Saudades de mim

Saudades, sentimento só transmitido em português, é algo bom, ruim, gostoso, melancólico, faz bem e faz mal. E tudo isso ao mesmo tempo, conforme a lembrança, o contexto e o momento.

Com seis meses de vida na Suíça, sinto saudades de muitas pessoas, principalmente minha avó, pela ligação que tivemos nos últimos anos, e meus sobrinhos, dois que pouco conheci, mais o João, todos fontes inesgotáveis de pureza, energia e transparência.

Minhas saudades vão além disso, sinto falta dos amigos, sinto falta da minha bicicleta, do Corinthians no Pacaembu, de comer temaki na madrugada, sinto falta da minha mãe, meu pai, meus irmãos. Sinto falta de vento da estrada no rosto, dirigir cantando, batucando no volante, sem se preocupar com ninguém me julgando, mas, ultimamente, o que mais sinto saudades é de mim mesmo.

Estranho pensar isso, como sentir saudades de mim mesmo? Mas é isso, um sentimento nostálgico de um passado recente, da possibilidade de se permitir, sem medo, sem insegurança, de estar com quem te entende e que sabe como você é sem precisar se apresentar.

Este ano tem sido fantástico, conheci tanta gente bacana, entrei em tantos lugares diferentes, aprendi, vivenciei coisas importantes, (ou que dizem que é importante, não julguei ainda) e nessa mudança radical, acredito que os sentimentos mais internos se fortalecem, crescem, querendo avisar todo o corpo: “não esquece de quem você é!”, e numa subconsciente defesa, as saudades e lembranças afloram.

Quando se viaja, saímos da normalidade e da segurança. Permitimos novos sentimentos, novas sensações, permitimos novos caminhos, utilizamos novas ligações neurológicas e respiramos diferente. Viajar é permitir o novo, e o confronto com o passado é inevitável. Assim, tenho saudades de mim, mas nada absurdo, muito pelo contrário, tenho saudades boas, nostálgicas, que sei que esta viagem me mudará profundamente, aliás, já está me mudando para muito melhor.

Meu pai sempre me explicou que o retrovisor do carro deve ser pequeno porque ele serve apenas de referência, dando-se atenção para o vidro, para frente. Levei isso para a vida: passado serve de referência, deve ser pequeno se comparado ao presente, afinal, sabemos que ele estará lá para todo o sempre, por isso o meu olhar vai apenas até aonde consigo enxergar. Além da curva, eu não vejo, então não fantasiarei algo.   “Momento presente é inevitável”, dizem meus saudosos amigos respiradores.

As saudades aparecem, também, porque o sacrifício é visível. Morar mal, comer mal, ter pouco tempo, tudo limitado, lógico que ajuda a sentir saudades, afinal, nunca vi nenhum rico ter saudades de quando era pobre. Isso mostra o quanto eu sou rico, ótima família e incríveis amigos, e sorte maior em ter a consciência de saber o quanto estou aumentando minha riqueza pois minha família e amigos que antes tinham, vão continuar sendo, e as pessoas que aos poucos vou conhecendo nessas viagens, entrarão na minha riqueza.

Mas eu me permito, depois disso tudo, ter algumas horas do dia para sentir saudades de mim, de alguém que nunca mais vai voltar a ser o que era, em São Paulo, Genebra ou qualquer lugar, pois todo dia é dia de mudanças e evoluções. É bom, sem exageros, mergulhar para dentro.

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