Consciência da coexistência

17/08/2011

Caos, por quê?

Trânsito ruim? Filas no supermercado, no banco, na balada? Situação chata, né? Dá raiva, dá vontade de explodir tudo? Calma, você coexiste!

Quando fazia alguns cursos de respiração (que, aliás, recomendo para todo mundo) da Fundação Arte de Viver, num dos dias peguei um trânsito extremamente complicado, tudo parado, era um caos. Nesse dia, provavelmente, já estava dentro do processo de reflexões que o curso estimula e enxerguei algo que antes nunca tinha enxergado ao ouvir tantas buzinas: a coexistência.

Eu poderia fazer parte da orquestra urbana que estressa qualquer pessoa, eu estava atrasado, o trânsito me prejudicava, mas refleti algo que nunca tinha parado para pensar: eu, dentro daquele carro, naquele trânsito, contribuia para o trânsito existir. Quantos de nós, moradores de grandes centros urbanos, já ficou puto da vida com o trânsito? Vocês já perceberam que vocês também são causadores do trânsito?

Naquele dia, olhei para o lado direito e tinha um ônibus, não tão cheio, com pessoas cansadas voltando de seus trabalhos, e daí olhei para o resto do meu carro, vazio, com lugar para mais quatro pessoas. Aumentei o campo de percepção, analisei cada carro ao redor, de cada dez automóveis, apenas 1 ou 2 tinha mais de uma pessoa no carro, sendo que a maioria esmagadora dos carros cabem 5 pessoas.

Desde então, nunca mais buzinei para reclamar do trânsito, eu não me sentia no direito de reclamar de algo que eu contribuia para existir. Reclamo quando vejo caixas fechado, locais com poucos atendentes, causando filas desnecessárias. Mas, nas ruas, nunca mais reclamei. Quem tem direito de reclamar do trânsito são os usuários de transporte público, deficitário, sujo, inoperante, desconfortável, atrasado, etc.

Quem também tem direito de reclamar do trânsito é o ciclista, que não tem pista exclusiva, que não polui, que sofre com a ignorância e desrespeito de grande parte dos motoristas, que no espaço de um  carro pode trafegar, com segurança, seis bicicletas, e foi depois disso, também, que colei um adesivo na minha bicicleta de “um carro a menos”. Muito, não tudo (por preguiça), posso fazer de bicicleta, posso tirar um carro das ruas, e tudo isso foi feito após minha expansão da consciência acerca das causas e efeitos das minhas atitudes.

Então, antes de reclamar do trânsito, antes de buzinar, pense: você contribui para o trânsito? São Paulo é um caos em muitos aspectos, mas são seus habitantes os grandes responsáveis por isso. São seus habitantes que inflacionaram os preços dos imóveis perto de metrô, são seus habitantes que pouco reclamam do transporte público inoperante, são seus habitantes que preferem resolver um problema coletivo com uma atitude individual, adquirindo um carro novo, um segundo carro, etc.

Sim, concordo que 99% das pessoas preferem ficar sentado dentro de seus carros por 1 hora do que em pé, no ônibus, pela mesma hora. Cada um age conforme sua própria consciência, assim, aceite o caos pelo qual você contribui, ou plante uma semente utópica, ideológica e pense olhando para fora da caixa.

Ora, por que não fazer uma atitude coletiva?  Seja uma carona, rodízio entre vizinhos, pedale, seja uma caminhada maior (vá de tênis, leve o sapato numa mochila, e caminhe!), seja um dia da semana, pelo menos, ir de transporte público e não apenas alterar seu horário de trabalho por causa da placa do carro.

Você não tem que adaptar seus horários conforme o rodízio da placa do carro. Você não precisa inventar cursos (muitas vezes são úteis) para “fugir” do rodízio. Esse dia semanal é para você fazer um sacrifício pela sociedade, pelo coletivo porque simplesmente coexistimos.

Enfim, estimular a consciência é importante pra caramba, principalmente para ver a causa de um problema, e não apenas constatar a existência de um problema. Não estamos sozinhos, tenha consciência da coexistência.

Marcio Vieira

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Um carro a menos

21/09/2010

Dia Mundial Sem Carro, você fez sua parte? (Não fez, não deu. Se quiser mudar a data, não vale deixar para o final de semana!)

Eu, no caso, não tenho carro, então tudo facilita, ainda mais dentro de uma cidade que todos os meios de transporte estão completamente integrados, mas não é só isso. Este é apenas o resultado de décadas e décadas inserindo a bicicleta na sociedade.

Em Genebra, bicicletas têm seu espaço

Mas e São Paulo, dá pra mudar? Uma cidade com quase sete milhões de automóveis (e 800 novos carros emplacados por dia) é um desafio um tanto quanto complicado, mas não impossível.  A questão principal, vejo, é a mudança de atitude da população.

E tudo começa, ao meu ver, da aceitação da sociedade (postos de trabalho, comércio, etc.) que as pessoas utilizem roupas menos formais. Brasil é um país tropical, quente, e é totalmente incoerente o uso de ternos, gravatas, dentre outras roupas pesadas de origem europeia. Se na Europa já é perceptível a diminuição de tamanha formalidade, por que o Brasil insiste?

Se a sociedade começar a se acostumar com roupas mais leves, e disponibilizar boas guardarias e vestiários para ciclistas, o uso de bicicletas poderá ser uma solução para enfrentar as ruas.

Em São Paulo morre-se mais de doenças causadas por problemas cardíacos decorrentes de sedentarismo e má alimentação do que em acidentes de bicicleta. Ou seja, gastos hospitalares seriam amenizados, ainda, se o número de ciclistas aumentar, aumentará a consciência e atenção dos motoristas.

Bicicleta Fantasma, mais uma vítima.

Quando morava em São Paulo, por diversas vezes saí em horários de rush para confirmar que a bicicleta vai mais rápido. Entre outras saídas, fazia um percurso de 12 quilômetros até chegar na Av. Paulista x Av. Consolação para o encontro com o grupo Bicicletada (www.bicicletada.org). Percurso esse feito em 45-55 minutos. De carro, leva-se mais de uma hora.

Outros testes foram feitos comprovando a maior velocidade da bicicleta frente aos outros meios de transporte. Ora, por que então só utilizá-la aos finais de semana?

Ainda, por que o governo federal concedeu isenção de IPI para automóveis e motos, e não para bicicletas. Por que bicicleta dá prejuízo. Imagine toda a cadeia de produção que leva um automóvel, e ainda perpetuar a utilização de combustíveis.

Agora pense se um determinado grupo (18-40 anos) iniciar o uso de bicicletas como principal veículo, quantos milhares de automóveis deixarão de ser utilizados? Quanto diminuirá a arrecadação fiscal?

O comércio/indústria segue a forma de consumo da população: se continuar o fomento ao consumo desenfreado, desequilibrado e irracional, o estresse e problemas de saúde acompanharão tal curva de crescimento.

12 Vagas?!?

Está provado que o rodízio de veículos em São Paulo atingiu, por determinado momento, somente as clásses B e C, mas hoje, com as facilidades de financiamento e compra de automóveis, ficou ineficaz a restrição, de nada serve porque compram-se novos carros para não ficar à pé.

Por mais que tenhamos ambições na vida de conquistar e comprar mais e melhor, cabe à todos pensar de forma coletiva. Se não quiser pedalar, convoque vizinhos e conhecidos, dividam um carro, promovam a carona, mas evite usar sozinho um carro, sendo que cabem outras quatro pessoas.

Não se resolve um problema coletivo tomando uma medida individualizada.