Ignorância, o segredo para a felicidade

Antes de tudo, para deixar bem claro, este texto não chama de ignorantes as pessoas felizes, muito pelo contrário. É apenas um texto o qual tento expressar um conceito existencial sobre sentidos e sentimentos.

Imagine uma criança de uns 3 anos. Toda bonitinha, toda elétrica, curiosa, hiperativa, querendo mexer em tudo, subir em cima de tudo, etc. Ela faz isso por quê? Ela está com a consciência vazia, ainda, muito nova, está conhecendo tudo e sentindo desejos quando olha para tantas coisas, afinal, são tantas descobertas que mexem com a curiosidade. Tal criança tem seu hard disc novinho em folha, praticamente em branco, e todas as vontades de preenchimento surgem instintivamente com aquilo que se vê.

Segunda cena: imagine outra criança bonitinha de 3 anos, porém, num ambiente completamente diferente. Ela, desde seu nascimento, cresceu num quarto todo branco, fechado, e tem como diversão uma bolinha de tênis e um pandeiro. Com aqueles dois brinquedos, sem poder sair daquele quarto (mas com responsáveis ensinando a falar, e a se alimentar), passará toda sua infância e juventude com apenas uma bolinha e um pandeiro.

Qual das duas crianças têm mais chance de ser feliz? Obviamente que me responderão a primeira, pois é um crime gravíssimo que fizeram com a segunda, os direitos da criança presa foram violados, é uma tortura, ela crescerá com traumas seríssimos, etc., me darão inúmeras justificativas, e vocês me darão tais razões porque vocês sabem diferenciar as situações.

Rebato como advogado do diabo: qual das duas crianças vai chorar porque não tem tal brinquedo que viu na televisão? Qual das duas crianças vai chorar porque o amiguinho tem o novo playmobil? Qual das duas crianças vai querer um Playstation? Qual criança vai ficar chorando, berrando, no supermercado porque quer o caminhãozinho de brinquedo e os pais, intimidados, para silenciar o guri, comprarão? Enfim, qual criança vai sofrer mais?  Aonde está a tortura?

A segunda criança, trancada no quarto, que nunca viu televisão, não conhece outras crianças, não sabe da existência de outros brinquedos, de outros sons, que desconhece playstation, carrinhos e bonecas, que passará muitos anos atirando a bolinha de tênis na parede do quarto certamente não reclamará, não sofrerá, não vai pedir para os pais brinquedos novos, afinal, seu campo de visão é limitado tornando também limitados seus desejos, sua consciência e seus sonhos.

A criança aprisionada (que recebeu o mesmo carinho, colo, dos pais da criança livre, única diferença é que ela nunca saiu daquele quarto) tem mais chances de atingir a plenitude da felicidade pelo simples fato dos seus desejos serem pequenos, limitados, e crescerá sem influências do mundo externo. Você acha que ela sofre porque você sabe o que existe do lado de fora de tal quarto, você tem o conhecimento das diferenças, das culturas, idiomas, objetos, enfim, você toma consciência da existência de um mundo amplo, algo que tal criança desconhece, mas que, pelo fato de desconhecer, ela não sente falta.

Saindo do exemplo das duas criancinhas, percebo que a ignorância é um dos fatores para a atingir a felicidade plena. É comum passar na tevê reportagens onde tem lá uma família toda humilde, no meio da roça, plantando o que come, conhecendo poucos vizinhos, mas todos, sempre com um sorriso grande no rosto, simpáticos, que não pensam em mudar de vida. Vocês, das grandes cidades, conectados com o mundo, acham aquilo um absurdo!  Como pode aquele cara desdentado, com roupas esfarrapadas, que nunca saiu daquele fim de mundo, ser todo sorridente?

Ele sabe da existência de um mundo, das grandes cidades, etc., mas o medo, a insegurança, e o risco que se corre em querer “melhorar” de vida faz ele ficar na roça, limitando seus desejos que, por consequência, limitarão seus sofrimentos, e assim terão mais condições de atingir a plenitude da tal sonhada felicidade. O que é melhorar de vida, para ele, com certeza é diferente para nós.

Ampliando este pensamento, todo o histórico da humanidade foi feito com a construção de muros, fortalezas e fronteiras sociais para que suas populações não sofram com as influências externas, e assim (em alusão a criança chorando no shopping) reclamarão menos, se indignarão menos, será mais fácil controlar esse rebanho domesticado. Mas a pergunta é, será que eles são mais felizes?

Tenho muita curiosidade em conhecer dois países: Coreia do Norte e Butão. Países que se fecharam para as influências externas com o intuito de administrar seu povo. Coreia do Norte, massacrada pelo mundo, vive uma regime totalitário, sua população vive o comunismo forçado, não possui liberdade de expressão, mas não há diferenças sociais, todos usam o mesmo tipo de roupa, não conseguem sair para outros países, mas, por outro lado, não sofrem com desemprego, todos moram em apartamentos populares e, por o país ter investido muito no setor militar e na censura, domesticam a população para sentir orgulho do seu país e assim não rebelar a população contra o sistema. Será que os norte coreanos são felizes?

Já o Butão é mais festejado, afinal é o país com maior índice de felicidade. Ironicamente é o país com o visto de turista mais caro do mundo, uma ferramenta para dificultar receber influências do mundo exterior. Se não tem uma força militar repressiva, tem em princípios budistas outra forma para controlar os anseios da sua população, a partir da limitação dos desejos, e assim administram, de certa forma pacífica, mas não menos autoritária, a raiz existencial do ser humano, que é a busca pela felicidade.

Aprecio muito o Budismo. Toda sua essência gira em torno da razão pela existência e na busca de sentimentos e sensações livres de influência, assim não haverá sofrimento. Para atingir o nirvana, uma das quatro nobres verdades do Budismo é a Origem do Sofrimento, que se dá quando os desejos e as vontades em sentir prazer direcionam as atitudes do ser humano.

Ora, todos os exemplos citados, as duas criancinhas, a família na roça, os modelos políticos históricos, a Coreia do Norte e Butão têm exatamente no Desejo o ponto que se interligam, e assim foram desenvolvidas ações, sejam determinadas por um Estado ou seja de forma voluntária, com o intuito de limitar o conhecimento, fomentando a ignorância com o propósito de atingir a felicidade.

É errado prender uma criança no quarto? É, óbvio que é.  Mas você tem essa resposta porque você conhece o lado de fora. A criança, assim como os norte coreanos, são ignorantes, desconhecem o ambiente externo, têm suas consciências limitadas e, por serem domesticadas, têm mais chance de atingir a plenitude de uma satisfação, têm mais chances de serem felizes.

A família na roça optou em não arriscar sair da comodidade, e assim passam dificuldades (que julgamos ser dificuldades, talvez eles não vejam com esses olhos) menores, tem desejos menores, só querem se alimentar, cuidar da vaquinha, do bode, da pequena horta e viver assim. E quando chega um monte de extraterrestre com câmeras, cabos, carro, um monte de parafernália para entrevistar tal família, eles acham aquilo tudo engraçado, cômico, pois o diferente não é a família humilde, mas sim os repórteres e o mundo externo. Eles são ignorantes, mas são felizes. O que é mais importante?

Acrescento outro exemplo, agora do nosso cotidiano:  pedir pizza. Sabemos da existência de dezenas de sabores, mas por que 90% da população paulista repete os quatro principais sabores? Porque são gostosos, sim, está é uma resposta. Mas, além disso, porque têm medo do desconfortável, porque tem insegurança do diferente, porque limitam seus desejos para atingir uma satisfação plena, ou seja, porque ser ignorante com o cardápio na mão é menos arriscado, logo, gera menos sofrimento.

É fato que a criança livre, que deseja, sofre mais, principalmente porque desejos, na maioria das vezes, são só desejos. A criança deseja ser o Homem Aranha, escalar paredes, voar como Superman, desejam o Hot Wheels e a Barbie. Bens, dependendo do poder da família, poderão ser adquiridos, mas atirar teias e pular para o prédio vizinho serão somente desejos, e desejos causam sofrimento.

A frustração, característica do sofrimento, surge a partir da comparação com algo e a partir da tomada de consciência que tal coisa existe, mas que naquele momento, não pode ser ou não pode ter. Assim preenchemos nosso hard disc com inúmeras informações, experiências, culturas, conhecimentos, etc., que, se o perfil do indivíduo for de se alimentar por mais conhecimento, por mais informações, por mais diferenças, a tendência é tal pessoa ser infeliz porque nunca atingirá a plenitude da satisfação.

As ideias expostas neste post poderia virar um livro, quem sabe virará, mas para não me alongar neste momento, acredito que a ignorância, ou melhor, a limitação de conhecimento, é uma forma de atingir 100% de alguma coisa. Se focar algo bom, mesmo que limitado, poderá ser 100% de felicidade em passar a vida com uma bolinha de tênis, poderá ser vivendo num regime totalitário, poderá ser vivendo dentro de muros de um mosteiro, um convento, ou qualquer outra coisa que diminua seu campo de visão e conhecimento.

É possível ser plenamente feliz tendo conhecimento do que acontece no mundo externo? Sinceramente, tenho fé que sim, mas, sendo racional, acho que não dá. Porém, neste mesmo texto, trouxe “soluções” para ser feliz: criar limites, e se esforçar, trabalhar dentro deles para que, naquele espaço, seja de qual tamanho for (mas que seja limitado), você possa chegar o mais perto da plenitude, dos 100%, do preenchimento de algo.

Por que, se colocar no Google Images a palavra Felicidade aparecerá sempre a imagem de alguém de braços para o ar, ou pulando, movimentos que transmitem a sensação de liberdade? Por que isso é realizável, oras!  Porque uma parte da felicidade é não desejar, é limitar sonhos, ou seja, simplificar. E é isso que é vendido desde que a humanidade existe! Quando o Google Images colocar a foto de uma mansão com um Porsche na garagem quando eu escrever a palavra felicidade, aí terá algo de errado, pois vai instigar a frustração e sofrimento.

Porém, outro fator que destrói tudo que escrevi agora: será que, tendo a consciência de que estou limitando meus desejos com o objetivo de atingir a plenitude da felicidade, esta não é uma forma de aceitar a infelicidade? É possível ser feliz tendo a consciência que precisa ser ignorante?

Incoerente, tudo isso. Assim como a vida que também é incoerente, e quer saber?  Que bom que ela é assim!

 

Marcio Vieira

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4 Responses to Ignorância, o segredo para a felicidade

  1. Rafa disse:

    Ignorance is bliss… but can you live with it? 🙂

  2. Janaina Bueno disse:

    Parabéns Marcito. Uma ótima reflexão.

  3. Damn Miranda disse:

    Muito bom seu texto. Penso semelhante ” a ignorância é o segredo da felicidade”

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