Euro: sem vinhos para o bon vivant indignado

Não deu, Euro. No começo a ideia parecia boa, uma moeda única para mais de uma dezena de países, para facilitar o comércio interno, para ser uma opção ao dólar em reservas cambiais, para equiparar economias e todas, juntas, se fortalecerem.

Em poucos anos, países como Espanha, Portugal e Grécia ficaram ricos. Propriedades inflacionaram, preços subiram, prestação de serviço cada vez mais cara. Era a chance dos imigrantes latinos e africanos conseguirem bons empregos lavando pratos e carregando cimento nas costas.

A maior burrice dos emergentes europeus foi não criar uma cadeia econômica sustentável, achando que o país sobreviveria com prestação de serviços, como o turismo. Um erro grotesco que inflacionou o consumo interno sem criar riqueza, achando que suas praias no Mediterrâneo são as maiores riquezas, afinal, o bon vivant europeu gosta de bons vinhos, boa gastronomia, clima ameno no inverno e farra no verão.

E vendo tudo isso, o pessoal do norte, o alemão que recebeu uma educação militar, rigorosa, apertava parafusos, pensava, trabalhava, suava e criava. Alemanha criou riqueza para depois consumir serviços. A Alemanha tem indústria: Automobilística, Farmacêutica, Ferramentaria, Química, entre outras que são a referência global, e todas essas possuem uma cadeia de produção enorme que gera milhões de empregos.  Quando o mundo falava que sustentabilidade é abraçar árvore, o alemão criava conceitos, uma nova indústria, um novo setor.

Enquanto Alemanha criava necessidades e soluções para o mundo, o sul achava que estava tudo bonito, afinal, o Euro é de todos, diziam, a riqueza é de todos!  Deixem os branquelos trabalharem que eu abro aqui meu vinho, só vou buscar meu primeiro emprego depois que terminar meu mestrado.

Mas a garrafa do vinho secou, bon vivant. Tirar Zapatero agora com 22% de desemprego na Espanha não resolve, são jovens gregos quebrando tudo nas ruas até mudarem de líder, são italianos revoltados com a putaria de Berlusconi, e o português é puxa-saco de espanhol, não sabe nem do que reclamar.  Não adianta falar que tem Ibiza, Algarve, Mikonos, Riviera, etc., querer ter vida de rico e confundir com o resto do país.

A boa vida na última década era uma maravilha. Ficaram ricos em poucos anos e sinto em dizer que a maioria vai perder tudo em menos tempo ainda. Não adianta botar a culpa nos poloneses, tchecos, só porque eles trabalham mais horas sem reclamar, aceitam limpar banheiro pela metade do seu salário.  Bon vivant gosta de reclamar, fazer greve sem apresentar soluções coerentes e contextualizadas. Lutar por justiça social!  Ora, isso é lindo, mas que tal arregaçar as mangas um pouco?

As pessoas se acostumam rápido com a riqueza, esquecem o que passou no passado, não enxergam que o milagre da riqueza era fictício, e agora querem ir para rua protestar, ocupar! Marchemos, Indignados! Marchar por o quê? Querem poder comprar uma pata negra no natal? Querem abrir um chardonnay ? Querem o quê, especificamente?  Vocês tiveram mais de dez anos para criar riquezas, mas só inflacionaram o que tinham antes, e agora que há concorrência no mercado de trabalho europeu e somado o crescimento da qualidade das indústrias na China, vocês se vêm sem esperança.

Não adianta ir para rua reclamar da igualdade de países, sendo que vocês foram os primeiros a gostar da farra do Euro.  Não tem mais vinho, e tão cedo não vai ter. A derrocada europeia só está começando.

A zona do Euro está em coma, vai morrer e precisa morrer para voltar ao que era antes. Quem aproveitou a oportunidade para construir riqueza, como holandeses e alemães, não vão sofrer tanto. Não adianta por culpa no chinês, no polaco ou no brasileiro que roubaram seus empregos. Afinal, vocês pouco se importavam com subempregos, achavam que limpar privada é coisa de imigrante.

A partir de agora iniciará um canibalismo na Europa. Crises aparecem primeiro naqueles mais fracos, e serão esses os primeiros a morrer.  Estima-se que 25 milhões de pessoas entrarão na condição de pobreza na Europa nos próximos anos. É muita gente que bebeu muito vinho e comeu muito queijo de frente para o mar e agora irão para a fila do restaurante popular.

O cachorro, sem comida, vai morder o próprio rabo. Resta torcer para que tal canibalismo não vire uma guerra explícita, não só de palavras. O que não me surpreenderia se ocorrer.

Marcio Vieira

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