Saia do automático

10/01/2014

cambioautomatico

Todo animal busca, por instinto, a facilidade. A lei do menos esforço, a fruta mais acessível para comer, o animal mais lento para caçar, a menor distância para percorrer, o trabalho mais fácil para realizar, o mais rápido para terminar, o menos desgastaste, enfim, o automático.

Conquistar pelos meios mais fáceis é digno, demonstra utilização da inteligência em otimizar o tempo. Mas será que o propósito da vida é mensurar, contabilizar, ou seja, terminar o dia sobrando tempo? Ao meu ver, o propósito é o “como aproveito o tempo”, visando a qualidade, e não quantidade.

Se eu parto de um princípio que somos seres em evolução constante, qual a vantagem de fazer o mais fácil? Conquistar o mais fácil é economizar tempo… e qualidade. Assim, aonde está a evolução?

Para evoluir é preciso mudar, e para realizar a transformação, entendo que há duas formas: a liberdade e o desconforto.

A liberdade serve para pensar e questionar o que está sendo feito em vida, para quem está vivendo, e qual é o modelo de vida que está seguindo. A liberdade de dizer “não”, ou “sim”, dependendo das circunstâncias, e estar ciente sobre os reflexos na sociedade de seus atos. Liberdade para ser quem gostaria de ser, independentemente do que se passa no mundo.

O desconforto, por sua vez, é a imposição da transformação. E o desconforto está em voltar alguns passos, mas com a cabeça de hoje.

Exercitar o desconforto é poder ter mais, no entanto, consumir menos. Exercitar o desconforto é utilizar outros meios de sobrevivência, outros meios de experiência, outros meios de existência, sabendo que há condições socioeconômicas para não participar daquilo.

Uma das maiores experiências da minha vida era enfrentar fila para almoçar no bandejão junto com mendigos, dependentes químicos, pessoas da mais baixa classe social. Eu fiz por desconforto, porque era um privilégio meu ter aquilo como opção, e não necessidade.

Poderia ter gasto dinheiro em restaurante ou em supermercado, mas eu queria, pelo menos uma vez por semana, enxergar um lado da vida que vidros blindados e escurecidos segregam nas ruas.

Uma vez tentei dormir na rua por opção, mas às 4 da manhã meu orgulho venceu e fui para meu carro chorar. Chorar porque tem gente que vive assim como necessidade, e não por experimentar a curiosidade do desconforto.

Não acho que todos devem fazer isso, estar entre os invisíveis, porque a zona do desconforto é completamente subjetiva e individual. O que é desconforto para mim, pode não ser para você. Não há certos, nem errados, mas penso que cada um deve realizar algum tipo de desconforto para evoluir na vida, enfim, sair do modo automático.

O desconforto está na forma de consumir, o que consumir, a quantidade do que consumir, o “por quê” consumir. Consumir bens, serviços, consumir cultura, informação, experiências, o consumo é infinito e livre, desde que esteja na legalidade, porém, isso deve ser mais discutido entre todos, afinal, pouca gente percebeu que inverteram a correnteza do rio: antes era o consumidor que criava a demanda, hoje são as grandes indústrias que criam necessidades.

Necessidades que não existiam passam a ser condicionadores da felicidade. Se você não comprar o celular X, o carro Y ou a roupa Z, você não gozará da felicidade.

Então, surge a frustração. E para acabar com a frustração, inventaram o financiamento. O financiamento, por sua vez, criou o endividamento. O endividamento, por fim, perpetua a vida em um sistema que engaiola o cidadão num ciclo o qual ele mal sabe que entrou e acaba tornando a vida automática do “nascer, estudar, trabalhar, prociar e morrer”.

Vida no automático leva ao automático, aos modelos sociais já existentes, sem novidade alguma. Se isso o satisfaz, abrace a causa e seja muito feliz! Porém, eu quero uma vida no manual, que leva ao desconhecido, ao desconforto e muitas interrogações.

Isso não significa uma apologia à pobreza, muito pelo contrário. Eu entendo que a sociedade vai definitivamente se evoluir quando for iniciada uma manifestação voluntária por uma vida em classe média, com o mínimo de desigualdade possível.  E para isso acontecer, é de responsabilidade dos mais abastados economicamente não inflacionarem o consumo, muito menos desenvolverem novas necessidades desnecessárias porque é isso que causa, nas classes mais baixas, o endividamento e, infelizmente, o crime.

Marcio Vieira

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Vida do rico, assunto do pobre

04/08/2011

E agora a dúvida é quem dirigia a Land Rover blindada que atropelou e encurtou a vida de mais um jovem paulistano. Entre mesas de bar, recepções, elevadores, filas e quaisquer outras aglomerações, reuniões ou encontros, a dúvida entre todos é se era mesmo a namorada que dirigia o carro de luxo. Algumas semanas antes, era a perplexidade dos 150km/h de um alucinado motorista de um Porsche que acabou com a vida de uma jovem advogada. Em ambos os casos, o principal fator para tanto comentário não é o álcool no sangue ou a gravidade da tragédia, mas sim o dinheiro.

Nos últimos dias comecei a refletir sobre o dinheiro, sobre o peso que ele tem e os reflexos que ele causa. O dinheiro (e a falta dele) é o motivador para tanta conversa, tanto debate, tanta repercussão de tragédias da vida moderna principalmente por causa do orgulho do ser humano. Afinal, será que se fosse um atropelamento de um fusquinha na periferia do Jardim Mão na Cabeça prenderia nossa atenção? Será que se fosse um Gol turbinado do manolo vida-loka nos mesmo 150km/h causaria tanta indignação?

Crime do rico vende mais

Claro que não. Não só o crime do rico, mas toda sua vida, chama mais atenção da sociedade, e esta, por sinal, comprova seu provincianismo mesmo dentro de uma cidade de mais de 10 milhões de habitantes. É como se o rico não pudesse cometer erros, assim julga a sociedade, incrédula quando acontece. A sociedade brasileira de hoje é a mesma de duzentos anos atrás: só foi alterado o cenário, mas a cabeça limitada que pensa no que os outros têm, o poder de influência, o poder do dinheiro, o poder de sei lá o que mais, etc., faz você ser maior ou menor que alguém.

As novelas globais (sempre com grandes núcleos em famílias ricas do leblon ou jardins), as notícias pelo mundo em que um casamento real britânico dá mais audiência que a guerra civil em diversos países árabes, etc. reforçam esta teoria. O Datena vai perder tempo com os famélicos africanos?  Claro que não!  Mas o bonitão do Porsche terá notícias pelas próximas semanas, até um próximo crime que chocará a sociedade.

Aliás, não consigo entender o motivo da sociedade se chocar mais com o crime do rico. Talvez porque eles “tiveram estudo”, emprego, base, tudo aquilo que os podres presos dizem nunca ter tido. Mas a sociedade se esquece que todos são humanos, suscetíveis a erros e acertos, e não é o bolso recheado que fará diferença na hora de agir. O dinheiro ajuda a tirar alguém da cadeia com melhores advogados, etc., mas o dinheiro não muda a ação do homem.

Assim a mídia sensacionalista agradece quando um rico ou famoso faz besteira, é garantia de lucro e audiência dos pobres! Sim, são os pobres os curiosos que querem saber o que os ricos consomem, fazem, quem pega quem, quem exerce poder, quem influencia, quem lidera, quem tem mais dinheiro, etc. Celebridades de uma novela real, Nardonis e Richthofens pagam dinheiro por ter … dinheiro!  Afinal, num país de Silvas e Santos, um sobrenome incomum faz a diferença na hora de noticiar um crime e chamar atenção.

O povo, povão, independentemente de condição socioeconômica, deve entender que endinheirados e famosos não são obrigados a dar bons exemplos para ninguém, assim não criaria tantos comentários, muitos deles precipitados, palpitando sobre o crime ocorrido. Mas no subconsciente do brasileiro o maior crime não é o tipificado em leis, mas sim o de ter dinheiro. Parece ser uma afronta ter dinheiro no Brasil, um desrespeito a maioria.

Ricos não são obrigados a dar dinheiro aos miseráveis. Aliás, ninguém é obrigado a dar dinheiro para ninguém, mas é comum no Brasil ouvir coisas do tipo “onde já se viu andar com um carro de meio milhão de reais” ou “esse cara, além de assassino, deve ser um sonegador para ter um carro desse”, etc. Pessoas com mais dinheiro pagam pelo julgamento precipitado de um povo preconceituoso, querendo achar justificativas em supostos trambiques e falcatruas daqueles que têm condição de comprar Porsches do que aceitar que tais pessoas foram mais competentes ou bem sucedidas em suas atividades.

Mais uma vítima, infelizmente, como outra qualquer

No Brasil soa como insulto desejar ser milionário para gastar com carros e coisas desnecessárias, tanto que a promessa de qualquer um quando faz seu jogo na mega-sena é “ajudar os mais pobres”.  Se eu desejar comprar uma Ferrari e não dar nada pra ninguém, nem para o pedinte do semáforo, vão me recriminar. Ora, o dinheiro será meu, faço o que bem entender com ele, devendo pagar o preço daquilo que faço, não daquilo que deixo de fazer. Assim, a imensa maioria dos brasileiros têm que entender que tais obrigações devem ser exigidas dos políticos, e não daquele que tem mais dinheiro que você.

O endinheirado tem os mesmos direitos e deveres que qualquer outra pessoa, mas no Brasil, e em outros países também, o rico deve reprimir seu poder para não “ofender” a maioria.  Se houve passeata quando o filho skatista de uma atriz foi atropelado, será que os mesmos manifestantes estariam protestando se o crime fosse lá no Angela, no Capão ou Graja, etc. com um garoto “qualquer”?  (Sim, é esse o termo que se utiliza quando um pobre morre) Morre-se, no silêncio, todo dia, na periferia, e tanto o filho da atriz, tanto o atropelado na Vila Madalena ou a jovem advogada, são quaisquer pessoas, assim como eu e você.

Se atropelaram alguém em alta velocidade com uma Land Rover  ou Uno Mille, a indignação deve ser a mesma, mas no subconsciente de cada um de nós (população, imprensa, etc.) é aonde se descobre quem é mais materialista, que prioriza mais a imagem, o status, distanciando daqueles que olham a cena de forma mais neutra.

Para desenvolver a sociedade, deve-se parar de apontar o dedo fora de hora, devendo também parar de querer cuidar da vida alheia, do jardim do seu vizinho, do pop-star ou as pessoas de seu convívio. Faça por você e pra você.

Muito do que se vê, não é.

Marcio Vieira