Saia do automático

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Todo animal busca, por instinto, a facilidade. A lei do menos esforço, a fruta mais acessível para comer, o animal mais lento para caçar, a menor distância para percorrer, o trabalho mais fácil para realizar, o mais rápido para terminar, o menos desgastaste, enfim, o automático.

Conquistar pelos meios mais fáceis é digno, demonstra utilização da inteligência em otimizar o tempo. Mas será que o propósito da vida é mensurar, contabilizar, ou seja, terminar o dia sobrando tempo? Ao meu ver, o propósito é o “como aproveito o tempo”, visando a qualidade, e não quantidade.

Se eu parto de um princípio que somos seres em evolução constante, qual a vantagem de fazer o mais fácil? Conquistar o mais fácil é economizar tempo… e qualidade. Assim, aonde está a evolução?

Para evoluir é preciso mudar, e para realizar a transformação, entendo que há duas formas: a liberdade e o desconforto.

A liberdade serve para pensar e questionar o que está sendo feito em vida, para quem está vivendo, e qual é o modelo de vida que está seguindo. A liberdade de dizer “não”, ou “sim”, dependendo das circunstâncias, e estar ciente sobre os reflexos na sociedade de seus atos. Liberdade para ser quem gostaria de ser, independentemente do que se passa no mundo.

O desconforto, por sua vez, é a imposição da transformação. E o desconforto está em voltar alguns passos, mas com a cabeça de hoje.

Exercitar o desconforto é poder ter mais, no entanto, consumir menos. Exercitar o desconforto é utilizar outros meios de sobrevivência, outros meios de experiência, outros meios de existência, sabendo que há condições socioeconômicas para não participar daquilo.

Uma das maiores experiências da minha vida era enfrentar fila para almoçar no bandejão junto com mendigos, dependentes químicos, pessoas da mais baixa classe social. Eu fiz por desconforto, porque era um privilégio meu ter aquilo como opção, e não necessidade.

Poderia ter gasto dinheiro em restaurante ou em supermercado, mas eu queria, pelo menos uma vez por semana, enxergar um lado da vida que vidros blindados e escurecidos segregam nas ruas.

Uma vez tentei dormir na rua por opção, mas às 4 da manhã meu orgulho venceu e fui para meu carro chorar. Chorar porque tem gente que vive assim como necessidade, e não por experimentar a curiosidade do desconforto.

Não acho que todos devem fazer isso, estar entre os invisíveis, porque a zona do desconforto é completamente subjetiva e individual. O que é desconforto para mim, pode não ser para você. Não há certos, nem errados, mas penso que cada um deve realizar algum tipo de desconforto para evoluir na vida, enfim, sair do modo automático.

O desconforto está na forma de consumir, o que consumir, a quantidade do que consumir, o “por quê” consumir. Consumir bens, serviços, consumir cultura, informação, experiências, o consumo é infinito e livre, desde que esteja na legalidade, porém, isso deve ser mais discutido entre todos, afinal, pouca gente percebeu que inverteram a correnteza do rio: antes era o consumidor que criava a demanda, hoje são as grandes indústrias que criam necessidades.

Necessidades que não existiam passam a ser condicionadores da felicidade. Se você não comprar o celular X, o carro Y ou a roupa Z, você não gozará da felicidade.

Então, surge a frustração. E para acabar com a frustração, inventaram o financiamento. O financiamento, por sua vez, criou o endividamento. O endividamento, por fim, perpetua a vida em um sistema que engaiola o cidadão num ciclo o qual ele mal sabe que entrou e acaba tornando a vida automática do “nascer, estudar, trabalhar, prociar e morrer”.

Vida no automático leva ao automático, aos modelos sociais já existentes, sem novidade alguma. Se isso o satisfaz, abrace a causa e seja muito feliz! Porém, eu quero uma vida no manual, que leva ao desconhecido, ao desconforto e muitas interrogações.

Isso não significa uma apologia à pobreza, muito pelo contrário. Eu entendo que a sociedade vai definitivamente se evoluir quando for iniciada uma manifestação voluntária por uma vida em classe média, com o mínimo de desigualdade possível.  E para isso acontecer, é de responsabilidade dos mais abastados economicamente não inflacionarem o consumo, muito menos desenvolverem novas necessidades desnecessárias porque é isso que causa, nas classes mais baixas, o endividamento e, infelizmente, o crime.

Marcio Vieira

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