira


Ok, vamos combinar!

27/12/2011

Todo natal é a mesma coisa de forma diferente. Família de sangue reunida por uma noite e um almoço, esquecendo, por tais horas, a família por opção, daquelas pessoas que conhecemos e escolhemos durante a vida.

E família é tudo igual, só muda o endereço, dizem os saudosistas. E com razão, sempre tem aquela tia dondoca casada com o tio boêmio, e são nesses momentos de família reunida que entendemos o motivo conjugal para o tio beber.

Sempre tem aquele primo “pegador” das baladas perdidas, que conta vantagem de tudo que faz, quantas mulheres pegou na última semana, enfim, o verdadeiro (pelo menos para ele) artilheiro do amor.

Opiniões acerca do novo namoradinho da prima, que a família não percebeu ainda que ela já saiu dos dezoito, vão existir só para deixar a coitada da menina envergonhada diante da parentada que pouco vê durante o ano.

Tem sempre as fofocas, os mal-me-disse entre os familiares, sempre querendo apontar o dedo para quem acham que está na merda, só porque resolveu escolher propósitos de vida diferente.

Essa disputa pelo poder, pelos louros de ter o filho mais bem sucedido, ou de chegar de carro novo sem tirar os plásticos nos bancos só pra mostrar a novidade para aquele seu primo. Essas picuinhas no 25 do doze enchem o saco, não só do São Nicolau.

Mas até aí entende-se, pois dentro da família de sangue todos querem dar seus pitacos na vida do outro. Acham-se no direito disso, sem conhecer de fato o que se passa do outro lado, ainda mais dentro daquelas famílias que se reúnem geralmente naquela quantidade de pessoas, no máximo, três vezes ao ano (páscoa, natal e mais alguma outra)

Mas há o lado positivo dessa reunião: e se chama vó. Esta é a personagem principal de qualquer natal. É ela que faz questão e cozinhar, de fazer o pudim de sobremesa, de ver a algazarra dos netos e bisnetos.

O natal é feito para as avós e avôs. Esquecemos o resto da família, esquecemos rusgas e briguinhas infantis entre os pertencentes do clã. O natal gira em torno do que os mais velhos desejam, que querem ver todos ali, e há de se respeitar isso. Ainda mais que nunca se sabe se aquele será o último natal que eles passarão conosco.

E o bordão natalino mais comum de se falar não é a piadinha tosca do pavê: o mais repetitivo é o tal “vamos combinar” que um diz para o outro durante esse encontro no final do ano.

Vamos combinar um almoço que nunca é marcado porque sempre a vida é uma correria.  Vamos combinar uma viagem que nunca é agendada porque o chefe não vai liberar. Vamos combinar de tomar um chopp na Vila Madalena. Vamos combinar de ir ao estádio, somos Corinthianos, maloqueiros e sofredores!

Vamos combinar de se ver mais no próximo ano. E isso nunca é feito. As mesmas promessas de organizar melhor a vida são ditas, e quase sempre, nunca cumpridas.

“Vamos combinar” é uma forma de dividir a responsabilidade com o outro que a família sanguínea está cada dia mais distante.  “Vamos combinar” serve para falar que a culpa não é só minha de ver seu familiar apenas em eventos que não enchem os dedos de uma única mão.

“Vamos combinar” é deixar no vazio, em aberto, um dia o qual farei algo pela família. Ao invés do “vamos combinar”, por que não se aproveita o evento natalino e já agendem um dia para fazer tal coisa?  Troquem o vamos combinar por está combinado!

“Vamos combinar” é torturante, às vezes falso, é também desgastante, porém, depois de tantos vamos combinar que foram escutados e ditos na vida, já se cria uma expectativa que aquilo não vai ser cumprido, só estão falando por falar, jogando palavras ao vento, talvez pela falta de assunto ou falta de familiaridade com a própria família.

Enquanto isso, a família por escolha, àquela dos seus amigos que dividem a mesa de bar com certa frequência, dividem o sofá de casa jogando xbox enquanto as respectivas ficam na cozinha fofocando, àqueles que te ligam para assistir o jogo lá no bar ou se auto-convidar telefonando  “estou chegando com uma caixinha de cerveja, quer mais alguma coisa?”, àqueles que falam “vamos num carro só, estou passando aí em 15 minutos”, a família dos amigos que por três ou quatro eventos no ano são esquecidas no natal, apenas recebem um torpedo coletivo ou, no máximo, um telefonema de 4 minutos.

Mas, por serem tão amigos, os amigos relevam, não se apequenam por serem preteridos porque sabem que o mesmo está acontecendo na casa da tia fofoqueira, aonde você está acontecendo as festividades deste ano, agendada há exatos 365 dias.

Porém, mesmo não estando com amigos que te conhecem mais que a própria família, há de se pescar coisas engraçadas e positivas durante o natal. A cara do sobrinho contando dos presentes deixados pelo Papai Noel, a cara de “que bosta” daquele primo que ganhou um jogo de Lenços Presidente da tia-avó, a cara de tanto faz do tio boêmio que ganhou mais um par de meias bege, a roupa brega da tia, etc.

É importante acabar com essa papagaiada socialmente correta dos tradicionais dizeres do vamos combinar, e só depois disso que  vamos combinar, efetivamente, que vamos excluir esse vamos combinar natalino das nossas promessas.

E depois disso tudo, ao encontrar um amigo no elevador: “Hey, topa uma cervejinha no final de semana?”

Vamos combinar!