Entre os Invisíveis

Por mais laranja que seja seu uniforme, é um invisível

Nas últimas semanas tive experiências bem impactantes para mim, onde fiquei próximo das pessoas invisíveis.  Invisíveis são muitos, milhões em todo mundo. São garis, entregadores de jornal, lavadores de banheiros e pratos, e tantas outras pessoas excluídas, de alguma forma, da sociedade.

Fiz, num sábado, limpeza de escritórios. Sabe aquele lixo que deixou no cesto debaixo de sua mesa? Sabe aquele clip que você deixou cair mas não pegou do chão? Sabe aquela xícara de café suja que ficou na copa? Sabe o cesto de lixo que acumula no banheiro? Sabe o que acontece com tudo isso?

São os invisíveis em ação que trabalham enquanto outros descansam,  na madrugada antes de você entrar ou quando você já saiu do trabalho. São aqueles que fazem o serviço no silêncio, não escutam elogios por fazer um serviço bem feito mas, quando o contrário acontece, a crítica chega com extrema velocidade. Você já ouviu algum cliente de restaurante elogiar o prato extremamente limpo?  Não, pois é a “obrigação” de alguém que está lá atrás, nos fundos de uma cozinha.

E você já ouviu algum empregado de gravata elogiar a limpeza do vidro espelhado do escritório o qual trabalha, ou ainda retirar as centenas de bitucas o cinzeiro que fica na porta do prédio? Você já ouviu alguém dizer “obrigado” para o gari que limpa a sarjeta das ruas? Pois bem, esses são alguns exemplos de pessoas que são tratadas como objetos, robôs, as quais nunca perguntaram sobre seus sentimentos e ressentimentos.

Quando entregava jornal, em 2005.

Minha primeira experiência entre os invisíveis foi na Inglaterra, quando entregava jornais no centro de Birmingham. No começo foi bem difícil tomar ciência da minha própria inexistência para milhares de pessoas. Todos os dias as pessoas se esquivavam, não olhavam nos meus olhos, fingiam pressa e, na maioria dos casos, só enxergavam o jornal, focando a visão em uma única direção semelhante aos antolhos usados em cavalos. O entregador, o ser humano e sentimentos que estão ali são de menos.

A falta de um simples “bom dia” para quem fica horas em pé com braço esticado, sorrindo, oferencendo um gratuito jornal, é um soco no queixo da honra do “coitado” que está ali. É querer demais desejar que tal pessoa receba um “bom dia” ou um “obrigado” olhando nos olhos? Mas nos dias que eu recebia um “obrigado” ou uma sincera troca de olhares de uma fração de segundo, todo aquele momento era guardado, dando energia para as milhares de recusas e desrespeito durante todo o dia de trabalho.

A partir de então, por mais que seja um “lixo” a mais no carro, nunca deixei de recusar folhetos em semáforos, e sempre agradeci olhando nos olhos do entregador. Pode ser mais um papel de um consumo desordenado, mas do outro lado do vidro do seu carro há uma pessoa, e dentro dela há sentimentos iguais aos seus. Mas, voltando às experiências desta semana, além limpar escritórios, almoçei por diversas oportunidades num restaurante gratuito para mendigos, desempregados, e outras pessoas sem poder aquisitivo algum. Logo quando se entra é perceptível o clima mais pesado, um ar de tristeza, melancolia, frustração e decepção que se espalha entre todos. Pobres famintos, imigrantes ilegais, viciados em drogas, desempregados, loucos e aqueles que não querem nada na vida aproveitam um simples almoço. À tarde vão para outro posto fazer um lanche, e a noite em outro.

Assim vão vivendo, ou melhor, sobrevivendo. Mendigos que toda sociedade sonha que desapareçam (tem até os que desejam a morte deles), que não sujam ou atrapalhem quando dormem em calçadas ou praças de qualquer cidade do mundo. Muitos deles já perderam o respeito que tinham pela própria vida, não conseguem mais distinguir alguns sentimentos e vivem apenas como animais, como cães de rua, apenas com os sentidos de fome, frio e sede.

Já fiz diversos trabalhos voluntários, há muita gente que atua em maravilhosas causas sociais, mas tenho certeza que a maioria absoluta não sabe o real sentimento de estar do outro lado da moeda. Moeda essa que eles não têm (ou não sabem usar), moeda que divide em classes bilhões de indivíduos. Lá, mesma mesa e comida dividíamos por alguns instantes, que tais momentos me fizeram refletir muito sobre uma injusta sociedade. Me fez pensar o quanto sou privilegiado no mundo, mas me fez mais: abrir o corpo para sentimentos e sensações novas que recomendo à todos.

Sim, fui pra tal restaurante porque estou desempregado e preciso economizar dinheiro num dos países mais caros do mundo. Fui para lá porque, momentaneamente, sou um deles, mas tenho a sorte de não ter aquelas refeições gratuitas como último recurso para viver. No encontro de invisíveis, por algum momento, fiz parte deles.

Pessoas às margens da sociedade, mas que são, assim como eu e você, pessoas merecedoras de respeito e cordialidade. Um sorriso, um “obrigado”, um “bom dia”, por mais que você não seja obrigado, não dói nada na hora de dizer. Mas, para quem recebe, é estimulante, capaz de mudar não só o dia, mas quem sabe, o futuro.

Uma sugestão: que tal deixar, propositalmente, em sua mesa do escritório, um recado e uma lembrança para a pessoa que limpar na madrugada, mais ou menos assim: “Moça da limpeza, não te conheço, mas este sonho de valsa é uma forma simples de agradecimento por limpar minha mesa e meu cesto de lixo todos os dias.”

Marcio Vieira

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4 Responses to Entre os Invisíveis

  1. Inã Cândido disse:

    Marcio,

    Muito interessante essa sua narrativa. Aqui em João Pessoa, na UFPB um professor se fantasiou de faxineiro e nenhum dos seus companheiros quando passaram por ele, o reconheceu.

    Inclusive, um desses, eu falava dessa invísibilidade social com alguns dos meus amigos e coincidentemente você fez esse belo post.

    Abraços e parabéns pelo blog!

  2. Julio Cardoso disse:

    Olá Marcio,

    Parabens pelo post, mas infelizmente estas pessoas são ignoradas e também discriminadas, pois trablhei por 4 anos na área de informática de uma universidade no período noturno, justamento no período onde estas pessoas custumam fazer seu serviço e como sempre fui uma pessoa comunicativa falava com todas (o pessoal da limpeza eram mulheres) e em certa ocasião uma delas comentou que se sentia mal quando tinha que fazer a limpeza do setor quando um determinado cordenador estava presente, pois além delas darem boa noite e ele não responder, ainda fazia cara feia com a presença das mesma. É lamentável uma postura dessa principalmente de uma pessoa que tinha uma certa formação pessoal e posição financeira superior a delas, ou seja, vemos que a questão da educação e bom senso independe de ter ou não dinheiro. Um grande abraço e peçamos ao grande arquiteto do universo que ajude na evolução destas pessoas.

  3. Thiago Cagna disse:

    Como sempre muito bom!!! Parabéns pelo Post Marcinho!

  4. […] acho que todos devem fazer isso, estar entre os invisíveis, porque a zona do desconforto é completamente subjetiva e individual. O que é desconforto para […]

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