Saudades de mim

24/02/2011

Saudades, sentimento só transmitido em português, é algo bom, ruim, gostoso, melancólico, faz bem e faz mal. E tudo isso ao mesmo tempo, conforme a lembrança, o contexto e o momento.

Com seis meses de vida na Suíça, sinto saudades de muitas pessoas, principalmente minha avó, pela ligação que tivemos nos últimos anos, e meus sobrinhos, dois que pouco conheci, mais o João, todos fontes inesgotáveis de pureza, energia e transparência.

Minhas saudades vão além disso, sinto falta dos amigos, sinto falta da minha bicicleta, do Corinthians no Pacaembu, de comer temaki na madrugada, sinto falta da minha mãe, meu pai, meus irmãos. Sinto falta de vento da estrada no rosto, dirigir cantando, batucando no volante, sem se preocupar com ninguém me julgando, mas, ultimamente, o que mais sinto saudades é de mim mesmo.

Estranho pensar isso, como sentir saudades de mim mesmo? Mas é isso, um sentimento nostálgico de um passado recente, da possibilidade de se permitir, sem medo, sem insegurança, de estar com quem te entende e que sabe como você é sem precisar se apresentar.

Este ano tem sido fantástico, conheci tanta gente bacana, entrei em tantos lugares diferentes, aprendi, vivenciei coisas importantes, (ou que dizem que é importante, não julguei ainda) e nessa mudança radical, acredito que os sentimentos mais internos se fortalecem, crescem, querendo avisar todo o corpo: “não esquece de quem você é!”, e numa subconsciente defesa, as saudades e lembranças afloram.

Quando se viaja, saímos da normalidade e da segurança. Permitimos novos sentimentos, novas sensações, permitimos novos caminhos, utilizamos novas ligações neurológicas e respiramos diferente. Viajar é permitir o novo, e o confronto com o passado é inevitável. Assim, tenho saudades de mim, mas nada absurdo, muito pelo contrário, tenho saudades boas, nostálgicas, que sei que esta viagem me mudará profundamente, aliás, já está me mudando para muito melhor.

Meu pai sempre me explicou que o retrovisor do carro deve ser pequeno porque ele serve apenas de referência, dando-se atenção para o vidro, para frente. Levei isso para a vida: passado serve de referência, deve ser pequeno se comparado ao presente, afinal, sabemos que ele estará lá para todo o sempre, por isso o meu olhar vai apenas até aonde consigo enxergar. Além da curva, eu não vejo, então não fantasiarei algo.   “Momento presente é inevitável”, dizem meus saudosos amigos respiradores.

As saudades aparecem, também, porque o sacrifício é visível. Morar mal, comer mal, ter pouco tempo, tudo limitado, lógico que ajuda a sentir saudades, afinal, nunca vi nenhum rico ter saudades de quando era pobre. Isso mostra o quanto eu sou rico, ótima família e incríveis amigos, e sorte maior em ter a consciência de saber o quanto estou aumentando minha riqueza pois minha família e amigos que antes tinham, vão continuar sendo, e as pessoas que aos poucos vou conhecendo nessas viagens, entrarão na minha riqueza.

Mas eu me permito, depois disso tudo, ter algumas horas do dia para sentir saudades de mim, de alguém que nunca mais vai voltar a ser o que era, em São Paulo, Genebra ou qualquer lugar, pois todo dia é dia de mudanças e evoluções. É bom, sem exageros, mergulhar para dentro.

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Atritos entre sonho e consciência

12/02/2011

É comum eu me pegar em assuntos viajantes, já que minha facilidade de arrancar a cabeça do resto do corpo é alta, assim acabo entrando num ‘mundo do Bob’, onde conflitos internos e questionamentos são os temas preferidos do diálogo entre meu subconsciente e aquilo que acredito que seja consciente

E o que mais me faz perder horas, sonos, às vezes dias, é o reflexo daquilo que venho fazendo na vida. Tive muita sorte em absorver experiências e conhecimentos sensacionais que, no fim, compactuam com a teoria socratiana do só sei que nada sei. E apenas agora, recentemente, me dei conta que a expansão da consciência é um círculo vicioso, sem fim, e se você for uma pessoa que se cobra muito, a tendência será, infelizmente, a frustração e o sentimento de derrota.

Este blog, propositadamente, tem como nome exatamente as consequências dos caminhos que levamos por toda esta vida, sabendo que  nossas marcas sempre estarão lá, e o que vai diferenciar é se elas serão positivas ou negativas. Neste pensamento do nosso impacto na Terra, inventaram as calculadoras ecológicas e questionários para mensurar tudo que fazemos e que deixaremos para as próximas gerações.

Eu, por vários motivos, principalmente no lado familiar e no interesse próprio, expandi minha mente visando alguma proteção socioambiental. E lá fui plantar árvores, lá fui trocar o carro pela bicicleta, tornar-me vegetariano, estudar Direito, aprofundar o lado dos direitos humanos, desenvolvimento sustentável, protestar contra governos, e outros blábláblás importantíssimos na sociedade contemporânea.

Mas o que me inquieta tanto hoje é que alguns sonhos ficaram reprimidos por parecerem imorais numa sociedade verde a qual deve lutar pela sobrevivência do planeta. Sensações, sabores, vícios que ferem a mãe natureza, neste momento, estão socialmente proibidos, mas que a massacrante maioria da população consciente faz de forma moderada, ou ‘escondida’, sei lá.

Eu fui vegetariano por dois anos. No primeiro ano, ovolactovegetariano. Não aguentei aquela vida e abri espaço para eternas paixões: comida japonesa, a bacalhoada da minha vó e jamón, que comi no segundo ano com um certo peso na consciência, ferindo minha ‘ecoconsciência’.   E durante esse tempo, nunca recusei comidas sangrentas quando eu era visita, pois considero desrespeito quando alguém faz algo com bastante carinho, e chega um vegetariano dizendo que não come.

Hoje, aqui em Genebra, por questões de economia, eu como o que está mais barato na gôndola e que seja fácil de cozinhar, visto que meu tempo está escasso, meu dinheiro, raro, e tenho objetivo de, ao menos, não ficar anêmico.  E o peso na consciência vai perdendo força, não choro mais ao mastigar um franguinho ou um hamburger congelado. O que não pode é passar fome.

O carro foi algo mais natural, colei um adesivo na bike “um carro a menos” e vamos economizar espaço e ganhar em saúde, mas por boa parte do Brasil ter uma sociedade ainda provinciana com relação ao uso de roupas mais leves em ambientes profissionais, isso bloqueia, ainda, o crescimento do uso da bicicleta como veículo.

E, neste âmbito, como é que fica meu sonho de ter uma Kombi antiga e um Fusca? Será que vou me tornar um infrator quando comprar minha kombosa? Mesmo sabendo que sua tecnologia ultrapassada faz ser um carro poluente, será que se configurará crime no momento que andar com um carro antigo ou eu, para participar da sociedade, necessito andar de bicicleta ou comprar um carro de baixas emissões?  Mas e se o carro for para 4, 5 pessoas, e eu andar no máximo com uma pessoa ao lado, deixando o banco de trás vazio, será que a mãe natureza me mandará acertar as contas com o diabo?

O fato é que precisamos, sim, criar uma consciência coletiva, sabendo que o planeta está em coma, precisa ser medicado e policiado. Sabemos que precisamos limpar o ar, a água, a terra, todos contaminados pela ação do homem.  Mas a pergunta é: será que todo sacrifício (e prazer, incluso) em tentar ser um cara bacana para a querida e apaixonante Terra, não me permitirá comer meu sushi e andar de kombi azul calcinha (ou amarela com branco)?

Poxa, eu sou um cara gente boa, Mãe Natureza! Tanto que já andei a pé ou bicicleta quando poderia ir de carro, tanta economia de energia, tantos animais que deixei de consumir, as roupas que pouco compro, hoje estou mergulhado na ONU e OIT, tentando achar as mais diversas soluções de melhorias para toda população, não só de humanos, será que a incansável expansão da consciência não permitiria eu descansar minha própria mente, sem preocupação das minhas pegadas, quando segurar o volante do meu futuro fusquinha de cor laranja?

Será que eu posso deixar minha cabeça em paz sabendo que para cada litro de cerveja que consumo, são dez de água para produzí-lo?  Gosto de cerveja, natureza, ela me faz bem, permite minha desaceleração e relaxamento. Será que posso beber sem achar que estou matando o verde? E os churrascos de no mínimo 7 horas de duração, será que o capeta vai puxar minha orelha por gostar tanto disso, de comer de vez em quando uma carninha mal passada?

Enfim, são tantos ‘serás’ que inquietam minha mente, paralizando, por muitas vezes, minhas pernas nessa jornada tão longa (mas que passa tão rápida) chamada vida. Uma vez estagnado, fico sem as tais pegadas e sem registros na vida por pensar demais. E quanto mais penso, Sócrates, fico tão maluco quanto você foi. Além de me perder, obviamente.

Não estou aqui desistindo da vida de salvador planetário. Apenas cheguei na conclusão que já tenho lá meu saldo positivo com a natureza e com a sociedade por diversos motivos: estar envolvido profissionalmente com questóes sociambientais, gostar de andar de bicicleta, gostar do verde, do mar, do vento, por recusar produtos sem selos e certificados, etc.

Mas não vou bitolar, vou assistir os filmes e ouvir cds oferecidos na internet, vou comer o rango japoronga e vou querer ter minha kombi.  Nem por isso serei um criminoso ecosocial. O que fiz foi enfiar tudo que fiz, faço e quero fazer, nessas calculadoras naturebas sem fim, e vou relaxar a cabeça porque sempre haverá alguma coisa que estou prejudicando, mas não vou passar dias em claro por isso.

O que recomendo, sei lá se posso recomendar, é que cada um expanda sua consciência, busquem conhecimento, enxergue suas próprias pegadas, seus impactos na Terra, e que faça algo para equilibrar todo esse sistema, mas sem ficar neurótico, sem deixar de sonhar, sem peso na consciência de fazer lá sua “sujeirinha” neste planeta azul. Faça de tudo para ter saldo positivo, porque hoje eu cheguei na conclusão que aumentar freneticamente o crédito não é tão importante assim quando a consciência entra em confronto com os sonhos.

É preciso relaxar nesta vida, também.