Verde não é transparente

"Não sejamos neutros", Elie Wiesel

Semana passada tive a oportunidade de assistir uma palestra de Elie Wiesel, Nobel da Paz em 1986. A palestra na Universidade de Genebra contava também com José Manuel Durão Barroso, ex-presidente de Portugal, e ambos falaram sobre Direitos Humanos.

O ponto que mais me chamou atenção foi a crítica que o escritor romeno fez à tradicional neutralidade da Suíça com relação às guerras, invasões, e destruições que marcaram toda Europa no último século.

Ele disse que, quando o objetivo é a paz e o desenvolvimento por uma igualdade social, não se deve ficar calado ao ver mortes, ao ver crimes, ao ver desrespeito às leis e desrespeito ao próprio ser humano.

Logo após o evento, criei um paralelo com a decisão do Partido Verde no segundo turno das eleições presidenciais, que divulgou sua independência em relação aos presidenciáveis.

20 milhões querem mudança

Marina Silva conquistou quase vinte milhões de eleitores, cerca de 1/5 do total. É muita gente que acredita numa terceira via diante dessa incoerente polarização partidária que vive o Brasil nos últimos anos. É muita gente que acredita que o Brasil pode avançar mais com pessoas engajadas e atualizadas. É muita gente que está de saco cheio de tantos escândalos e corrupções.

A impunidade desestimula eleitores, e a obrigatoriedade do voto dá mais forças ao continuísmo da sujeira que se formou em Planaltos, Palácios e Poderes.

Mensalões do PT e DEM, compra de votos para reeleição, dinheiro na cueca, propinas em privatizações, hidrelétrica mal projetada, pedágios, empresa do filho do presidente, absolvição de Renan Calheiros, os 40 petistas, Sudam/Sudene, etc etc etc…

Foram dezesseis anos de incontáveis escândalos que resultaram em nada: Genuíno, Palocci, Eduardo Jorge, Zé Dirceu, Renan Calheiros, e outras dezenas de políticos continuam saboreando suas pizzas, enquanto a população, apática, pouco reclama.

E são em momentos de crise que realmente transparece a índole de cada indivíduo. A debandada de alguns ex-petistas como Marina Silva e Eloísa Helena mostrou que caráter não se compra. Mercadante, se mantivesse sua posição de sair do PT quando estourou a crise no partido, estaria nesse seleto rol de honestos, mas sua covardia e seus escusos interesses mostraram que também faz parte da velha corja de políticos.

Dois ciclos de oito anos repletos de corrupção se passaram, e cá estamos, faltando poucas semanas para decidir qual fantoche será empossado. Se a luz verde diante de tanta lama não foi suficiente para este ano, sua decisão de independência foi aquém das expectativas.

Calar-se  é, de certa forma, abaixar a cabeça para a gravidade de ter dois partidos com comprovadas administrações corruptas que tomarão conta de centenas de bilhões de reais nos próximos anos.  E nisso, a lúcida mente de Plínio de Arruda Sampaio foi mais convicta que o Partido Verde ao dizer que vai anular o voto. É a forma que ele encontrou de mostrar toda sua insatisfação e raiva com o atual sistema político brasileiro.

Ao invés de pregar uma apática independência, Marina Silva poderia ter sido mais incisiva e mais agressiva. Ultrapassam vinte milhões de votos (PV e PSOL somados) àqueles que querem uma mudança significativa.

A neutralidade do PV foi semelhante à secular neutralidade suíça que Elie Wiesel criticou. Não se pode ficar quieto, independente, dentro de um mundo de injustiças e corrupções. É preciso protestar de forma contundente e ser mais agressivo ao expressar sua insatisfação.

Há uma enorme diferença entre dizer “não” e ficar calado. Verdes, se realmente desejam ficar maduros dentro da política nacional, não sejam incolores ou transparentes.

Marcio Vieira

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3 Responses to Verde não é transparente

  1. diogojfaraujo disse:

    O problema é que o PV é muito segmentado, com gente muito a direita, o que eu considero paradoxal para um partido que se denomina verde, e mais os que saíram do PT, seja pela sujeira ou por companherismo à Marina… Tem mais 4 anos para a próxmia eleição, e seria ótimo que não fosse a zorra plebicitária aqtual, mas sincramente não vejo o PV como uma força crescente, capas de lideram uma terceira via na política nacional… Talvez o PSB mais o PV poderiam, tem bons políticos nestes quadros, e veremos o quando cada partido desses vai vender-se por cargos… Ou melhor aínda, pode ser que eu eteja errado, e seria bom que acontecesse… Abraços brother!

    • Marcio Vieira disse:

      Pois é, tenho também grande dúvida que tal neutralidade do PV é para tentar garimpar algum cargo político, seja com PT ou PSBD, o que seria decepcionante.
      O PV tem um trunfo que é associar seu nome com questões ambientais num momento que a palavra da vez é “sustentabilidade”. Daqui 2 anos tem eleições municipais, e o PV é forte no Rio. Seria interessante se Marina tentasse a prefeitura de lá. É um bom teste para ver como realmente funciona esse paradoxal todo do partido.
      Valeu brother!

  2. thiago cagna disse:

    Não tinha pensado desta forma…Boa!

    Abcos

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