O Gigante e o bastardo

06/10/2014

occupy_hong_kong

Um dia após as eleições, as manifestações de Junho de 2013 me demonstraram apenas uma coisa: formamos uma sociedade alienada e preguiçosa, em que aqueles que têm a possibilidade de ajudar a transformar o país, limitam-se à apenas rechear o mundo cibernético com mais baboseiras.

Ano passado fui em 2 manifestações. A primeira tomei gás de pimenta na cara e, na segunda, aquela que tomou proporções gigantescas, virou uma micareta com um bando de pessoas vagando por horas pela cidade, e pararam na frente do Palácio do Governo para cantar o hino e ir embora superficialmente contente. Perdeu o sentido, a coxinhização do protesto, o que me aborreceu profundamente.

Foi provado que o brasileiro não sabe protestar e, pior ainda, cansa rápido e esquece. Na Copa do Mundo, 99% dos que manifestaram um ano antes cantaram o hino à plenos pulmões, dando razão à corrupção e o superfaturamento de obras, muitas das quais persistem inacabadas.

O atual governo, até hoje, não apresentou os resultados financeiros obtidos no famigerado evento, e este boleto vai chegar para todos nós. O mesmo que aconteceu com países mal preparados para o tamanho do rojão, como Portugal, Grécia, Africa do Sul, que sediaram eventos esportivos populistas e só depois perceberam que o buraco criado gerou enorme crise.

O Gigante que tinha acordado, tão aclamado e reverenciado nas redes sociais, não passa de um bobalhão. Somos bobos, ignorantes e, pior ainda, arrogantes por supervalorizarmos um ínfimo esforço ilusório achando que em 20 dias de manifestações poderia mudar alguma coisa no país.

Não, meu caro. O esforço deve ser constante. Antes de tudo, é necessário mudar o conceito de patriotismo criado aqui. Do jeito que demonstra, o Brasil é e sempre será desigual, desumano e desunido, jogando no lixo a grande oportunidade que teve para discutir política em alto nível.

Enquanto isso, do outro lado do mundo, um filho bastardo prova que é possível enfrentar o governo. Hong Kong luta contra um pai adotivo desde 1998, este que nunca aceitou a liberdade do filho: O autoritário governo chinês quer controlar as eleições em Hong Kong com apenas os candidatos escolhidos pelo Partido Comunista.

Os estudantes de Hong Kong, então, ocuparam a cidade, assim como os brasileiros fizeram ano passado. A grande diferença é a clareza dos objetivos. Enquanto Hong Kong luta pela manutenção da liberdade e democracia, o Brasileiro que se manifestou estava mais preocupado com a selfie no meio da multidão.

Não, nem o Gigante, nem ninguém, acordou. Junho de 2013 foi apenas uma revolta anárquica (longe, bem longe das palavras de Bakunin). Foi a revolta dos “Saco-cheio”, dos indignados, de um povo alienado que não sabe o que realmente quer na vida porque o Estado não educou para pensar.

Então o brasileiro incorporou o discurso ufanista de Galvão Bueno e sua trupe global, e acreditamos que somos fodas, afinal, temos 5 estrelas no futebol e somos os vencedores do desafio de verão no biribol, ou qualquer evento transmitido direto das areias de Copacabana.

A realidade é que estamos bem longe de sermos fodas. Tomamos diariamente 7 a 1 na educação de vizinhos, como Chile, outro 7 a 1 em crescimento industrial do México. Tomamos 7 a 1 em desenvolvimento humano da Colômbia. Isso apenas para ficar no nosso continente, porque se atravessarmos os grandes mares, a humilhação será maior.

Tomamos goleadas diariamente, perdemos competitividade internacional, despencamos no ranking de universidades, e ficamos calados. Calados porque a geração Y brasileira não sofreu com ditadura, não sofreu com inflação ou outros problemas de gerações passadas, então se acomodou quando o assunto é questionar e pressionar os governantes. Vivemos num país em que a educação naufragou nos últimos 20 anos.

Nenhum candidato, nos debates, apresentou projetos realmente convincentes para melhorar a educação, que é o pilar central para qualquer desenvolvimento socioeconômico. É com educação que se gera empregos, é com educação que diminui a criminalidade, etc. É com educação que se gera riquezas, como faz a Coreia do Sul, já citada neste blog.

É vexatória a representatividade política oferecida, porém, é completamente proporcional ao nosso anseio por mudança: que é zero.

Enquanto isso, o filho bastardo da China nos prova que não precisa ser gigante para lutar. Hong Kong, um pequeno território, está peitando um Dragão Chinês, apresentando ideias claras, objetivas que, principalmente, unem todas as crenças políticas dos oprimidos.

Aqui ninguém percebe que esse Fla-Flu político de vermelhos e azuis estagnou o país, e o ego não permite enxergar que ficamos para trás.

Marcio Vieira

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Cartão Vermelho, vermelho de vergonha

22/02/2013

vermelho

Morreu Kevin aos 14. Quando morre uma criança, um adolescente, morre também o futuro e os sonhos que jovens carregam nos olhos e no coração.

Adultos são pessoas chatas, mal-amadas, cheias de ressentimentos e moldadas pelo socialmente correto, coisas que as crianças não sabem ainda o que é, por isso os sonhos são mais belos e puros. Em resumo, com o passar dos anos é estragada a essência das pessoas.

Alguns desses adultos estragados, infelizmente, carregam ódio no coração por uma infinidade de justificativas: falta de educação, falta de emprego, problemas estruturais na família, desigualdade social, racial, etc etc etc.

E tais pessoas, em determinados momentos, viram selvagens truculentos. Estádio é o destino, ingresso é a carta de alforria para poder gritar, xingar, afinal, se pagam ingresso tem direito de xingar!  Isso já escutei da boca de renomados jornalistas esportivos.

A ignorância perdeu o controle…

Não, meu caro!! Se eu pago a lavagem do meu carro, não tenho direito de xingar o lavador. Se eu pago meu almoço, não tenho direito de xingar o cozinheiro, se eu assisto teatro, não tenho direito de xingar o ator,  se eu pago meu ingresso para o futebol, isso não dá direito de ofender outras pessoas, sejam jogadores ou juízes.

Futebol é um zoológico invertido em ficam na plateia os animais. E são animais selvagens.

Mas Kevin morreu, e vem torcidas rivais culpar o Corinthians, o time dos maloqueiros, desdentados e presidiários. Sim, Corinthians tem mais presidiários, mais desdentados e maloqueiros que todos os outros. Assim como tem mais advogados, médicos, policiais, padres incluindo os pedófilos, hare-khrisnas, cozinheiros, prostitutas, políticos corruptos, etc. Tem mais porque é maior, a conta é simples de fazer.

O Juventus da Moóca tem seus bandidos violentos e desdentados, mas infinitamente menos que o Corinthians, que o Flamengo ou Palmeiras. É proporcional a questão da violência no futebol porque é um problema social que transcende o estádio.

Ser humano é um animal domesticado assim como outros, como cães e gatos. Se for mal treinado, mal-amado e não for educado, só vai dar problema. A diferença é que os quadrúpedes domésticos, no máximo, mordem ou fazem xixi no sofá por rebeldia. O ser humano é pior, capaz de matar, apertar o gatilho, estourar o fogo de artifício na cabeça de um inocente.

O problema não é o torcedor maloqueiro do Corinthians, o problema está no brasileiro que não foi treinado, educado, capacitado para conviver com semelhantes. O problema é crônico e a primeira pedra desse efeito-dominó se chama “Educação”. Sem ela, dá merda, dá caos, dá tristeza.

Sem educação não se desenvolve uma economia, muito menos uma sociedade. E o Brasil é comprovadamente um país sem educação, afinal, suas riquezas não são produzidas, apenas extraídas há 500 anos, desde o pau-brasil, ouro, até o… Neymar!

É o povo errado no país certo, e assim as divindades equilibram o mundo.

A falta de educação no Brasil resulta, em larga escala, a existência de mendigos, pedintes, drogados, prostitutas, corruptos, ladrões, assassinos. Suíça também tem os seus bandidos, Coreia do Sul também tem seus mendigos, mas não é proporcional à diferença de habitantes com Brasil, e esse é o “X da questão”.

Suíça, Alemanha, Coreia do Sul e tantos outros “desproporcionalizaram” Violência x Habitantes porque investiram em educação, tiveram paciência, e com educação conseguiram gerar empregos, capacitaram pessoas para poder consumir e viver de forma mais justa, e assim diminuíram justificativas para violência. Eles produziram a riqueza, ao invés de extrair a riqueza.

Precisa uma morte em outro país para demonstrar que o torcedor brasileiro é primitivo?  E as centenas de vidas perdidas em brigas estúpidas entre torcidas rivais no Brasil?  O jovem boliviano não é mais importante que os Joãos e Josés que morreram no Brasil por causa do futebol. O jovem Kevin é, na verdade, a tradução dos precários valores morais, éticos e sociais que existem na “terra do futebol”.  Quanta contradição!

Enjaular 12 selvagens corinthianos na Bolívia não é a solução. Proibir a torcida do Corinthians de frequentar estádio não é a solução. Isso apenas remedia um problema e tapa apenas um dos furos do barco, que continua cheio de água e naufragando.

O problema vai além do Parque São Jorge e de Itaquera. É um problema nacional que, sendo assim, deveria o futebol brasileiro ser suspenso até que se crie condições minimamente humanas para convívio com semelhantes.  O Brasil merece cartão vermelho. Vermelho de vergonha.

É preciso ir atrás da causa de pessoas violentas existirem, assim, quem sabe daqui uns 30 anos, outros Kevins não terão seus sonhos interrompidos por rojões e poderão viver a infância como ela deve ser: pura e sonhadora.

Marcio Vieira


Lições coreanas ao Brasil

06/08/2012

Estão na metade os Jogos Olímpicos de Londres, mas já dá para antecipar algumas conclusões. E o que mais destaca aos olhos é o desempenho da Coreia do Sul, disputando com os principais países as melhores posições no quadro de medalhas, e cabe, aqui, uma pequena comparação com o desempenho brasileiro.

A Coreia do Sul é um pequeno país de 100 mil km(o equivalente à Santa Catarina, 40% do estado de São Paulo, ou, ainda, 1,5% do território brasileiro), e possui 49 milhões de habitantes, enquanto o Brasil tem seus 8.500.000 Km2 com quase 200 milhões de habitantes.

O ponto de partida desta comparação entre as duas nações tem quase seis décadas, e os rumos que cada país fez a partir de então. Em 1953, a Guerra da Coreia (1950-53) terminara com cerca de 3 milhões de mortos, uma terra completamente devastada separada entre dois países com regimes políticos completamente distintos.

Por aqui, há 60 anos, era a segunda passagem de Getúlio Vargas na presidência do Brasil, e iniciava, neste período, o Plano de Metas (intitulado como 50 anos em 5), acelerando e economia brasileira que, se por um lado desencadeou um enorme endividamento, do outro foi o início de um dos maiores crescimentos econômicos registrados no mundo durante as décadas de 50, 60 e 70.

Enfim, o Brasil se apresentava como eternizada expressão “nação do futuro”, enquanto a Coreia do Sul só via um caminho para ser reconstruída: investir na educação. E foi o que os asitáticos fizeram, e muito bem feito.

A única forma de produzir riqueza à uma nação é investir maciçamente em educação. O Brasil, rico em recursos naturais, sempre extraiu suas riquezas do solo, sem demonstrar interesse em formar uma educação de qualidade, o que, com o passar das décadas, os resultados em medalhas numa olimpíadas transparecem a política social que cada país conquistou: segundo a ONU, é a Coreia do Sul o país com maior carga de estudos até os 25 anos de idade no mundo.

Os frutos desse investimento estão em todas as principais áreas que formam uma cadeia industrial grande e sustentável, as quais cito apenas duas, resumidamente:

1. Setor automotivo: a Coreia do Sul tem como principais marcas a Kia Motors e Hyundai (mesmo grupo econômico), além da SsangYoung, da Samsung Motors (Grupo Renault) e Daewoo (Grupo Chevrolet) que produziram, juntas, aproximadamente 8 milhões de veículos em 2011. Pergunto: qual marca genuinamente brasileira de veículos há? Existiu a Gurgel até o início dos anos 90 e, depois disso, a maior marca brasileira é a Troller (hoje pertencente à Ford) que produziu ano passado cerca de 1.300 veículos, o que equivale à 0,015% do que a Coreia do Sul fez no mesmo período. Repito: 0,015%

A indústria de automóveis brasileira está, há anos, nas mãos de grandes grupos internacionais que, além de produzir carros com péssima segurança e qualidade no Brasil, têm, neste mercado, seu maior lucro mundial. Só em 2011, remeteram às matrizes europeias, americanas e japonesas mais de cinco bilhões de dólares obtidos no Brasil. Ou seja, continua a riqueza sendo extraída no Brasil e aplicada no exterior.

2. Outro setor, de tecnologia: enquanto o Brasil tem as medianas Itautec e Positivo para informática, e CCE para televisores como principais marcas brasileiras, todas com baixo índice de nacionalização dos componentes, sobrevivendo, praticamente, como montadoras de produtos eletrônicos, os sul-coreanos têm Samsung,  que tem um faturamento anual equivalente ao PIB da Argentina, além de outra gigante global do setor, a LG, empresas, inclusive, com mais de dez mil funcionários só nas fábricas e escritórios que possuem no Brasil.

Esses dois exemplos, automotivo e tecnológico, foram construídos do zero, porque o governo coreano se propôs a criar riquezas a partir da capacitação de seus habitantes. É demorado, é preciso ter paciência pois são pelo menos 25 anos, o tempo de uma geração acadêmica, o período mínimo para o investimento profissional colher seus primeiros frutos.

Basta lembrar os primeiros carros importados da Coreia do Sul, a partir da abertura das importações (199o). Além do preconceito por vir da Coreia do Sul, eram produtos de qualidade duvidosa, mas bem superiores às carroças de Collor. Porém, vinte anos depois, novos profissionais, com mais ensino e mais qualificados que os primeiros, desenvolveram a indústria coreana, tanto que hoje são carros de ótima qualidade por preços competitivos, precisando, inclusive, o governo brasileiro criar mecanismos tributários emergenciais de proteção à indústria brasileira para controlar as importações com a desculpa de proteger o caríssimo trabalhador brasileiro.

Na esfera esportiva, viajaram para Londres 258 atletas brasileiros enquanto a Coreia do Sul enviou 245 atletas, praticamente o mesmo número, só que a competência técnica do sul coreano é infinitamente superior à do brasileiro que se mostra no quadro de medalhas. Isso se deve à um investimento de cinquenta anos em educação, algo que o Brasil não fez pois ficou limitado à extrair recursos ao invés de produzir novas riquezas.

Enquanto os coreanos investem no ser humano para, a partir daí, ele ter qualificações para crescer social e economicamente, o Brasil continua enxergando na contra-mão ao dizer que investe no esporte para tirar pessoas da marginalidade. Com este pensamento engessado do governo brasileiro há décadas, o Brasil sempre remediará uma situação e nunca vai combater a causa do problema. O barco está furado, e o governo brasileiro tira água com a caneca ao invés de consertar o furo, assim se pode resumir.

Atletas brasileiros brotam, surgem ao acaso e as medalhas olímpicas mascaram o descaso social existente. Culturalmente falando, o atleta brasileiro está muito despreparado. Psicologicamente, o precipício é ainda maior porque os atletas brasileiros não sabem lidar com pressão, onde a própria população brasileira encara a derrota como fracasso. Outras nações recuperam o ser humano na derrota, motivando o atleta para o próximo desafio.

A Coreia do Sul entrou na sua terceira geração acadêmica altamente capacitada, o pequeno país asiático vai continuar crescendo, construindo novas tecnologias rentáveis, qualificando seres humanos para nas mais diversificadas profissões, inclusive a de atleta, enquanto resta ao Brasil torcer para cair do céu novos Pelés, Scheidts e Cielos, para cegar mais a população, fingindo que o país é um celeiro de craques.

Marcio Vieira


Contra o vento não vão mais caminhar

21/05/2012

Entre tchus, tchas, lê lês e lá lás,

Os poetas foram deixados para trás

Porque hoje são traseiros à mostrar

Para todo mundo, no mundo inteiro, apreciar

Mas não precisamos voltar muito para comparar

Bastam alguns anos, e questionar:

O que fizeram com a música popular?

Antes havia uma letra para pensar

Agora são sílabas aleatórias à cantar

Feitas de lê lê lês, tchererês e lá lá lás

De gente que não têm noção o mal que faz

Estão acabando com uma história que há de se orgulhar

Encaixando palavras, sem contexto, só para rimar

E quando não tem palavras, enfiam um outro tchá

Coitado do Jobim, da Elis, e tantos outros que estão à chorar

Mais coitado é o povo, ignorante, que estás à escutar

De pessoas que não tem nada de bom para influenciar

Palco e microfone, hoje, são só para rebolar

Enquanto antes, eram pensantes palavras para protestar

Oh, pátria de chuteiras, onde sua voz doce foi parar?

Por que tanta preguiça para compor e cantar?

Por que formar estrelas quem não sabem brilhar?

Oras, é mais fácil tchus e tchás para memorizar!

Vai vender mais, rapaz!

Deixem os verdadeiros poetas no bar, à lamentar!

Pra que letras grandiosas se o povo não sabe raciocinar?

É um Brasil comandado por pessoas que não querem educar

Gente ignorante, coitados, que não podem descobrir como votar

Que preferem ver as fotos nuas de atriz famosa para comentar

Do que discutir sobre a merda da educação que aqui está

Criam-se mais uma geração perdida com doses de tchus e tchás

É verdade também que antigamente tinha música ruim para se escutar

Mas havia espaço aberto para boa música tocar

Hoje, se quer ver gente boa, prepare o bolso para gastar

Elitizaram a verdadeira música popular

Enquanto a vulnerável maioria do povo, desamparada, está

Futuro sombrio nos aguarda, não há argumentos para discordar

Contra o vento e sem documentos, estes de hoje, não vão mais caminhar

Marcio Vieira