O verdadeiro homem-bomba

Há cerca de um mês tentei entrar na ONU, aqui de Genebra, para assistir Julian Assange apresentar documentos comprometedores os quais os Estados Unidos violoram Direitos Humanos nas invasões ao Iraque e Afeganistão.

Muita gente na porta, burocracias, então fecharam apenas para jornalistas credenciados e um monte de diplomatas engravatados, tensos, afinal, não há raio-x para parar o fundador do Wikileaks, o verdadeiro homem-bomba que mudou definitivamente as relações diplomáticas entre Estados.

Algumas semanas depois, e nova chuva de documentos. Esta, uma chuva ácida, corrosiva, capaz de deixar nú os que não sabiam nem abaixar a cabeça: os líderes que sobem em palanques sorrindo, mas suas canetadas provaram o contrário.

Nos próximos meses, dezenas de livros acerca da nova diplomacia serão publicados, afinal, um novo marco zero foi estabelecido. A figura da sala fechada, a mesa redonda, e planos ultrassecretos foram dilacerados. Se antes as paredes tinham ouvidos, com as emblemáticas e até folclóricas figuras de corruptos e espiões, agora o Wikileaks implodiu tudo usando a maior arma existente: a palavra, associada à velocidade da internet.

Não se pode confiar em ninguém mais para guardar segredos e mensagens ‘top secret’, afinal, tudo está escancarado, e esse é o ponto de partida da primeira linha do novo manual da diplomacia a partir de agora: tudo é para todos, livre e aberto.

Mas, por séculos, a diplomacia insistiu em ações obscuras, então não precisaria de muito tempo para perceber que, quando se esconde, é porque estão fazendo algo de errado. Assim, bastava deixar as cobras soltas porque o instinto ganancioso causaria, cedo ou tarde, esse nó coletivo, um emaranhado de corrupção e sujeira.

Governantes, Chefes de Estado, Diplomatas, esta é a Era da Transparência, onde deve-se entender que vocês são apenas representantes, não donos. Não se deve procurar motivos para encobrir planos mirabolantes sobre a economia global, e nem venham com a desculpa de proteção ao terrorismo, afinal, o terror é uma dissidência da espionagem, criada por vocês, caros diplomatas.
Julian Assange, fundador do Wikileaks

Para os governos acostumados à invasão de computadores e dados pessoais e bancários de milhões de pessoas, o sabor do próprio veneno é um tanto quanto indigesto, onde a ganância, ao longo de décadas, imperou na formação e atuação dos líderes da política global. O preço do descrédito, da repulsa, será contabilizado agora, não antes das últimas tentativas de repremir a informação, já que multinacionais historicamente beneficiadas por governos de todo mundo, literalmente com rabo preso, tentarão bloquear o acesso às informações.

Assange colocou em xeque a figura do Estado e sua real importância. A confidencialidade estimula o belicismo, a apologia a guerra, consequentemente, a violência generalizada, impedindo concentrar os investimentos no desenvolvimento de uma civilização consciente, justa, moderna.

Já disse algumas vezes que “a maior prova da decadência do ser humano é o crescimento do mercado dos advogados, já que as pessoas não conseguem mais conversar, se entenderem de forma pacífica, e precisam buscar ‘meios legais’ para defesa de (supostos) direitos”, e o principal responsável por esse buraco é o Estado, que semeia a discórdia e corrupção.

A criatura dominou o criador, e Estados perderam o controle do barco chamado Terra, que está à deriva, e isso se deve à existência de almirantes que brigaram por séculos para por suas mãos no timão, utilizando os meios mais sujos e sanguinários existentes.

Wikileaks escancarou para bilhões de pessoas o quão podre, atrasada e burra é a Diplomacia Internacional, que ao invés de lutar por questões socioambientais relevantes, contabilizam prejuízos de trilhões por causa da “Indústria do Medo”, criada por eles mesmos.

Ao invés de tentar consertar os destroços do homem-bomba Julian Assange, tais líderes da geopolítica mundial deveriam compreender a derrota e começar do zero, com pessoas novas que não tem medo da transparência nas relações. Muito pelo contrário, deve-se usar a transparência como ferramenta para unir e desenvolver a sociedade.

E, Estados, não sejam infantis ao ponto de limitar os passos do Wikileaks. Outros seguidores, espalhados pelo mundo, vão continuar tirando máscaras dos vossos rostos. Não tenham medo, afinal, quem não deve, não teme. Não é?

Marcio Vieira

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2 Responses to O verdadeiro homem-bomba

  1. Mário SF Alves disse:

    A propósito do seu depoimento sobre o motivo dos seus avós terem vindo para o Brasil, fugindo de uma ditadura, e ato contínuo, seu repensar o processo de desenvolvimento do País, fica a dúvida: sendo você, um ex-digno representante da classe média paulista, o que teria a dizer sobre o futuro da “espécie” no planeta? Ou, melhor, como é que você imagina o citado futuro se se consolidadar o atual modelo de capitalismo?
    Em tempo: 1) Refiro-me a humanidade, senão toda ao menos a judaico-cristã-ocidental. 2)As aspas em espécie são por conta do conceito mesmo, uma vez que a engenharia genética tende a suprimí-lo.

    • Marcio Vieira disse:

      Mário, primeiramente obrigado por comentar no blog.
      Sobre a minha classe, eu sou da classe média e sempre fui, a diferença é que parei de atacar pedras sem pensar nos programas assistenciais, algo que a maioria da classe média ainda faz, pensando que é tal classe que ‘sustenta o país’, o que não é verdade.
      Sobre o futuro, muito ampla sua pergunta, mas vou tentar responder: há inúmeros exemplos os quais foram necessárias tragédias, crises e guerras para mudar a postura, o pensar e as atitudes da humanidade. As pessoas, infelizmente, pouco param para pensar de forma voluntária sobre os reflexos daquilo que consomem, e o consumo desenfreado é perigoso, exemplo disso foi a crise imobiliária americana, que inflacionou imóveis pela facilidade de financiamento, onde negociavam expectativa (não havia dinheiro em espécie circulando), com especulação, então a economia toda ruiu quando o primeiro banco quebrou.
      Consumo acelerado gera inflação em virtude da alta demanda. Penso que o para não correr o risco americano, deve-se iniciar os investimentos de baixo, principalmente com o microcrédito às famílias de baixíssima renda, potencializando as classes E e D. Não se deve dar as mesmas facilidades para classes C, B, muito menos a A.
      Com a expansão da consciência coletiva em cada indivíduo, que ocorre primeiro aos mais abastados A e B (por facilidade aos estudos, acesso às informações, etc), a tendência é o capitalismo dar lugar para outro sistema, visto que a imagem e reputação, para os ricos, é imprescindível para uma convivência na sociedade, e muitos consumirão produtos com certificações ambientais e sociais porque querem ser “sustentáveis”, e por isso será importante ter fluxo de consumo às classes mais baixas, para não desequilibrar toda cadeia industrial com a desaceleração do consumo das classes A e B.
      E com relação à geopolítica e etnológica, penso que as religiões perderão espaço, pois os jovens hoje fazem mais questionamentos, e serão, infelizmente, os modelos de consumo (cantores, atletas, estrelas) que ditarão não só o modo de agir/vestir, mas o mode de crer também. Cada dia que passa há mais misturas raciais, cidades mais internacionalizadas e multiculturais, onde haverá, daqui no máximo duas décadas, penso, questionamentos e protestos mais eficazes acerca de patriotismos, fronteiras e bandeiras.
      Há muito ainda o que se falar sobre isso, vou te mandar meu e-mail para, quando quiser, conversar sobre tais temas.
      Um abraço.

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