Fair Play, não no Brasil

Na 33a. rodada do Campeonato Brasileiro, o pênalti marcado contra o Cruzeiro na derrota frente ao São Paulo foi um dos mais grosseiros erros da arbitragem brasileira nos últimos anos.

Errar, dependendo da dificuldade do lance, é aceitável, mas o que me deixou mais indignado foi, nas entrevistas após o jogo, tanto o atacante Ricardo Oliveira (que sofreu suposta falta) como o goleiro Rogério Ceni, autor do gol, disseram que o lance ocorreu fora da área.

“Vendo de longe, eu achei que foi falta, mas fora da área”, disse Rogério e, “não foi pênalti”, admitiu Ricardo Oliveira aos microfones. Oras, se o lance escancarou tanto um erro, maior erro ainda foi o rompimento ao que chamam dentro das quatro linhas de Fair Play.

Em sua simples tradução, Jogo Justo (ou Limpo) não se limita apenas às jogadas violentas e carrinhos criminosos, ou combate ao racismo e trabalho infantil, campanhas essas levadas por jogadores de futebol de boa parte do mundo. O jogo limpo é, também, ser ético para incentivar toda uma sociedade a ser ética.

E ética foi algo que não existiu em nenhum jogador do São Paulo em relação ao lance, nem mesmo seu maior ídolo, Rogério Ceni. Decepcionante aos amantes do futebol que um atleta raro como ele, que articula bem as palavras e que demonstra liderança, tenha pactuado com o erro da arbitragem, sabendo que o lance não ocorreu dentro da área.

Não é utópico, não é no mundo fantasioso que atletas que seriam beneficiados pela marcação avisam a arbitragem sobre o erro, renunciando a possibilidade do gol, e da vitória.

Na Inglaterra o Flair Play é levado muito à sério. Há inúmeros casos de jogadores que discordaram de alguma marcação ao próprio favor. E quando ocorre o contrário, toda a sociedade, inclusive torcedores do próprio time, criticam o “atleta-ator”, como aconteceu com Eduardo da Silva, ex-Arsenal, que foi à Corte da FIFA por causa de simular um pênalti.

Jogadores “cai-cai” perdem cada vez mais espaço no futebol europeu, pois além de não demonstrar o Jogo Limpo, acabam manchando a imagem do próprio clube que, inevitavelmente, tem seu nome associado ao jogador-ator.

Por outro lado, quando um jogador pára um lance propositalmente ou discorda da marcação, é ovacionado por ambas as torcidas. E são jogadores assim que faltam dentro do futebol brasileiro, comprovado mais uma vez na última quarta-feira, e perpetuando a “Lei de Gerson”.

São por essas e por outras que grandes clubes europeus se preocupam com a índole dos jogadores brasileiros que lhes interessam, onde a teoria maquiavélica dos fins justificarem os meios não é bem quista no velho continente.

Rogério Ceni, no alto de sua suposta sabedoria, poderia ter garantido sua estátua no futebol brasileiro ao recusar o pênalti ou chutar a cobrança na lateral. Faltam Martins Luther Kings de chuteiras para estimularem uma justa consciência coletiva dentro do campo e também nas ruas.

E tais atletas esquecem nessas horas que eles são as referências para milhões de jovens num Brasil com raras oportunidades. Rogério e Ricardo Oliveira, infelizmente, mostraram que precisa ser malandro pra vencer.

E não culpo só o São Paulo ou Rogério. Já aconteceram tantos outros lances semelhantes no Brasil e nenhum deles fez diferente, ninguém foi justo, independentemente do escudo que defendem.

A FIFA prega o Flair Play porque sabe que o futebol está completamente inserido na sociedade, fazendo do esporte uma das principais ferramentas no desenvolvimento de valores sociais.

Uma pena que as cinco estrelas do Brasil não condizem com a posição do país dentro da ética e moral no futebol. Nesses quesitos o Brasil não está nem na terceira divisão, está na várzea.

Marcio Vieira

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